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Música Dedicada: Elisabetta Trenta

por Sarin, em 15.08.19

A peça, With arms wide open

Intérprete, Creed

Letra e música, Mark Tremonti e Scott Stapp  (1999)

Motivo da dedicatória: Recusa em assinar o novo decreto de Salvini

 

Well I just heard the news today
It seems my life is gonna change
I close my eyes, begin to pray
Then tears of joy stream down my face

With arms wide open
Under the sunlight
Welcome to this place
I'll show you everything
With arms wide open
With arms wide open

Well I don't know if I'm ready
To be the man I have to be
I'll take a breath, I'll take her by my side
We stand in awe, we've created life

With arms wide open
Under the sunlight
Welcome to this place
I'll show you everything
With arms wide open
Now everything has changed
I'll show you love
I'll show you everything

With arms wide open
With arms wide open
I'll show you everything
With arms wide open, wide open

If I had just one wish
Only one demand
I hope he's not like me
I hope he understands
That he can take this life
And hold it by the hand
And he can greet the world
With arms wide open

With arms wide open
Under the sunlight
Welcome to this place
I'll show you everything
With arms wide open
Now everything has changed
I'll show you love
I'll show you everything
With arms wide open
With arms wide open

I'll show you everything
With arms wide open, wide open

 

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Igor Moiseyev Ballet

 

Sobre a Dança

Passos característicos, danças, trajes e músicas de todo o mundo.

Dançados por bailarinos com formação clássica e treinados nos mais variados passos do folclore mundial.

Com o folclore, a companhia traz para os palcos a pureza, o optimismo, a alegria, o humor, a celebração da vida e o poder congregante das dança dos povos.

O vídeo apresenta vários quadros dançados nos ensaios.

 

Sobre o Grupo

Fundado em 1937 por Igor Moiseyev, foi a primeira companhia profissional de danças folclóricas.

O grupo inicial integrava os 40 melhores bailarinos de companhias amadoras da antiga URSS e alguns bailarinos profissionais formados pelo estúdio do Teatro Bolshoi.

A companhia está sediada no Tchaikosvky Theatre Hall desde 1940.

O seu repertório contém cerca de 300 danças dos povos do mundo, bem como danças, imagens coreográficas, miniaturas, suites e bailados de um acto.

Em 1943, pela primeira vez a nível mundial, Igor Moiseyev criou uma escola de dança folclórica - os alunos tinham de ser bailarinos virtuosos, de excelência, capazes de dominar vários estilos e passos característicos de dança.  A escola continua a formar bailarinos. O grau de exigência não diminuiu.

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É a greve, dear Dr Watson

por Sarin, em 14.08.19

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Tenho andado a tentar perceber esta greve. Não percebo.

Durante anos não ouvi os motoristas manifestarem-se sobre condições de trabalho, sobre remunerações, sobre horários, sobre funções. Ouvi, ouvimos todos, queixarem-se do preço do combustível e das exigências de formação.

Não afirmo que não se tenham manifestado; mas não serei das mais desatentas, e a minha memória não costuma falhar-me tão rotundamente, portanto assumo que se mantiveram calados, a falar baixo ou a falar em círculos muito restritos. Poderão ter falado... Não chegou cá.

 

Os motoristas de pesados têm de ter formação específica, a que acresce mais formação específica para algumas substâncias; têm imposições legais quanto às horas de condução contínua; têm restrições à circulação em algumas cidades; dormem nas viaturas quando em transportes de longa distância; são responsáveis pela segurança dos produtos que transportam; são solicitados para as operações de carga e descarga; não encontram facilmente postos de descanso onde possam estacionar, tomar um duche, esticar as pernas; e certamente mais umas quantas questões que não me ocorrem.

Exigir remunerações proporcionais às condições de trabalho não apenas é legítimo como é fundamental - basta-nos pensar que ao fim de um dia de trabalho voltamos para casa enquanto muitos deles se afastam na continuação da viagem, a casa possível às costas.

 

Mas...

Porquê agora?

Porquê sair de uma mesa de negociações que começou este ano?

Ouvi o debate. Foi confrangedor. Da ANTRAM apenas perguntavam "Mas onde está a contra-proposta que o SIMM e o SNMMP ficaram de enviar? Qual foi o ponto que a ANTRAM recusou negociar? Porque vão entrar em greve e interromper as negociações sem entregarem aquilo que se comprometeram entregar, conforme consta na acta?" E as respostas eram, invariavelmente "A proposta foi entregue na reunião.", "Disseram que não era necessário enviar mais nada.", "De leis não percebo muito."

