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Lembretes ao olhar a televisão

por Sarin, em 26.11.19

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Para alguns, parece que a Democracia começou com o 25 de Novembro.

Mas sem o 25 de Abril não haveria 25 de Novembro. Não haveria coragem para pedir mais ou pedir menos, não haveria liberdade para o anunciar, não haveria liberdade para agir ou reagir. Honra lhes seja feita, Vasco Lourenço e Ramalho Eanes sabem que o 25 de Novembro não foi o que alguns querem que tenha sido.

Sabem que os que venceram o 25 de Novembro não teriam feito o 25 de Abril se não fossem instigados - e que tudo ficaria como estava.

Sabem que os que se alcandoraram no 25 de Novembro são os mesmos que aos membros das FP25 chamaram terroristas mas que aos do ELP deram a amnistia. E a vantagem do secretismo. E a garantia do imaculado currículo. E que, assim, deixaram mais de uma dezena de mortos sem justiça. Mas isso de Justiça só interessa para alguns.

 

Pela televisão verifico que em 24 de Abril não era muito diferente. Nem sequer aquela mania das amnistias e do fingir que nada se passou.

Fica-lhes bem, a feia cara sem máscara. 

imagem: Marcelo Caetano em Conversas em Família, Arquivo RTP

[há dias de muita inspiração. outros que não. nada como espreitar também os postais anteriores]

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lançado às 22:50

O que querem as crianças pelo Mundo

por Sarin, em 20.11.19

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A UNICEF tem no seu sítio oficial um conjunto de vídeos com as reivindicações de crianças de todo o mundo.

É interessante. Mas é mais: é importante.

Porque é importante ouvirmos o que têm a dizer as crianças quando se cumprem 30 anos sobre a Convenção que lhes consagrou os Direitos.

 

Se tiverem interesse, podem acompanhar aqui.

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lançado às 18:15

Dia Mundial da Criança

quase seis meses depois

por Sarin, em 20.11.19

Tristemente, pouco ou nada tenho a acrescentar ao que disse no dia 1 de Junho. Por isso, reedito esse meu postal. 

 

Oficialmente, o Dia Mundial da Criança é o 20 de Novembro.

Porque foi no dia 20 de Novembro de 1959 que na ONU se assinou a Declaração Universal dos Direitos da Criança. E foi no dia 20 de Novembro que em 1989 se assinou a Convenção dos Direitos da Criança.

Esta convenção é, apenas, o tratado internacional mais ratificado de sempre: 192 dos 193 países reconhecidos junto da ONU são aderentes. A excepção são os EUA.

 

Mas o dia 1 de Junho já anteriormente havia sido declarado Dia Internacional da Criança... em 1925, durante a Conferência Mundial para o Bem-Estar da Criança realizada em Genebra, 

Por isso, em 51 países o Dia da Criança continua a ser celebrado a 1 de Junho.

Mas apenas 115 países dos mais de 200 países existentes no Mundo comemoram esta data - ou melhor, 114, pois no Japão não se comemora o Dia da Criança mas sim o Dia das Meninas (3 de Março) e o Dia dos Meninos (5 de Maio), uma evidência de quão profundamente a sociedade nipónica ainda é machista.

 

A Convenção dos Direitos da Criança não é um mero quadro de boas intenções: é um tratado internacional, um documento que deve ser vertido na legislação de cada um dos cento e noventa e dois países que a assinaram.

Assenta em quatro grandes pilares, transcritos exactamente como constam no sítio da UNICEF:

  • não discriminação, que significa que todas as crianças têm o direito de desenvolver todo o seu potencial – todas as crianças, em todas as circunstâncias, em qualquer momento, em qualquer parte do mundo.
  • interesse superior da criança deve ser uma consideração prioritária em todas as acções e decisões que lhe digam respeito.
  • sobrevivência e desenvolvimento sublinha a importância vital da garantia de acesso a serviços básicos e à igualdade de oportunidades para que as crianças possam desenvolver-se plenamente.
  • opinião da criança que significa que a voz das crianças deve ser ouvida e tida em conta em todos os assuntos que se relacionem com os seus direitos.

 

E, no entanto...

... são cerca de 15000 as crianças com menos de 5 anos que morrem diariamente.

