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Eu, troll

por Sarin, em 11.12.19

troll.jpg

Em conversa vespertina com uma bloguista amiga, dizia-lhe que provavelmente seríamos ambas mulheres de pés grandes pois passamos a vida a tropeçar em perfis fantasmas - aqueles perfis que hoje são um e amanhã são outro e em cada dia se fingem, se omitem, se escondem em novos blogues, privados ou eliminados os anteriores, quais rei morto e rei posto. Perfis surgidos para dar largas a obsessões, para satisfazer impulsos, para liquefazer fígados? Por mim, estaria tudo bem pois a cada um a sua diversão - se, no caminho, não contaminassem os mais incautos. Mais incautos porque mais puros, porque mais doces, porque mais gentis - incapazes de aceitar que, até aqui, surjam monstros no nosso caminho.

Porque, aqui, somos uma comunidade de blogs com gente dentro. Gente que acolhe quem chega, gente que visita e apoia os aqui vizinhos, gente que se partilha de variadíssimas formas, gente que normalmente sabe estar. E que, repentinamente, se vê envolta em tentativas de intriga. Em falsas simpatias. Em falsas doenças. Em falsos suicídios. Em verdadeiras ofensas. Em reais ataques. Gente que, com as palavras, abre os braços e abre o peito - onde as cascavéis acabarão por cuspir o seu veneno. Gente que sai desconfiada, debilitada, fraca destes nefandos encontros.

Perante estas misérias que, ocasionalmente, nos infectam o charco, disse-me um bloguista que muito prezo serem tais criaturas gente sem gente dentro. Não poderia haver melhor definição.

 

Duas outras queridíssimas bloguistas tropeçaram há horas nas mesmas criaturas e disso me alertaram, para minha confusão pois supunha ter-lhes falado da ressurreição destes lázaros de pacote. Percebemos que, se pouco nos espanta realmente neste mundo, a sobrevivência destas malsãs quase-baratas continua a ser-nos um fantástico mistério!

Porque só pode ser quase-barata quem dos dejectos faz alimento, quem na putrefacção se banha, quem com o fétido se perfuma! Mas se as baratas se fingem de mortas quando apanhadas, as quase-baratas estrebucham, e é essa a derradeira diferença: na sua vaidade de casca grossa não se apercebem das semelhanças entre os seus alter ego e ainda se tentam fingir alheias a tais criações, acabando esmagadas entre o seu id e o seu superego.

 

Intróito feito, passemos aos factos.

Numa noite de Agosto, em que a actualização e limpeza de computadores não me permitiam afastar os olhos dos ecrãs, tropecei num blogue que inicialmente me atraiu por falar em sociedade e tolerância. Fui lendo, fui comentando, cada vez mais incomodada com a transformação da preocupação com a sociedade e do espírito humanista em ofensas a pessoas específicas e em moralização - mas uma moralização muito particular, que rapidamente notei idêntica à de algumas personagens Orwellianas. Por exemplo, se num postal se dizia sofredor por esta sociedade intolerante, num outro identificava pelo nome uma bloguista aqui da comunidade dizendo-a narcisista e vociferando que tal pessoa não devia ter filhos pois que se manifestara orgulhosa da posição tomada pelo rebento, menor de 10 anos, contra as touradas, enquanto num terceiro postal chamava, e cito, "pedaço de merda" ao padre que tirou fotos em cuecas e assumiu ter e manter actividade sexual com mulheres. A frequência dos meus comentários foi-se tornando inversamente proporcional à inconsistência, à vaidade e ao ódio que fui encontrando nos postais de que acabei por desistir. 

No dia seguinte o autor de tais desabafos de um desconhecido respondeu aos meus comentários, a alguns mais do que uma vez. Tendo-lhe ignorado quase todas as respostas, apenas rebatendo uma ou outra porque demasiado absurda, perante a insistência acabei por responder que, como poderia perceber pelos meus mais recentes comentários, eu não teria grande interesse nem em manter as conversas nem em voltar a tal blogue - e instada a explicar porquê, achei que o autor merecia a verdade: descria da veracidade das suas trágicas histórias pessoais, lamentava a sua falta de consistência e abominava o crescendo de intolerância manifestado num blogue cujos postais iniciais apelavam a uma sociedade tolerante.

