Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]


Lao Tse nas redes sociais

por Sarin, em 10.08.19

"Mantém os teus amigos perto e os teus inimigos mais perto ainda"

 

Lao Tse subscreveria os perfis falsos dos seus inimigos, se fossem estes a dirigirem-se-lhe com manifestações de cordialidade e simpatia.

 

Quero dizer, não sou Lao Tse mas desconfio que assim agiria.

 

 

E estou cansada deste assunto, oh pobreza franciscana... tanto tema para abordar, tão pouco tempo para o fazer... recuso dedicar mais tempo a isto.

Autoria e outros dados (tags, etc)

20190808_083711000_iOS.png

Maria Rocha Soares,

Tenho de lhe escrever uma carta aberta pois sei que apaga todos os comentários cujo conteúdo lhe desagrada, e o que tenho para lhe comunicar não é agradável. 

Não o é para si e, principalmente, não o é para mim. Mas há tarefas que, não sendo agradáveis, devem ainda assim ser desempenhadas, e por isso eis-me a dedicar-lhe mais tempo do que aquele de que disponho.

Não me lembro de me haver cruzado consigo até há uns tempos, mais exactamente o dia 4 de Novembro de 2018, quando a senhora aterrou no meu blogue com ímpetos vindicativos baseados num seu erro de leitura, como lhe expliquei. Mas, não satisfeita, continuou e, usando um tom passivo-agressivo, acrescentou umas inferências prenhes de considerações morais e desconsiderações por si mesma. Voltei a apontar-lhe as falhas de interpretação. A senhora ou percebeu o seu erro ou não apreciou as respostas, provavelmente ambas as causas, e, sem pedir desculpa, sem se retractar, sem um mínimo indício de arrependimento ou contrição, apagou os seus comentários, supondo talvez ser essa a forma como as pessoas inteligentes e civilizadas se comportam. Porque não é e eu não aprecio ter comentários respondidos a comentários apagados, republiquei os seus, como poderá constatar - os alertas por email servem, também, para reposição dos factos.

Perante a jactância da entrada e a cobardia da saída, desejei saber quem era tal visitante, e fui até ao seu blogue. Encontrei alguns postais interessantes, entre lamúrias aqui acolá e ainda mais além vislumbrei postais sobre poesia, rendas ou outras artes e artesanatos, vários auto-elogios e apelos à humildade, à honestidade, à tolerância... Lastimavelmente, a sua atitude anterior contrariava os belos sentimentos a que apelava, e assim lho disse. Pela moderação que fez aos meus dois comentários, um que supus perdido e outro que percebi apagado, fiquei a saber que não gosta de publicar o que lhe contraria a pose. É um direito, inquestionável. Tal como é um direito meu dizer-lhe que a hipocrisia é uma qualidade que a senhora demonstrou possuir - e não tem esta constatação qualquer juízo de valor.

Supondo ter o caso ficado por aí, ignorei o seu blogue e ignorei-lhe ocasionais comentários que encontrei noutros blogues.

O tempo passou até que, em finais de Abril, encontrei uma ligação de um blogue desconhecido para este meu blogue. 

comorespirar.jpg

Com a curiosidade natural de quem escreve e se vê referenciado, ainda para mais tendo estado ausente por alguns meses, segui a ligação. O postal estava desaparecido, o blogue era privado e a bloguista era Maria Rocha Soares. Porque há muitas marias nos Blogs do Sapo, fui confirmar se seria aquela a quem ora me dirijo... Era.

Não liguei, afinal já lhe havia transmitido o que pretendia e a senhora não havia voltado a ser rude - nem nada mais pois não mais se me dirigiu, e da minha parte não houve qualquer interesse em procurá-la. Portanto, o que tivesse sido não teria sido digno de nota.

Provavalmente, engano meu.

Ontem deparei-me com um postal no blogue Insossego,  que desconhecia, e fui ler.