... a cada 7 minutos morre um adolescente de forma violenta; em 2015 foram cerca de 82000.

... um quarto das crianças com menos de 5 anos não está registada. Sem registo não há certidão, sem certidão não há acesso aos cuidados de saúde ou à educação.

... em África, 38,6% das crianças em meio rural e 25,7% em meio urbano estão subnutridas.

... 61 milhões de crianças em idade escolar nunca andaram na escola nem frequentaram o ensino básico.

... há países onde nem todas as escolas têm água canalizada, instalações sanitárias ou promovem a higienização: são 58 os países onde nenhuma escola tem água canalizada, 49 os sem escolas com instalações sanitárias básicas e 70 aqueles onde as escolas não têm nem água nem  sabão para lavagem das mãos.

... há cerca de 152 milhões de crianças a trabalhar no mundo. Aproximadamente 18,2 milhões na indústria do vestuário e calçado, e cerca de 1 milhão na extracção de minérios para a indústria electrónica, actividade que também facilita a prostituição infantil.

... cerca de 17 milhões de mulheres adultas oriundas de países com baixos rendimentos disseram terem tido sexo forçado na infância, e cerca de 2,5 milhões de jovens mulheres de 28 países da Europa afirmaram terem sofrido violência sexual antes dos 15 anos. Não há dados sobre a violência sexual contra homens, não quer dizer que não exista.

... ... ...

... porque há muito mais.

 

Que, dolorosamente, é também muito menos.

Menos atenção.

Menos cuidado.

Menos futuro.

 

 

E menos prendas, por favor:

Muitas das que hoje serão colocadas nas mãozitas das crianças felizes estão marcadas por mãozinhas de crianças sem riso. 

 

relembro as crianças no daesh,

ou, numa realidade oposta e mais nossa,

a Gaffe conta outra vez.

e mais poderia relembrar

mas, porque não perco a esperança,

deixo a ligação ao Tia! Tia! Tia!

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lançado às 14:35

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Os crimes relacionados com exploração de crianças já levaram, entre 1 de Janeiro e 31 de Outubro deste ano, à detenção de 207 pessoas. 

Estas detenções resultam da investigação de, e transcrevo,

2.206 situações inseridas na tipologia de crimes de abuso sexual de crianças, abuso sexual de dependentes, aliciamento de menores para fins sexuais, atos sexuais com adolescentes, lenocínio de menores, pornografia de menores, recurso à prostituição de menores e violação, contra crianças e jovens. (in Sapo 24)

O número de detenções indicado parece elevado, assustador: 207, duzentos e sete adultos agressores. Mas as denúncias foram 2206, pelo que, mais do que o número de detenções, assusta-me o que ficou por investigar ou por provar nestes 2206 casos que apenas conduziram à detenção de 207 agressores.

 

Por outro lado, a Associação de Mulheres Contra a Violência (AMCV), numa brochura que tem o patrocínio da Comissão de Protecção de Crianças e Jovens (CPCJ), diz que

O abuso sexual de crianças é três vezes mais comum do que os maus-tratos físicos a crianças. Dados estatísticos, que se acredita estarem subestimados (50-80% das vítimas não apresentam queixa), indicam que 25% das mulheres foram abusadas na infância. (in Abuso Sexual de Crianças, Mitos e Realidades)

Se a AMCV estiver correcta, então entre 1 de Janeiro e 31 de Outubro deste ano os casos de crianças vítimas de abusos sexuais não foram os supra-indicados 2206, antes se situam entre os 4412 e os 11030.

 

Como é possível?

Grande parte dos abusos ocorrem em ambiente familiar e são perpetrados por membros da família ou da vizinhança. Já o sabíamos de anos anteriores, e os dados deste ano não indicam alterações:

"Recorrendo ao critério de avaliação da relação entre vítima e agressor sexual prévia à situação crime, verifica-se a prevalência da relação de proximidade, entre vítima e agressor, previa à situação abusiva”, é referido.

Esta proximidade assume a natureza familiar, educacional, assistencial ou geográfica (vizinhança, por exemplo) e corresponde a cerca de 65% dos casos investigados. (in Sapo 24)

 

Então, se sabemos que em 10 meses 11030 crianças podem ter sido abusadas por familiares e vizinhos, por pessoas em quem, naturalmente, se habituaram a confiar...