Durante anos andaram felizes a receber ajudas de custo, sobre as quais não pagam impostos. Alguns gabavam-se disso. Agora, só agora descobriram que as ajudas não contam para efeito de reforma e subsídio de doença? O que está mal contado nesta história?!

 

Os motoristas têm um porta-voz que é putativo candidato às legislativas. Que "não vai comentar esse assunto durante a greve" - talvez porque se a greve correr mal nunca teria sido intenção e se a greve correr bem terá uma excelente rampa de lançamento. Mas posso estar a ser injusta e Pardal Henriques apenas entenda que não se devem aclarar águas turvas.

A ANTRAM tem um porta-voz que é irmão de um adjunto de um Secretário de Estado. Eu diria que as coisas estão bem equilibradas para os assessores...

E, mais uma vez, parece-me que os trabalhadores estão a ser manipulados por interesses obscuros.

Entretanto, desde que comecei este postal, na sexta-feira, e até hoje, as posições extremaram e a greve é agora um nítido braço de ferro. Força desproporcional de todas as partes. Temo que ninguém saia vencedor. Lamentavelmente.

 

Espero que esta greve traga para a sociedade civil a discussão da Lei da Greve. Que a coloque nos programas políticos dos partidos nestas legislativas, que se definam regras adaptadas aos dias de hoje e que seja permitido aos sindicatos independentes fazerem greves sem manipulações nem suspeitas.

Espero que esta greve traga a discussão da necessidade de investimento nas grandes obras estruturais: rede ferroviária; ligações fluviais, marítimas, aéreas e ferroviárias; oleodutos. São urgentes e já vêm tarde. Onde um plano nacional?

 

Espero, ainda, que esta greve demonstre que o Estado não pode deixar de ter mão nos serviços energéticos.

É que os mais distraídos parecem não se aperceber que a greve nada tem a ver com o Governo mas com os privados. Sim, com os privados. Que normalmente reclamam da intervenção do Estado, que entendem abuso, mas que quando se sentem ameaçados acorrem ao bastião do Terreiro do Paço.

 

imagem de Chema Madoz

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Passos, um filme de dança

por Sarin, em 13.08.19

Eles e Elas, bailarinos de sapateado irlandês (reel), Shane McAvinchey, Benjamin Windborg Larsen, Tomas O Se, Ciara Callanan-Ryan, Amy Louise Hunt, Dinara Mustafina, Maciej Mikolaj Skwarek, Alexander Kukharenko, Sergey Nazarov

A coreografia, sapateado irlandês, de Shane McAvinchey

A música, ambientede Yoan Marin

A ocasião, filme STEPS (Eugene Khazov, 2015 )

 

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Música dedicada: Amazónia

por Sarin, em 28.07.19

A peça, Amazônia

O intérprete, Nilson Chaves

Letra e Música, Nilson Chaves (1991)

 

Sim eu tenho a cara do saci, o sabor do tucumã
Tenho as asas do curió, e namoro cunhatã
Tenho o cheiro do patchouli e o gosto do taperebá
Eu sou açaí e cobra grande

O curupira sim saiu de mim, saiu de mim, saiu de mim...

Sei cantar o "tár" do carimbó, do siriá e do lundú
O caboclo lá de Cametá e o índio do Xingu
Tenho a força do muiraquitã

Sou pipira das manhãs
Sou o boto, igarapé
Sou rio Negro e Tocantins

Samaúma da floresta, peixe-boi e jabuti
Mururé filho da selva
A boiúna está em mim

Sou curumim, sou Guajará ou Valdemar, o Marajó, cunhã...
A pororoca sim nasceu em mim, nasceu em mim, nasceu em mim...

Se eu tenho a cara do Pará, o calor do tarubá
Um uirapuru que sonha
Sou muito mais...
Eu sou, Amazônia!

 

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Dançando o Barco Negro

por Sarin, em 07.07.19

 

Ela, Patrícia Henriques.

Ele, Gustavo Oliveira.

A coreografia, bailado contemporâneo, de Vasco Wellenkamp.

A música, fado, Barco Negro de Amália. Letra de David Mourão-Ferreira e música de Matheus Nunes *.

A ocasião, espectáculo Amar Amália da CPDC - Companhia Nacional de Dança Contemporânea (sem data)

 

 

 

* Sobre o fado Barco Negro

A versão original desta música pertence a Mãe Preta, uma toada brasileira criada por Caco Velho (Matheus Nunes, música) e Piratini (António Amabile, letra) e gravada pelo Conjunto Tocantins em 1943.

