Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]


A toxicidade das máscaras

Ou: a CS e a DGS e o que é dito e o que fica por dizer

por Sarin, em 06.04.20

máscara.jpg

Numa paragem forçada nas imediações de um aparelho de televisão, vi e ouvi algumas notícias.

Reportagem:

1º Não sei que entidade portuguesa (não reparei nem me interessou ir verificar) alegou que o uso das máscaras deveria ser aconselhado para toda a população.

2.º Afirmou taxativamente que a DGS desaconselhava o uso das máscaras por haver poucas.

3.º Informou que havia vantagens do uso das máscaras.

4.º Aparece uma imagem de um plano de contingência onde, aparentemente, se prevê a distribuição de máscaras a alguém (não percebi a quem, mas não me pareceu ser à população em geral. Também não percebi de que plano de contingência se tratava)

4.º Jornalista diz, em voz off, que OMS também já* aconselha uso de máscaras, enquanto na televisão passam imagens de um vídeo da OMS a (pareceu-me) ensinar a colocar máscara (já saía da frente do aparelho)

5.º Jornalista diz, em voz off, que DGS cumpriu as orientações da OMS.

6.º Mudança de notícia.

* Não ouvi qualquer menção ao "desaconselha" anterior.

Fiquei fascinada porque tem havido muitos ataques à Directora-Geral da Saúde, e este pareceu-me mais um.  Continua a parecer - mais uma vez, parece-me que as palavras de Graça Freitas foram comidas, pois de "não há uma única medida completamente eficaz" passou-se para "usar máscaras não é eficaz".   

Mas depois, e saltando ataques, motivações, e razões, fiquei perplexa perante a peça jornalística. Uma peça  aparentemente bem coordenada, clara, ilustrada... e omitindo dados que considero essenciais: 

a) O que fez aquela entidade para refutar as opções da DGS junto da própria Direcção-Geral da Saúde antes de vir para os jornais?

b) Se houve tal tentativa, qual foi a reacção da DGS e quais as respostas e argumentos para reiterar na opção tomada anteriormente?

c) Se não houve... porquê vir logo para a CS?

Após respondidas estas perguntas, sim, podem os jornais alimentar todas as polémicas que desejarem e que talvez pequem por defeito. Mas, assim, é apenas ruído. E incerteza. E mau serviço à Saúde e ao Público.

 

Este caso não é único. Tem-se visto nos órgãos noticiosos cartas de médicos ou de organizações de médicos a denunciarem qualquer coisa às administrações de saúde, às administrações hospitalares, às autarquias... cartas de autarcas a denunciar qualquer coisa à DGS, às Autoridades Regionais de Saúde (ARS), ao Ministério da Administração Interna (recordo o caso de Rui Moreira a dizer não reconhecer a autoridade da DGS por causa de um cordão sanitário cuja indicação nunca saiu das autoridades de saúde para as autoridades de segurança)... e em nenhuma, e sublinho este em nenhuma, encontrei respondidas aquelas duas perguntinhas básicas:

a) O que fizeram para comunicar a mensagem à DGS?

b) Qual foi a resposta da DGS?

 

Questionar as autoridades é legítimo, confirmar ou refutar, idem. Mas há outros canais para o fazer sem serem os canais da Comunicação Social (CS), porque...

apesar de muitos tentarem subverter as regras e patrocinar linchamentos e motins, em paz como na guerra, 

... ainda vivemos num Estado de Direito minimamente organizado. A CS pode e deve noticiar estas discordâncias, mas não pode ser o arauto de contradições apenas porque são uma boa notícia. Não são, a CS é que as transforma em notícia antes mesmo de o serem porque a polémica vende!

Temos o direito de perceber - e a CS tem o dever de investigar e noticiar - onde é que a mensagem da DGS é truncada, e porquê.

Temos o direito de perceber - e a CS tem o dever de investigar e noticiar - se as vias de comunicação entre as várias entidades e a DGS estão abertas ou fechadas. E, neste último caso, por quem.

Será pedir muito?

