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Desafio de Escrita dos Pássaros

por Sarin, em 11.10.19

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Um desafio com um tema novo por semana. Para ocupar 17 semanas... e mais uma.

Postais que podem ser lidos nos blogues de cada um dos 43 cucos que aceitaram o desafio dos 8 pássaros. E no ninho do Bando. Ou na etiqueta (tag) desafio dos pássaros.

Os meus são estes...

*** Semana #5

* Quando ao gavião cai a pena (Abandono do Desafio)

* Um lugar ao solo

*** Semana #4

* Beatriz disse que sim.

*** Semana #3

* Um momento marcante

*** Semana #2

* O amor e um estalo

*** Semana #1

* Problemas, só problemas

*** Semana #0

* Porque me inscrevi?

* Pássaros, passarinhos, passarucos, aves de rapina e cucos

 

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lançado às 22:41

Quando ao gavião cai a pena

com o pedido de perdão a Aquilino pelo (ab)uso do título

por Sarin, em 11.10.19

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Disse que havia entrado no Desafio dos Pássaros. Que seria um desafio escrever subordinada a um tema, e que seria outro desafio contar as 400 palavras no telemóvel.

Agora digo que saí. Não foi difícil escrever sobre os temas. Mas foi difícil controlar as palavras, e para evitar exceder o limite até escrevi ao computador. E não explorei algumas histórias como poderia porque regras são regras. Pensava eu. Ainda penso. Por isso saio.

 

Obrigada a quem foi passando. 

Boa escrita para quem continua.

imagem: Bru-nO via needpix

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lançado às 22:37

desafio de escrita dos pássaros #5

Um lugar ao solo

por Sarin, em 11.10.19

[Tema #5: Estás na fila para o purgatório e Hitler está à tua frente. Ninguém o quer aceitar e a fila não anda. Escreve a tua intervenção para convencer um dos lados a aceitá-lo]

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Um lugar ao solo

Por mim podemos ficar na fila o tempo que os senhores entenderem. Garantiram-me que as meninas boas iam para o Céu e as más para toda a parte, e por isso sei estar em turismo pois que ainda me falta ver mundo. Se vos puder ser útil, estarei ali a banhar-me no Aqueronte. Mas recordai-vos, senhores, que em breve aqui passará Aasvero.

Cérbero ganiu quando me ouviu, as três cabeças rapidamente metidas debaixo do rabo único oferecendo um espectáculo grotesco, enquanto demónios e diabretes se arranhavam e embestados chamavam pelo Filho da Manhã, filho da outra que fosse mas que lhes valesse.

São Pedro benzeu-se, e imediatamente pediu a um querubim que largasse a harpa e corresse a chamar alguém, Os Três se possível.

Reuniram-se ali mesmo, Prosérpina representando o marido que atracava ainda a Barca. Alighieri murmurou algo e Lutero acenou, maquiavélico. Deus perguntou que diabo fazia ali, pois era claro que os portões do Céu nunca se abririam para Hitler e nem sequer percebia porque continuava ele no Purgatório, não haveria purga que lhe valesse por muito que alguns lhe quisessem lavar a memória. A isto respondeu Plutão estar sobrelotado, que o seu Reino não era nenhum condomínio fechado como o Paraíso e que no Vale do Flegetonte não cabia nem mais uma alminha, que por muito que quisesse… Mas está na hora de passar Aasvero, sussurrou-lhe Perséfone, Hades conseguir um canto será fácil, perante o pandemónio que se avizinha aqui no Ante Inferno... Porra, Cérbero, gritou a Besta, pára de ganir e deixa o baixote entrar, nem que rosnes o Constantino I para os Quintos dos Infernos! O Limbo é um espaço neutro, não pode haver sequer insultos – nem pensar em ter aqui o Hitler quando passar o Judeu Errante!

Eu continuei a nadar, as águas estavam mesmo muito boas…

 

imagem recolhida no Eucaristia

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lançado às 15:00

um outro olhar

pequena nota técnica. e autobiográfica.

por Sarin, em 06.10.19

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Um processo é um conjunto de acções articuladas cujos procedimentos transformam entradas em saídas com um objectivo definido.