... não será tempo de o Estado chamar a si a responsabilidade de educar as crianças para a auto-defesa?

Não será de pensar fazer da escola, incluindo a rede de infantários e ensino pré-primário, a primeira linha na prevenção dos crimes contra a autodeterminação sexual, seja pela explicação do direito à autodeterminação e à inviolabilidade do corpo, seja pelo ensino de mecanismos de resposta e de busca de apoio em situações de ameaça? 

Porque dotar centros médicos e escolas com mecanismos de detecção do abuso não chega: uma criança a quem são detectados sinais de abuso é uma criança que já perdeu a infância, é uma criança traumatizada, é uma criança a quem os adultos falharam.

Falhar a 1 criança é-nos doloroso. Falhar, só este ano, a 11030 é-nos abominável.

 

imagem: quadro da série Crying Boys, de Giovanni Bragolin

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lançado às 18:57

Agá dois pó

por Sarin, em 17.11.19

Escrevi o devaneio publicado há pouco, Agá dois ó p'ra mim, e pensei que uma música talvez aligeirasse a fatuidade da coisa

Geralmente tais devaneios nascem e morrem sem verem a forma das letras, mas este não teve tal sorte pois que me encontrou frente ao computador e com um rascunho aberto.

Enfim, estando escrito mais valia publicá-lo - tenho sido pouco produtiva, e ontem disseram-me ser eu muito "política" [não, não foi ofensa - se foi, não me senti nada ofendida, pelo contrário], portanto aproveitei a coisa para desmistificar a minha pessoa: eis-me despolitizada, desconfio que até desneuronizada, durante aqueles minutos para sempre cristalizados. Tenho muitos minutos parecidos, apenas suponho não costumar embrulhá-los em açúcar. Tornemos à coisa.

Na senda da tal música que me aligeirasse o fardo de tão patético devaneio, desviei-me até ao You Tube: revisitei filmes do Charlie Chaplin, passei por tutoriais faça-você-mesmo ou diy, má-da-faca, diy, descobri músicas que nunca tinha ouvido e gostaria de assim ter continuado, encontrei muitos vídeos sobre o novo papão pó-de-talco e os mauzões da [pub] Johnson & Johnson.... 

... e parei nisto. Corrijo: não parei, pois que ainda busquei Siouxsie para o postal inicial. Mas detive-me neste vídeo. Nisto:

Inicialmente parecia adequado, pó e mais pó. Mas ao fim de vinte segundos de pó e mais pó suspeitei estar perante uma monumental chatice. Foi quando atentei no título:

"Satisfying Asmr Powder Play with Baby Powder"

 

Asmr? Seria gralha ou diminutivo para asthma? Fiquei curiosa, asma e pó-de-talco dariam uma comédia negra polvilhada a branco... mas não, o título não teria, assim, qualquer lógica. Supondo depois Asmr uma sigla ao estilo diy, fui procurar o seu significado. 

É uma sigla, sim, mas não ao estilo de: ASMR é sigla para Autonomous Sensory Meridian Response, em Português, Resposta Sensorial Autónoma do Meridiano. Também conhecida como Orgasmo Acústico.

Sorri e pensei que, afinal, esta sociedade da tecnologia e da informação ainda me consegue surpreender com as suas Bruxas de Salém. Sim, já sei, posso estar a ficar velha e céptica. Mas continuo asséptica perante tais contaminações porque, tenha eu que idade tiver, haverá sempre a sugestão de grupo: por cada indivíduo que experimente uma qualquer reacção, surgirão cem outros dispostos a jurar que também. Felizmente surgirá com eles o centésimo primeiro, aquele alguém disposto a estudar seriamente os fenómenos enquanto centenas cantam loas ou endechas por conta do assunto.

Tendo recuperado os neurónios que indiquei perdidos no terceiro parágrafo, afirmo-me céptica até surgirem estudos suficientes que me digam ser esta ASMR um facto científico. Ou até descobrir os sons de baixa frequência que me encherão de indescritível bem-estar, o que acontecer primeiro...

Enfim, percebi que o assunto, não me merecendo muita atenção, merecia um postal dedicado.

 

E continuo a preferir ser água.

