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Só por causa das coisas...

por Sarin, em 17.05.19

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Abri o postal para falar de outro assunto, mas a pintura levou-me a pensar na arte, desta saltei à educação e, antes de tocar no assunto que aqui me trouxe, falarei de manuais escolares. Eu sei... adiante: manuais escolares!

Aqueles que são, e muito bem!, gratuitos para os alunos dos primeiro e segundo ciclos do ensino público. E cuja reutilização nunca percebi bem, pois lembro-me de que os meus eram, na década de '80, muito interactivos: eles davam-me matéria de estudo e eu carregava-os com anotações. Por vezes tinham troianos, recados discretos para os vizinhos, e programas perniciosos, anotações-poemas que caíam nas margens por descuido da esferográfica que não meu pois nesses entãos longe.

Pergunto-me como se pode reutilizar manuais escolares - fazendo dos livros museus com grossos cordões entre a obra e o estudante? [Lembro-me de ter observado as nuances da Mona Lisa num livro, pois no Louvre foi impossível - e não sou baixinha.] Recuperando o método do copiar para aprender? [Confesso que duvido dos méritos, os meus avós sabiam os rios e as estações de Norte para Sul e de Sul para Norte, mas não tivessem viajado e o norte ter-lhes-ia sido, a vida toda, o portão do quintal. Pronto, pode resultar nalguns casos - mas é em alguns...]

Os números demonstram que muitos concordam comigo: 11% de reutilização no primeiro ciclo e 0,4% no segundo, com 16% das escolas a não terem quaisquer procedimentos de reutilização. O Tribunal de Contas é que não gosta destes números e avisa que a medida não é sustentável. Que tem de se aumentar o índice de reutilização, dizem... como? Ainda para mais com crianças - colocamos os livros em redomas? Talvez se pedirmos aos professores para estarem com atenção aos livros em vez de aos alunos, e enviarem recados aos pais "por favor, não alimente o seu filho enquanto estuda"...

Os actuais manuais não estão concebidos para a reutilização. Plastificá-los não me parece solução, e tecnologia é bom mas um livro é uma velha multi-ferramenta com alimentação autónoma. Que não bloqueia.

Por outro lado, o ensino não se deve adaptar à necessidade de aumentar estes índices sobre os quais se debruça o TC. [Tudo bem, analisa a medida conforme foi apresentada; mas podemos ir mais além, certo?]

Lamento que sejam necessários 145 milhões de euros para garantir manuais escolares gratuitos - é um valor elevado, nem discuto. Mas não significa que se deva rever o procedimento de reutilização - antes que se deve rever o procedimento de aquisição dos mesmos. Livre concorrência e direitos de autor? Desculpem lá, mas temos uma Imprensa Nacional, e os agrupamentos têm reprografias - porque é que adquirimos tais manuais às editoras e não os direitos de reprodução aos autores?

Porque concordo com a gratuitidade dos manuais. E concordo com a necessidade de promover medidas sustentáveis. Mas a reutilização nem é método nem medida. O Tribunal de Contas e o Ministério das Finanças precisam de sair das grelhas do Excel e de deixar de olhar para a Educação pela óptica da despesa ou pela óptica da sustentabilidadezinha - deixem-se de estrabismos e de ambliopias, a Educação é um investimento de retorno garantido!

 

 

Mas eu abri o postal foi para agradecer ao ainda comendador Joe Berardo [por pouco tempo, Cristas não dorme!] este supremo serviço à Nação. Precisávamos mesmo da catarse, pobre povo até aqui dividido nas indignações e agora, finalmente, com um alvo único. Indignados e verborrentos, mas unidos, caramba, que nem o Euro 2016 e seus comendadores nos uniram desta maneira!!!

Só por isso deixava Berardo ficar com as comendas...

 

 

imagem de Nuno Ferreira Santos, recolhida no Público

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Mães e madrastas

por Sarin, em 08.05.19

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No Domingo que agora passou foi Dia da Mãe. Mas, nesse mesmo Domingo, li uma notícia que me impeliu a escrever sobre um outro lado desta, chamemos-lhe, efeméride. O lado dos filhos que não têm Mãe. Um dos lados, e um lado sórdido, doloroso, vergonhoso.

 

Há, infelizmente, muitas formas de não ter mãe - a indiferença da progenitora presente, o abandono da cria, o afastamento forçado, a morte.

Ao longo dos séculos, muitas crianças sem mãe biológica presente acabaram por encontrar uma figura maternal numa outra familiar, numa segunda esposa amásia ou cônjuge, entre estranhas que as adoptaram e, até, entre estranhas que as acolheram - embora acolher tenha múltiplas tonalidades, entre admitir em sua casa e proteger

O internamento de órfãos e de crianças em risco não é recente. A Igreja Católica, e depois desta outras igrejas, desde antes de Constantino que levava a cabo a sua missão social - com a contrapartida doutrinária, claro, mas nem por isso deixando de atender a quem sofria. Divulgou-se a caridade e, por oposição ao estoicismo, cunhou-se a empatia entre quem recebia cuidados e quem cuidava.

As estruturas de internamento foram-se diversificando, especializando, e quando se começou a dizer que as crianças não eram adultos em miniatura surgiram os orfanatos e as responsabilidades dos Estados. Algures no caminho, a sociedade encarou a obrigação e a caridade ganhou contornos místicos, ela própria passando a ser moeda de troca para o estado de graça, fosse porque "dos pobres é o reino dos céus" fosse porque, então como agora, a absolvição era acto bem terreno e mais importante do que o cuidado era a imagem do cuidador.

