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Imaculadamente Corruptos

por Sarin, em 12.07.19

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Há uns dias surgiu a notícia de que a campanha de reeleição de Cavaco Silva teria sido financiada pela ES Enterprises. Na mesma notícia constava que os crimes, a serem provados, teriam já prescrito.

Hoje (na verdade, ontem) um colectivo de juízes de Braga considerou provados os crimes de corrupção perpetrados por dois autarcas do PS da mesma cidade, que aceitaram subornos para favorecerem a MAN no concurso público de adjudicação de transportes públicos para o município. No entanto, não pôde aplicar qualquer pena aos infractores pois "os crimes prescreveram" (os crimes não prescrevem, mas sim os prazos para os julgar ou para aplicar penas).

Temos muitas situações destas num passado próximo, quem não se lembra do caso dos Submarinos? Temos muitos casos em investigação que, eventualmente, sofrerão destinos semelhantes, quem se lembra do Tutti-Frutti ou do Tecnoforma - alguém voltou a ouvir falar destas investigações? Mas interessa-me o presente e o futuro, e por isso deixo para outros a missão de relembrar as muitas vergonhas nacionais.

 

Os magistrados do Ministério Público queixam-se de falta de meios, o que não será um factor a desprezar. É impossível investigar em tempo útil se não há pessoal suficiente, se não há equipamento adequado, se se choca em barreiras legais.

Falar de equipamento e de pessoal implica falar de custos e orçamentos, e sobre estes as únicas certezas que tenho é nunca haver suficiente para o que é do Estado, mal-grado haver para privados e para a banca. Mas as leis, as leis são feitas pelos deputados. Podem ser alteradas. 

Sendo unanimemente reconhecido que um dos nossos principais problemas é a Corrupção, como podemos continuar a aceitar a prescrição de processos e a prescrição da aplicação de penas em crimes que lesam o Estado?!

Pergunto-me se não existirá um mecanismo de controlo dos prazos a que cada processo está sujeito, de acordo com as molduras penais definidas. Porque estranho que não se usem os prazos como critério de agendamento, que não se dê primazia nem urgência a processos em risco de prescrição. E estranho que as prescrições aconteçam essencialmente com este tipo de processos.

Por outro lado, como podemos compactuar com a manutenção de gente condenada por crimes de colarinho branco em cargos de gestão da coisa pública? Pior, como é possível que sejam elegíveis como nossos representantes - e que sejam eleitos como representantes de seja o que for que não dessa mesma corrupção que todos lamentam?!

Defendo que, depois de cumprida a pena, o cidadão pagou a sua dívida à sociedade e merece a reintegração. Mas não defendo que o registo criminal seja ignorado: há crimes que, por terem sido perpetrados, devem suspender (suspender, não anular) o direito ao exercício de determinadas funções, entre elas os cargos políticos. E que devem constar num registo público que perdure após a eliminação de crimes e sentenças do registo criminal.

Vou mais longe: mesmo sabendo da perversidade inerente à acusação de inocentes, arrisco-me a alvitrar que a nossa democracia é suficientemente estável para que se determine a suspensão do exercício de cargos públicos e a inibição de candidatura a tais cargos quando (e enquanto) os cidadãos sejam constituídos arguidos. Porque o direito ao bom nome é pertença do indivíduo mas também das instituições - e o Estado é a instituição por excelência.

 

nota: verifiquei que, mais uma vez, há parágrafos cujos caracteres sobressaem. Não é intencional, será corrigido assim que possível.

imagem em Último segundo

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As propostas dos partidos

por Sarin, em 08.07.19

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As Legislativas estão ali, ao virar da época pateta (desculpem lá o portuguesismo, mas não lhe encontro grande diferença para as outras). Aproximam-se virginais e os candidatos, nervosos como noivos, prometem mundos e fundos, até a Lua. Sabemos que, mesmo que o pretendam, não conseguirão cumprir todas as promessas.

Mas será interessante comparar o que propõem, pelo que é exactamente isso que me proponho. Não sei se conseguirei acompanhar tudo o que será divulgado, dito, insinuado pelos próprios sobre políticas fiscais, sociais e mais e mais... pelo que agradeço a vossa preciosa colaboração. Sintam-se em casa.

 

SOBRE O IRS

Na sexta-feira, o Expresso dizia que Rio promete baixar o IRS a salários até 3000€.

Ontem, o ECO anunciava que "PSD quer reduzir IRS a quem ganha entre mil e dois mil euros por mês".