 

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lançado às 10:05

V de vento

por Sarin, em 11.11.19

O senhor deputado Ventura, que felicitou publicamente o Vox pela sua entrada do Parlamento Espanhol, e que felicita publicamente o aumento da representatividade do Vox nas eleições de ontem, parece ter atenção quase nula deste partido.

Basicamente, o Vox parece estar-se marimbando para o que pensa dele o deputado que faltou a um debate para ir comentar desporto, parece estar-se marimbando para o partido que mantém um assim candidato preocupado com a política. Parece ter-se estado marimbando em Abril como parece estar hoje. Esteve certamente em Outubro quando, após deslocação de Ventura a Madrid para "criar uma plataforma ibérica" e convidar representantes do Vox para o comício de campanha, Abascal lhe enviou uma carta.

Talvez que o Vox tenha felicitado o Chega, e Ventura, pela sua eleição, mas nada vi pelos jornais espanhóis que vou acompanhando. Provavelmente porque os jornais espanhóis não são tão elásticos como os portugueses.

Enfim, o senhor deputado vai certamente continuar aos pulinhos.

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lançado às 14:48

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Estou cansada dos reaccionários que acham mal a saia do assessor e estou cansada dos progressista que acham bem a saia do assessor. Até estou cansada dos críticos de moda que não ligam ao manequim mas ao modelito, embora estes sempre tenham uma abordagem mais engraçada porque utilitária - a discussão do gosto pode ser útil.

O vestuário preocupa-me pelos atropelos sociais e ambientais que os trapos e as marcas que se exibem possam promover, não pelas figuras que propiciam que essas são com cada um. Talvez tenha uma cegueira selectiva que me bloqueia os pormenores, ou talvez me preocupe mais com a linguagem corporal ou com a harmonia dos gestos, não sei. Sei que acho uma perda de tempo discutir o que veste fulano - ainda mais perda de tempo quando fulano não está ligado à indústria da moda e da imagem. E acho absurdo, até deprimente, dedicar-se a nação a atacar ou a defender os trapinhos. Supunha que para isso existiriam as revistas cor-de-rosa e de glamour.

Se a roupagem é importante e há códigos a respeitar, então que se definam formalmente regras protocolares de indumentária - e aí qualquer atropelo deverá ser avaliado nas suas causas e nas suas consequências porque, então sim, contrariar os ditames será uma declaração política.

Agora, arrepelar cabelos por códigos estéticos não escritos? Neste século e nesta sociedade?! Olho os que falam no assunto e lembram-me vetustas alcoviteiras palrando sobre escolhas que não suas. E lamento a importância dada a trapos de lana caprina. Talvez isto seja mesmo a queda no precipício...

 

imagem: O voo de Ícaro, de Jacob peter Gowy). domínio público

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lançado às 18:59

Sobre o docente que agrediu o aluno

Uma resposta à Pequeno Caso Sério

por Sarin, em 28.10.19

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O docente agrediu o aluno. E foi notícia. E reabriu discussões que nunca estiveram encerradas.

A reacção

O docente agrediu o aluno. Foi chamada a autoridade de segurança e o professor foi detido. Foi decretada suspensão imediata e foi-lhe instaurado processo disciplinar. 

O aluno foi agredido. Foi observado no hospital. Foi sujeito a perícias técnicas. Foi decretado acompanhamento psicológico ao aluno e aos colegas de turma.

Pelo que li, o docente não é professor. É um técnico com habilitações suficientes para leccionar a disciplina. O sistema educativo prevê que possam ser docentes indivíduos com habilitação profissional, com habilitação própria e com habilitação suficiente para qualquer ciclo de estudos a partir do 2º Ciclo. Não é exigida uma formação adicional em pedagógicas, por exemplo. E eu não percebo como não são exigidas competências pedagógicas para leccionar até ao 3º Ciclo, dadas as médias de idades em causa serem inferiores a 15 anos. Também não sei se ou como as escolas comunicam as habilitações do corpo docente aos encarregados de educação, ou se associação de pais tem uma palavra na matéria - mas estranho este assunto não ser propalado. E sei que eu exigiria tal informação.

Também não sei que outros mecanismos terão as escolas para seleccionar os docentes mais adequados.