E foi assim neste desviar de conceitos que chegámos aos orfanatos semelhantes a campos de concentração. Na Irlanda, na Escócia, na Holanda. E talvez em muitos mais lugares deste mundo. 

Chocam-me todos. Mas choca-me especialmente o caso da Holanda, com desenvolvimentos mais recentes.

Cerca de 15000 meninas foram internadas nas Irmãs do Bom Pastor. As meninas entregues aos cuidados desta congregação de almas caridosas, muitas daquelas estigmatizadas como prostitutas porque vítimas de abusos sexuais, quase todas ou todas oriundas de famílias carenciadas, pagavam o maternal acolhimento lavando e cosendo roupa 60 horas por semana. Este tratamento, "normal para a época", ocorreu entre 1860 e 1978.

As respostas obtidas é que não são nada normais para a época, já que deste ano da graça de 2019:

a) As freiras "não agiram por iniciativa própria", já que o internamento "era determinado pelo Estado, geralmente pelos tribunais, pelo que deveria ter havido inspecções oficiais" e assim "a responsabilidade não é exclusiva" da congregação.

b) O tratamento correspondia "à prática religiosa de tratamento de órfãos";

c) Estas crianças "vinham de contextos complicados" pelo que "poderia ter sido pior" o seu destino.

As aspas encerram citações. Obtidas com esforço - não queriam falar do assunto porque "iam tratar os abusos sexuais na Igreja Católica, e este caso era totalmente diferente, só se referia a trabalhos forçados, e era normal, na época". 

 

Até posso aceitar o argumento da normalidade se lida como usual - mas que se extingue com o fim da II Guerra Mundial e com a assinatura da Carta das Nações Unidas. Cerca de 30 anos antes, portanto.

Até posso aceitar que o Estado partilhava a responsabilidade pelas condições do internamento, e que estas não era exclusivamente da congregação - mas as respostas são. Os tempos verbais são distintos, as mentalidades também deveriam ser. Tinham obrigação de ser!

Até posso perceber o quase-silêncio em torno destes casos - não falamos de exploração ou abuso sexual, motor de vendas, mas apenas de trabalhos forçados. E as vítimas eram meninas, o mais parecido com o chão na hierarquia da Igreja d.C. - a.F.. Eram meninas mas já não são, pelo que também não interessam à comunicação social, às redes sociais, enfim, às gentes que se inflamam com os males de qualquer desde que tenha muitos likes, gentes que no dia da Mãe dão cartõezinhos com frases replicadas que talvez nunca tenham saído dos seus lábios originais.

Parece que na escala de escândalos a clamar justiça e atenção, estas meninas terão à sua frente as freiras escravizadas, porque religiosas, e os menores abusados sexualmente, porque o sexo vende. Para todos estes a sorte foi madrasta... e algumas madrastas parecem querer que continue a ser

 

 

Na imagem, uma 'lavandaria das Madalenas' irlandesa. Fotografia de cerca de 1900, autor desconhecido. Fonte: El País.

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Fui princesa, como todas as meninas o são para os seus familiares e amigos. Mas uma princesa muito democraticamente senhora do seu nariz, nada preocupada com protocolos e avessa a essa coisa de lugares herdados. Portanto, princesa, mas muito republicana.

E um dia, um dia questionei-me. Muito seriamente: porque não ter uma monarquia?

Não me vou repetir - está tudo no Rasurando ;)

 

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Os dias têm estado frios no termómetro, o mercúrio que já pouco se vê a comprimir-se mais e mais no fundo do tubo de vidro. Penso que será por timidez, e talvez até vergonha, por este início de ano tão escanzelado e, ainda assim, de enorme e rotundo ventre dilatado pelos vermes que o corroem.

Atravessado o Atlântico, pelo Brasil toma posse um Presidente eleito democraticamente mas designado pelos deuses. O do autoritarismo entre estes, vestido de azul e de arma em punho pela defesa da exploração da Amazónia. Já nos EUA mais de oitocentos mil funcionários públicos ficam sem salário porque o Presidente quer provar que os Democratas não se preocupam com o país, traidores que lhe não dão o dinheiro que permitirá deixar de fora os imigrantes ilegais e de dentro os barões do jogo, da droga, do tráfico de pessoas e de influências. Isto enquanto na Venezuela é reempossado um Presidente possesso pela democracia, e que por tanto amor lhe ter manda prender quem lhe chama doente, ao Presidente ou à Democracia, não se sentindo proxeneta quando a clamam violada.

Do outro lado do Pacífico, pelo Japão fazem-se preparativos para retomar as grandes caçadas às baleias enquanto se aumentam os esforços para deixar as mulheres de fora do ensino superior e dos cargos de decisão, gueixas sem direito a queixas. A China ali tão perto, pelo contrário, distancia-se e avança rumo a África e à Europa, seja em barcos pesqueiros travados pelas terras de Moçambique ou em cargueiros que aportam à Europa sem problemas porque seus os portos, ou quase. Mas do lado de cá do Índico,  nas arábias, joga-se o tradicional jogo menina não tem querer, seja no futebol apartadas ou do casamento fugidas, enquanto a hipocrisia se instala encostada à ONU - enquanto o petróleo for saudita a responsabilidade por acolher refugiados, mesmo que apenas uma jovem, é da ONU e assim oh, nu vamos indo.