O autor resolveu apagar os meus comentários, tornar privados vários dos postais onde o havia questionado pelas verrina, intolerância e incongruência, e publicar um postal. Onde se lamentava como pobre alma que usava o blogue para desabafar, sem qualquer intenção de ser lido e muito menos comentado [apesar de se dirigir directamente ao leitor] e que, insuspeitada  inusitada e injustamente se vira vilipendiado por um ser abjecto que nada melhor arranjou para fazer do que "espreitar-lhe pela janela" (textual!) e provocá-lo com "muitos comentários". Percebe-se a manobra de elisão - se analisados os tais "muitos comentários", ver-se-ia que foram menos de um comentário por cada um dos primeiros postais lidos, e que as provocações estariam nas suas respostas. Não me quis chatear - tenho uma certa facilidade em ignorar quase-baratas. Desde que não contaminem muito.

Assim, publiquei um postal que, referindo-se a generalidades, pretendia também alertar para a turbulência causada por alguns autores. Se pelo meu postal, se por outro motivo, a verdade é que o autor não causou grande mal; ou, se causou, a nenhum li sobre tal.

 

Num dos vários postais lidos na tal madrugada, lamentava-se o autor por não ter podido ajudar uma namorada que só mais tarde soube ter sido violada em criança, cujo pedopsicólogo também a violara nas sessões onde usava "um tratamento secreto que não podes contar a ninguém". Carpia-se pela namorada que, mais tarde, se entregava aos homens em busca de amor-próprio, culpava-se inquieto por sentir que a violara de cada vez que com ela fizera amor, flagelava-se pois não soubera socorrer a pobre Raquel como esta merecia e, por tal, iria sentir-se mal o resto da vida - desejando no percurso fazer atrocidades monstruosas e sanguinárias a quem a havia violado, ao pedopsicólogo que a havia acompanhado e a todos os homens que dela haviam abusado. 

Lido assim, isolado, seria uma história terrível que convocaria toda a empatia, toda a solidariedade, todo o apoio - mas eram tantos os postais relatando na primeira pessoa as dores pelos amigos violados, pelos amigos suicidas, pelos amigos criminosos, pelos amigos presos em vícios vários, que qualquer verosimilhança morria afogada no exagero. Nem comentei. Convém não esquecer que li todas estas histórias na mesma madrugada, o exagero e, acima de tudo, as inconsistências brilhando com uma energia que talvez não tivessem numa leitura espaçada pelos dias. Ou talvez sim, pois que a memória não me costuma ser fraca.

Na segunda-feira tropecei nesta mesma história ao visitar os Últimos posts. Pequenas alterações, um outro título - mas eis que surge publicada num blogue novo de dias. Coincidência? Para comparação, procurei o desabafos de um desconhecido e descobri-o desaparecido. O autor tinha o perfil privado. O autor do confissões também.

Li alguns dos postais destas confissões. Lá estavam os mesmos tópicos que nos desabafos

Estranhei as intenções e o transvestismo, pois que a escrita, fruto talvez da liberdade criativa, tentava das histórias fazer casos recentes. E disso lhe dei parte: " Curiosamente, li esta mesmíssima história num outro blogue. Felicidades ao Autor, que aqui se transveste com outro perfil." Respondeu-me dizendo não saber a que me referia mas supondo-me feliz com o comentário. De tantas figuras de estilo possíveis, a ironia não seria aqui a mais aconselhada, por isso peguei-lhe no sentido literal das palavras e elucidei-o. Nada originalmente, apagou-me os comentários.

apagadas (1).jpg

Mas antes de o fazer tirou fotografias, que usou para - tal como se numa repetição da cena - construir um postal queixando-se da minha agressão, da minha instabilidade e da minha necessidade de atenção .

Ah, a ironia e a incoerência! Tendo afirmado que me daria os meus 5 minutos de fama... 

cinco minutos.jpg

... publicou as fotos cortando  o meu nome e a minha imagem.

co (1).png

co.png

Mas, bem-haja, não me votou ao total anonimato pois que me chamou troll.

trolllll.jpg

E, após ponderação, editou o postal - para reiterar o epíteto. Dúvidas houvesse, foram elididas - tal como o meu nome e a minha imagem. Sou, definitivamente, troll.

fim.jpg

Eu, troll, aqui me confesso culpada de tropeçar duas vezes na mesma quase-barata. E de ter muito prazer em a voltar a ignorar, agora que transvestida e afixada nas paredes deste burgo.

 

Da segunda criatura... Lao Tse falará com mais paciência do que a que tenho de momento..

 

[há dias de muita inspiração. outros que não. nada como espreitar também os postais anteriores]

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lançado às 08:25

desafio de escrita dos pássaros #13

por Sarin, em 06.12.19

[Tema #13 Reescreve o final dum filme]

lágrima.jpg

Reescrever o final de um filme...

