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Velhos são os trapos

por Sarin, em 15.03.19

 

Ando a rever as primeiras temporadas de uma série que passa na Fox Crime, "New Tricks" (BBC, 2003).

Uma superintendente da polícia londrina lidera uma equipa de três antigos membros das forças policias, todos reformados e com idiossincrasias diversas, na investigação de casos antigos em aberto.

Além de ser ficção policial, área que muito me agrada e talvez uma das poucas que me mantém em frente ao televisor quando tenho disponibilidade, alimenta-se de um conceito que, cada vez mais, se torna pertinente: o que fazer aos bons profissionais quando atingida a data oficial de reforma.

Um indivíduo que se sente activo e capaz, e que assim é reconhecido por colegas e empregadores, deverá ser colocado de lado apenas porque perfez determinada idade e deve dar espaço aos mais jovens?

Nem sequer pretendo abordar a consequência do aumento da esperança de vida nalgumas sociedades, nem desejo analisar o envelhecimento de algumas populações; nem tampouco me preocupa a questão financeira da perda de investimento em capital humano, prisma que me agonia mas que é tão do agrado de muitos gestores - e que acabo por usar em situações extremas pois metade do sucesso da comunicação advém de se usar a mesma linguagem...

Centro-me no indivíduo que sabe e nos indivíduos que com ele podem aprender - e esta aprendizagem é válida para ambos, uma simbiose perfeita assim se enquadrem devidamente as funções e o respeito, nada tendo este a ver com deferência.

Sem precisar da série, recordo a substituição sem demérito do médico Francisco George no cargo de Director-Geral de Saúde, atingido o limite de idade para a Função Pública, relembro as aulas do arquitecto Gonçalo Ribeiro Telles, apreciadas até por quem não de arquitectura, revejo o dinamismo e a desenvoltura do jornalista Henrique Garcia, mesmo não sendo consumidora da TVI... Curiosamente, apenas os políticos parecem não serem considerados velhos para o exercício dos cargos a que se propõem, e lembremo-nos de Mário Soares candidato ao terceiro mandato de Presidente da República já com os 81 anos cumpridos.

[Parece sexismo, apenas dar exemplos masculinos... mas confesso que não recordo notícias sobre mulheres portuguesas em idênticas situações. Sexismo poderá ser, mas não meu. E a questão é transversal a homens e mulheres, independentemente dos indicadores. Que não estou a usar, por isso adiante.]

Não manter no activo funcionários idosos apenas por causa da idade, quando o funcionário é um excelente parceiro do negócio/serviço, essa é a sua vontade e as capacidades tal permitem, é uma dupla perda para a sociedade: para o indivíduo em causa, que definhará e se tornará um velho em vez de apenas idoso nesta sociedade que desde crianças nos incute ser o trabalho fonte de dignidade e em que tantos confundem o que são com o que fazem mercê da importância dada ao trabalho; e para a empresa/serviço, que perde um acervo de experiência valiosíssimo - e reproduzível, se devidamente aproveitado.

Reformas compulsórias são, até, estranguladoras da meritocracia, que passa por atribuir o mérito a quem o tem e independentemente de cor, sexo, religião... ou idade, não? Claro que há o risco de cristalização, do conhecimento ou no lugar - mas ambas se podem evitar pela constituição de equipas heterogéneas em idade e em experiência. 

Por outro lado, manter idosos no activo para lá da idade da reforma não significa forçosamente atribuir-lhes as mesmas funções ou o horário completo de trabalho - a assessoria interna pode ser uma excelente solução. Embora se encontrem consultores seniores quase adolescentes, mas espero que apenas em algumas empresas pré-formatadas.

 

Voltando à série, divirto-me muito a ver as abordagens criativas para os choques de gerações e a comicidade ambígua das personagens idosas, que tão depressa suspiram pelo dantes é que era como se recusam a ser classificados de velhos ou ultrapassados. Não é nenhuma obra prima, mas durante 45 minutos estou bem disposta com as suas peripécias. E nos minutos posteriores penso nas pequenas mensagens paralelas. Hoje deu-me para escrever tais pensamentos... há dias assim. Mas tinha saudades. Da série e de escrever.

 

 

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Do Bairro da Jamaica

por Sarin, em 28.01.19

 

 

Nunca lá fui. Nem tenciono ir: não tenho familiares ou amigos que lá morem, não tem nenhuma atracção cultural, portanto não tenho motivos para conhecer ou visitar um bairro cuja existência desconhecia até há pouco.

Ouvi falar dos confrontos entre moradores, que teriam acabado  em confrontos com a polícia.

Nestas coisas nunca ligo muito a quem provoca o quê, porque o ruído é ensurdecedor. E desta vez foi desastrosamente ensurdecedor. Foi o vozear dos que não estiveram envolvidos mas que gritaram muito alto que tinham sido confrontos por motivos racistas, tão alto gritando que abafaram a voz dos moradores, dos que lá estiveram, e que diziam que não, que não foi discriminação, foi abuso de força - o que, não sendo bom, não é tão mau.