Enfim, valha-nos o Velho Continente , onde Putin continua como quer, com paciência e gozo a manobrar o tabuleiro de xadrez onde nos colocou há muito. Por França os coletes amarelos dão dores de cabeça a Macron, enquanto que de Itália o governo se solidariza com os vandalismos. Com os vandalismos, não com a insatisfação. O plano B do Brexit continua a ser But WTF... ninguém sabe como sair da fossa que cavaram a não ser enchendo-a de tal forma que, um dia, conseguirão flutuar e finalmente alcançar terra firme, o cheiro nauseabundo colando-se-lhes na pele e nos objectivos.

E para não destoar, em Portugal o Presidente da República troca o sentido de Estado que tanto lhe é caro por um telefonema carinhoso, não vendo desafecto por ninguém pois as audiências são grandes; no PSD tentam imitar o PS: depois de muito gozarem e fazerem tiro ao pratinho do poucochinho, aperceberam-se da poucochinha hipótese de  colocar todos os novos galitos no poleiro e por isso vá de bicar  na direcção eleita; de Cristas, apenas o ronronar de gata que procura peixe, quem se fica por cavala quando pode apanhar carapau pois longe o tempo dos chernes? À esquerda a coisa vai num remanso de sindicatos a manterem-se sob rédea, e o BE indignado com todas as indignações, dos piropos ao OE ao género dos anjos que ocupam o hemiciclo. E a Justiça igual, apesar da campanha para vender a tese do afastamento da anterior PGR. Igual, e os do costume a estrebuchar... 

 

... enquanto o mercúrio se encolhe, pois como não? É Mercúrio em retroversão e Marte a entrar a abrir neste 2019, valha-nos a Terra andar desnorteada com o pólo magnético em fuga, talvez que a tormenta maior nos passe ao lado por engano dos GPS.

 

Ámen.

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Que as enfie quem de direito!

por Sarin, em 10.01.19

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(fonte da imagem aqui; e por aí em cargos vários, as orelhas)

 

Leio que "Alunos com piores notas no exame de português são os que escolhem ser professores".

E fico estupefacta, pois conheço antigos colegas hoje professores de várias áreas que tiveram excelentes notas, antes durante e depois da minha frequência de tal disciplina nos ensinos básico e secundário. Intrigada e preocupada com as eventuais alterações curriculares que terão afastado as boas notas a português dos professores, ou com a (má) vida que terá afastado os professores das boas notas a português, vou-me à notícia.

Choco, embora não chocada porque já habitual, com a evidência do sensacionalismo jornalístico: não, afinal não são apenas os piores alunos de português que acorrem aos cursos pedagógicos, pois afinal trata-se da análise de 1 média de 1 exame nacional em 1 ano lectivo. Singular, tudo isto...

Convém referir que a média em causa se situava, no ano lectivo analisado que foi o de 2016/17,  em 10,2, dez vírgula dois - já os alunos de comunicação social granjearam 11,8. Onze vírgula oito. Fixemos estes valores, a eles voltaremos.

Entretanto, vejamos que entre os futuros profs estatisticados, e assim denunciados como fraquinhos na língua pátria, estão os que estudaram a Língua Portuguesa porque em Humanidades, os que estudaram a Língua Portuguesa porque em Ciências Económicas e Sociais, e os que estudaram a Língua Portuguesa porque em Ciências Naturais, e talvez ainda todos os outros de todas as outras áreas de estudos que não refiro não lembro não conheço. Todos estudaram a língua, tal como os alunos que se candidataram a cursos de Comunicação Social, mas estes com mais profundidade do que os de Ciências Naturais ou Económicas pois que maioritariamente oriundos de um  secundário de Humanidades feito. E muitos das humanidades perdidos quando na vida activa. Cá voltaremos, também...

Estas baixas médias em Língua Portuguesa permitem reabrir o debate: afinal, o que se pretende dos professores? Que sejam bons alunos na língua que todos falamos ou que sejam exímios pedagogos e que dominem conhecimentos na sua área científica?

Um professor é um modelador de mentes e de carácteres, não apenas um explicador limitado à sua área de formação. Logo, tem de conhecer, tem de aplicar e tem de exigir aplicadas as regras comuns da Gramática da Língua Portuguesa, Pragmática antes de Sintaxe e Semântica.

Por outro lado, um exame não avalia as capacidades de um aluno. Classifica apenas o que o aluno consegue debitar no momento do exame - pois é, a avaliação contínua é uma prática muito do meu agrado, e embora compreenda a necessidade de quantificar o conhecimento, deparo-me sempre com a impossibilidade matemática de resumir o saber adquirido ao longo de uma recta de anos num ponto do mesmo eixo temporal. É este um outro tema - se bem que relacionado, pois nisto da cidadania da educação e do ensino anda tudo mais interligado que o ovo e a galinha, só não se pode é contar com o dito no dito-cujo da dita.

Voltando às médias e aos professores saberem ou não saberem português, lembro-me de um meu professor universitário da área da biologia que escrevia muito. Escrevia tanto que, nas aulas teóricas, projectava nas paredes as sebentas que escrevera e, não satisfeito, lia-as vírgula a vírgula numa excelente dicção apenas audível nas três primeiras filas. Felizmente imobilizava-se junto ao retroprojector, movesse-se ele e lá se iriam as ondas espraiar longe dos ouvidos sonolentos que as aguardavam. Lembro isto nitidamente, já menos nítida recordo a microbiologia por ele escrita que, não obstante, foi muito bem ensinada nos laboratórios pelo próprio e pelos assistentes sob sua orientação.