Faço aqui um aparte para falar dessas figuras interessantíssimas que são o Técnico de Segurança no Trabalho e o Médico do Trabalho. Aparentemente surgiram para onerar as empresas e criar emprego para uma série de gente que usa chapa 5 no seu trabalho. Bom, eu não sou uma dessas gentes - mas sou das outras, daquelas (muito poucas!) que exigem que técnicos e médicos façam o que lhes compete: avaliar as condições de trabalho, os riscos de segurança e saúde no trabalho e a aptidão física e mental do trabalhador para desempenhar a sua função face aos riscos a que está exposto. E levo isto tão a sério que me chateio seriamente quando vejo que o Estado é o primeiro a não cumprir. E que os MT, que tecnicamente deveriam ser os que decidem sobre doenças profissionais e encaminham para juntas médicas, muitas vezes nem saibam que os trabalhadores cujas fichas assinam com "APTO" têm graus de incapacidade profissional. Uma descoordenação terrível, uma terrível perda de dinheiro e de paciência. Ficaram com uma ideia, e volto ao tema do postal.

Os docentes têm ADSE (porque pagam para a ter, e este é outro assunto). Mas não têm Medicina do Trabalho. E como ninguém pode ser discriminado e os dados médicos são pessoais e intransmissíveis - daí a importância da Medicina do Trabalho! - não imagino como farão as escolas a avaliação do perfil psicológico de quem irá trabalhar com crianças. Mas parece que o cadastro criminal é quanto baste para atestar da idoneidade. Não sabendo quais os critérios de admissão à docência em cada agrupamento, e portanto esperando estar enganada, desconfio que não serão muito exigentes nesta matéria. Não é por nada, mas é só alguém que vai lidar com as nossas crianças. Com muitas crianças distintas em simultâneo.

Perante o acima exposto, e sendo contra a violência em qualquer contexto, a par de assacar responsabilidades ao professor, gostaria de assacar responsabilidades ao agrupamento escolar, à associação de pais, ao ministério e ao legislador. Porque TODOS permitiram que este docente fosse colocado naquela sala de aulas.

Acresce a completa penalização que vem sendo feita aos professores, o desrespeito que estes vêm vivendo por parte de todos os sectores. E a falta de educação que as crianças demonstram.

Onde está o processo disciplinar às crianças que desrespeitam os professores? O facto de os pais não educarem os filhos não obriga o corpo docente a lidar com insultos e desrespeitos impunemente. E por isto também gostaria de assacar responsabilidade aos agrupamentos escolares, às associações de pais, ao ministério e ao legislador, pois qualquer processo disciplinar acaba por ser inconsequente, coitadinha da criança que não é responsável... e não será enquanto não for responsabilizada - com medidas adequadas à idade e à infracção, obviamente.

Defendo há muito a criação de cursos de formação para pais. Não para lhes orientar os valores a educar, mas para os dotar de ferramentas que lhes permitam educar os filhos com os valores que entenderem. Pedagogia. Aprende-se em livros, mas só nos muito bons - e o que não falta por aí são maus livros para aprender a lidar com as crianças. Nem falta maus pais a despejarem os filhos nas escolas e a esperarem que os docentes façam aquilo que é competência dos pais.

Poderia ainda falar do nosso modelo de organização social, que contribui para a falta de tempo de qualidade entre pais e filhos - mas sendo verdade que o modelo não ajuda, infelizmente também não tem todas as responsabilidades. Fica para outros postais.

Discussão 2 - A Notícia

Vendo esta mini-reportagem da SIC Notícias, em que o representante dos pais dos alunos da sala de aulas explica (sic) o ocorrido dentro e fora desta, apercebo-me da impraticabilidade descrita: se o professor agarrou o pescoço do aluno de frente, segundo indicado pelas marcas descritas, nunca poderia bater com a cabeça do aluno na mesa a menos que o forçasse para trás (e o dano seria na coluna do aluno). A alternativa seria agarrar-lhe a face e bater com a própria mão contra a mesa, puxando e não empurrando.

Não pretendo analisar os contornos judiciais deste caso, não o faço em nenhum; apenas denuncio contradições ecoadas sem filtro.

Os órgãos de comunicação social congregam esforços para o sangue; os factos talvez nos venham a ser revelados um dia. Ou não. Mas nos entretantos, entre tantos, não esperem que eu acredite em tudo o que é noticiado.