 

Nota: agora ao jantar, o mesmo serviço noticioso voltou a abordar o assunto, mas com muito mais atenção às perguntas feitas - inquirido por aquela estação, o bastonário da Ordem dos Médicos disse algo como "do ponto de vista científico, a Dr.ª Graça Freitas sabe que o uso da máscara é a melhor opção, e isso é indiscutível; mas do ponto de vista de gestão, compreendo que seja difícil emitir uma recomendação para a população usar um equipamento que o mercado não tem capacidade de fornecer, o que pode, inclusivamente, levar a roturas de abastecimento em pontos onde são essenciais". Logo em seguida, o jornal avançou para as declarações da OMS e, imediatamente depois, para a reportagem sobre a subida do preço das máscaras desde o estado de emergência (na ordem dos 1400%). Não respondeu às tais perguntas, mas teve o cuidado de mostrar um outro lado da questão.

Talvez que, com um pouco mais de informação, alguns cidadãos analisem os vários factos antes de alinharem com a matilha no pedir da cabeça de alguém. Neste caso como noutros.

imagem recolhida n' O Resgate da História

[Cuidemos de todos cuidando de nós: Isolamento social. Etiqueta respiratória. Higiene. Calma. Senso. Civismo.]
[há dias de muita inspiração. outros que não. nada como espreitar também os postais anteriores]

Autoria e outros dados (tags, etc)

O Observador e a vergonhosa clubite

por Sarin, em 28.03.20

Não falo muito de desporto, ou de comunicação social vs desporto, aqui pelo burgo. Mas esta não posso deixar passar.

O Observador publicou no dia 25 de Março um artigo sobre a mobilização de atletas e clubes  na luta contra a COVID19.

Abre o artigo com Cristiano e Mendes a equiparem uma ala do Hospital de Santo António (ou de São João?), passa por Sergio Ramos e pelos seus colegas do Real que angariaram kits, equipamentos de protecção e máscaras, fala em Djokovic a doar 1M€ à Sérvia e em Federer a doar 1M francos suíços (com gralha) à Suíça, vai até à Roma de Paulo Fonseca que doa bens essenciais a sócios com mais de 75 anos, e termina com o leilão organizado pela Fundação de Futebol da Liga Portuguesa.

 

Sobre o milhão de euros doados pelo Sport Lisboa e Benfica, Clube e SAD, ao Serviço Nacional de Saúde, noticiado no dia 20 de Março na Tribuna do Expresso, nem uma palavra. Sim, também o Observador isto noticiou no dia 20, mas também havia noticiado no dia 24 as doações de Ronaldo e Mendes, o que torna inexplicável, à luz da informação isenta e rigorosa, a omissão da doação do SLB.

Até no meio de uma pandemia os chamados jornais de referência conseguem manter viva a chama do peçonhento clubismo. Vão ser tendenciosos para o raio que os parta!

 

Adenda (com um agradecimento à /i.): já no dia 17 de Março o Diário de Notícias noticiava que a Fundação Benfica havia anunciado ter já adquirido 3 ventiladores para oferta a hospitais de Lisboa, Porto e Coimbra, e declarado ir prestar, em parceria com a GNR, apoio social de emergência a cerca de 3000 idosos isolados e sinalizados ao abrigo do "Programa Apoio 65 - Idosos em segurança", do Ministério da Administração Interna. Sobre isto, não encontrei nem uma palavra no Observador.

 

E tiveram bastante tempo para corrigir a gralha, que nem a Suíça precisa de fracos suíços nem o Federer conseguiria reunir um milhão deles tão rapidamente. Já fracos jornalistas...

F0E54E92-8F75-41C0-8900-6204C83DB92B.jpeg

 

 

[Cuidemos de todos cuidando de nós: Isolamento social. Etiqueta respiratória. Higiene. Calma. Senso. Civismo.]
[há dias de muita inspiração. outros que não. nada como espreitar também os postais anteriores]

Autoria e outros dados (tags, etc)

Assim se talk em português

Ou: modernaço e bué fatela

por Sarin, em 27.03.20

As línguas são dinâmicas. Importar e adoptar vocábulos quando não existe tradução é natural.

Usar estrangeirismos quando existem vocábulos análogos na nossa língua é, apenas, tratar mal a Língua Portuguesa, enquanto se arvoram manias de grande mundividência. Armar-se aos cágados, portanto.

Não, não é adaptação a exigências de mercado nem tentativa de internacionalização.

Não, nenhum dos termos faz parte de um jargão técnico.

Não, não é moda nova, que no início do séc. XX bonito e moderno era recorrer a galicismos.

Não. É, apenas, falta de exigência, falta de brio. E, talvez, falta de literatura portuguesa.