Out of Africa. África Minha. O leão deitando-se no planalto, a câmara afastando-se de grande plano para panorâmica.

O rei da savana guardando a memória dos que, amando-se, amaram a terra mesmo depois do desencontro. Uma tão grande comunhão e tantas perdas assim simbolizadas naquela derradeira harmonia do adeus... a homenagem perfeita. O final perfeito. Não mudaria uma vírgula, não alteraria um fotograma.

É o meu final perante este filme que quero reescrever. A sensação de esmagamento é atroz, a história e a História oprimem o meu peito, sou Isak/Karen/Meryl durante todos os minutos... e a imagem final rompe todas as dores que sustive. Choro Karen e choro Dennis e choro Bror, choro o Quénia e choro África. Choro os seus desencontros, choro os meus desencontros. Sempre.

Queria ver este filme e terminar dizendo, apenas, "foi um bonito filme". 

Out of Africa - End Title (You are Karen)

John Barry (1985)

Música da Banda Sonora Original do filme homónimo de Sydney Pollack

 

 

 

 

 

 

Nota que nada tem a ver com o acordo ortográfico, antes com um acordo que tentarei manter com os Pássaros, com os meus colegas de desafio e com quem me visita:

Estou doente. Estou sem inspiração. Estou sem vontade de escrever. Produzi este postal apenas para não falhar. Prometo tentar escrever algo decente quando me sentir melhor. De qualquer forma, não garanto: todos os filmes cujo final recordo são filmes aos quais nada mudaria, dos outros não reza a história e mudar-lhes, apenas, o final seria insuficiente. Ademais, alterar a criação de um artista é um pouco de petulância, não? Mas, enfim, sendo um exercício de escrita, tentarei. Em breve. Desculpem o mau jeito. E o atraso.

[Desafio de Escrita by Pássaros]

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lançado às 15:20

desafio de escrita dos pássaros #12

por Sarin, em 29.11.19

[Tema #12: Aqueles pássaros não se calam]

 

Os rouxinóis da noite

 

O frio caiu aos rebolões pela alma da gente.

Começou por um gelo fino

 na superfície de águas turvas.

Lama, lodo em cada cais,

e a neve a tapar-nos os olhos

e um calor de fogo-fátuo a queimar-nos,

um fogo preso de artifícios que,

distraindo-nos,

nos gelava.

Congelava.

Cristalizava.

 

Os dias ganharam sombras.

As gentes ganharam sombras,

espessas,

em cada esquina,

por cima de cada ombro.

 

E o desassombro do frio invadiu o país,

gelando-nos a raiz,

ceifando-nos o pão

que quiseram de outros, nosso não.

 

E foi na noite,

mais amena,

que outras sombras nasceram

claras

quentes

prenhes de poesia.

E escreveram

E cantaram.

Trinados de esperança

A resistência pipiada em cada senha

Em cada curva da letra que fugia ao azul

E nascia na noite

Sempre a noite…

Mais clara que o dia frio.

 

Dias chegaram em que o frio se foi

E as sombras claras da noite ganharam forma

E os rouxinóis saíram de palavra em punho

De guitarra em punho

E encheram as gentes com a alma

Que haviam esquecido ter:

Esperança!

 

Cantam ainda na memória.

Aqueles pássaros não se calam.

Não se calarão na minha história.

 

Nota de roda dentada: também os oponentes do AO90 não se calam

Cantilena (1969)

letra de Sebastião da Gama

música de Francisco Fanhais

 

 

[Desafio de Escrita by Pássaros]

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lançado às 15:01

desafio de escrita dos pássaros #11

por Sarin, em 22.11.19

[Tema #11: Um dia na tua família… do ponto de vista do teu animal de estimação]

Jacó dormindo.jpg

Eles, os do meu lar

O Sol acorda-me sem sons. O orvalho desfaz-se já quando o humano mais velho abre a porta e visita as aves do quintal, aprumado mas agarrado a uma árvore sem raiz nem folhas, toc toc toc desde que os raios lhe espreitaram a janela. Há muito que o vejo acordar com o Sol, mas a árvore só este ano lhe nasceu na mão.

O gato negro, Jacó o chamam, espera que a porta se abra para entrar e descansar depois do namoro às sombras da Lua. O humano sorri-lhe, afagam-se e seguem cada um o seu caminho, assim cruzados ao amanhecer.

