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Ouvido de passagem

por Sarin, em 06.08.19

Rui Santos há minutos na SIC Notícias

"O resultado da Supertaça poderia ter acabado em 3-6 ou 3-7..."

E o Vlachodimos, não estava lá a fazer nada?

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O púlpito a Luís Marques Mendes

por Sarin, em 31.07.19

Só para recordar que os impolutos estão por aí. Os crédulos também...

 

 

 

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Ouço Clara de Sousa, no Jornal da Noite, da SIC: "Manuel Pinho vai mesmo ser constituído arguido no processo EDP. Nova derrota para o juiz Ivo Rosa". Confusa, recuo na televisão a gravação que ainda não está disponível na rede... sim, ouvi bem.

Encontro uma notícia não assinada, no Observador: "Caso EDP. Juiz Ivo Rosa volta a perder na Relação de Lisboa e Manuel Pinho mantém-se como arguido". E fico com menos dúvidas.

 

Se bem percebo, tribunais da relação, ou tribunais de segunda instância, são o garante de que tanto os cidadãos como o representante do Estado, o Ministério Público, podem discordar de uma primeira decisão judicial e apelar para outra entidade: que podem, podemos, solicitar a reavaliação de uma decisão. Os juízes seguem, sempre, o mesmo regime legal; mas, sobre um mesmo caso, apresentam  perspectivas, sensibilidades, interpretações e, por isso, análises distintas uns dos outros - que se podem traduzir em decisões distintas. Daí que na primeira instância as deliberações sejam obra de um juíz e na segunda se submetam a um colectivo de juizes.

Deliberações distintas entre os tribunais da primeira e da segunda instância não são uma derrota deste ou daquele juiz, mas uma vitória do funcionamento do sistema judicial, que prevê este mecanismo também como controlo perante interpretações desajustadas. Porque um tribunal da relação não é um órgão que avalie o desempenho de um juiz - avalia a sua decisão. Portanto, as vitórias e as derrotas são atribuídas aos arguidos e aos acusadores, neste concreto caso o Ministério Público, pois o pleito é entre estes e não entre os tribunais.

Ora como não consta que...

o juiz Ivo Rosa se tenha constituído assistente ou seja arguido no caso EDP;

que este juiz tenha entrado com acção judicial contra alguém, ou vice-versa, no âmbito do mesmo processo;

ou que os tribunais disputem entre si qualquer campeonato...

... parece-me algo abusivo dizer que o juiz, este ou outro, teve uma "derrota" ou "perdeu" perante a anulação de uma sua decisão.

Parece-me mesmo muito abusivo: independentemente da opinião que se possa ter sobre o desempenho deste ou daquele juiz, quando jornalistas relatam factos devem usar da máxima isenção, do maior rigor. A menos que pretendam manipular quem lê e ouve. E depois das polémicas mediáticas havidas com as declarações do juiz Carlos Alexandre, desculpar-me-ão se não atribuir a escolha do léxico ao acaso ou à incúria. 

 

Ainda a propósito da forma das notícias, o Sol apresenta como título "Ex-ministro Manuel Pinho volta a ser arguido no caso EDP" e, em destaque, "Os desembargadores do TRL acreditam que o juiz Ivo Rosa não tinha legitimidade para voltar a nomear Pinho como arguido".

Não me parece que os juízes desembargadores tenham agido movidos por , crença ou convicção, antes por análise e interpretação racional dos elementos que analisaram à luz da lei vigente. Também sei que acreditar pode ter sido usado como sinónimo de aceitar, admitir, considerar válido; mas, dada a perniciosidade da primeira acepção, suponho que os jornalistas poderiam escolher melhor o vocabulário que usam.

 

E sobre a notícia? Verifico que ainda estamos no início da instrução... o que me reforça a ideia de que estes mega-processos foram monumentais erros de perspectiva. Esperemos que não prescrevam antes de ouvidos todos os arguidos.

 

imagem colhida no Medieval Imago & Dies Vitae

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Do ócio e do ódio

por Sarin, em 27.06.19

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Há 15 milhões de jovens na União Europeia que nem estudam nem trabalham.

Serão...

indigentes ?

jovens com problemas de saúde e sem qualquer tipo de apoio escolar?

jovens fugitivos, crianças raptadas há anos, indivíduos cujo assento de nascimento foi feito mas aos quais se perdeu o rasto?