 

0BE975F3-63FC-4F9B-9869-E4580E7ADE20.jpeg

87F33DEE-9EA5-4851-8BAC-A1ADF28153A8.jpeg

0EAC437D-20F4-46F1-9FDE-9E3A5265F1EC.jpeg

163BDEAD-6839-4E1E-86C7-BF955604E175.jpeg

[Cuidemos de todos cuidando de nós: Isolamento social. Etiqueta respiratória. Higiene. Calma. Senso. Civismo.]
[há dias de muita inspiração. outros que não. nada como espreitar também os postais anteriores]

Autoria e outros dados (tags, etc)

Uma velha irritação

Temos de escolher

por Sarin, em 14.10.19

microscopio.jpg

Já o havia defendido, inclusivamente  aqui: a manipulação da opinião pública é fácil e bastam algumas palavras criteriosamente escolhidas pela Comunicação Social para aniquilar a credibilidade de alguém.

No caso, mais uma vez o caso, do juiz Ivo Rosa. 

Não sei se tem interesses partidários ou apenas faz uma leitura coerente da letra da Lei. Se tem interesses partidários, como tantos jornalistas e opinantes gostam de insinuar, gostaria de os ver noticiados como factos, não como insidiosos verbos  colados em notícias e destinados a manipular grosseiramente a opinião dos mais distraídos. Esta é apenas mais uma dessas manipulações: Juiz Ivo Rosa tentou proteger Polícia Militar no caso de Tancos

Tentou proteger? Esta afirmação indica intencionalidade. Portanto, ao jornalista do Eco que não assina esta peça ficaria muito bem explicar o que lhe permitiu inferir a intencionalidade. Porque o que escreve apenas permite a leitura de que o juiz Ivo Rosa recusou o pedido de acesso aos registos de comunicações de quatro antenas por estes serem demasiado abrangentes e isso violar a privacidade dos outros utentes dessas antenas. Sim, o pedido incluiu os registos de todas as comunicações das antenas do Montijo, da Golegã, do Entroncamento e de Torres Novas - incluindo as nossas, particulares - porque a chamada anónima foi feita de uma dessas antenas.

O Tribunal da Relação de Lisboa lá terá entendido que o caso merecia, e por isso todas, e repito todas, as comunicações efectuadas foram e serão desenroladas perante os olhos dos inspectores - e com mais motivo do que o apresentado pelo jornalista para atacar o juiz, eu questiono a segurança de tais dados. Porque os registos das chamadas foram colocados ao alcance de quem lhes deitar a mão. Quem me garante que os registos apenas são lidos pelos investigadores? E a sua distribuição, a sua duplicação, os circuitos que percorrem - quem garante a sua estanquicidade? Quem garante que não passa nos olhos de alguém que reconhece os números de particulares e que não usará tal informação para outros fins?

As minhas chamadas poderiam perfeitamente estar naquela lista, sem que eu tenha rigorosamente nada a ver com o assunto. As minhas e as vossas. E eu não abdico do meu direito à privacidade. Não adianta virem com o ditado "Quem não deve não teme": a Constituição da República Portuguesa tem um artigo que garante o direito à reserva da vida privada. E eu gosto muito da minha.

Sim, a Lei tem uma série de mecanismos que por vezes beneficiam os infractores - mas estes mecanismos existem para beneficiar os inocentes. Nós. Falta acertar nas regras que inviabilizem o seu uso pelos infractores - não se conseguirá tal restrição restringindo-nos os direitos a todos por igual, mas até acertarem é o que temos. E o juiz Ivo Rosa provavelmente não quis tomar sozinho tal decisão. Eu, no lugar dele, sei que não quereria.

Portanto, percebo perfeitamente a reserva e a recusa - ou o Regulamento Geral de Protecção de Dados só existe para passar multas e a preocupação constitucional com a privacidade só funciona para gente com nome sonante?

Talvez se a área fosse mais circunscrita o juiz tivesse deferido o pedido? Mas não, colocar a questão nestes termos não seria tão apelativo para os jornais.

 

Assusto-me com a ligeireza das notícias e a facilidade com que se ataca o carácter de tudo e de todos. E assusto-me porque tal ligeireza cresce na agenda de alguns, sim, mas sobretudo alimenta-se do desconhecimento da sociedade. Que, inerte e modorrenta, come as notícias como lhas dão. E assim as regurgita, sem sequer as digerir e assimilar.