Ouço já os outros humanos. Ela hoje levantou-se mais cedo, abrindo sorrisos e portadas. Sinto-a na cozinha, perto do jardim das rosas – o meu preferido, dela também. Vem tomar o pequeno-almoço entre tachos, feliz e alvoroçada vai-me piando bom-dia. Ele sorri ainda mais, e percebo porquê quando avisto as gaiolas pretas que se aproximam. Trazem os seus pardalitos, uma sozinha de Norte outra em bando de Sul. A mais velha sai de uma gaiola só dela pipiando pela mais pequena da outra gaiola, os mirtilos luzindo-lhe quando a vêem. A pequenita atira-se ao seu colo como a amoras, a rama dos cabelos ondulando enquanto todos chilreiam como se manhã de Primavera.

Esvoaçam, saltitam, sacodem-se e debicam-se com amor. Gorjeando, adentram o ninho com os dois humanos dos jardins de baixo, entretanto também chegados. Os gatos desses jardins espreitam, o cão latindo por lá – só brincarão mais tarde, agora é hora destes humanos de quatro gerações celebrarem o estarem juntos.

Vejo-lhes o cocuruto enquanto à volta da tábua grande, sei que alegres horas ficarão debicando e pipiando. Quando o sol invadir o ninho pelas janelas mais largas, todos virão até mim e por aqui ficaremos preguiçando, animais de duas e quatro patas felizes pela tarde.

Agora comemos. Bagas e sementes não faltam, mas são as árvores frondosas que guardam os suculentos segredos que caço em pleno voo. Como ela, também eu preparo banquetes para os meus pardalitos.

 

Volto todas as Primaveras. E todas as Primaveras eles me saúdam como se eu da família. Este é o meu lar. Espero morrer ali no jardim das rosas, num qualquer fim de Verão sem força para rumar ao Sul. Penso que terão saudades, mas morrerei tranquila – na Primavera os meus filhos voltarão, deixo-lhes no bico o sabor e o caminho de casa.

 

Nota de rodapata: o AO90 não é animal mas é irracional. Não é aqui estimado.

Imagem: Jacó descansando no arquibanco

(com coleira. dada pela Sobrinha, será perdida em poucos dias. a Sobrinha desiste de o tentar enfeitar)

vídeo: A andorinha da Primavera (Madredeus, 1997)

 

 

 

 

[Desafio de Escrita by Pássaros]

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lançado às 15:00

Agá dois ó p'ra mim

por Sarin, em 17.11.19

No princípio era a água, no caldo primevo como no útero. Depois a água ferveu e arrefeceu - e depois nasci eu.

Dizem-me que o meu corpo tem dois terços de água; mas reza a história futura que, finada, me amofinarei em pó... Que seca!

 

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lançado às 10:00

Telegrama para Zainab Abdallah

por Sarin, em 17.11.19

recebi seu email stop os undisclosed recipients também stop

diga diplomata john smith 88 para falar com acrobata jane smooth 99

ela fará um 31

 

 

Malta, brinco com estes emails mas há quem ande a tentar pescar por aí. Mantenham-se atentos.

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lançado às 06:30

desafio de escrita dos pássaros #10

por Sarin, em 15.11.19

[Tema #10: Já chegamos? Já chegamos?]

soldier with twins.jpg

Entre a missão e o destino

Os primeiros chegaram apressados. Entraram velozes, cegos pela claridade depois de escuros e intermináveis túneis de fuga. Durante a evacuação poderiam talvez usufruir da paisagem que se avistava do lado de lá da barreira de plástico; por agora, teriam de preparar o espaço para o pelotão que não tardaria. Não tardou. Na pressa da chegada, alguns soldados houve que, de tão ansiosos, chocaram contra a barreira e ali ficaram, como que tapetes para os que neles tropeçaram uma e outra vez até se indistinguirem na confusão de corpos. E continuaram a chegar, atropelando-se numa algazarra feliz de quem corre para o seu destino. Quando os últimos apareceram, arquejantes e a espaços, ouviu-se alguém perguntar, talvez o das comunicações, Já chegamos? Já chegamos? É que, não sei se têm noção, mas isto aqui não é muito confortável, e ainda vamos a meio da missão… A resposta não tardou, Não, não chegamos! É preciso mandar vir mais um contingente!

Os do segundo contingente entraram mais lentamente, acomodando-se com força onde cabiam. Olharam em volta e, perante a desorganização, não puderam deixar de pensar nos riscos que corriam. Sabiam que o ataque seria pouco ortodoxo, mas, ainda assim, temiam que os houvessem enganado no Gabinete de Voluntários.