A notícia não esclarece. É pena, porque números, assim soltos, não dizem nada e permitem muitas interpretações. Decido ir à fonte. Mas a notícia não indica qualquer fonte, apenas se refere a "dados hoje divulgados pelo gabinete de estatísticas da UE"... enfim, mais um deficiente serviço noticioso.

 

Abro a página do Eurostat e tento localizar, entre os emitidos hoje, um relatório subordinado a um ou a qualquer dos temas juventude, emprego, escolaridade. Nada. Finalmente, lá descubro o artigo - que, afinal, é de Abril.

Os jovens que nem trabalham nem estudam, nomeados NEET, não se enquadram afinal em nenhuma das hipóteses antes aventadas. São jovens que, acabados os estudos, não conseguem encontrar emprego. Gente em início de vida, cheia de força, prenhe de vontade... e sem onde as aplicar.

 

No espaço de tempo que mediou entre ler a notícia e escrever o postal, li outra notícia: "Europol alerta para a acção de três grupos de extrema-direita em Portugal",  sendo que esta actividade não se esgota no nosso país. Mas é preocupante, vejam-se os números no Relatório Anual de Segurança Interna.

 

Parece-me poder haver aqui uma qualquer relação causa-efeito. E um padrão. E resultados. Não em Portugal - não ainda.

 

E, entretanto, sobre políticas demográficas, sobre políticas de emprego, sobre sustentabilidade social, estamos conversados. Ou melhor, não conversamos. Mas, avaliando pelas conversas do Presidente da República, pelos projectos na Assembleia da República, pelas opiniões dos comentadores políticos e, até, pelas conversas de café, também não deve ser importante.

 

imagem colhida em Segredos do Mundo

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As casas do monopólio

por Sarin, em 21.06.19

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Passo os olhos nas notícias e leio:

"Arrendatários de bairros sociais vão poder beneficiar de redução ou eliminação de multas."

 

Passo à frente, pensando "olha, contrapartidas para quem arrenda casas sem saber até quando". Mas enquanto avanço e relembro, por falar em dinheiro, que Notre Dame recebeu 9% dos apoios sonoramente prometidos e estes 9% vindos afinal de pequenos doadores, vou também pensando a que multas se poderão recusar os donos das casas arrendadas. Atraso no IMI? Na declaração de IRS? E num micro-segundo de pausa, o alerta: estava escrito arrendatários!

Volto atrás, e leio na notícia coisas como redução ou eliminação da indemnização pelo atraso no pagamento das rendas pode ser acordada entre senhorio e arrendatário, “sem prejuízo do direito à resolução do contrato e à cobrança de juros de mora, em caso de incumprimento do acordo”.

Perplexa, pergunto-me se não será este ponto comum a qualquer contrato, quero dizer, haverá leis que obriguem senhorio e arrendatário ao contrário do entre si acordado quando o acordo não é lesivo do interesse de terceiros?

Mais abaixo leio que esta lei  introduz proteções contra o despejo de inquilinos idosos ou deficientes e que residam nas casas “há mais de 15 anos” para contratos anteriores a 1990 e “há mais de 20 anos” para contratos celebrados entre 1990 e 1999.

Contas rápidas, um inquilino que viva há mais de quinze anos em algum local terá  entrado no local em 2004. Quatorze anos depois de 1990. Significará isto que se o contrato for de um avô que arrendou a casa em 1976, e que entretanto foi acolhendo a família, o neto não pode ser despejado se residente na casa desde 2004, o que quase significa dar a posse da casa à família? Ou quererá dizer que o escrevedor pretendia transmitir, mas falhou, que quem ocupar a casa já desde 1976 e tiver contrato de arredamento datado de 1990 não poderá ser despejado?

 

Ou a notícia está muito mal redigida ou está a lei. Como à lei ainda não li, o que fica para mais tarde, apenas posso supor.

E suponho que a notícia esteja mal redigida e a lei redigida fora de tempo, ou dentro conforme as perspectivas - porque, e genericamente falando, tanto precisa de revisão a gramática dos escrevedores de jornal como precisa o problema da habitação em Portugal.