Parece uma definição complexa, cheia de aparentes tecnicismos; mas numa segunda leitura, reparamos que as palavras são de todos os dias. Os processos, se devidamente analisados, é que se revelam complexos - o que, felizmente, não significa serem difíceis ou serem demorados.

Se admitirmos, para efeitos da definição acima, que ir ao café é um processo, teremos como objectivo o ir beber uma bica ou comer um bolo ou estar com um amigo ou ir ler o jornal - ou tudo isto e o mais que apeteça.

As entradas serão essa qualquer necessidade de ir ao café, e também o transporte ou meio de locomoção, e ainda o dinheiro para pagar a despesa, e tudo o mais que for imprescindível para tal desidério.

As actividades incluirão a deslocação, o estacionar se for o caso, o entrar no café, o decidir se se fica ao balcão ou à mesa, o escolher outro bolo porque esgotou o que apetecia, o mexer a bica mesmo sem açúcar porque hábito, e todos os outros verbos que acontecem numa estada normal no café.

As saídas serão o talão da despesa, a satisfação obtida com a ingestão do consumido, a informação que se reteve na conversa com o amigo e a informação que se transmitiu, a informação que se colheu no jornal, e tudo o mais que resulte daqueles minutos.

Estas saídas serão entradas noutros processos, nossos e de terceiros - a informação trocada pode ser esquecida ou pode desencadear outras acções noutros processos, o documento de despesa entra na contabilidade (ou não) de cada envolvido, o  café provoca um disparo na sistólica, enfim, poderemos dizer que as saídas, as consequências, deste processo serão as entradas, as causas, de outros. (Quantas mais saídas inconsequentes, inaproveitadas, maior o desperdício - dir-se-à que o processo não é eficiente. Mas mesmo pouco eficiente só não será eficaz se o objectivo não for atingido - sair unicamente para beber café e falhar a electricidade, pois sem electricidade não há bica e a saída foi uma perda de tempo. Mas estas definições são aqui um à-parte. Uma minudência)

 

Sim, a abordagem por processos é complexa. Mas torna-se simples com o treino, mais simples ainda quando não limitamos esta abordagem ao meio produtivo, empresarial. E tudo isto pode ser feito usando palavras simples e olhando o quotidiano como uma sequência de processos diários.

Faço-o profissionalmente há mais de  20 anos, pouco tempo menos do que aquele que levo estudando, educando-me neste modelo. E fazia-o instintivamente há muitos mais, não sendo tão metódica, claro, mas desde que me lembro que apenas aceitava as causas e as consequências se percebesse o que estava pelo meio. Talvez por isso me tenha sido tão fácil adoptar este modelo, talvez por isso me seja tão imediata esta forma de olhar.

É esta abordagem que me permite identificar, à luz dos meus valores, a iniquidade de um gesto feito entre uma boa causa e uma boa consequência. A maioria avalia as consequências e as causas, fala nestas, hasteia estas. Eu, muitas vezes, deixo o que todos falam e detenho-me naquilo que parece não ser relevante - o tal gesto iníquo. Não significa que não concorde com esta ou com aquela opinião sobre as causas ou sobre os efeitos (as entradas e saídas). Simplesmente, deixo aos outros o que já dizem e vou-me ao pormenor, porque vejo o processo e vejo também as entradas e as saídas que nada têm a ver com o objectivo anunciado. E aponto-as, por vezes apenas em jeito de breve comentário - mas fica o registo, minúsculo entre o vozear dos outros.

Porque para mim os fins não justificam os meios. Não me lembro de alguma vez o terem justificado, mesmo em miúda tinha consciência da tibieza do argumento do bem maior quando o mal menor são os outros que o suportam. E também não imagino forma de o virem a justificar - uma outra forma de dizer que, sendo possível vir a admitir o contrário, não será muito provável que algum dia aceite os fins independentemente dos meios.

Repito: os fins não justificam os meios. Quando importa saber o que se passa, onde muitos clamam "Que se lixe o segredo de justiça!" eu grito "Haja respeito pelo segredo de justiça! Mas expliquem porque está esta matéria em segredo de justiça!". Quando se exige justiça, onde muitos proferem "Que se lixem as leis, faça-se justiça!" eu vocifero "Faça-se justiça, e para isso revejam-se as leis!".