Chegada a ordem de marcha, todos sentiram estar feito o mais fácil - dali em diante a missão seria tão árdua como delicada e, apesar de irmãos de armas, no terreno teriam de trabalhar cada um por si. Voaram votos de boa sorte, o pelotão concentrado no embalo do transporte. De repente, sentiram-se girar, uma avaria, talvez, a rotação a todos deixando lívidos. Quando pensavam não aguentar, o transporte imobilizou-se, as pernas embatendo-se na inércia mas todos vivos.

Ainda zonzos, perceberam sombras e silvos na distância. Um dos mais resistentes perguntou afoito, Já chegámos? Já chegámos? nada mais perturbando a apreensão que os calava. Mesmo assim maltratados, contavam ser lançados em pequenos grupos que atacariam por fases, cada soldado tentando anular as defesas do objectivo até que algum conseguisse entrar no sistema e daí dominar as instalações. Nisto pensavam todos, preparando-se para o seu melhor, quando avistaram o cano de aço a eles apontado. Suspiraram, irmanados também no reconhecimento do fim. Os movimentos com que os haviam enfraquecido tinham sido propositados: não os queriam para ataque. Não. Na ânsia de saírem em missão, haviam-se afinal oferecido para um teste de fertilidade sem óvulos no horizonte.

 

Nota de roda dentada: o AO90 não chega nem chegará aos calcanhares que quer morder.

imagem recolhida no Pinterest

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lançado às 15:00

desafio de escrita dos pássaros #9

por Sarin, em 08.11.19

[Tema #9 Acordaste nu, sem te recordar de nada, numa ilha deserta]

Tenho a pele húmida e quente, ouço sons que parecem de mar… mas onde o mar aqui? E, no entanto,  sinto a rugosidade sob o meu corpo semi-nu, como se grãos de areia colados à pele. Tenho dificuldade em concentrar-me, nada recordo, apenas neblina e confusão…

 

Sim, este poderia ser um começo para o tema desta semana. Mas não. Foi a minha semana, mercê do fortíssimo resfriado que entrou enquanto me preparava para a vacina da gripe. Frio, calor, o peso do planeta na minha fronte... estive dentro de um buraco negro e confirmo, é cor-de-laranja. Ou então eram resquícios do exfoliante usado no duche tentado e que, inadvertidamente, se me colou à pele e acompanhou à cama num destes dias. Ou noites, sei lá eu... enfim, já quase passou.

Os Pássaros que me desculpem o intróito - mas o tema aconteceu.

O texto segue dentro de momentos…

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Nada, Viva!

Não tenho ontem.

O lençol desnuda o meu corpo

rolando suave a meus pés

e logo volta

morno manso

- meneios de mar morrendo

na praia onde me avivo.

Afundo a face na areia

e aspiro a cor das ondas

tentando prendê-las

retê-las

para com elas criar uma história neste agora

onde

por memória

tenho a espuma

o nada que me fica na pele.

Nua.

Sem roupa sem passado sem pecado

talvez que o mundo me tenha assim criado

e eu

recém-parida recém-perdida

tenha direito a uma segunda vida para me escrever.

Um nado-vivo no nada

que nada em direcção a tudo

e revive o amanhecer.

 

Nota de roda-desandada: O AO90 vai nu e não deixa memória.

Imagem: O nascimento de Vénus, Alexandre Cabanel (óleo sobre tela, 1875). De domínio público

[Desafio de Escrita by Pássaros]

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lançado às 15:00

No blogue dos Sapos do Ano

por Sarin, em 08.11.19

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Estão a decorrer as votações para os Sapos do Ano.

A Magda e o David, carinhosamente aqui apelidados de Comissão Sapiana de Eleições, solicitaram-me resposta a um questionário que deram aos finalistas deste ano. O meu foi publicado hoje.

Passem por lá, caso tenham interesse. E tempo - fui escrevendo, e descobri que não lhes enviei um postal mas sim uma carta de 3 folhas, frente e verso, margens reduzidas e caracteres tamanho 10... ou, pelo menos, assim parece. Desculpem!

 

Nota: A Menestrel tem consciência de que clicar no cursor para descer a página  é capaz de provocar dores nos pulsos. A Almoxarife avisa que não se aceitam reclamações nem se fazem reembolsos de despesas médicas. A Bobo aconselha um tapete de rato com almofadinha...