Hoje, o ECO explica a abrangência desta redução:

Quase dois terços dos trabalhadores recebem menos de mil euros

Falamos de qualquer coisa como 390 000 e 625 000 pessoas. É muita gente. Serão, de grosso modo, 500 000 a recuperar poder de compra.

Mas nada é dito sobre os escalões abaixo dos 1000€. Os tais 2/3 de empregados por conta de outrem. Nem sobre o regime dos trabalhadores independentes, os mais penalizados.

 

Entretanto, o ECO anuncia que o Iniciativa Liberal propõe taxa única de IRS de 15%. Para todos os ordenados acima dos 650€. Para "reter talentos nas empresas", diz o seu presidente.

Um fosso lindo. 15% num ordenado de 650€ não causa a mesma mossa que num de 2600€. Causa muito mais, atendendo ao custo de vida que, de acordo com a Mercer, coloca Lisboa como a 95.a cidade mais cara das mais de 500 analisadas . Mas se é por causa dos talentos, compreendo - são Liberais na economia, as pessoas vulgares com empregos vulgares e ordenados vulgares (2/3 abaixo dos 1000€, recordo) são vulgares porque o Estado lhes não permite explorar o seu potencial e revelar o seu talento. Reservo o resto do comentário para quando chegarmos às políticas sociais.

 

E SOBRE O IRC?

Diz a TSF que Rui Rio prometeu uma redução gradual deste imposto em 4% ao longo da legislatura. Portanto, para todas as empresas. Apesar de pretender aumentar a competitividade das PME, o imposto é apresentado sem escalões, ao contrário do IRS. Lamentavelmente, não creio que seja omissão.

 

NÃO ESQUEÇAMOS O IVA

Também sobre o IVA as notícias são promissoras: o Público afirma que Rio promete redução do IVA para 6% na electricidade e no gás. Concordo, a energia é fundamental e situações há que eu isentaria de IVA. Mas e os combustíveis? Porque diabo ninguém fala da redução do IVA nos combustíveis?

 

NOTAS DE RODAPÉ

Este postal irá sendo acrescentado à medida que os jornais nos forem participando as propostas dos partidos. Haverá uma altura em que surgirão os programas políticos, mas esse será assunto para outra comparação.

As perguntas dfíceis deixo para a campanha - porque, à semelhança de tantos, também eu acho que um Estado que financia a Banca não sentirá tão pequeno decréscimo nos cofres do Estado como o proposto pelas propostas fiscais à data compiladas. 

 

Entretanto...

... acompanhemos a Saga Berardo e valha-nos este neste Verão, porque Salgado tem fortuna mas em Gotham só se fala em vender os quadros que estão expostos e entregues ao Estado. E ainda me dizem que não é pelo verniz...

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Estive afastada uns dias. Não foram férias, mas foram férias das notícias. E quando volto, neste Verão envergonhado com tanta falta de vergonha, deparo-me com esta história da ES Enterprises, o think tank dos BESt entrepreneurs vulgarmente conhecida como Saco azul do BES, a financiar a recandidatura de Cavaco Silva. Cavaco Silva, lembram-se? Sim, esse mesmo

E na leitura da notícia fico, assim de repente porque ainda em aquecimento, com três dúvidas incómodas:

1) Financiou ou suspeita-se que terá financiado? Para não variar, em vários jornais o título difere do corpo da notícia nestes nada pormenores;

2) A campanha ter sido financiada implica conhecimento do ilícito por parte de Cavaco Silva? Não gosto do sujeito político, acho que foi um muito mau Primeiro Ministro e um péssimo Presidente, mas o desprezo político não me impede a indignação com a suspeição assim lançada sobre o nome do cidadão;

3) Se está em investigação no DCIAP como é que a revista Sábado teve acesso, os documentos estão abertos a consulta pública? Não me convence, aquela frase "Explica a Sábado que, no decurso da sua investigação a estes donativos, apercebeu-se que “o alegado financiamento a Cavaco Silva também está sob escrutínio no DCIAP”".

 

Claro que nada mais posso fazer do que apontar as dúvidas e incongruências das notícias, reservar as minhas suspeições e aguardar como aguardo nos outros casos em que a Justiça está metida ao barulho - e sim, barulho, ruído, é exactamente disso que aqui se trata: perceber onde começa a notícia e acaba o ruído, ou vice-versa. 