Acreditem que terei muita satisfação em pedir desculpa se estiver errada.

 

Adenda: os parágrafos a itálico são transcrições e respeitam por isso a ortografia original. Eu não escrevo segundo as regras do AO90.

 

 

imagem colhida no Sol

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A gralha de rapina

por Sarin, em 21.06.19

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Snow Harpy, de Mark Bulahao

 

Lia no Sapo 24 uma crónica sobre o concerto do Eddie Vedder - do, não de, porque o artigo se intitula "Eddie Vedder é um de nós" e as palavras nele nos transportam àquele lugar e àquele momento em que Vedder é e se sente Eddie entre nós. O Eddie.

 

Saudavelmente triste por não ter estado presente, dançava no tom da prosa sentindo na pele surda o calor do momento que não vivi...

... e num suspiro de notas falsas tropecei em gralhas que me pareceram gaviões bicando as entranhas do texto. Morto. O momento estava morto e o sangue ali jorrado manchou-me a Língua e os despojos da crónica.

Mas Eddie continuará a ser um dos meus.

 
 
* "já depois de Glen Hansard (e que fabuloso foi Glen Hansard!) se ter encarregue"
Poderia a ansiedade confundir verbos auxiliares, mas apenas a paixão daria vida a um particípio inexistente. Hansard ter-se-á encarregado de a sublimar. Ou não.
 
* "ter aberto as hostilidades sonoras"
Estranho a metáfora. Sim, é moda... e é errada a moda e é inadequada a expressão ao momento intimista assim confrontado com evocações de barbárie. 
 
* "e ainda nos entreteu com as suas guitarras"
Entreteceu o autor as conjugações, entristeceu quem lhe leu os inglórios tropeções... o Eddie entreteve. Quem lá esteve, que eu por cá ainda triste e assim mais.
 
 

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opiniões sobre Opinião

por Sarin, em 18.06.19

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Não me canso de o dizer: o jornalismo é fundamental para a democracia.

A propósito deste meu postal, um comentador também ele bloguista afirmou que "o foco não deve ser o jornal público" mas sim as actuações do regulador e dos seus responsáveis.

Discordei parcialmente mas, porque o digo tanta vez, não expliquei porquê. Talvez seja bom relembrar. Genericamente.

 

A Democracia assenta em 3 pilares: o Poder Legislativo, o Poder Executivo e o Poder Judicial. Ao qual se junta um outro, o chamado quarto poder, informal mas muito importante porque escrutina e questiona os outros três: a Comunicação Social.

Supõem-se e desejam-se independentes uns dos outros, e espera-se que sejam transparentes e auto-regulados, com o quarto poder a ter especial papel nesta regulação por acompanhar, investigar, registar, divulgar e cruzar as actuações de todos, trazendo transparência a processos mais obscuros.

 

Sabemos, no entanto, que estamos longe da tal transparência e da tal auto-regulação dos poderes, e todos os dias notamos (e uso o plural porque a muitos o leio) que os jornais, qualquer que seja o canal usado, pouco têm contribuído para o tal escrutínio e para a tal transparência que se espera da sua acção.

Portanto, se notamos e apontamos as falhas na definição ou no desempenho do papel de um dos três poderes formais, porque não devemos questionar as falhas no desempenho do quarto, o jornalismo?

Até porque as falhas que apontamos aos outros três são-nos trazidas por este, quantas das vezes com a informação fragmentada, truncada, omissa... manipulada pelo vocabulário usado, pela estrutura dada, pelo posicionamento da própria notícia.

 

Questionar a forma da notícia, o quarto poder, não invalida questionar a notícia em si mesma, no caso os restantes poderes. Mas resulta sempre mais delicado quando não conhecemos nem sequer percebemos a dimensão do que nos é omitido - e as várias comissões parlamentares de inquérito que o digam.

 

Portanto, sim, continuarei a atentar na forma das notícias tanto quanto no seu conteúdo. Talvez até mais, pelos motivos expostos.

E não por ser mais seguro ou menos melindroso, não por simpatia ou preferência, mas porque mais objectivo: a forma da notícia está ali, à frente dos meus olhos. O conteúdo, porque incerto, exige-me muitas vezes cruzamentos de notícias várias em canais diversos - trabalho que deveria ser do jornalista, que não sou, e para o qual nem sempre tenho disponibilidade. Para quem nisto vê parcialidade, paguem-me e eu cruzarei elementos suficientes para escrever sobre o que quiserem - embora não como quiserem.