Pretendo com esta ilustração verídica demonstrar que, se a Língua Portuguesa é condição sine qua non  para se ser um bom professor, as competências comunicacionais deviam-no ser mais. Mas, e acima de tudo, deviam ser avaliadas e equacionadas as capacidades e limitações de quem  realmente sabe, para que o Saber não fique perdido entre vozes baixas que funcionam em laboratório mas não perante cem alunos,  ou em textos técnicos confusamente escritos porque, entre decorar definições gramaticais e praticar a sua aplicação, a quantificação ganhou e o professor de física teve que aprender e apreender outras fórmulas, não tendo por isso pachorra para, sozinho, tentar perceber o que raio seria aquilo de atractores de próclises. Sim, disse sozinho - a forma como são leccionadas as disciplinas de português aos alunos de outras áreas científicas é muitas vezes direccionada para a nota positiva nos exames e não tanto para a aprendizagem efectiva. Porque os professores conhecem, na prática, os desajustes dos currículos e das fórmulas de avaliação, e o modelo de ensino não lhes permite muito espaço de manobra para ajustes directos (ao contrário do que acontece com o Código das Contratações Públicas um muito por todo o Estado! Desculpem, isto não é deste postal, escapou-se-me...)

 

 

Títulos como o da notícia mais não fazem que rebaixar a profissão do professor. De qualquer professor.

Numa sociedade que exige tudo e nada dá, onde o ruído abafa qualquer som, onde a moda é contestar sem saber ler nem escrever os porquês da contestação quanto mais as propostas para melhoria, este tipo de títulos dá, certamente, muita visibilidade ao jornal que o escreve.

 

Mas... lembram-se dos números que deixámos uns parágrafos acima? Pois é, os senhoras da Comunicação Social, cuja formação no ensino secundário é feita maioritariamente em Humanidades e cujo ensino superior prevê mais horas de disciplinas de Língua Portuguesa do que o dos professores de Matemática, Física e Biologia juntos, têm uma excelente razão para se regozijarem (11,8)... entredentes e com orelhas de burro, digo eu perante títulos como este.

 

Que a Língua Portuguesa é por nós muito maltratada, é um facto.

Que os professores são maltratados e destratados, tendo ou não responsabilidades individuais e colectivas, é outro facto.

Que a Comunicação Social tem enormes responsabilidades nos factos anteriores, desafio-vos a contradizer!

 

Agradeço aos Professores que foram meus. Mais do que me ensinarem a matéria curricular, apoiaram-me e deram-me liberdade para ser curiosa e perguntar  criar  sonhar - e por isso os guardo em mim. Foram e serão sempre meus.

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O Amarelo enjoado

por Sarin, em 21.12.18

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Ontem comecei um postal sobre os coletes amarelos e a manifestação de que se falava para hoje.

Por motivos familiares ficou-me a meio, entre o aniversário do quase centenário avô e o pedido de atenção da princesa-saltimbanco que é a patanisca minha sobrinha.

Propunha-me desmontar as reivindicações dos nossos coletes amarelos, uma lista onde constavam 8 pontos subdivididos em pequenos apontamentos reivindicativos. Estava até bastante entusiasmada, porque logo no primeiro ponto do manifesto do MCAP (Movimento Coletes Amarelos Portugueses) a coisa prometia... entretanto atrasei-me interromperam-me a noite caiu, e o dia 21 chegou antes de eu conseguir acabar o postal. Mas tinha já avançado tanto que era uma pena não o finalizar... mesmo que apenas depois de acabada a manifestação que não chegou a ser.

E deixo previamente o lamento por eventuais discordâncias nos tempos verbais; não fui rever o trabalho feito, e o que estava incompleto segue incompleto porque, para o caso, já é indiferente. Depois não digam que não avisei.

Enfim, cá vai a análise à carta do “Nós” somos o MCAP, Movimento de coletes Amarelos Portugal - e escalpelado como se impunha ontem e não hoje mas talvez amanhã outra vez.

 

"1. REDUÇÃO DAS TAXAS E IMPOSTOS
Redução do IVA/IRC e concessão de incentivos, fiscais e outros, para as micro e pequenas empresas poderem pagar, com a correspondente taxação às grandes empresas e multinacionais, com base na sua margem de lucro;
Fim do imposto sobre produtos petrolíferos e redução para metade do IVA sobre combustíveis e gás natural;
Redução das taxas sobre a eletricidade, com incidência sobre as taxas de áudio-visual e de emissão de dióxido de carbono;"

Portanto, a proposta passa por adequar o IVA e o IRC aos rendimentos das micro e pequenas empresas:

a) O valor acrescentado deixa de ser atribuído ao produto mas antes ao produtor - e não se corre o risco de o IVA deixar de ser imposto e passar a ser qualificativo? Que a mim pouco me importa porque entendo ser o valor acrescentado pelo uso dado e não por tabela fiscal, mas adiante; Se o IRC passar a ser definido em função do RC... mas, eperem, isso não é o que se faz já?! que raio pretendem??

b) Porquê metade do IVA? Consideram o gás e os combustíveis bens nem essenciais nem não essenciais, mas uma coisa assim-assim? Que lógica tem este "metade"?

c) São contra a taxa de CO2, contra o CO2 ou apenas contra o facto de ser taxa sobre a electricidade?