 

Por falar em Justiça, anda aí uma grande, enorme polémica que, desconfio, me dará para alguns postais... e eu que contava com as temperaturas mornas desta silly season para, finalmente, fazer praia!

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A propósito da demolição do edifício conhecido como Prédio Coutinho, tenho lido muitas vozes indignadas contra a autarquia e a favor dos dos moradores, menos vozes contra estes. Bom, eu serei uma destas.

 

O edifício foi autorizado em 1972, licenças e condições e tudo o exigido à data.

Logo em 1975 se apontou a inadequadação do edifício, dada a altura e o meio envolvente. Desde então várias foram as tentativas para corrigir aquilo que, nitidamente, é um monstro urbanístico. Chegaram até a tentar reverter o número de pisos para metade; mas alguns dos moradores, cientes talvez da paisagem e do sossego de que usufrem lá nas alturas e da centralidade quando descem à rua, têm recusado todas as abordagens.

 

Aparentemente, e contrariando o que muitos escreveram e escrevem, os moradores tiveram várias propostas de aquisição e realojamento - diz o Jornal Económico que 1,9 milhões de euros estão ainda disponíveis para levantamento. Não conheço o mercado imobiliário em Viana do Castelo, mas 200.000€ em Leiria compram um bom apartamento e com condomínio moderado - a electricidade e a manutenção dos elevadores são parcelas pesadíssimas, e num prédio de 14 pisos não deverá ser pequena. [Por falar nisso, estará o contrato de manutenção em vigor? E se não, usam os elevadores em clara violação da lei? Pormenores...]

Assim, temos de um lado uma autarquia que pretende adequar a paisagem, o centro da cidade e o meio envolvente, e do outro 9 idosos que se recusam sair da casa onde vivem há quase 50 anos. Tudo indica que serão os mesmos que têm recusado qualquer alternativa desde que a "casa cheia de memórias" cheirava a tinta e a memórias nenhumas.

 

Não defendo que o bem maior sirva para atropelar arbitrariamente os direitos individuais. Mas viver em sociedade obriga a algumas opções em nome da comunidade e em detrimento do indivíduo.

 

E pergunto: se uma obra agride nororiamente o meio envolvente, não deve ser demolida? Deixamos perpetuar o erro ou, talvez, o favor de um funcionário camarário, chefe de gabinete, secretário de Estado, ministro do Ambiente?

 

Sei que é moda não responsabilizar quem autoriza tais atrocidades em Portugal. Que construir diferente do que está autorizado vale a pena, o dono da obra paga uma coima e a obra segue. Mesmo que construída fora de zona urbanizável, embarga-se a obra até mudar o PDM ou mudar quem a autorize. E assim seguimos com moradias em arribas, com edifícios industriais em bairros habitacionais, com prédios desmesuradamente altos nos centros urbanos, com moradias  em locais isolados e depois ai os deuses quem acode se sem saneamento sem acessibilidade sem segurança, e o erário público que não seja púdico e pague.

Se acabamos por pagar, prefiro pagar para corrigir o erro.

 

 

imagem recebida há muitos anos por email; desconheço o autor, mas agradeço-lhe o registo de algo que também eu vi no acesso à A15 em Rio Maior

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Passando os olhos no portal Sapo, deparei-me com aquilo que supus ser uma nova resposta para o Brexit: os britânicos andam a besuntar-se com óleo de cozinha. A moda, repassada das brumas dos anos 70, promete um bronzeado mais bonito e já granjeou o apoio de 1/5 dos britânicos, . Para quem acredita em carapaus de corrida, fritar por fritar, ao Sol terá talvez melhor saída...

Descubro também que as selfies têm matado mais nos últimos 10 anos do que os temidos ataques de tubarões. Estranhei a notícia, então e os problemas ambientais e as capturas? Reli: afinal estava escrito ataques de tubarões, não ataques a tubarões. Assim, faz sentido!

Mais à frente, leio algo sobre uma foto que está a causar polémica. Espantada por ser apenas uma foto, abro a notícia e vejo que a polémica volteia em torno das mamas descaídas de uma cantora que usou um decote profundo numa gala dos BET Awards. De uma mulher que se aceita e gosta das mamas que tem mesmo que o mundo diga que a norma não é mamas naturais mas seios arrebitados. Palavras para quê? Estou contigo, miúda!

