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Xerloque estava inquieto. A sociedade soçobrava perante loucuras muitas, e adensava-se o mistério do açambarcamento de papel higiénico.

Maidiar Uatsom, médico amigo de Polmes, aventou tratar-se de xinfrineura colectiva que provocaria diarreias cerebrais e não apenas, mas Xerloque descartou a hipótese, Repare, Maidiar, que os enjoos que os seus xinfrineuróticos provocam não se devem a maus cheiros

Com tal elementar raciocínio, Uatsom remeteu-se ao silêncio e Xerloque continuou a pensar e a investigar, calcorreando andrajoso os becos de surrealismo que caracterizavam agora a cidade. E foi assim que descobriu o porquê de tal corrida ao ouro celulósico: alguém havia difundido que, na falta de máscaras, se usasse papel higiénico. Só pode ser obra do Morriarte, o tenebroso CEO da Renovada, pensou Polmes, ralado.

E percebeu que as reservas de tudo o resto perigavam, pois a Renovada, empresa e marca de papel jajeco, perante tanta procura e sob orientação do sinistro mestre da contra-cultura, preparava já uma OPA higiénica a todos os espaços e negócios sub-aproveitados que pudesse, desde tapas a televisões descofinadas. 

Com o violino às costas e cheio de energia branca, Xerloque gritou por Maidiar, pois era urgente ir tocar para outra freguesia, nomeadamente para fugir da Celgbt+ e acantonar perto da sede dos produtores de algodão liofilizado ou desnatado ou lá o que era, Venha rápido, Maidiar, você é que sabe o nome técnico dessas coisas!

E isto porque, para travar Morriarte e salvar o conforto de muitos incautos, urgia contra-atacar com uma alternativa eficaz: máscaras caseiras de algodão.

E assim explicou Polmes, ralado, a uma audiência de incrédulos embaladores de algodão desidrogenado ou desidratado, Hidrófilo, disse Uatsom sem ruído, isso, Maidiar! e Xerloque continuou, Os maços de algodão acumulam-se, vós tendes perdas e, acima de tudo, urge travar este ataque à retaguarda! Mas como?, interrogaram os produtores,  ansiosos e interessados em qualquer proposta de salvação do lucro do trimestre. Apelemos ao uso do algodão! Mais barato, ocupa menos volume e terá a mesma eficácia que as máscaras de papel higiénico! E os produtores aplaudiram, e Uatsom, eufónico, gritou, Já percebi! Colocando uma bolinha em cada narina e uma bolinha em cada ouvido, protegem as mucosas e poupam material. Genial! Xerloque sorriu e respondeu, É quase isso, Maidiar, é quase isso! Mas para fazer frente ao Morriarte há que ser artista e vender muito! Além disso, é essencial proteger a boca. Assim, bolinhas no nariz e ouvidos e o resto do maço na boca. E todos os vendedores compraram a ideia, e a guerra à contra-cultura começou.

Apenas Uatsom não estava inteiramente satisfeito. O seu senso de justiça dizia-lhe que o algodão na boca não seria seguro e que trocar uma inutilidade por outra não estaria correcto, e isso mesmo comentou com Xerloque ao chegarem a casa. Mas, Maidiar, não se trata de substituir inutilidade por inutilidade, antes de vender excelentes filtros! Lembre-se que o algodão não engana: se os tolos o usarem, pelo menos nem entra palermice nem sai disparate.

 

Adenda importante: este postal não tentou, não pretende e recusa qualquer atribuição de responsabilidades, por esta anómala procura de papel higiénico, a outros que não os irresponsáveis que divulgam patranhas e os receosos crédulos sem espírito cívico que as acatam.

[Cuidemos de todos cuidando de nós: Etiqueta respiratória. Higiene. Distância física. Calma. Senso. Civismo.]
[há dias de muita inspiração. outros que não. nada como espreitar também os postais anteriores]

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Onde ideias-desabafos podem nascer e morrer. Ou apenas ganhar bolor.


Obrigada por estar aqui.



9 comentários

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De cheia a 14.03.2020 às 22:11

Nestes tempos de limpeza das prateleiras dos supermercados, vende-se tudo e mais alguma coisa.
Bom domingo
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De Sarin a 14.03.2020 às 22:51

Apenas não se vende bom senso, e é uma pena... :(
Bom fim-de-semana :)
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De José da Xã a 15.03.2020 às 19:14

Fantástico texto.
Adorei... Como sempre aliás.
A parvoíce que ataca os portugueses é sintomática da imbecilidade lusa.
Ainda não percebi esta nova fobia... higiénica!
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De Sarin a 15.03.2020 às 19:21

Borrados de medo andam, certamente, mas ser-lhes-ia mais profícuo lavarem o rabinho...


Obrigada, José :)
Entretanto, estou a recuperar tempo perdido: chego a um blogue, abanco e vou lendo às arrecuas até chegar ao último que havia lido. Se um destes dias descobrires trinta alertas de comentários meus, já sabes ;)
Beijocas, cuida-te e cuida dos teus :**
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De /i. a 16.03.2020 às 10:12


Bom texto. Mesmo assim acho que não levaram o papel higiénico suficiente para limpar a diarreia mental. 
Havemos de começar a ver nas varandas estes seres  enrolados em papel higiénico como múmias. 
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De Sarin a 16.03.2020 às 10:36

Obrigada, /i.
Aqui entre nós, este é mesmo um texto de casa-de-banho :))))
Sim, a diarreia tem sido tanta que o papel lhes não chegará... aguinha! E não de malvas ;)
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De /i. a 16.03.2020 às 19:58



Só assim a Renova tem esvaziado o armazém com rolos monos. Estão a agradecer as pessoas por se esquecerem do bidé. E em muitas wc é um objecto em extinção.
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De Sarin a 16.03.2020 às 20:18

Uma pena os rolos serem de papel... os arqueólogos ficariam ainda mais intrigados do que nós 

[a palavra a quem a quer]




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e uma viagem diferente


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