Chegou a Portugal pela voz da fadista Maria da Conceição.

Durante algum tempo foi um sucesso na rádio. Mas, porque falava da escravatura, acabou por ser proibida pelo Estado Novo. 11 anos depois da primeira gravação brasileira, Mãe Preta foi gravada por Amália Rodrigues com a letra de Barco Negro.

 

Dizem as mulheres da praia... que não voltas... voltou. Na voz de Dulce Pontes, em 1996.

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Linha do Oeste

por Sarin, em 05.07.19

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Em criança tinha aulas paredes meias com a linha do Oeste, separada da escola por um muro e um passeio mais largo do lado de lá.

Na linha passavam comboios de cargas à vista, tantas carregadas ali, passavam comboios de segredos fechados nos vagões de madeira - que só mais tarde percebi parecidos a outros vagões de má história, os imaginados segredos assim perdidos de cor e sabor sem qualquer culpa.

Passavam comboios de gente de olhos invernados buscando as águas das Termas Reais, talvez em busca de uma D. Leonor que as não bebeu, gentes que no Verão se queriam nas praias, qualquer praia deste Oeste de frias águas e quentes areais entre a Figueira e Peniche e mais além, Lisboa adentro... Passavam comboios de gente que vivia entre estações e apeadeiros, comboios de gente que tratava o revisor como vizinho, comboios de gente.

Uma vez ou outra descia do comboio um viajante vagamundo perdido que, invariavelmente, acabava a comer sopa no restaurante da minha Tia ("um prato de sopa e um pão com azeitonas nunca se negam a ninguém, sobrinha"). Pagavam com histórias, com lágrimas se despediam e subiam a estrada, apanhavam o comboio que os levaria a outras paragens a outras sopas. Desses, houve quem voltasse passados anos num comboio mais trôpego e com uma história mais sombria - mas com uma flor para a minha tia. E uma moeda para a segunda sopa, que andar à boleia dos vagões de carga era distinto de pedir comida - nas gentes que usavam os comboios havia-os com estas dignidades.

Enfim, passavam os comboios e interrompiam as aulas, interrompiam o trânsito, interrompiam a concentração e, aos mais novos, até o sono.

E quem não ia no comboio seguia o som com a imaginação, e a professora sabia que não valia a pena acordar o momento, este passaria por si e voltaria.

E também eu cheguei a seguir no comboio, às praias, às compras, pelo passeio naquele pouca-terra que a linha do Oeste me permitia entre as Caldas e a Figueira, que a Lisboa chegava-se mais depressa de carro mesmo que apenas vinte quilómetros fossem auto-estrada.

 

Sei que agora os comboios quase não passam, e quando passam continua a chegar-se a Lisboa e a voltar-se no tempo de um pouca-terra que já nem canta... Os comboios quase não passam, a escola ainda com cantarias mas sem livros sem sonhos sem alunos. E os vagões já não dão boleia a ninguém, e já não tenho tia para dar um prato de sopa a viajantes perdidos.

 

Viajar de comboio pelo Oeste, viajar de comboio por Portugal, é quase, e apenas, uma viagem pela memória.

 

imagem da Cister FM

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Ouço Clara de Sousa, no Jornal da Noite, da SIC: "Manuel Pinho vai mesmo ser constituído arguido no processo EDP. Nova derrota para o juiz Ivo Rosa". Confusa, recuo na televisão a gravação que ainda não está disponível na rede... sim, ouvi bem.

Encontro uma notícia não assinada, no Observador: "Caso EDP. Juiz Ivo Rosa volta a perder na Relação de Lisboa e Manuel Pinho mantém-se como arguido". E fico com menos dúvidas.

 

Se bem percebo, tribunais da relação, ou tribunais de segunda instância, são o garante de que tanto os cidadãos como o representante do Estado, o Ministério Público, podem discordar de uma primeira decisão judicial e apelar para outra entidade: que podem, podemos, solicitar a reavaliação de uma decisão. Os juízes seguem, sempre, o mesmo regime legal; mas, sobre um mesmo caso, apresentam  perspectivas, sensibilidades, interpretações e, por isso, análises distintas uns dos outros - que se podem traduzir em decisões distintas. Daí que na primeira instância as deliberações sejam obra de um juíz e na segunda se submetam a um colectivo de juizes.