Volto à secção das notícias menos ligeiras, e descubro um artigo intitulado "Pouco dinheiro para férias?" Supus ser um excelente artigo para mais de metade da nossa sociedade, para aqueles cujo salário acaba antes do mês; mas não havia lido o título completo, parece que, por pouco que seja o dinheiro, há sempre uma ou outra cidade por onde se pode veranear. Pouco dinheiro parece ter, afinal, o Jornal Económico, que nesta notícia despiu cabeçalho, uma linha e duas fotografias deixando nua uma notícia que o não é.

 

E pronto, foi isto.

Nota: Se chegados ao fim deste postal não percebem o que tem o texto a ver com o título, é porque não andaram nem andam a prestar atenção às Comissões de Inquérito.

 

 

imagem: está na caderneta de cromos

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"Não pares, não pares"

por Sarin, em 26.06.19

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"O Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, sublinhou hoje que o combate à corrupção “é uma grande prioridade” desde o início do seu mandato, e vincou que o país “não pode parar” com as investigações."  leio no Sapo 24.

Isto quer dizer exactamente o quê? Que Marcelo está pessoalmente empenhado comprometido dedicado ao combate à corrupção? 

E pergunto-me: acaso as investigações parariam se Marcelo pedisse com jeitinho? Ou será por Marcelo pedir para não pararem que Lucília Gago irá diligentemente prosseguir o seu trabalho?

 

Que tem feito Marcelo, afinal e concretamente? Penso que o nosso Presidente se poderia, nos poderia poupar a estes desconchavos acarinhadores. Melhor lhe ficaria se a nós se dirigisse e explicasse o incumprimento das resoluções do Grupo de Estados Contra a Corrupção (GRECO) do Conselho da Europa, supra União Europeia, portanto. Nos dissesse quão longe estamos dessa implementação, nos falasse dos relatórios de avaliação e os traduzisse na sua linguagem de quem conversa em família, que manifestasse a sua preocupação por tanto haver ainda a fazer - devo relembrar o senhor Presidente da República, tão preocupado com as eventuais? supostas? alegadas? paragens das investigações, que uma simples Comissão Eventual para o Reforço da Transparência, eventual como era demorou mais de dois ciclos legislativos para parir um documento que mereceu sérios reparos de quem o teve que validar?

Acredito que seria menos verbo de encher se pedisse, exortasse o Parlamento e o Governo a desenvolverem, a verterem claramente no nosso ordenamento legal todas as recomendações que estão por implementar. Pelo menos ficaríamos a par dos incumprimentos de resoluções concretas. Seria agradável, por uma vez que fosse, que a nós se dirigisse directamente e explicasse que o país não cumpre resoluções tomadas no âmbito de convenções pan-europeias e que por isso exigisse explicações a quem de direito.

Agora, pedir que as investigações não parem? A sério, isso é o quê?!

 

 

imagem : Rapaz a jogar ioió (medalhão de cílix ático , 440 A.C.). de domínio público

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Latim latão

por Sarin, em 17.06.19

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PQP é o reverso do Quid Pro Quo.

Cui bono, certo?

 

Vem este latim latão a propósito de nada. Ou talvez de tudo e eu apenas precise de férias.

 

 

 

imagem, Cavalo de Tróia, recolhido no A Filosofia Está no Ar

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Pois não sei se

<<as notícias publicadas contra ele servem para desviar as atenções de “pessoas que cometeram crimes e abusaram de um sistema (...)">> 

mas tem toda a razão ao dizer deste sistema

<<"que, sobretudo até 2008, concedeu à supervisão bancária poderes legais limitados e assentou numa excessiva confiança na gestão privada dos bancos e na pretensa autorregulação dos mercados financeiros”>>

Isto diz Vítor Constâncio no jornal Expresso sobre processar o jornal Público, noticia o Jornal Económico

 

1. Acho muita graça a este excesso de jornais, noticiar num o que alguém diz noutro sobre um terceiro.

Por outro lado, a declaração de intenção individual, o "ir fazer", já foi elevada a categoria de notícia. Por antecipação da dita, suponho. Resta-me o consolo de saber que, se entretanto o protagonista mudar de ideias, estarei a braços com a pertinente dúvida de ter isto sido ou não uma fake news; e, não mudando, com a desconcertante certeza de que os mesmos jornais publicarão uma notícia que, afinal, já não o é.

 

2. Não acho graça nenhuma a estas sanhas persecutórias que analisam o passado exigindo-lhe mecanismos que então não existiam.