Também houve o ruído por causa da Língua Portuguesa, que bosta tanto pode ser substantivo como adjectivo - e há por aí muitos sujeitos não substantivos cujo objectivo é adjectivar tudo e mais alguma coisa que lhes possa dar visibilidade. De um assessor espera-se mais fluência, mas quem nunca borrou a pintura que atire a primeira nódoa. Já nódoas como as gentes que insultam por não perceberem português e perseguirem objectivos racistas além de perseguirem outras gentes, nódoas dessas podem atirá-las para um canto e lá as deixarem esquecidas, bafientas, sujas.

Nódoas de todas as cores, essas que perseguem e as que filmam a polícia que dizem vai "ser agora, vai ser agora" enquanto focam alguém virado para a polícia, desfocam e voltam a focar quando o polícia está já envolvido num corpo-a-corpo, o que foi dito e feito entre uma imagem e outra não sabemos mas ouvimos distintamente a antecipação do confronto, "é agora, é agora" qual director de cena preparando as claquetes.

E também houve o ruído daqueles que têm bairros de porto-rico e bairros das honduras nas respectivas autarquias mas aproveitam para apontar o dedo à autarquia, que quem não gosta de reggae não é bom político e o Bairro da Jamaica sempre é de outro caribe.

Caribe sem carimbo, como todos os bairros ilegais, e este é ilegal muitas vezes, desde obras abandonadas a terrenos hipotecados e deixados ao abandono.

 

Estando o ruído mais calmo, aguço o olhar e vejo

* Que os problemas da violência policial se dissiparão quando cada agente tiver uma câmara de filmar no bolso, a protecção de dados que se arranje com esta solução.

* Que o problema dos bairros ilegais não pode ser tratado como um problema dos municípios, a habitação é um direito constitucional que implica deveres - dos cidadãos e do Estado. Tratar um bairro ilegal como legal, com saneamento básico e luz, será avalizar a ilegalidade em terrenos particulares, deixar 1200 pessoas viverem sem saneamento básico é uma questão de saúde pública, uns endividarem-se para pagar a casa e outros terem casa gratuitamente é injustiça social, garantir abrigo a famílias sem tecto é dever humanitário. Não é simples, e resumir esta questão a "vontade política" é ser desassombradamente hipócrita.

* Que a câmara do Seixal começou a reintegração de 200 famílias em 2018; desconheço os trabalhos que foram desenvolvidos, mas a reintegração começou antes dos confrontos pelo que os ataques partidários dizendo que a autarquia nada fez são falsos. Quando muito, terá feito muito pouco ou muito tarde; mas, e como disse antes, os bairros habitados ilegalmente não são mera questão de vontade política.

* Que os partidos e os seus actores directos nestes ataques à polícia, precipitados e mesmo antes de saber o que se passou, deviam ser responsabilizados política e criminalmente. Só assim conseguiremos acabar com a irreflexão. 

* Que a comunicação social devia ser criminalmente responsabilizada por esta vergonha desinformativa, responsável que é pela exaltação de uma ou outra perspectiva em detrimento dos factos e com as consequências que já conhecemos.

 

Quanto aos cidadãos, apenas vejo que muitos continuam a preferir embarcar de ouvido e destruir do que pensar e construir. Apenas posso desejar que cresçam, amadureçam, sejam cidadãos de plena consciência em vez de joguetes de interesses vários.

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Do Reno. Ou do Tejo.

por Sarin, em 22.01.19

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Cataratas do Reno, Neuhausen, Suíça

(foto retirada do Turismo da Suíca

 

 

O rio Reno é alpino e nasce neutro, nos Grisões suíços. Desce a montanha e sobe a Europa, ansiando morrer no Mar do Norte, frio como nasceu e talvez por isso enrolado no Mosa, que mais frio não haverá do que frio morrer sozinho.

No caminho, leva a memória dos países que banha e lava das terras a mancha das muitas batalhas que nele sangraram, desde os romanos caídos pela Fronteira Norte do Império aos soldados que finaram na Operação Market Garden - porque o Reno nasce neutro mas só depois da Segunda Guerra Mundial assim o deixam morrer. 

 

E se em todos estes séculos todos os dias o Reno nasceu a Sul e morreu a Norte, num ciclo perfeito de água velha rechovida, parece que agora todos os dias morre assim mas morre mais um pouco em cada gota: o Reno está a secar.

As notícias vão dizendo, nos últimos anos, que o Reno recupera lentamente, que o Reno está com o mais baixo nível de água, que a Economia está ameaçada pela baixa de caudal no Reno...

... e o Tejo? E o Douro, o Guadiana, o Mondego, o Sado?

A gestão dos riscos climáticos continua a ser preocupação apenas de alguns no Mundo. Pelo Mundo.

E, em Portugal, a gestão da água continua a ser uma coisa que vai e vem. Como a chuva.

 

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Pedra angular no charco

por Sarin, em 18.01.19

 

 

Não percebo...