Qual o limite dos ataques na Comunicação Social? Até onde pode seguir a impunidade de quem se diz contrapoder e faz jogos de poder em vez de escrutinar? 

Mais, até onde continuaremos a ser coniventes com esta dualidade de critérios? E de que direitos estaremos dispostos a abdicar em prol das investigações àquilo que nos revolta ou prejudica? 

Pensemos nisto, porque não podemos "ter sol na eira e chuva no nabal". É assim que surgem as inundações extremistas e as secas sociais.

 

imagem: microscópio de Oswaldo Cruz, via FIOCRUZ

[Cuidemos de todos cuidando de nós: Isolamento social. Etiqueta respiratória. Higiene. Calma. Senso. Civismo.]
[há dias de muita inspiração. outros que não. nada como espreitar também os postais anteriores]

Autoria e outros dados (tags, etc)

Sobre o Ambiente e as Legislativas 2019

E outras considerações em 5 Actos

por Sarin, em 03.10.19

B22.jpg

Acto I - Uma notícia interessante

De passagem, ouvi no Jornal da Noite aquilo que supus ser uma notícia interessante, e que verificaria ser interessante mas por outro motivo.

Um grupo de cidadãos teve e concretizou a ideia de comparar os programas dos vários partidos no que respeita às propostas ambientais. Mentalmente aplaudi - em Julho propus-me fazer uma comparação dos programas até às eleições e à data de hoje só consegui começar... [ainda não havia perdido a esperança, à hora que comecei este postal no telemóvel - assim que terminou a tal notícia; e a madrugada de amanhã prometia ser longa. Mas, no entretanto, descobri que talvez seja desnecessária, e já explicarei porquê. Primeiro, a notícia interessante.] Assim, não será de estranhar que tenha ficado muito agradada por outros terem tido a mesma ideia e lhe terem dado forma.

Não sei exactamente o que fizeram os tais cidadãos, mas a notícia apresentou-me um simpático biomédico que, em vez de propostas, me apresentou estatísticas. Estatísticas! 

Fiquei a saber que o PAN é o partido que mais propostas ambientais apresenta no seu programa eleitoral e o CDS o que menos espaço lhes dedica. Também fiquei sabedora de que, das propostas apresentadas, o BE é o que tem mais alta percentagem de medidas concretas e o CDS consegue a proeza do 0%.

Foi, de facto, uma notícia muito interessante. Porque, sendo notícia, na verdade nada noticiou. Repito, nada noticiou. A menos que se considere notícia o facto de um grupo de cidadãos ter tratado estatisticamente as propostas ambientais dos partidos que concorrem nestas legislativas. Está bem... mas não.

Vejamos: de que vale tal estatística? Qual é a informação que se retira daqui, e qual a sua pertinência?

Sem conhecermos as propostas,

Sem conhecermos os critérios de avaliação das "medidas concretas",

Sem percebermos como se integram as "propostas com medidas concretas" noutras propostas com medidas concretas sobre emprego, saúde, segurança, enfim, medidas concretas que interferem no nosso quotidiano e que, afinal, acabam por nos ser quase tão essenciais como o O2, o CO2 e a H2O,

... apenas ficamos a saber que o CDS não concretizou objectivos nesta matéria - o que não invalida que as suas propostas noutras matérias influenciem o ambiente;

... apenas ficamos a saber que o PAN produz muitas propostas na matéria - o que não significa que, em termos de efeitos objectivos, não valham exactamente o mesmo que as propostas apresentadas pelo CDS;

... apenas ficamos a saber que o BE é o mais eficaz a traduzir políticas em medidas - e continua a não obstar a que valham exactamente o mesmo que as do CDS e as do PAN.

 

Acto II - Um excelente e mui louvável acto de cidadania

Reparem que não teci a apologia de qualquer partido - não é esse o meu objectivo com este postal. Até aqui, apenas pretendo demonstrar como se pode usar a estatística para enfatizar uma imagem de absolutamente nada. Porque, e notem que também não analisei nenhuma proposta, olhando assim de repente, caramba, o CDS estaria mesmo em maus lençóis e o BE muito à-frente nesta coisa do Ambiente!