 

"2. AUMENTO DO SALÁRIO MÍNIMO NACIONAL (SMN)
Aumento imediato do salário mínimo para € 700,00 (setecentos euros), bastando, para o efeito, proceder ao corte nas pensões acima de € 2000,00 (dois mil euros);"

a) Contas de merceeiro? Alguém fez tais contas? E se as fez... para quê?! - veja-se b)

b) Quem paga as pensões são os fundos de pensões e a segurança social; quem paga os salários são as empresas , incluindo as estatais. Como sugerem tal movimento financeiro? - os fundos transferem o remanescente para as empresas só porque sim, sorteando em cada mês as empresas beneficiárias, ou estas tornam-se associadas dos fundos até um limite estabelecido pelos respectivos fundos? Ou, antes, os fundos fazem aquisições nada hostis às empresas e assim podem pagar salários sem problemas porque passam a ser os próprios empregadores?!

 

"3. AUMENTO DO SUBSÍDIO DE DESEMPREGO
Aumento imediato do subsídio de desemprego, incluindo o período de duração/vigência, bastando, para o efeito, proceder ao corte nas pensões milionárias acima de € 5000,00 (cinco mil euros), que, obviamente, representam uma carga enorme para o contribuinte;"

Confesso que esta nem estaria mal pensada, mas levanta-me algumas questões: e aqueles que descontaram anos para terem tais pensões, trabalhando no privado? E aqueles que, trabalhando no Estado, auferem tais pensões por prestação de serviços técnicos especializados durante muios e bons anos? Por outro lado, como ficam aqueles que não têm nenhuma pensão acima desse valor mas acumulam várias pensões e subvenções que, somadas, ultrapassam largamente o dobro desse valor?!

 

"4. AUMENTO DAS PENSÕES E REFORMAS/CESSAÇÃO DE IDADE MÍNIMA DE REFORMA
PARA A CLASSE POLÍTICA
Aumento imediato da pensão mínima para € 500,00 (quinhentos euros), bastando, para o efeito, proceder aos cortes/medidas acima referidos em 2. e 3. e no ponto abaixo;
Reforma para os políticos aos 66 anos de idade como, aliás, o restante dos portugueses, atento à premissa que "a política não é uma carreira;

Fim imediato/corte das subvenções vitalícias para políticos;"

a) Aumentos em valores absolutos são sempre questionáveis, e não o disse nos pontos anteriores mas aplica-se em qualquer um. São questionáveis porque eliminam a proporcionalidade, e é a proporcionalidade que nos permite fazer comparações e hierarquizar desde salários a funções. E Fico confusa: os cortes nas pensões acima dos 2000€ e nas pensões acima dos 5000€ darão mesmo para aumentar tudo o que propõem aumentar - salário mínimo para 700€, dos subsídios de desemprego (que são proprocionais aos salários auferidos...) e pensões mínimas para 500€? Não sei os números, mas pelo que leio há muito mais indivíduos a auferir estes três tipos de pensões, subsídios e salários do que dos outros... e depois, ninguém explica que cortes pedem: absolutos? proporcionais? absoluto acima dos tectos mencionados?

b) Porque ser deputado ou autarca ou governante não é uma carreira, em vez de falar em pensões e subvenções não seria melhor discutir esta coisa de afinal o que é ser político? E, depois, os funcionários do Estado são afastados aos 70 anos de vida (como se a esta idade perdessem toda a experiência e sabedoria acumuladas, e passassem a ser inúteis pesos mortos... isto numa sociedade envelhecida) - querer colocar esta malta a reformar-se aos 66 não é absurdo?

c) Subscrito na íntegra - a diferença é que, cf. se pode ver no ponto anterior, este pedido cai sem reflexão sobre esta coisa da "carreira política", resulta apenas de um sentimento.

 

"5. ADOÇÃO IMEDIATA DE MEDIDAS VISÍVEIS E EXPRESSAS DE COMBATE CONTRA A CORRUPÇÃO NO GOVERNO, NA ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA (DIRETA E INDIRETA), NOS SERVIÇOS PÚBLICOS (CENTRAIS E DESCENTRALIZADOS), NO SETOR EMPRESARIAL (PÚBLICO E PRIVADO) E SETOR BANCÁRIO

Criação de um Código Penal mais rigoroso e investimento na criação de unidades especializadas independentes na prevenção e combate à corrupção, cujas consequências custam, todos os anos, € 18 000 000 000,00 (dezoito mil milhões de euros) aos contribuintes, um valor que daria, seguramente, para aprovisionar os cofres do Estado e promover a sua auto-sustentabilidade, não se tornando refém do sistema bancário internacional;
Reforma para os políticos aos 66 anos de idade como, aliás, o restante dos portugueses, atento à premissa que "a política não é uma carreira";
Redução para metade do número de deputados existentes na Assembleia da República, com adoção de sistemas biométricos/leitura ótica/etc para registo de assiduidade/presença no parlamento, e com vista a acabar com a questão das falsas presenças;
Averiguação imediata, sob escrutínio público, das falsas moradas dos deputados com a obrigação de reembolso, por aqueles que mentiram ou omitiram relativamente aos endereços disponibilizados, dos montantes abonados indevidamente de subsidio de transporte;
Acabar com as mordomias de toda a classe política portuguesa, sendo que a mesma, enquanto representante das aspirações do Povo Português, não deverá tratar este como sub alterne e com desrespeito óbvio, atento ao panorama atual e aos sucessivos escândalos conhecidos de todos;"

a) O código penal já existe. Concordo com a sua revisão, que passa por definir que tipo de penas defendemos: perpétua? cúmulo jurídico ilimitado? apostamos na penalização, na coima ou na reinserção? Enfim, há questões éticas e de direitos humanos a atender antes de se falar em código penal - independentemente da opinião, a verdade é que, e felizmente, estamos para cá de Pecos.