E muito menos esperem que compreenda as razões dos pais indignados. A reacção deste docente é inaceitável. Mas há muitas inaceitabilidades antes desta - e assobiaram para o ar. Pais, sociedade, comunicação social. Todos são culpados por termos voltado a este ponto.

 

Nota: A Pequeno Caso Sério queria ficar calada mas não conseguiu, e fez muito bem! Nos comentários disse-lhe que o meu comentário teria muitos argumentos. Era demasiado para comentário, não era?

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lançado às 15:31

Confusões entre obra e obreiro

considerações sobre censuras várias

por Sarin, em 24.10.19

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Tenho este postal em rascunho há meses. Melhor pensando, tenho este postal em rascunho desde uma altura em que apenas escrevia postais em viagens, daqueles postais em papel, ilustrados, que mais não pretendiam do que ser lembrança. Mais concretamente, tenho este postal em rascunho desde 2009. 

Assistia a um concerto de Amy Winehouse num qualquer canal, e notei que a cantora estava ausente, desequilibrando-se constantemente e desafinando notas que normalmente dominaria. Muitos outros tiveram assim comportamentos, até em palcos à minha frente, mas por desconhecido motivo apenas naquele momento me surgiu a dúvida: deveria eu comprar discos, assistir a concertos, sequer ouvir as músicas de quem se auto-destruía e mergulhava nas drogas e no álcool até em pleno palco?

Pouco demorei a perceber que, embora lastimando Amy, eu não era sua amiga, não a conhecia, não tinha qualquer influência no seu círculo - e que, por isso mesmo, ao deixar de comprar o seu trabalho apenas por não concordar com a vida que levava e transportava para o palco, estaria a censurar uma opção que era dela, ainda que o fizesse por a querer saudável. Acaso fosse espectadora de tal concerto, eventualmente poderia reclamar, exigir devolução do meu dinheiro por quebra de contrato dada a fraca actuação, poderia até escrever cartas e artigos iracundos por me sentir defraudada com tal prestação ou apreensiva pela saúde da artista. Mas o consumo de álcool e outras drogas eram opções pessoais, e a minha relação com Amy não era pessoal, era artística porque ela a artista e eu a apreciadora, e por esta era também comercial, ela a fornecedora de produtos artísticos (embora por interpostas pessoas) e eu a cliente. Reflectir nas nossas relações artísticas e comerciais o meu desacordo com as suas opções pessoais seria boicote e censura moral.

Não boicotei nem censurei. Quando Amy morreu voltei a colocar-me a questão e obtive a mesma resposta, portanto o assunto ficou arrumado: repudiar o artista e a sua obra devido à discordância com o seu modo de vida é censurar as suas escolhas. Obra é trabalho, indivíduo é personalidade - e são questões distintas.

 

Devo afirmar que nem sempre pensei assim. Tempos houve em que as atitudes públicas de alguém me condicionariam a vontade de conhecer o seu trabalho, especialmente na literatura pois que muito forte transmissor de conceitos e preconceitos. Na verdade, continuam a condicionar; mas iniciar a descoberta da obra com algumas resistências ou permanecer dela ignara por discordar das opções do indivíduo são caminhos muito distintos. E lembro-me sempre do machismo, do racismo e do imperialismo do homem que disse "a democracia é a pior forma de governo, com excepção de todas as outras", um grande democrata que nem por isso atendeu aos direitos humanos antes dos 65 anos. Continuo a ter dúvidas se atendeu depois, mas sabemos que quase octogenário ganhou um Nobel pelos seus dons de "oratória em nome dos mais elevados valores humanos". Serve-me esta história de bitola, e adiante.

 

Quando surgiu o movimento #metoo a questão voltou a pairar-me na ideia. E coloquei-me na posição de solidária com as vítimas quando, quase simultaneamente, percebi que poderia haver vários tipos de vítimas, incluindo as vítimas de falsas denúncias e as vítimas de descontextualizações, aquelas que em tempos tiveram algumas atitudes vistas como normais à época mas das quais hoje se fazem outras leituras. Como fui comentando os linchamentos públicos sem entrar no julgamento dos actos que lhes davam origem, aos tribunais o que é dos tribunais, acabei por deixar passar a onda do postal mantendo a minha opinião: trabalho e homem devem ser apreciados e avaliados em planos distintos. Uma coisa é recusar determinado actor, realizador, produtor por querer proteger a restante equipa de tal personalidade ou, o mais comum, por ter medo da reacção dos espectadores. Outra, negar-lhe o mérito, retirar-lhe prémios e distinções que a sua obra merece. E aos tribunais o que é dos tribunais.