Deliberações distintas entre os tribunais da primeira e da segunda instância não são uma derrota deste ou daquele juiz, mas uma vitória do funcionamento do sistema judicial, que prevê este mecanismo também como controlo perante interpretações desajustadas. Porque um tribunal da relação não é um órgão que avalie o desempenho de um juiz - avalia a sua decisão. Portanto, as vitórias e as derrotas são atribuídas aos arguidos e aos acusadores, neste concreto caso o Ministério Público, pois o pleito é entre estes e não entre os tribunais.

Ora como não consta que...

o juiz Ivo Rosa se tenha constituído assistente ou seja arguido no caso EDP;

que este juiz tenha entrado com acção judicial contra alguém, ou vice-versa, no âmbito do mesmo processo;

ou que os tribunais disputem entre si qualquer campeonato...

... parece-me algo abusivo dizer que o juiz, este ou outro, teve uma "derrota" ou "perdeu" perante a anulação de uma sua decisão.

Parece-me mesmo muito abusivo: independentemente da opinião que se possa ter sobre o desempenho deste ou daquele juiz, quando jornalistas relatam factos devem usar da máxima isenção, do maior rigor. A menos que pretendam manipular quem lê e ouve. E depois das polémicas mediáticas havidas com as declarações do juiz Carlos Alexandre, desculpar-me-ão se não atribuir a escolha do léxico ao acaso ou à incúria. 

 

Ainda a propósito da forma das notícias, o Sol apresenta como título "Ex-ministro Manuel Pinho volta a ser arguido no caso EDP" e, em destaque, "Os desembargadores do TRL acreditam que o juiz Ivo Rosa não tinha legitimidade para voltar a nomear Pinho como arguido".

Não me parece que os juízes desembargadores tenham agido movidos por , crença ou convicção, antes por análise e interpretação racional dos elementos que analisaram à luz da lei vigente. Também sei que acreditar pode ter sido usado como sinónimo de aceitar, admitir, considerar válido; mas, dada a perniciosidade da primeira acepção, suponho que os jornalistas poderiam escolher melhor o vocabulário que usam.

 

E sobre a notícia? Verifico que ainda estamos no início da instrução... o que me reforça a ideia de que estes mega-processos foram monumentais erros de perspectiva. Esperemos que não prescrevam antes de ouvidos todos os arguidos.

 

imagem colhida no Medieval Imago & Dies Vitae

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"Não pares, não pares"

por Sarin, em 26.06.19

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"O Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, sublinhou hoje que o combate à corrupção “é uma grande prioridade” desde o início do seu mandato, e vincou que o país “não pode parar” com as investigações."  leio no Sapo 24.

Isto quer dizer exactamente o quê? Que Marcelo está pessoalmente empenhado comprometido dedicado ao combate à corrupção? 

E pergunto-me: acaso as investigações parariam se Marcelo pedisse com jeitinho? Ou será por Marcelo pedir para não pararem que Lucília Gago irá diligentemente prosseguir o seu trabalho?

 

Que tem feito Marcelo, afinal e concretamente? Penso que o nosso Presidente se poderia, nos poderia poupar a estes desconchavos acarinhadores. Melhor lhe ficaria se a nós se dirigisse e explicasse o incumprimento das resoluções do Grupo de Estados Contra a Corrupção (GRECO) do Conselho da Europa, supra União Europeia, portanto. Nos dissesse quão longe estamos dessa implementação, nos falasse dos relatórios de avaliação e os traduzisse na sua linguagem de quem conversa em família, que manifestasse a sua preocupação por tanto haver ainda a fazer - devo relembrar o senhor Presidente da República, tão preocupado com as eventuais? supostas? alegadas? paragens das investigações, que uma simples Comissão Eventual para o Reforço da Transparência, eventual como era demorou mais de dois ciclos legislativos para parir um documento que mereceu sérios reparos de quem o teve que validar?

Acredito que seria menos verbo de encher se pedisse, exortasse o Parlamento e o Governo a desenvolverem, a verterem claramente no nosso ordenamento legal todas as recomendações que estão por implementar. Pelo menos ficaríamos a par dos incumprimentos de resoluções concretas. Seria agradável, por uma vez que fosse, que a nós se dirigisse directamente e explicasse que o país não cumpre resoluções tomadas no âmbito de convenções pan-europeias e que por isso exigisse explicações a quem de direito.

Agora, pedir que as investigações não parem? A sério, isso é o quê?!