b) As unidades de combate à corrupção existem. O que não existe, talvez, é transparência nas relações entre as empresas e o Estado, os cidadãos e o Estado, os deputados e o Estado...

c) Reduzir os deputados da AR para metade... porque? Além de exigir revisão constitucional, há critérios para definir o numero de deputados, há círculos eleitorais, há método de Hondt... é assim? Cortamos para metade e logo se vê?

d) Gosto do sistema biométrico para controlo do pessoal, na AR ou em qualquer empresa. O problema é que esta exigência cai aqui aos trambolhões, pois os deputados fazem serviço externo - adiamos essa questão para quando se descobrir uma qualquer falcatrua nestes registos? Se assim for, basicamente estamos a dizer que o Povo, seja lá essa entidade quem for, exigirá alterações á medida que se descobrem as asneiras, assim numa espécie de navegação à vista. Basicamente, o mesmo que até aqui.

e) O caso das falsas moradas enquadra-se no que disse na alínea anterior... quando não se pensa global há esta tendência para legislar o pormenor - no caso, não será lesgislar mas exigir. O que confirma o que disse sobre navegar à vista...

f) Também concordo que se acabe com as mordomias da "classe política". Mas deixo as questões: Quais são essas mordomias? Serão todas inadequadas? E se não houver quaiquer regalias, quem quererá adiar a vida profissional para servir o Estado?

 

"6. REFORMA NO SERVIÇO NACIONAL DE SAÚDE
O SNS não consegue, atualmente, prestar um serviço de qualidade, uma vez que é completamente manipulado pelos lobbies da indústria farmacêutica e da clínica privada, sendo que a ideia que é passada "as instituições de saúde do Estado, bem como os seus profissionais, prestam serviço para aliviar os sintomas de doença da população, não para curar pessoas...";

Acabar com a prática antagónica existente entre as necessidades do doente e os lucros da indústria farmacêutica, entre o valor de uso e o valor de troca dos medicamentos, face ao poder de compra dos Portugueses;
Impedir/prevenir o enriquecimento pessoal de políticos que servem os interesses da indústria farmacêutica;
Nota: O problema está profundamente enraizado no sistema económico global, que não
é mais moral para o medicamento do que é para o petróleo ou para a indústria
cosmética. O problema trata-se na obtenção de lucro com a doença ou a saúde das
pessoas, o que é profundamente imoral..."

Concordo, mas pergunto: e propostas? Cortamos nos subsídios às farmacêuticas? Criamos farmacêuticas do Estado? Proibimos a venda de tudo o que não seja o genérico mais barato? Proibimos os delegados de informação médica? E colocamos as ligações empresariais a farmacêuticas na lista dos impedimentos de elegibilidade para cargo político? Gosto desta última, mas acho estranho ser apenas as ligações a este tipo de indústria e não às de combustíveis, energia eléctrica, SAD desportivas, enfim, uma panóplia de empresas que... mas esperem, isso não está já previsto?!  

 

"7. REVITALIZAÇÃO DOS SETORES PRIMÁRIO E SECUNDÁRIO, DESTRUÍDOS PELA INCOMPETÊNCIA DE SUCESSIVOS GOVERNOS
Sendo os setores primário e secundário importantes pilares da Nação, estes têm vindo a ser destruído por sucessivos governos incompetentes;
Relativamente ao setor primário, e pese embora o mesmo depender muito dos fenómenos da natureza como, por exemplo, do clima (tornando-se, por isso, vulnerável) deverão ser criadas condições, para que a produção e exportação das matérias primas passem a ter um valor agregado, como ocorre, por exemplo, com os produtos industrializados, com o devido controle da qualidade de produção, através da exploração de verdadeiros recursos da natureza (ex.: as minas de ouro de Campos de Jales, em Trás-os-Montes, foram encerradas porquê?). Podemos citar como exemplos de atividades económicas do setor primário: agricultura, mineração, pesca, pecuária, extração vegetal e a caça. É o setor primário que fornece toda a matéria-prima para a indústria de transformação; Sendo que o setor secundário é o setor da economia que transforma as matérias-primas (produzidas pelo setor primário) em produtos industrializados (roupas, máquinas, automóveis, alimentos industrializados, eletrónicos, casas, etc.), e uma vez que existem conhecimentos tecnológicos agregados aos produtos do setor secundário, o lucro obtido na comercialização poderá ser significativo para o nosso País. Países com um bom grau de desenvolvimento possuem uma significativa base económica concentrada no setor secundário. A exportação destes produtos também poderá gerar riqueza para a indústria nacional."

Caramba, isto quase parece tirado de um livro de meio físico e social... e propostas?! É que os sectores não foram só destruídos pelos muito bem indicados Governos sucessivos, foram também destruídos pelos donos que confundem ser dono com ser patrão e com perceber da poda; foram destruídos por estes e pelos outros que, não estando assim tão confundidos, destruíram a vontade dos seus trabalhadores pelas exigências absurdas e pelas remunerações vergonhosas; foram destruídos pelos trabalhadores que exigiram direitos e se esqueceram dos deveres; e foram destruídos por aquela coisa horrorosa que se chama Lei de Mercado - decidam-se, são liberais ou são proteccionistas?!