20190808_201644000_iOS.png

A autora Maria Rocha Soares, de novo aquela a quem me dirijo, tecia considerações ofensivas e falsas sobre um assunto que não se passou consigo, no qual não participou e que foi esclarecido entre as partes - a bloguista que aqui assina Gaffe e a bloguista que aqui assina Vera Gomes. Duas adultas que, como não poderia deixar de ser entre pessoas inteligentes e dialogantes, se explicam e pedem desculpa quando percebem que estão erradas.

Ao contrário do que fez e faz Maria Rocha Soares: o Insossego e o seu perfil estão agora privados, tal como ficou o comorespirar e tal como desapareceu o seu outro blogue sobre rendas cujo nome naturalmente não fixei nem guardei registo (os que havia foram apagados por si). Mas ontem este seu blogue não estava privado, e hoje esteve intermitentemente disponível - o tempo suficiente para eu poder retirar as ligações que seguem.

https://insossego.blogs.sapo.pt/honesidade-virtual-135521

https://insossego.blogs.sapo.pt/honesidade-virtual-135521?thread=80737#t80737 

 

A senhora teceu e publicou considerações sobre o carácter de uma bloguista e sobre o carácter dos bloguistas que com ela interagem. Quando a bloguista Vera Gomes, que havia sido a parte mal compreendida e que nem se havia apercebido do assunto, lhe respondeu que nenhuma intenção ferina a havia movido, Maria Rocha Soares insistiu e debalde tentou que Vera anuísse que sim, que não havia sido um mero mal-entendido mas antes conspicuidade, insídia e perfídia de uma bloguista manipuladora cujos admiradores estão sempre dispostos a defendê-la.

Não sou admiradora da Gaffe. Sou admiradora e amiga. Mas não me dirijo a si para a defender - a Gaffe não precisa de quem a defenda.

Dedico-lhe esta carta aberta em defesa do meu direito de enfrentar as situações e invocando o meu direito de não ser atacada, sequer mencionada ou evocada num ataque, sem que de tal me seja dada referência. 

A senhora está, nitidamente e por vários comentários que lhe encontrei noutros blogues, a veladamente tentar conspurcar o nome de tais bloguistas, meus conhecidos e eu mesma - e, eventualmente, a tentar provocar desacatos. É um direito seu, tal como é um direito meu ignorá-la depois de a expor - denunciar o seu carácter, não, Maria Rocha Soares consegue denunciar-se muito bem, embora o seu hábito de apagar os registos dificulte a exposição e por isso também eu recorrer a esta carta aberta.

É uma pena que esta comunidade dos Blogs Sapo, que tem realmente gente dentro - gente que pretende partilhar ideias sentires artes anseios e experiências, gente que normalmente se pauta pela urbanidade até no discutir - seja aviltada por tais atitudes mesquinhas, por tais desacatos gratuitos, reiterados, e que nem sequer resultam de interacções menos amistosas em torno de uma ideia... há quem recorra ao argumento ad hominem quando os outros lhe escasseiam, mas Maria Rocha Soares nem isso pode invocar. É lamentável e é triste. Por si. Porque os desacatos em blogues serão eventualmente interessantes e, até, aconselhados, quando no debate se usam argumentos sólidos e humor - não é o caso; mas poderia ser, se tentasse. 

No entanto, se Maria Rocha Soares pretender continuar a atacar o carácter de alguém, insto-a a que não aja dissimulada nem cobardemente e que o assuma. Com todas as letras. Perfil e blogues abertos ao escrutínio, não ocultados - e sem apagar os postais e os comentários que faz, como tem sido afinal seu hábito.

Acredite que não terá grande resposta da minha parte - os ataques ao carácter costumam provir de quem não tem argumentos para discutir as ideias e eu, confesso, não tenho muita paciência para imbecilidades e presunções. 

Mas pelo menos conseguirá a atenção que procura. Não sei é se será a que deseja.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Repositório de emprestados

por Sarin, em 08.08.19

postais.jpg

 

Postais de outros, guardados...