 

 

imagem : Rapaz a jogar ioió (medalhão de cílix ático , 440 A.C.). de domínio público

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Da resposta devida a um comentário, naufragada entre temporais de disponibilidade e bateria, aproveito para fazer postal. A resposta incial era menos elaborada mas, notando agora que não a submeti, sigo à bolina e abordo mais profundamente dois temas sobre os quais acabei por nunca publicar mais do que comentários: o Politicamente correcto e o Museu das Descobertas de Lisboa.

 
Sobre o politicamente correcto
Ao politicamente correcto surgido nos anos 80 como forma de exigir igualdade no tratamento e elidir conotações desiguais e discriminatórias, sobrepôs-se agora o politicamente correcto referente ao incorrecto, ao exagero. O problema deste termo é que acaba por promover a descredibilização do tal inicialmente correcto. Manipulações linguísticas que muitos usam para retirar força às exigências legítimas. Há muito exagero, sem dúvida, e o exagero é politicamente incorrecto.
Chamemos os bois pelos nomes, e se o PAN não gostar que entre também na discussão.
 
 
Sobre o Museu dos Descobrimentos
Acabei por nunca escrever o postal que alinhavei mentalmente, pelo que aproveito o ensejo.
Um museu destes nesta época faz-me sentido se contar ambos os lados da História, dos descobridores e dos então descobertos territórios para o mundo europeu.
Não contesto o nome, Descobrimentos porque descobertos novos caminhos e novos territórios habitados, sim, mas depois colonizados pelos descobridores. O que alterou todo um modo de vida anterior e desenhou novas sociedades. Agradável ou não, é um facto, e chamar-lhe outra coisa não o vai alterar. Expansão afigura-se-me muito mais colonialista, imperialista: a população não se expandiu, miscigenou-se, e se os territórios inicialmente serviram para expandir impérios, ao cabo de 400 anos recuperaram a independência - um museu da Expansão não pode incluir estes novos países, tem de os deixar de fora do estudo da história sob pena de a continuar a colonizar, integrando-os num território político expandido que já não é o seu.
Não contesto o nome mas contesto tal museu se tem como objectivo único a exaltação, a glorificação da arte e engenho lusos, até porque já temos alguns museus dedicados ao tema.
Um museu dos Descobrimentos tem de contar a evolução técnica, as aventuras marítimas, mas também a história dos encontros de culturas e as suas consequências, boas e más: a escravatura que existia e o nosso papel no processo, a evolução técnica e agrícola e a adaptação das sociedades, o convívio e os processos mais e menos pacíficos de aculturação de ambas as partes, enfim, todas as vertentes de tal mudança.
 
Contesto também que seja mais um museu municipal - um museu destes devia ser supra-nacional pois aborda a história comum a outros estados-nação, história que desenhou novos países e inaugurou uma nova época da humanidade, a globalização. Lisboa é a capital do país, quer um museu dedicado ao tema e tem toda a legitimidade, tem todo o sentido. Mas o Ministério da Cultura deve ter um papel activo na coordenação dos museus, do acervo mas também do objectivo pois trata-se de museus financiados. Assim, um museu dos Descobrimentos em Lisboa, sim, mas pensado como parte integrante de um conjunto e não como um museu autónomo. Lisboa tem de aprender a descentralizar. Incluindo na cultura, dinamizando e privilegiando a ligação em rede.
 
Um museu não é uma bandeira, é um acervo de registos que contribui para contar a História, e por isso não deve, pelo menos não devem os que têm capitais públicos, ser usado com fins políticos. Excepto no cortar da fita, pronto. As polémicas geradas em torno da questão são políticas e não se centraram nem centram, afinal, no museu mas em interpretações da História.
 
Por outro lado, os museus tendem a ser vistos como mostruários. Quando serão projectados como fonte de conhecimento? Quando os usaremos interactivamente como investigação e aprendizagem? Este seria uma excelente oportunidade para tudo isso: definindo pólos em diversos locais geográficos, até noutros países, criar-se-ia uma rede de museus especializados ligados sob o mesmo tema - verdadeiramente ligados, com partilha do acervo, com interactividade entre investigadores e público localmente e via videoconferência... as possibilidades são enormes. E querem reduzir tal potencialidade a umas salas com montras? Cristalizadas numa história que já foi contada de várias maneiras?
 
Deixo o Centro Interpretativo de Belmonte como exemplo de interactividade.
Ou, dedicado a outra época, o antigo Museu Militar de São Jorge: de Museu passou a Centro de Interpretação da Batalha de Aljubarrota.
Visitem, e depois contem como foi.
 
 
 
imagem: Caravela Vera Cruz no Rio Tejo, de Lopo Pizarro

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