"8. Direito à habitação e fim da crise imobiliária

Acabar com a especulação imobiliária que retira qualquer tipo de poder de compra ao comum cidadão;
Reverter os imóveis penhorados pela banca a famílias com rendimentos abaixo dos 10.000,00 ano (dez mil euros por ano)"

a) Soa-me bem acabar com as crises através de manifestações. Chamo a atenção dos economistas para este mecanismo de equilíbrio, que apenas me prova que após a roda todas as questões complexas têm afinal soluções extremamente simples... Acabar com a especulação todos queremos, mas como? O como é que é giro debater, meus caros!

b) Penso que a maioria dos imóveis assim penhorados já terão sido maioritariamente revertidos em dinheiro sonante, vendidos ao desbarato porque a banca quer entrada de dinheiro e não saída de IMI. Mas o que me preocupa é, de novo, esta questão dos valores absolutos e aleatórios... 10.000€? No último ano ou nos últimos 3 anos ou... e se uma desgraçada  família tiver o azar de se enganar e declarar a venda de mais um saco de batatas e o rendimento der  10.013€, tem direito a apelar?

 

Enfim, o manifesto era afinal extremamente difícil de perceber, no meio de todo o populismo das respostas fáceis e das exigências abrangentes que, espremidas, revelam a sua imaturidade. Legítimas, todas as insatisfações - mas completamente à margem do exercício cívico, o que bastante me entristece. Porque exigir não basta, há que perceber o que se exige - e, nitidamente, ninguém está numa onda de auto-avaliação... continuo a ler que chegámos aqui por causa dos políticos, não tivemos nem culpa nem responsabilidade. Somos uns santos...

 

Mas nem tudo é mau! Houve quem  resumisse o movimento baseando-se nas frases mais significativas dos seus apoiantes, facultando assim uma noção bem detalhada das exigências deste movimento espontâneo convocado há umas semanas, pertinente porque a acompanhar a vaga francesa e original porque... enfim, é ler desde o início.

Devo acrescentar que, apesar de tudo, senti forte solidariedade para com o cidadão que se preocupava com os cuidados de saúde, a violência policial e a Justiça, e cujas palavras de ordem não posso deixar de transcrever: "Quero deixar um alerta importante dirigido ao governo, psp e gnr. Pensem nisto antes de agir srs! Atenção!!!!!!! Muitos de nós temos várias intervenções cirúrgicas no corpo, tendo no meu caso próteses metálicas de grande extensão implantadas, aos olhos das pessoas ninguém percebe que somos reformados por invalidez, porque a roupa cobre as maselas. SE FOR CARREGADO PELAS AUTORIDADES, PODEREI FICAR TETRAPLÉGICO. SE TAL ACONTECER PODEM CONTAR QUE APONTO EM PRIMEIRO CULPA PELAS CONSEQUÊNCIAS AO GOVERNO! Levarei o caso até as últimas consequências..."

A pertinácia destas exigências levou-me a perceber que há sempre vantagens em saber com o que se pode contar. O Governo, a PSP e a GNR que se ponham a pau com estes reformados, inválidos para o trabalho mas não para afrontarem uma ou duas cargas policiais e a demanda judicial que se lhes seguirá...não foi desta, na próxima será!

*** *** ***

E, entretanto, verificou-se que...

... ou em Portugal nos baldamos para a lei dos coletes amarelos e a malta não apareceu por não ter colete...

... ou os observadores políticos da actualidade não percebem um caroço do que andam a fazer...

... ou a comunicação social faz destas por ser mais fácil inventar do que investigar e relatar...

... ou então os amarelos que deram mais de 40.000 likes no Facebook e mais de 15.000 seguidores no Whatsapp compareceram em força metidos no bolso dos coletes dos perfis falsos que usam.

 

E nem tentem convencer-me de que, perante esta loucura de coletes amarelos, alarmistas, incitadores e indolentes, o absentismo às urnas a que tantos insistem em chamar abstenção é a manifestação de descrença no sistema político... Não passa de inércia pura, que nem sequer permite à generalidade do cidadão preocupar-se com respostas. Que não se preocupa com as exigências, ficou patente.

 

 

(A imagem foi retirada da internet. Google, imagens.)

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Vacina contra a confusão de poderes

por Sarin, em 29.11.18

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(fonte da imagem aqui)

 

 

Ontem a Assembleia da República aprovou a integração de 3 novas vacinas no Plano Nacional de Vacinação. A proposta foi do PCP, e foi aprovada com votos favoráveis do PCP, do PSD, do BE, do PEV e do PAN. O CDS-PP absteve-se e o PS votou contra.

As vacinas eram já recomendadas por grande parte dos pediatras, e a própria Sociedade Portuguesa de Pediatria defendia a imunização das crianças com tais vacinas, as quais seriam administradas em idades distintas.

Os custos destas imunizações, suportados pelos pais, orçaram este ano mais de 600€ (custo total das doses das três vacinas). Convém lembrar que não são ministradas nas mesmas idades, portanto estes 600€ dividem-se entre os 2 meses e os 14 anos. Negociadas em escala, sairão muito mais baratas ao Estado - quer pelo custo directo, quer pelo custo indirecto associado ao internamento.