Mas, e conforme disse no início, é importante comparar as várias propostas dos vários partidos. Como me tinha proposto fazer. E como descobri (através do Shifter) que já houve quem o tenha feito, poupando-me assim a noitada que previa para amanhã. Houve quem o tenha feito, e fê-lo de forma excelente: por temas e por partidos, permitindo até comparação entre dois partidos de cada vez.

Gostei muito do Legislativas 2019, um projecto de dois estudantes que se traduz num magnífico exercício de cidadania pois, além de lhes ter permitido perceber os programas de 9 partidos (explicam muito bem porque não apresentam de todos), faculta aos seus concidadãos uma consulta simples e exaustiva mas não esgotante da paciência de cada um. [minha querida Não me dêem ouvidos, falavas do número de páginas? Pois neste sítio não teremos tal problema] 

Fiquei adepta deste sítio, Legislativas 2019e lamento só o ter descoberto hoje. Espero que na Comissão Nacional de Eleições ou na Assembleia da República alguém se lembre de financiar este tipo de projectos, para que os objectivos possam ser ampliados, os cidadãos mais bem esclarecidos - e os seus criadores reconhecidos pelo trabalho desenvolvido. Vale o que vale, mas pelo menos o agradecimento público desta desconhecida terão: Francisco Campaniço e  Pedro Leal, obrigada por me terem permitido usufruir do vosso trabalho.

 

Acto III - Ilustração: análise de algumas propostas 

Particularmente, duvido que o CDS tenha alguma medida que contribua efectivamente para melhorar a gestão dos recursos naturais, a diminuição da produção de resíduos e a sua gestão, a sustentabilidade das explorações agrícola florestal fluvial marítima, em suma, qualquer coisa no âmbito da sustentabilidade e responsabilidade ambiental, mas essa é uma questão minha: porque estas são-me abordagens pertinentes, porque a dúvida resulta da minha análise às intervenções do CDS-PP nos últimos 20 anos, incluindo os ministérios de Assunção Cristas e de Paulo Portas; e porque a mesma dúvida se desfaz na depuração das propostas apresentadas por este partido: "Criação de planos de bonificação às famílias que lograrem reduzir o seu consumo energético, como Eco-cards, cartões de pontos que permitam incentivar comportamento ambientais relevantes" assemelha-se à minha proposta do Voto Sortudo, inspirada na Factura da Sorte nascida no governo PSD-CDS, portanto qualquer semelhança não é, de todo, coincidência... e falamos de todas as fontes de energia? E ao Ambiente, isto fará o quê exactamente? Mas a algumas empresas fará muito bem, e as famílias gostam de sorteios. "Garantir o uso eficaz dos fundos comunitários e efetuar os pagamentos de forma atempada e previsível, quer os destinados a apoiar o rendimento dos agricultores, exclusivamente financiados pela UE, quer os de apoio ao investimento, concentração da oferta e rejuvenescimento do setor agrícola" faz-me sorrir - o sector não precisa de rejuvenescimento, o sector agrícola precisa de políticas que não o deixem à mercê das grandes distribuidoras, das grandes farmacêuticas, dos grandes exploradores de intensivo, que não o afoguem em exigências absurdas, que lhe reconheçam a especificidade e a dificuldade por ser constituído maioritariamente por micro-empresas que garantem a biodiversidade e a manutenção dos terrenos - e que não são remuneradas por isso. Mas falar em financiamento é mais fácil e talvez dê mais votos. 

Da mesma forma, não acredito nos resultados das propostas do PAN, um partido que já antes afirmei ser de causas e de políticas nanicas - aquando deste último postal espreitei-lhes os projectos submetidos e verifiquei que mais de metade dos entrados neste ciclo legislativo haviam sido dedicados, àquela data, a proibições e obrigações, o que não me dá grande confiança nas medidas que possam apresentar. Porque prefiro incentivar do que proibir, mas não vejo grandes incentivos por parte do PAN. E algumas propostas, que não proibições, até serão interessantes - algumas; outras são muito bonitas mas não passam disso, "Interditar o uso de herbicidas sintéticos na limpeza urbana" será meritório mas nas pequenas cidades e vilas e aldeias as vivazes nascem entre o empedrado como areia na praia, arrancá-las é contraproducente e aplicar-lhes herbicidas biológicos é gastar água; e outras assemelham-se a crença, "Proibir a produção e o cultivo comercial de Organismos Geneticamente Modificados" porquê? Os OGM podem ser maus e podem ser muito bons, seria importante perceber a causa desta proibição. Enfim, o PAN tem algumas propostas interessantes, mas continua com a tónica no proibir ao abordar uma das suas áreas de maior intervenção, o Ambiente.