Nada de confusões: a inexistência dos mecanismos deve-se aos mesmos agora auditados tanto quanto aos, senão os mesmos então primos (mas não inter pares), auditores. Não invalida a sua responsabilidade, apenas a reflecte noutro ângulo da mesma questão.

Fossem os senhores deputados tão diligentes a balizar os objectivos das leis como são os advogados a avalizar as letras e os créditos, e não apenas lhes seriam mais fáceis as audições como, até, desnecessárias. Porque, entretanto, a banca continua assaz desregulada e as comissões parlamentares de inquérito já fazem parte do rico anedotário nacional.

 

3. Desconheço os pormenores da trama entre Constâncio e o Público. Reconheço apenas a constância da coisa: nós, público, seremos sempre os tramados. Talvez porque nos mantenhamos isso mesmo, público, desengraçada assistência, e desgraçadamente não assistamos à coisa pública quando precisa de nós.

E tu, onde estavas?

 

 

 

imagem em Boho Weddings & Life

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Que vergonha

por Sarin, em 24.05.19

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Antes de entrar no postal propriamente dito, cumpre-me esclarecer que aprecio o Polígrafo, apesar de este ter muito a melhorar; que não conheço o verificador nem lhe conheço mais trabalhos; e que não conhecia, continuo sem conhecer, o colectivo responsável pelo texto avaliado. O que neste postal partilho resulta exclusivamente da leitura dos artigos em causa.

Esclarecida esta questão, sigamos...

 

O Polígrafo dá-me conta de que circula nas redes um texto [de um colectivo autodenominado Os Incorruptíveis] afirmando que os deputados portugueses custam 40 vezes mais do que os deputados espanhóis, e que vai verificar tais factos.

E eu li a verificação dos factos, e verifiquei que o verificador não verificou grande coisa, antes escreveu um texto em que apenas demonstra a sua confusão.

O verificador Gustavo Sampaio, doravante G.S., pessoa talvez muito competente que neste dia teve azar, falha logo na interpretação que dá às alegações: o texto que se propôs verificar fala em custo, o verificador diversas vezes entende salário. Mas já voltarei a esta questão.

 

G.S. começa por verificar os orçamentos, e corrige: o orçamento da Assembleia da República para 2018 foi de 104 909 890,00€, mas em Espanha as Cortes Gerais têm três orçamentos e não apenas um, que em 2018 foram os tais 54,5 milhões de euros, cf. indicado, acrescidos dos orçamentos específicos do Senado, cerca de 54,1 milhões de euros, e do Congresso, cerca de 39 milhões de euros. O que, segundo as contas do Polígrafo, contabilizaria cerca de 147 milhões de euros em Espanha contra os cerca de 105 milhões de euros em Portugal.

Seria quanto bastaria para desmontar a veracidade das alegações, factos concretos rebatidos.

Mas G.S. quis ir mais além, suponho que com o intuito de desmontar a proporcionalidade aventada por Os Incorruptíveis - afinal, mesmo com erro nos valores, até sem grandes contas se verifica que temos mais de 2/3 do orçamento espanhol para uma casa com um pouco mais de 1/3 dos deputados. [Relembro, como fazem no texto Os Incorruptíveis, que Portugal tem 230 deputados e Espanha conta com 616 pessoas, entre 266 senadores e 350 congressistas.]

 

Se até aqui G.S. foi claro, a partir deste ponto deixa de o ser, deixa de explicar, deixa de verificar. Confunde-se, baralha-se, opina - e factos, nenhum.

Apurar o custo per capita de um deputado não é verificar a sua folha salarial mas contabilizar todos os encargos relacionados com a manutenção do seu lugar. Portanto, de forma simplista, dividir o orçamento da Assembleia da República pelo número de deputados da nação. Como fizeram no tal texto que o Polígrafo verificou.

E se o verificador, diligentemente, se apressou a contestar tais contas avançando que os deputados espanhóis auferiram em 2018 cerca de 55 000€ e os seus homólogos portugueses apenas 49 000€ [sem explicar onde ou como apurou este valor], foi incapaz de explicar o que aconteceu ao remanescente do orçamento: nem apresentou o custo de cada deputado nem rebateu a proporção, ou desproporção, verificada em ambos os lados da fronteira.