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lançado às 13:50

Sapos do Ano: as nomeações, as crises de identidade... e a sociedade

Outro postal a usar os Sapos do Ano para extrapolar

por Sarin, em 03.11.19

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Quando este blogue foi nomeado para os Sapos do Ano, aproveitei para lançar um inquérito (*). Porque já me sabia finalista noutra categoria (a Magda e o David já me haviam informado e solicitado umas palavras), pensei fazer da notícia da nomeação uma introdução a este postal. Não para, passados uns dias, vos informar ser finalista na categoria Opinião e pedir o vosso voto (**) , mas para vos pedir que me acompanhem, também este ano, numa reflexão extrapolada.

 

Uns simpáticos visitantes entenderam ser este um blogue Generalista, outros entenderam ser este um blogue de Opinião, e o blogue foi nomeado para os Sapos do Ano nas duas categorias. Numa votação tão serena e com a consequência que esta tem, esquartejaram-me o burgo...

... porque não houve entendimento sobre a categoria onde o enquadrar?

... ou talvez por ser o entendimento das categorias distinto - nunca foi discutido e, portanto, terão respondido a questões cuja definição não era clara?

Na verdade não interessa nem há qualquer problema por ser entendido numa ou noutra categoria, os Sapos do Ano são um exercício de leitura e boa vizinhança, e as categorias são aquelas que quem nos lê nos atribui - dependem da mensagem e da percepção de cada leitor. As distintas percepções são-nos benéficas e a indefinição é aqui inócua.

Na minha percepção, este é um blogue de Opinião [e o Tia! Tia! Tia! é um blogue de Memórias].  Porque de Opinião vejo todos os blogues onde, na maioria ou na totalidade dos postais, se partilham opiniões pessoais - sejam mais ou menos sustentadas, sejam os blogues dedicados a temas específicos ou a generalidades. Esta é uma interpretação que nunca discuti com ninguém, e confesso-vos que nomeei para Generalista blogues que entendo serem opinião sobre generalidades, e para Opinião blogues que entendo serem mais dedicados à Política, à Sociedade, à Cidadania. Não tive qualquer dificuldade nem achei necessário esclarecer estas definições - como afirmei, os Sapos do Ano servem para nos conhecermos, para nos lermos, e apenas afectam aqueles que gostam de navegar a blogosfera. São importantes aqui e assim, e nada mais.

 

Mas eleições políticas não são os Sapos do Ano, referendos não são os Sapos do Ano, censos não são os Sapos do Ano.

Quando somos chamados a eleições políticas votamos em partidos ou em pessoas, não há necessidade de definições porque são elegendos objectivos. Mas num referendo ou nuns censos há conceitos, logo, há subjectividade envolvida. Lembro-me da polémica sobre a inclusão de perguntas de caracterização etno-racial nos censos, lembro-me da polémica sobre a eutanásia... e noto que se defende a inclusão ou a exclusão da pergunta, reparo que se exige ou nega o referendo, mas não se discute o que é raça ou o que é eutanásia.

Sou  a favor de uma democracia que tenha componente directa e componente representativa. Já me sentiria bem na democracia representativa se esta realmente o fosse.... E pergunto-me como chegar a tais patamares nesta democracia exercida por cidadãos que votam sem esclarecimento, que confundem notícia e informação, que igualam facto suposição opinião. Olho os novos fenómenos de desinformação, vejo quão vulneráveis estamos...

... e atormenta-me a ausência de debate. Somos nós que não promovemos nem exigimos o debate, a discussão - não há ninguém a sonegar-nos tal direito, somos nós que não o exercemos! Defendemos posições de ouvido, debitamos sentires que não opiniões sobre matérias por aprofundar, perdemo-nos nos achismos que lemos como factos, enfim, confundimos debate com peleja e erguemos trapos por bandeiras.

E essa ausência de debate, de aprofundamento, trouxe-nos a esta sociedade inerte, a este isto que somos. Os sapos que engolimos alimentam-se no nosso ruído.

Pensemos nisso nas próximas discussões. Exijamos as próximas discussões.

 

E, entretanto, divirtamo-nos com os Sapos do Ano.

 

(*) Se tiverem interesse nos resultados do tal inquérito a brincar, eis o Inquérito. Foi um inquérito a brincar, mas a vossa simpatia foi a sério: agradeço-vos a colaboração.

(**)  Visitem todos os finalistas. Votem em quem quiserem, mas visitem os finalistas, visitem os nomeados, visitem!

 

imagem: la mente maravillosa

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lançado às 04:51

Obrigada por estar aqui.




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