O BE tem várias propostas semelhantes ao PAN, mas tem outras que se me afiguram mais coerentes, embora algumas me deixem em dúvida quanto ao exacto objectivo: "Certificação obrigatória de coleta e tratamento de resíduos poluentes de todas as unidades de produção animal e agroflorestais" ? Certificação? Antes de exigir certificações que oneram o agricultor,  talvez seja importante garantir que as ETAR (estações de tratamento de águas residuais) existentes funcionam devidamente e que são em número suficiente para as necessidades produtivas, talvez se possa repensar a gestão de resíduos e as respectivas entidades gestoras - enfim, pensar em fornecer condições antes de exigir consequências. A "Criação da rede de infraestruturas ecológicas de qualidade, para reduzir o consumo de pesticidas, adubos, energia e água" é notável, mas quererão tentar de novo o emparcelamento (e desta vez sem os fundos da CEE que Cavaco desbaratou) e tentarão dinamizar as Organizações de Produtores, enquanto por outro lado propõem o "Fim de apoios públicos nacionais e comunitários a novas explorações agro-florestais e pecuárias intensivas e superintensivas, bem como às produções existentes que não iniciem o processo de transição ecológica"? Se sim, é bom que incentivem a tal "Rede nacional de hortas urbanas acessíveis em cada município", porque algumas das propostas que apresentam parecem-me ser pouco sustentáveis quando penso no défice nacional da produção agro-alimentar. Pelo menos eu não consigo preocupar-me com o Ambiente e despreocupar-me da alimentação e da sobrevivência dos meus semelhantes. Consigo ver aplicação para quase todas as medidas propostas pelo BE - mas não certamente numa legislatura, até porque algumas apenas podem ser aplicadas após atingidos os objectivos e metas de outras - e falamos de solos, de alimentos, de trabalho. É aqui que a coerência perde para a inconsistência, em matéria de Ambiente. Talvez uma passada maior do que a perna, como se usa dizer. E faz muita diferença, pois as propostas devem ser exequíveis.

Nota: as citações são textuais, por isso e apenas por isso obedecem ao AO90. Eu continuo profundamente desobediente.

 

Acto IV - Explicação da análise

Gostaria de frisar que exponho a minha opinião sobre algumas das propostas destes partidos não como tentativa de influenciar o voto de quem me lê mas como explicação de como propostas interessantes podem estar armadilhadas contra os princípios e objectivos que cada um de nós defende - relembro que enumerei os meus algures no primeiro parágrafo da terceira parte. A verde. E fui acrescentando mais um ou outro objectivo eleitoral. Meu. Portanto, a análise foi feita à luz desses meus objectivos.

Detive-me também nestes três partidos porque foi essencialmente sobre estes que a tal notícia se debruçou. 

Finalmente, recordo que o Ambiente é apenas um de muitos temas constantes das propostas.

 

Acto V - Votar

Votar é um direito, não votar é apenas uma opção. Todos os votos são válidos, mas exercer a cidadania passa também por votar em consciência e passa por votar detendo a informação que entendermos relevante.

Sinceramente, desejo que que quem me lê forme opinião informando-se e vote o melhor que conseguir.

 

Relembrando que já não há número de eleitor e que as mesas se organizam por ordem alfabética,

Para saber qual a mesa de voto basta enviar uma SMS para o 3838, começando por RE, seguido do número de Cartão de Cidadão e a Data de Nascimento, esta no formato [ano mês dia] e sem espaço. Assim:

RE CCCCCCCC AAAAMMDD

 

 

Imagem de Chema Madoz

 

[Cuidemos de todos cuidando de nós: Isolamento social. Etiqueta respiratória. Higiene. Calma. Senso. Civismo.]
[há dias de muita inspiração. outros que não. nada como espreitar também os postais anteriores]

Autoria e outros dados (tags, etc)

Onde ideias-desabafos podem nascer e morrer. Ou apenas ganhar bolor.


Obrigada por estar aqui.




logo.jpg




e uma viagem diferente



Localizar no burgo

  Pesquisar no Blog



Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Cave do Tombo

  1. 2020
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2019
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2018
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D