Mas em Fevereiro deste ano o tema voltou a bailar-me na memória, e foi quando tecnicamente o coloquei em rascunho. Quero dizer, apenas colei uma ligação a partir de onde desenrolaria o tema - um artigo sobre o afastamento de Bryan Singer dos BAFTA, na sequência de denúncias de abusos sexuais. Dei-lhe o título, colei a tal ligação... e nunca mais lhe peguei. Em Maio deparei-me com um artigo de opinião sobre a deslocação de Louis CK a Portugal, e pela primeira vez encontrava alguém que, deixando aos tribunais o que é dos tribunais, separava o homem e a obra no meio desta enxurrada benfazeja mas certamente com inocentes arrastados na lama, como em todas as enxurradas. Mas não me competia separar lama e homens, apenas obra e obreiro. E reavaliei a minha posição.

Reavaliar mais não é do que refazer o trajecto para detectar alterações na paisagem. Acrescentei com mais ênfase o profissional, já não apenas o artista. Mas, sendo embora o homem uno com a sua arte ou engenho, continuei a achar, continuo a achar, que obra e obreiro constituem mundos separados. Posso amar a obra e desprezar o obreiro, e relembro a bitola churchilliana.

Analisei também a posição das academias que entregam tais prémios... Dizerem que os prémios servem para distinguir os melhores profissionais mas depois dependerem essa distinção (ou outras) de "valores" ["Bafta considers the alleged behaviour completely unacceptable and incompatible with its values"] apenas exsuda um moralismo muito flutuante e transforma os prémios que deveriam ser de mérito em alguma coisa que não é nem deixa de ser. Como faremos com essa coisa do mérito se lhe metermos a moral como padrão - e que moral? Vamos cortar a História, como perguntou Dame Judy Dench a propósito de Kevin Spacey?

Outros assuntos mais prementes surgiram, e o postal continuou em rascunho... até que surgiu a polémica com um dos nomeados para o Nobel da Literatura, Peter Handke. Surgiram os apoiantes e os opositores da sua obra, mas as grandes oposições à atribuição do Nobel passaram pela avaliação do seu apoio a Milosevic - passaram, portanto, pelas suas atitudes políticas e não pelas suas capacidades artísticas. O homem a ser confundido com a sua arte, com a sua obra - e atacou-se a arte, atacou-se o artista, atacou-se o profissional, atacou-se o mérito, porque se discorda do homem ou porque se desgosta das suas opções ou porque se lhe vê imoralidade. Não apenas se relevou o homem em detrimento do artista, que é afinal o que está em causa, como se tentou que outros lhe negassem mérito por motivos em nada relacionados com a sua arte ou com a sua obra.

E isto, à semelhança do que vinha ponderando desde Amy, nada mais é do que censura. É negar ao artista, ao profissional, o direito de o ser porque se discorda do seu carácter ou se considera que as suas opções são moralmente condenáveis. É o querer impor aos outros o seu próprio paradigma, condenando, eliminando até, todo o trabalho que não seja fruto dos eleitos.

Defendo o direito ao boicote, mas peço que se pensem as causas de tais boicotes. E peço mais, peço que não avaliemos o mérito pela personalidade, a obra pelo indivíduo, não os coloquemos sequer no mesmo plano ou acabaremos mutilando todos os santos nos seus pés de barro. Mais uma vez, a bitola churchilliana.

 

Ainda sobre esta questão das censuras, vi ser publicamente questionado o direito de um professor se pronunciar também publicamente sobre uma matéria da sua área, invocando como motivo para o seu (defendido pelo questionador) silêncio o ter estado esse professor ligado a um caso alheio à sua dissertação e sobre o qual não foi, até à data, acusado de qualquer crime - nem sequer no artigo em que se pedia o seu silêncio e até o seu afastamento dos holofotes, num apontar de dedo a quem lhe deu espaço ou visibilidade. Declarado tal comportamento como imoral, no entender de quem questionou seria isto suficiente para substantivar o congelamento do seu direito de expressão.