 

Em compensação, pespega no artigo 

"No caso de Espanha, acrescem as 17 comunidades autónomas e respetivos parlamentos (em Portugal há apenas duas assembleias regionais das regiões autónomas da Madeira e dos Açores)"

informação que apenas faria sentido se os orçamentos dos parlamentos  das regiões autonómas saíssem dos orçamentos dos parlamentos nacionais. Que não saem. Já se pretendia evidenciar a quantidade de deputados (17 regiões e províncias deles contra as nossas 2) e, com isso, o esforço orçamental adicional em terras de Espanha, teria sido interessante que tivesse analisado os respectivos orçamentos e o número de deputados em causa - por exemplo, a Catalunha tem 136 deputados para cerca de 7,5 milhões de habitantes, La Rioja tem 33 deputados  para cerca de 300 mil habitantes, a Madeira tem 47 deputados para perto de 255 mil habitantes. [não tive oportunidade para averiguar os orçamentos de cada um, mas também não é esse o objectivo do postal]

 

Apresentando unicamente os valores dos orçamentos dos parlamentos nacionais e do tal valor auferido pelos deputados - que, repito, não foi justificado - G.S. termina aquilo a que chama verificação de factos dizendo que as afirmações de Os Incorruptíveis são falsas porque sustentadas "Partindo mais uma vez de números errados quanto aos orçamentos e fazendo cálculos pouco rigorosos a partir dos salários médios, dívida pública e PIB de cada país."

Assim. Confundindo salário com custo, sem apresentar contas nem fontes, abstendo-se de explicar o raciocínio que lhe permita sustentar os "cálculos pouco rigorosos" e adicionando informação desnecessária.

 

É preciso ter muito descaramento para escrever  um tal artigo e chamar-lhe verificação de factos, mas parece que é o que vamos tendo mesmo nos que desejamos "jornais de referência".

 

Nota: apesar de Os Incorruptíveis terem errado as contas e apresentado uma relação acima da real, ainda assim a diferença entre os dois países é acentuada. Seria bom dedicarmos mais tempo a pensar estas contas, estes orçamentos, estes retornos.

 

Este postal não é apenas sobre uma vergonha.

3524B168-9A23-4980-B3D1-2B8C4A138D93.jpeg Foto de Eduardo Gageiro, recolhida em Parlamento

 

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Dia de Reflexão

por Sarin, em 23.05.19

Não sei em quem votar.

Não vejo os candidatos a defender qualquer posição,  projecto, ideia, ou, pronto, uma frasezita decente sobre a sua relevância no Parlamento Europeu. Nenhum me diz o que pretende fazer por lá, o que me deixa à consciência divagar o que quiser, que isto de ter opinião fundamentada exige ter onde a fundamentar, e o que resta é pré-conceito e imaginação...

 

Os nossos deputados candidatos a deputados dizem o que acham sobre o comportamento dos outros. Concordo que as políticas internas têm de ser coerentes com as posições defendidas em Bruxelas, mas com o debate centrado no que não foi feito é capaz de ser difícil apanhar o fio, não?

Fora das mesas onde se esperava que debatessem, eles gritam e gesticulam e riem alto e dão abraços nas feiras e nas ruas, e raios me partam se não fariam um brilharete como claque no Jamor!

Agora, como deputados candidatos a deputados... parecem não saber o que estão a fazer. Um houve, até, que não estando bem ciente do que anda a fazer, teve dúvidas também sobre o que fez e pediu ao Polígrafo para verificar. Então o deputado não poderia ter elencado, como tanto gosta de dizer, as tarefas a que deu corpo? E, necessário fosse, ter arrefinfado com as actas nas câmaras fotográficas de quem o disse preguiçoso, quiçá inútil? Só por ter pedido assessoria para algo tão ao seu alcance, deixou-me desconfiada das suas capacidades e desvelos. Ainda mais desconfiada, convém esclarecer.

 

Como vendo ouvindo e lendo esta gente não me safava, fui fazer os testes que por aí aconselham a quem tem dúvidas. Fiz e refiz, valha a verdade, e não adiantou: sei que projectos defendo, o problema é que, escolhendo os tais projectos, os resultados me devolveram deputados - e se é para ficar presa em rotundas, vou ali à do Sinaleiro que, dizem, ficou bem gira.

 

Portanto, vou mesmo ter de ignorar o futuro e olhar ao comportamento do passado. Torna quase irrelevante o tempo que dedico aos pequeninos, mas é o que há.

 

De qualquer forma, hoje é só Quinta, Sábado é que é dia de reflexão e, já agora, sempre visito a Feira.

 

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imagem: Visite Leiria

 

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