Sei que a minha abordagem confunde muita gente, e até me grangeia mimos que vão de burra a apoiante de assassinos. Mas não peço desculpa pela forma como vejo o mundo, e tenho pena que a inteligência que em alguns é imensa lhes escasseie na hora de perceber que estar contra alguém não significa aceitar todo o tipo de ataques feitos a esse alguém.

A tal abordagem por processos. A tal iniquidade entre a justa causa e a digna consequência. À qual fecham os olhos mas que a mim me indigna - porque ignorar a iniquidade tem preço, ainda mais em tempos de tantas iniquidades, de tantos atropelos aos factos, atropelos à Democracia, atropelos aos Direitos Humanos.

É a minha postura. E não serão os mimos que me farão mudar.

A ti digo lamentar que a raiva te tolde a visão. Ou talvez nunca vejas a minha perspectiva e não há visão a toldar, a raiva apenas mostrando o quão cego estás. Podes invectivar-me como e quanto te apetecer, não me ofende quem quer senão quem me merece consideração. E até isso muda, por muito constante que eu seja. Faz parte do processo.

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lançado às 15:55

desafio de escrita dos pássaros #4

por Sarin, em 04.10.19

[Tema #4: A Beatriz disse que não. E agora?]

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Beatriz disse que sim

Beatriz disse que não, e o adro fechou-se em miséria. Entreolhando-se, envergonharam ao peso da negação. Mas… não podes dizer que não! sussurraram os mais afoitos, alquebrados na certeza de a aldeia sofrer as consequências. E desta feita seriam terríveis!

Não era a primeira vez que Beatriz recusava a obrigação, mas como o homem lhe morrera ainda ela de azul, as migalhas de pão adornando-lhe os cabelos, até Martim, o calado e enorme ferreiro, dissera que seria por ela caso a obrigassem, os esponsais ainda a correrem e ela já viúva, como lho exigis?

Mas desta era diferente.

Recusado o cunhado que lhe quiseram impor como marido, meia aldeia revoltou-se ruminando a desgraça que duas recusas convocariam do Castelo. E Beatriz que viessem, que o azeite da lamparina arderia nela e no primeiro que a quisesse justiçar. Depois foi ao almocreve que a quiseram unir, talvez que para longe a leve, e ao infortúnio, os impostos mais pesados por ela desde o primeiro não. Mas também a este Beatriz se negou, as alcoviteiras chorando os trapos perdidos pela teimosa rapariga.

Foi, assim, no espanto de a Beatriz disse que sim! que a aldeia bebeu a gargalhada à entrada da missa, Martim tomando-a pela cinta e erguendo-a acima dos ombros, a esquiva Beatriz hasteada como santa por aquele gigante que sorria e a reclamava como esposa.

O casamento celebrou-se à pressa, do Castelo os sons dos cascos abeirando-se, os aldeões encolhendo-se para melhor verem os noivos, para melhor esconderem o frio de fim de tarde, fim de Setembro, fim, talvez, das suas provações.

Beatriz e Martim corriam o adro quando a roda de cinco cavaleiros os estacou, o Castelo exigindo o seu imposto. Não! atirou Beatriz. Os menos medrosos insistiram, Mas… não podes dizer que não!, o padre suplicando à Virgem que tivesse pena deles. Não! repetiu. A Beatriz disse que não, e agora? ribombou Martim, crescendo ainda mais com a sombra da noite e da espada que lhe gemia no punho, saís-nos da frente e deixais-nos passar, ou terei de rachar-vos ao meio?! O castelão e os cavaleiros a avançarem e Martim a rechaçar-lhes o crânio, Beatriz virgem empunhando a voz, Não! De mim não gozarás o direito de pernada!

O dia amanheceu-os muitas léguas depois, os rostos felizes e cansados, as saias azuis vermelhas a espaços – Beatriz dissera sim à liberdade de corpo inteiro.

 

Nota de roda-viva: O AO90 jurou-lhe amor eterno. A Beatriz disse que não. E agora? Esconda-se algures, desprezado...

Imagem: Vanilla Magazine

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lançado às 15:00

Obrigada por estar aqui.




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