... se Luís Montenegro não sente como derrota política a vitória da moção de confiança a Rui Rio, o que considerará ele uma derrota política? Mudar de postura não mudou, vejamos por quanto tempo.

 

Não percebo II...

... se o que Montenegro queria e quer são eleições directas, para que raio desejava esperava ansiava ser ouvido neste Conselho?

 

Não percebo III...

... se Luís Montenegro queria e quer eleições ao fim de um ano de mandato porque as sondagens indiciam perda de eleitores, porque não se demitiu nem propôs a demissão do presidente do partido em 2013 quando perderam as autárquicas, em 2014 quando perderam as europeias, em 2015 quando o governo PàF e o seu programa de governo perderam o pé e foram rejeitados pela Assembleia da República? Ou, perante as descidas anuais nas intenções de voto no tempo da troika, porque não propôs a demissão do então Governo?

 

 

E ainda fala de sentido de Estado e preocupação com o País... enfim, a história de um pedreiro que nunca foi mas quase foi mas nunca chegou bem a ser!

 

Não sou pedreira nem frequento catacumbas, mas gosto de arquitectura...

... e anda o tonto do Rui Santos a dizer que quem quer controlar a AR e os tribunais são os clubes... haja paciência para tanto desarrazoado!

Para arrozado, temos o da tia Cristas. Ai o gostinho...

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Felicidades, 2019!

por Sarin, em 31.12.18

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A imagem... adivinharam, é de Quino e usei-a desavergonhadamente. Sejam desavergonhados também - usem a imagem e abusem da mensagem.

 

Não esperemos que seja um ano melhor, sejamos melhores no ano que esperamos.

Feliz 2019!

 

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Ahab do Sol Nascente

por Sarin, em 26.12.18

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Imagem de poster comercializado pela Wisdom Supply Co, aqui.

 

 

O Japão anunciou ontem formalmente o que havia ameaçado em Setembro: abandona a Comissão Baleeira Internacional e junta-se à Islândia e à Noruega  na caça comercial de baleias, que na verdade nunca havia deixado de promover. 

Os aumentos verificados nalgumas populações de baleias ainda não retiraram as várias espécies do limiar de risco de extinção, sabendo-se que o aquecimento das águas dos mares e a poluição têm condicionado também a sua sobrevivência.

Os islandeses exportam grande parte da carne e derivados para o Japão. Os noruegueses exportam parte da carne e derivados para o Japão. Os japoneses parecem, assim, ser os grandes consumidores de baleias. Que se comprometam a pescar apenas na sua zona económica exclusiva poderá ser verdade - mas viu-se o sucesso do seu "programa de investigação" .

 

Ainda sou do tempo em que os tratados internacionais só não eram respeitados pelos chamados países sub-desenvolvidos. Tenho saudades - não era um mundo perfeito mas, pelo menos, não estava em marcha-atrás.

 

 

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Os anéis e os dedos

por Sarin, em 12.12.18

Teresa May ficou com os restos das loucuras de outros.

Sem as pedir, sem as querer, mas com enorme sentido de dever.

Lamento-a, e apesar de me não ser especialmente simpática reconheço-lhe fibra.

Insuficiente, mas como a podem acusar quando quem quis os anéis se encolheu e quem não os quis lhe estica o dedo?!

Adam Serkis explica-o muito bem:

Sméagol e Gollum, com os cumprimentos do Brexit.

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Auto-retrato de quem quando

por Sarin, em 09.12.18

Dói-me o corpo das batalhas que encetei.

Dói-me o corpo, não a vontade

- a última fronteira.

 

Lutei, abracei,

dei tudo de mim

- e ainda assim fiquei inteira.

 

 

Por isso me pergunto

- como me achei

se nunca me perdi?

 

E assim me vislumbro nos pedaços não estilhaços

que de mim vou encontrando por aí

- sei que não os deixei espalhados,

não os dei, menos vendi.

 

 

 

Encontro lampejos meus,

do que serei.

E vivi.

 

 

(não datado. Antigo. E actual)

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E assim os anjos

por Sarin, em 09.12.18

Quando o Diabo arribou

a aldeia fugiu.

Esqueceram uma menina

que chorou

e o Diabo sorriu.

É que a menina não tinha medo...

tinha, mas não dele.

Era o medo da noite

do silêncio

do papão

- mas do diabo não.

(porque quando a aldeia fugiu

não teve tempo

para gritar

que aquele era o diabo

que os havia de levar)

 

Mas

lembrava-se o Diabo

de ter sido pequenino

e por isso

do seu olhar jorrou luz

que iluminou a noite.

E a menina

riu

e o silêncio morreu com a escuridão apagada

- os olhos do Diabo.

 

Quando a aldeia voltou

tudo estava sossegado.

Intacto.

Menos a menina,

que não apareceu.

 

Devolveu a alma ao Diabo

e morreu.

 

 

(Não datado. Década de '90)

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Quino explicou-o em 1978:

 

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Imagem fotografada das páginas do Gente, álbum publicado em Portugal pela Publicações D. Quixote em 1995.

 

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