 

Já agora, porque a propósito, acrescento que tenho por princípio evitar discutir matéria em investigação - não porque não tenha opinião, mas porque suspeito da parcialidade da informação que me chega e, por extensão, da opinião que formo, que talvez queiram que forme. Mas tendo mais perguntas que respostas, o que me é normal em casos assim, posso chegar a ter suspeitas, ideias, mas nem lhes chamo opinião - e admiro aqueles que opinam com poucos dados. Admiro, não necessariamente respeito.

Assim, com uma opinião que nem o chega ser, esburacada por perguntas e alicerçada em omissões e factos fragmentados, discute-se o quê? Desconfio que apenas a opinião pública formatada à medida de insondados desígnios. E como considero que os investigadores e os juízes podem, sim, ser condicionados, influenciados, pela pressão da opinião pública, evito fazê-lo - por questões meramente de consciência, pois que não tendo voz fraca sei que pouco ou nada ecoa. Posso discordar das sentenças, mas creio nos mecanismos - e quando deles descreio, questiono a sua definição, o seu desenho, pelas falhas do mecanismo e não por me desagradar um resultado em particular.

 

Aparentemente, defender a regulação dos poderes também pelo escrutínio da comunicação social e depois advogar o silêncio para não condicionar a actuação dos escrutinados pode parecer paradoxal; mas não convém confundir os papéis de cada um: a justiça investiga e julga crimes, a comunicação social investiga e denuncia acções, não as julga, e o cidadão não julga as acções dos seus concidadãos mas sim as dos agentes do poder enquanto no desempenho dos seus cargos - para os julgar convém conhecer os factos e é aqui, exactamente neste ponto, que o postal inverte a cadência e volta aos parágrafos anteriores.

 

Estarei, com esta minha atitude, a rolar pedra montanha acima? Pelo menos não será castigo - e tenho consciência de que, se nada fizermos para a travar, é nas nossas costas que cai. Na nossa espinha, se por acaso não lhe sentem já o peso.

 

 

imagem de O castigo de Atlas, colhida no CulturaMix.com

 

Observação: notei, depois de publicar, que um dos parágrafos está destacado. Não foi propositado, não sei  sequer como aconteceu; mas como ao telemóvel e o editor não tem função que me permita formatar a letra, fica indevidamente destacado até o corrigir ao pc. Ignorem, sff. Grata.

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Pois não sei se

<<as notícias publicadas contra ele servem para desviar as atenções de “pessoas que cometeram crimes e abusaram de um sistema (...)">> 

mas tem toda a razão ao dizer deste sistema

<<"que, sobretudo até 2008, concedeu à supervisão bancária poderes legais limitados e assentou numa excessiva confiança na gestão privada dos bancos e na pretensa autorregulação dos mercados financeiros”>>

Isto diz Vítor Constâncio no jornal Expresso sobre processar o jornal Público, noticia o Jornal Económico

 

1. Acho muita graça a este excesso de jornais, noticiar num o que alguém diz noutro sobre um terceiro.

Por outro lado, a declaração de intenção individual, o "ir fazer", já foi elevada a categoria de notícia. Por antecipação da dita, suponho. Resta-me o consolo de saber que, se entretanto o protagonista mudar de ideias, estarei a braços com a pertinente dúvida de ter isto sido ou não uma fake news; e, não mudando, com a desconcertante certeza de que os mesmos jornais publicarão uma notícia que, afinal, já não o é.

 

2. Não acho graça nenhuma a estas sanhas persecutórias que analisam o passado exigindo-lhe mecanismos que então não existiam.

Nada de confusões: a inexistência dos mecanismos deve-se aos mesmos agora auditados tanto quanto aos, senão os mesmos então primos (mas não inter pares), auditores. Não invalida a sua responsabilidade, apenas a reflecte noutro ângulo da mesma questão.

Fossem os senhores deputados tão diligentes a balizar os objectivos das leis como são os advogados a avalizar as letras e os créditos, e não apenas lhes seriam mais fáceis as audições como, até, desnecessárias. Porque, entretanto, a banca continua assaz desregulada e as comissões parlamentares de inquérito já fazem parte do rico anedotário nacional.