 

Que me fizeram pensar, rir, enternecer, e até vociferar - mas não com os autores.

Faltam muitos... mas nem sempre me lembro de favoritar  

 

 

Lidos nos Blogs Sapo até 07.08.2019 (parte 2, publicados até 5 de Agosto de 2019)

Lidos nos Blogs Sapo até 07.08.2019 (parte 1, publicados até 31 de Maio de 2019)

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Repositório de emprestados #2

por Sarin, em 08.08.19

Postais de outros autores publicados nos Blogs Sapo e marcados como favoritos até 07.07.2019

Ordenados por data descendente de publicação (31 de Maio a 5 de Agosto de 2019)

Autoria e outros dados (tags, etc)

Repositório de emprestados #1

por Sarin, em 08.08.19

Postais de outros autores publicados nos Blogs Sapo e marcados como favoritos até 07.07.2019

Ordenados por data descendente de publicação (última data: 31 de Maio de 2019)

Autoria e outros dados (tags, etc)

Teste à tag: 50 anos

por Sarin, em 04.08.19

O desafio, lançado pela imsilva do blogue Pessoas e coisas da vida, é falar do que é ter 50 anos. Foi lançado a quem os tem, a quem os teve, a quem os terá.

A tag é: 50 anos.

Nem todos os postais são indexados.

Uns, por ausência de 'tag' ou por uso de 'tag' errada, a escrita por extenso a inviabilizar a indexação.

Outros, por coisas da ténica, talvez mosquitos talvez contingência.

Adiante.

Este postal testará a teoria de que o bicharoco se chateia quando do mesmo blogue lhe atiram com vários postais usando a mesma tag - e só indexa o mais recente.

 

A ver vamos.

Quero dizer, este sei que verei. Os anteriores é que talvez não.

O dia em que fiz 50 anos.

O dia em que farei 50 anos.

 

De qualquer maneira, não me apetecia estar a comentar sobre o aliado militar privilegiado do Trump (ainda lhe meteram um "extra-NATO" a ver se a coisa parece suave), nem sequer me apetece escrever sobre o o bom trabalho da equipa especial criada para eliminar decretos inúteis (para depois a AR estragar tudo com leis enormes sobre assuntos do tamanho de uma beata, benzam-nos os deuses!)

Há que aproveitar o domingo!

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

O dia em que farei 50 anos

por Sarin, em 03.08.19

A7D999F2-9546-4D36-A14D-69859B4011EE.jpeg

 

Não sei como será. Provavelmente terei de fazer uma festa, e emprego o verbo "Ter de" em plena consciência.

 

Em menina o meu aniversário era motivo de alegria, não apenas por reunir família e amigos mas porque a cada ano me sentia mais crescida, mais velha, mais capaz. Claro que a expectativa da reunião pesava, e eu ficava muito compenetrada no meu papel de anfitriã durante a preparação da festa e das brincadeiras... e até à chegada do primeiro convidado, cuja presença me fazia esquecer a data e qualquer protagonismo. O dia do meu aniversário era-me verdadeiramente importante, tantos amigos em casa!

Não, não me interpretem mal: fui uma criança feliz, mesmo tendo amadurecido muito cedo. Mas vivia numa ponta distante da aldeia, onde as crianças eram poucas, tinham pelo menos mais 4 anos do que eu e eram rapazes. As minhas brincadeiras eram livros e lutas,  dança e futebol, baralhos de cartas e espadas de madeira...

 

Com o final da adolescência o dia começou a perder valor, os meus valores solidamente formados e os meus princípios bem definidos a dizerem-me que a vida se constrói todos os dias - então, onde a lógica de celebrar como astro um acto que foi da minha mãe? Ela sim, foi a estrela desse dia, eu limitei-me a aparecer. Questionei-me o porquê de tal celebração, não lhe encontrei grande significado, fui deixando cair.