Basicamente, a mesma questão desde Amy, moralidade versus arte e engenho, mas exponenciada a outro nível. Se nos casos de Amy e de Louis CK a censura passaria por um boicote pessoal e nos casos de Singer e de Handke pela não atribuição de um prémio, já no caso deste profissional a censura passaria por lhe cercear direitos básicos e constitucionais.

Entendamo-nos:

1. No nosso código penal, imoralidade não é sinónimo de ilicitude.

2. Num estado de direito, não podemos invocar a presunção de inocência para uns e negá-la a outros.

3. Se defendemos a presunção de inocência - que nada tem a ver, que não impede e que deve mesmo ser concomitante com o exigir recursos, celeridade e seriedade à Justiça - defendemos que um indivíduo não perde o seus direitos de cidadania quando alvo de suspeitas, muito menos por questões morais.

4. Se aceitamos este princípio, então ao questionarmos o direito que um indivíduo tem em expressar opinião, ainda para mais na sua área de trabalho, estaremos a fazer exactamente o quê senão a tentar encontrar fundamento para o censurar? 

 

Não gostar do indivíduo e discordar das suas opiniões não é o mesmo que questionar o seu direito a expressá-las, mesmo que se acredite o indivíduo culpado de um crime pelo qual não foi acusado. Apoiar artigos de tal professor não é o mesmo que apoiar as suas opções pessoais. Tal como ler Handke não é apoiar Milosevic ou como rir com Louis CK não é aplaudir a sua vida sexual ou como ouvir Amy Winehouse não é fazer uma apologia do vício. E tal como enaltecer a capacidade de liderança de Churchill durante a Segunda Guerra Mundial não é subscrever a repressão colonial que então defendia. E muito mal vai a democracia quando não se percebem estas diferenças.

 

Nota 1: Não tenho quaisquer: interesses sobre os bens materiais ou imateriais, ligações familiares, partidárias ou outras a nenhum dos referidos - li um livro de Handke, gosto de Amy, não aprecio CK Louis, dos filmes produzidos por Singer guardo de memória (e que memória!) Os suspeitos do Costume e do professor apenas subscrevo a opinião que defendeu num artigo que motivou o tal artigo onde se pede o seu silêncio.

Nota 2: Não faço ligação ao artigo que invoco pois para o fazer teria de desmontar, esmiuçar tudo o que nele foi dito, incluindo a indignação que o motivou. Não vale a pena.

Nota 3: Tenho a sensação de que repito demasiadas vezes obra obreiro... mas o postal é longo, debruça-se exactamente sobre tais temas e eu estou bastante desinspirada. Desculpem qualquer coisinha.

imagem: Chema Madoz

[há dias de muita inspiração. outros que não. nada como espreitar também os postais anteriores]

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lançado às 20:45

Tanto o chocaram e ainda se chocam...

Bolsonarices

por Sarin, em 16.10.19

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Bolsonaro está em guerra com o presidente do partido que o catapultou.

Entende que os lugares ganhos este ano no Congresso pelos deputados do PSL se devem à sua própria projecção, e que por isso terá o direito, divino suponho, de nomear e distribuir os lugares nas listas para as eleições municipais que ocorrerão dentro de um ano.

Há alguns meses pediu para ver as contas partidárias dos últimos cinco anos. Apenas para verificar da transparência do uso dos dinheiros públicos atribuídos ao partido, segundo afirma. Entretanto, e recentemente, surgiram investigações federais às cúpulas do PSL por suspeita de desvios do financiamento eleitoral... Moro, o ex-super-juiz agora Ministro da Justiça comanda tal polícia. Assim de repente, nada parece coincidência

Até porque correm rumores sobre a ruptura de Bolsonaro com o PSL, seja porque vai para a IURD ou para outro partido - eventualmente, porque quer criar um partido novo.

Vá para onde for, Bolsonaro é isto. E está enrodilhado no tronco da democracia brasileira.

 

imagem: Vermelho

[há dias de muita inspiração. outros que não. nada como espreitar também os postais anteriores]

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lançado às 16:35

Obrigada por estar aqui.




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