 

3. Desconheço os pormenores da trama entre Constâncio e o Público. Reconheço apenas a constância da coisa: nós, público, seremos sempre os tramados. Talvez porque nos mantenhamos isso mesmo, público, desengraçada assistência, e desgraçadamente não assistamos à coisa pública quando precisa de nós.

E tu, onde estavas?

 

 

 

imagem em Boho Weddings & Life

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Perguntas de palavras feitas

por Sarin, em 06.06.19

Há verdades insofismáveis. Que na rede se encontra de tudo, é uma delas.

Também nos canais noticiosos e de opinião se encontra de tudo: dos que escrevem para os outros aos que escrevem para si, dos que pagam as contas com a escrita aos que gastam dinheiro para escrever.

Quando leio alguns desses tudo, há perguntas que me são recorrentes e que por vezes lhes coloco, no momento em que leio ou debato. Quando o locutor me merece continuidade. Outras, guardo-as por ausência de forma ou porque desperdício de tempo. Estas vão-se revestindo por leituras várias enquanto eu esperançosa que se dissipem - nada muda antes piora, e as perguntas ali, cheias de camadas de si mesmas ganhando dimensões alarves. Até que um dia as liberto, deixando espaço para outras. Invariavelmente, as mesmas...

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Director de jornal, porque permites comentários em notícias?

Esperas que alguém exerça contraditório numa caixa de comentários?

Desejas que quem lê ateste ou complemente os factos?

Ou apenas suportas os comentários porque a isso és obrigado, like it or not?

 

 

Jornalista, porque fazes notícia das notícias dadas por outros?

Porque não pesquisas notícias tuas ou não acrescentas pertinência ao que outros já escreveram?

Desde quando te conformas com ser um mero e mau tradutor de notícias de "lá de fora"?

Quando te darás ao trabalho de investigar factos que qualquer um pode cruzar, evitando assim publicar informação desconexa e até contraditória?

 

 

Colunista ou bloguista, porque não indicas fontes para os dados que avanças e sobre os quais escreves como se factos?

Porque insistes em validar a tua opinião com os galões de que te ufanas em vez de usares argumentos que a sustentem e que a definam como tua?

Porque escreves como se a Língua Portuguesa não fosse digna de respeito?

Porque tens caixas de comentários se não interages com os comentadores?

 

 

Comentador, porque insistes em escrever o que te apetece e raramente sobre o abordado por quem te deu espaço?

Porque presumes e peroras sem conhecimento, sem empatia, sem respeito?

Porque te permites evidenciar uma quase nenhuma civilidade atrás de um anonimato que te não isenta de responsabilidade?

Quando deixarás de verter ódios pessoais e frustrações globais num espaço criado para diálogo e que acaba por ser usado apenas como medidor de visualizações?

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Que vergonha

por Sarin, em 24.05.19

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Antes de entrar no postal propriamente dito, cumpre-me esclarecer que aprecio o Polígrafo, apesar de este ter muito a melhorar; que não conheço o verificador nem lhe conheço mais trabalhos; e que não conhecia, continuo sem conhecer, o colectivo responsável pelo texto avaliado. O que neste postal partilho resulta exclusivamente da leitura dos artigos em causa.

Esclarecida esta questão, sigamos...

 

O Polígrafo dá-me conta de que circula nas redes um texto [de um colectivo autodenominado Os Incorruptíveis] afirmando que os deputados portugueses custam 40 vezes mais do que os deputados espanhóis, e que vai verificar tais factos.

E eu li a verificação dos factos, e verifiquei que o verificador não verificou grande coisa, antes escreveu um texto em que apenas demonstra a sua confusão.

O verificador Gustavo Sampaio, doravante G.S., pessoa talvez muito competente que neste dia teve azar, falha logo na interpretação que dá às alegações: o texto que se propôs verificar fala em custo, o verificador diversas vezes entende salário. Mas já voltarei a esta questão.