O 'meu dia' terá também perdido valor por conta da dificuldade em reunir os amigos à mesa, presos no estereótipo do Dia dos Namorados. Desde menina apenas aceitei festejos adiados pela distância, e a partir do dia em que a autonomia nos permitiu reuniões ao sabor da vontade, celebrar o estarmos juntos tornou-se muito mas muito mais importante do que celebrar o porquê. A carta e a autonomia trouxeram a desnecessidade de pretexto, e este passou a ser o estarmos vivos e gostarmos de estar connosco, as velas sendo trocadas por brindes num qualquer dia que apetecesse - e foram muitos, se traduzidos em aniversários 10 vidas não chegariam para as velas que brindei. Embora a família mais próxima nunca me tenha permitido abdicar das velas no dia do meu aniversário.

 

Muito nova aprendi que a vida vale pelo ontem e pelo hoje, e tenho consciência de que semprei dediquei mais energia ao presente e ao futuro dos outros do que ao meu. Percebi-o aos 20, notei-os aos 30 e aos 40, suponho que não mudarei muito aos 50 que já espreitam. 

Os meus valores e princípios cedo ganharam forma, mas nunca os considerei estanques, nunca deixei de os questionar, nunca me fechei a novos valores a novas ideias a novos hábitos. Ainda assim, não noto grandes mudanças. Mas ganhei maturidade na defesa das minhas bandeiras, tornei-me mais serena nas minhas paixões... e se criança  percebi que o mundo tem velocidades diferentes, demorei um pouco mais a perceber-lhes as causas. Não acredito que aos 50 as terei aceitado todas - e se nada me mudar a personalidade, aos 94 direi o mesmo a propósito do meu centenário.

O meu corpo mudou, e mudará ainda mais. A preocupação com a aparência manteve-se, desejo mudar esta minha forma de estar - espero aos 50 dizer que me preocupo mais com a aparência do que preocupava aos 25. Talvez porque os amores, profundos, nunca tenham dependido do corpo o meu corpo me tenha sido, ainda seja, tão indiferente. 

Penso que fiquei um pouco egoísta, pelo menos já não me sinto indelicada quando recuso alguns convites. Que sempre preferi um não claro a um talvez comprometido, mas se antes pensava que o importante numa reunião é o conversar, o dar atenção, tenho aprendido que há muitas outras perspectivas sobre esta questão.

E é por isso que suponho que terei de fazer uma festa nos meus 50 anos. Porque sei que prefiro um jantar num dia qualquer com cada pequeno núcleo, já que numa festa não posso dedicar tanta atenção a cada um. Mas também sei que conciliar disponibilidades não é fácil e, principalmente, sei que cada um desses núcleos não vai querer a minha atenção, apenas vai querer estar presente e dizer olá por entender ser-me um dia importante. Porque as pessoas também se dão assim, também nos damos assim, e há pessoas que merecem esses  olás que sabem a pouco.

Finalmente, e se por mais não for, lá terei de fazer uma festa ou a minha Sobrinha não me perdoará.

 

 

imsilva, este é O postal. o outro era brincadeira.

 

imagem recolhida da Revista Estante

mafalda acompanha-me desde a celebração da minha primeira década; como poderia faltar no meu quinquagésimo aniversário?!

Autoria e outros dados (tags, etc)

O dia em que fiz 50 anos

por Sarin, em 03.08.19

2864D227-70F9-4934-8813-D4D5037DBF87.jpeg

 

No dia em que fiz os meus 50 anos, lembro-me perfeitamente, não estive presente. Não que estivesse desinteressada, aterrorizada ou de visita aos meus primos na Austrália. Não. Não estive presente porque ainda em viagem pelos quarenta - que, devo confessar, chegaram atrasados porque fiquei presa algum tempo na estação dos trinta e cinco a aguardar uns cabelos brancos que chegariam no mesmo Alfa que o Godot. Este apareceu.

Nesse dia do meu quinquagésimo aniversário vestira um modelito tamanho trinta e seis que fui recuperar à loja dos Late twenties, recusando-me os quarentas dos quarentas e rezando para evitar uma escalada da proporcionalidade, pois pouco tempo antes havia rasgado o bilhetinho que a balança automática me devolvera porque aquilo era um tratado e eu bem vejo o que acontece quando se rasgam tratados. Tinha ouvido que não se rezava de boca cheia, e pensei que tal dieta talvez valesse a pena já que às outras nunca liguei. Desisti quando percebi que afinal era reza a sério - os deuses, se existem, têm verdadeiros assuntos com que se preocupar, se quiserem.

O modelito era de material pesado mas estranhamente diáfano e muito colorido, assim como uma campanha eleitoral em pleno Verão mas no Inverno, que é quando faço anos. 

A saia era plissada, a fingir as rugas que não tenho, e cada uma das plissas... oh, se eu fosse agora falar em plissas... bom, adiante!

O dia estava radioso porque o pessoal tinha chegado de bicicleta, era raios para aqui e raios para ali pois houve um que não travou a tempo e foi uma confusão. Disseram-me, que eu não estava lá. E se estivesse provavelmente chegaria atrasada, há uns anos lembrei-me que fazia anos quando recebi a primeira mensagem, que por acaso era um lembrete meu a dizer "comprar bebidas". Nada a ver, mas como tinha a data e umas nádegas a que chamam corações, percebi.

Enfim, parece que O dia foi um dia normal.

E agora tenho mesmo de ir espreitar os meus 47.

Se quiserem voltar mais logo, prometo responder [cumpri]  à imsilva - provoquei-a por ser "só para velhotes" e ela já me cobrou a provocação :))

 

adenda: inserção da imagem. a fonte já cá estava... 🙄

 

imagem em Tecnotronics

Autoria e outros dados (tags, etc)

1 de Agosto de 1979

por Sarin, em 01.08.19

Bem cedo, despedi-me da então apenas-minha Tia, do meu Tio, do meu Primo Mais Velho e do meu Primo Mais Novo, e entrei no carro.

Não me lembro do que lhes disse, provavelmente terei perguntado se não podiam vir connosco, parece que perguntava muitas vezes. E o meu Primo Mais Velho, mais velho que eu onze anos e meio, terá talvez brincado como lhe era natural, "Traz-me um copo de neve" ou algo assim.

Não esperava ver a minha Prima naquele dia - vivia um pouco mais longe com o Marido e o meu Priminho, bebé de dezanove meses. Mas ela ali estava, à entrada da casa da  minha Tia sua mãe. Tinha andado no ar a ideia do passeio conjunto, e quando a vi pensei que, talvez...

Quase gritadas da porta, soltei as palavras "Vêm connosco? Entra, cabes entre mim e a Avó!" e a minha Prima respondeu "Não posso, querida, o teu Priminho está doente; e o meu Marido não está aqui" "Ele vem depois, de mota", respondi entusiasmada com a de novo possibilidade. Sorriu, os olhos preocupados abraçando o meu Priminho agitado pela febre, e respondeu "Faz boa viagem, e até segunda."

Ela ficou onde estava; sairia horas mais tarde com o meu Primo Mais Velho, o irmão mais novo dois anos que a levaria ao médico enquanto o marido trabalhava. E eu segui no carro que arrancou, sentada entre a minha Mãe e a nossa Avó.

 

Haveria de regressar não na segunda-feira mas nessa mesma madrugada. Numa viagem cheia de sobressaltos e quase-acidentes provocados pelas lágrimas que, escondidas, toldavam os olhos de todos menos do Avô, desconhecedor do porquê de termos regressado mal havíamos chegado, as tendas deixadas para que o compadre, o meu outro Avô, o paterno, as trouxesse depois.