 

G.S. começa por verificar os orçamentos, e corrige: o orçamento da Assembleia da República para 2018 foi de 104 909 890,00€, mas em Espanha as Cortes Gerais têm três orçamentos e não apenas um, que em 2018 foram os tais 54,5 milhões de euros, cf. indicado, acrescidos dos orçamentos específicos do Senado, cerca de 54,1 milhões de euros, e do Congresso, cerca de 39 milhões de euros. O que, segundo as contas do Polígrafo, contabilizaria cerca de 147 milhões de euros em Espanha contra os cerca de 105 milhões de euros em Portugal.

Seria quanto bastaria para desmontar a veracidade das alegações, factos concretos rebatidos.

Mas G.S. quis ir mais além, suponho que com o intuito de desmontar a proporcionalidade aventada por Os Incorruptíveis - afinal, mesmo com erro nos valores, até sem grandes contas se verifica que temos mais de 2/3 do orçamento espanhol para uma casa com um pouco mais de 1/3 dos deputados. [Relembro, como fazem no texto Os Incorruptíveis, que Portugal tem 230 deputados e Espanha conta com 616 pessoas, entre 266 senadores e 350 congressistas.]

 

Se até aqui G.S. foi claro, a partir deste ponto deixa de o ser, deixa de explicar, deixa de verificar. Confunde-se, baralha-se, opina - e factos, nenhum.

Apurar o custo per capita de um deputado não é verificar a sua folha salarial mas contabilizar todos os encargos relacionados com a manutenção do seu lugar. Portanto, de forma simplista, dividir o orçamento da Assembleia da República pelo número de deputados da nação. Como fizeram no tal texto que o Polígrafo verificou.

E se o verificador, diligentemente, se apressou a contestar tais contas avançando que os deputados espanhóis auferiram em 2018 cerca de 55 000€ e os seus homólogos portugueses apenas 49 000€ [sem explicar onde ou como apurou este valor], foi incapaz de explicar o que aconteceu ao remanescente do orçamento: nem apresentou o custo de cada deputado nem rebateu a proporção, ou desproporção, verificada em ambos os lados da fronteira.

 

Em compensação, pespega no artigo 

"No caso de Espanha, acrescem as 17 comunidades autónomas e respetivos parlamentos (em Portugal há apenas duas assembleias regionais das regiões autónomas da Madeira e dos Açores)"

informação que apenas faria sentido se os orçamentos dos parlamentos  das regiões autonómas saíssem dos orçamentos dos parlamentos nacionais. Que não saem. Já se pretendia evidenciar a quantidade de deputados (17 regiões e províncias deles contra as nossas 2) e, com isso, o esforço orçamental adicional em terras de Espanha, teria sido interessante que tivesse analisado os respectivos orçamentos e o número de deputados em causa - por exemplo, a Catalunha tem 136 deputados para cerca de 7,5 milhões de habitantes, La Rioja tem 33 deputados  para cerca de 300 mil habitantes, a Madeira tem 47 deputados para perto de 255 mil habitantes. [não tive oportunidade para averiguar os orçamentos de cada um, mas também não é esse o objectivo do postal]

 

Apresentando unicamente os valores dos orçamentos dos parlamentos nacionais e do tal valor auferido pelos deputados - que, repito, não foi justificado - G.S. termina aquilo a que chama verificação de factos dizendo que as afirmações de Os Incorruptíveis são falsas porque sustentadas "Partindo mais uma vez de números errados quanto aos orçamentos e fazendo cálculos pouco rigorosos a partir dos salários médios, dívida pública e PIB de cada país."

Assim. Confundindo salário com custo, sem apresentar contas nem fontes, abstendo-se de explicar o raciocínio que lhe permita sustentar os "cálculos pouco rigorosos" e adicionando informação desnecessária.

 

É preciso ter muito descaramento para escrever  um tal artigo e chamar-lhe verificação de factos, mas parece que é o que vamos tendo mesmo nos que desejamos "jornais de referência".

 

Nota: apesar de Os Incorruptíveis terem errado as contas e apresentado uma relação acima da real, ainda assim a diferença entre os dois países é acentuada. Seria bom dedicarmos mais tempo a pensar estas contas, estes orçamentos, estes retornos.

 

Este postal não é apenas sobre uma vergonha.

3524B168-9A23-4980-B3D1-2B8C4A138D93.jpeg Foto de Eduardo Gageiro, recolhida em Parlamento

 

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