Recordo os pirilampos do carro da polícia que passou por nós, por este meu Avô que me levava pela mão dos meus 7 anos ao bar do campismo de Manteigas, e de despreocupada ter dito "Alguém se portou mal...". Lembro-nos ambos intrigados ao vermos as luzes brilharem paradas ao lado dos nossos carros - que, saberia muito depois, as patrulhas haviam procurado toda a tarde pelas estradas e parques da Serra. Lembro como quase corremos e chegámos a tempo de ver os guardas desviarem-se com os meus pais, de ver como estes se abraçaram e, pouco depois e sozinhos, se refugiaram num passeio até à  sombra dos penedos e do anoitecer. A GNR abandonou o espaço e os meus pais também, abraçados e mudos ao nosso espanto ainda distante, a Avó e o Avô maternos desaparecidos, talvez a tratar do jantar, e por isso tão ignorantes como nós. Mudos continuámos o meu Avô e eu, aguardando.

Quando os meus Pais regressaram do que me pareceu uma longa ausência, a angústia saiu-me sob pergunta "Vamos ser presos?" "Não, querida, os senhores vieram avisar-nos de que a Tia está doente e temos de voltar".

Recordo a preocupação e a tristeza que nos acompanharam, o Avô e eu acreditando que a Filha Mais Velha, a Tia, estava doente. A meio da viagem descobri uma ponta da verdade, solta num gemido involuntário da Avó que me abraçava; ponta que puxei até obter verdade suficiente para me esclarecer as ideias e escurecer os olhos não mais secos por dias. Ao Avô só seria revelada à entrada do Hospital de Leiria... Recordo o grito que, ferido, desferiu na madrugada e ouço ainda o baque do seu corpo abatido não sei onde ou como,  revejo as batas brancas em correria, a espera, as lágrimas enfim soltas e a minha pergunta contínua, redonda, rotunda no peito afinal de todos "Mas... é mesmo verdade?"

Recordo a chegada a casa, às casas onde não entrámos porque ficámos metros ao lado, na da Tia, desde o início da tarde cheia de familiares e amigos e vizinhos - lembro os sussurros gemidos, o sufoco, o vómito que me acometeu quando percebi ser verdade, ser mesmo verdade. A Tia desmaiava a cada 5 minutos, o Primo Mais Novo, mais velho que eu, chorava abraçado a si mesmo, o Tio esmurrava paredes na rua, e todos os outros pareciam marionetas movendo-se longe naquela casa apinhada de gente e de torpor e de estupor magoado... lembro o frio e os cobertores em pleno Agosto, recordo a viola pousada num canto, sem canto sem notas sem som - talvez o único objecto em silêncio naqueles dias.

Não recordo mais nada dessa noite em que ninguém dormiu, ou se dormiu foi a fingir - só as lágrimas e os gemidos e a opressão de perceber que a tristeza que nos unia também me isolava, presa na pergunta "Porquê?" que toda a noite durante muitas noites zuniu na minha cabeça.

Às 9 da manhã amigos levaram-me para casa de uma amiga da minha idade. Fui contrariada; queria estar com a família, era ali o meu lugar. Mas não, não podia ficar, disseram-me, o ambiente não era bom para ninguém e muito menos "para uma menina de sete anos". O Primo Mais Novo ficou - já tinha onze.

Envelheci muitos anos naquelas horas, criança com uma dor adulta e madura renovada em cada morto que desde então chorei, um luto nunca totalmente feito apesar do Tempo, a pesar no tempo e em todos os lutos que fiz depois.

E o Primo Mais Novo passou a ser O Primo. Os outros, na volta do médico, ficaram na curva do caminho.

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

A Sarin preguiçosa rouba a Gaffe

por Sarin, em 31.07.19

16E14B06-2C82-437B-8ED9-FD64779D5372.jpeg

A Gaffe para totós descontrolados

 

Vale sempre a pena visitá-la. Mas este postal quero-o sincronizado com aquele. Ide!

Autoria e outros dados (tags, etc)

Obrigada por estar aqui.




logo.jpg





Localizar por cá

  Pesquisar no Blog




Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Memórias

  1. 2019
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2018
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D