Promove-se a Saúde individual e pública, redireccionam-se os recursos hospitalares antes dedicados ao tratamento das doenças em causa e poupa-se no bolso do cidadão, três vantagens absolutas e inegáveis.

 

Mas...

A Ministra da Saúde não sabia de nada e a Direcção Geral de Saúde não foi consultada.

E eu pergunto como é que chegámos ao ponto de termos os deputados a votar matérias tão específicas sem consultar os órgãos envolvidos no processo. 

Não é que eu não seja pela prevenção.

Não é que goste de ver crianças e adultos doentes quando há vacinas disponíveis no mercado.

Não é que não ache correcto o Estado substituir-se às famílias no que se refere à saúde pública.

Não é que não seja. Mas as coisas são como são.

E é facto que uma vacina pode ser comparticipada, parcial ou até integralmente, pelo Estado sem que esteja incluída no Plano Nacional de Vacinação.

É facto que a vacinação é um processo de inoculação do corpo que geralmente corre bem mas nem sempre, e por isso a sua administração deve ser ponderada não apenas pela lógica do custo material e do benefício imediato mas também pela óptica do organismo vivo e da sua dinâmica sistémica.

É facto que a Saude Pública é uma questão política mas também técnica que necessita de técnicos de saúde para ser devidamente pensada e executada, sendo os órgãos máximos da Saúde Pública em Portugal a Direcção Geral de Saúde, como órgão técnico, e o Ministério da Saúde, como órgão político.

Mas parece que há um novo facto: ser deputado confere omnisciência.

 

Já era contra a obrigatoriedade da vacinação, que felizmente não passou. Imagine-se um plano de vacinação obrigatório a ser coordenado pelos deputados... fico doente.

Percebi a intenção. Mas não. Assim não.

 

A Assembleia da República pode e deve fazer recomendações ao Governo. Não se pode substituir ao Governo, por questões óbvias de separação de poderes, e muito menos se pode substituir aos órgãos técnicos que nos governam - coisa que pensava ser também óbvia numa assembleia que congrega profissionais de vários sectores.

Porque há-de o PNV ser aprovado na Assembleia da República, sequer? Ou, então, porque não aprova a Assembleia da República o caderno de encargos de cada obra promovida pelo Governo Central? Ou cada contrato de parceria público-privada, cada emissão de dívida pública, cada computador onde marcam as presenças?

 

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Quem são estes inquisidores?

por Sarin, em 10.10.18

inquisição.jpg

 (fonte da imagem aqui)

 

 

 

Há um mês, surgiu em escolas de Lisboa e Porto um questionário que incluía perguntas sobre a etnia.

Agora, surge na Escola Básica Francisco Torrinha, no Porto, um questionário da disciplina de Cidadania que pergunta, entre outras, a orientação sexual de crianças do 5º ano de escolaridade. De seres com 9-11 anos, portanto.

 

 

No inquérito de Setembro ninguém nas escolas teve responsabilidade porque o mesmo teria proveniência numa agência de estudos e dados.

[Pergunta que se impõe: fontes externas porquê? Não temos, na dependência do ME, nenhuma organização que faça tais estudos, sei lá, um gabinetezinho de uma universidadezita?]

Percebo a necessidade de conhecer a população de emigrantes no país. Mas, percebendo ou não tal necessidade, não percebo porque é isso competência do ME e não do SEF e da Administração Interna. Sinergias? Com crianças?

Por outro lado, mesmo aceitando (que remédio!) que a fonte das perguntas seja externa, porque é que nenhum dos professores que distribuiu o inquérito se recusou a fazê-lo... não leram o que distribuiram? Leram e não acharam estranho? Até acharam estranho e nenhum alertou que os ciganos portugueses são portugueses desde 1822?

E mesmo que o não fossem desde então, a Lei da Nacionalidade diz que, à data dos tais inquéritos, eram. São. Saber quantos não será tarefa para departamentos estatais relacionados com integração (? fica para outro dia) discutirem com os pais, em vez de as escolas perguntarem aos filhos?

 

E hoje surge este, numa mesma zona onde andaram a circular os outros, mas desta vez a perguntar quais as orientações sexuais das crianças, se já tiveram namorado, qual a sua identificação de género... 

 

Por mais perspectivas que tente, não consigo perceber para que querem os professores na Torrinha saber a vida sexual de crianças de 10 anos!

 

Não consigo perceber mas assusta-me.

E assusta porque não foi ninguém concreto, foi alguém mas não se consegue rastrear, não se consegue rastrear mas vai ser aberto um inquérito... ... ...

E assim sabemos que nas escolas entram e circulam documentos sem controlo. Nas escolas, que deviam ser espaços seguros, qualquer um pode meter perguntas do foro íntimo no meio de uma ficha e sacar informação privada às crianças.

Porquê?

Quem?

E, mais importante ainda, 

Para quê?

 

Chamem-me paranóica, mas estes inquéritos não são acaso, tal como não é coincidência os locais onde foram detectados. Duas vezes, não apenas uma.

Não vamos assobiar para o ar, foram só umas folhas com perguntas chatas... Não foram! Foram perguntas pessoais e discriminatórias, distribuídas pelos professores a crianças sob a sua responsabilidade, perguntas estas feitas por não se sabe quem nem porquê e cujas respostas serão lidas por não se sabe quem nem para que fim.

E, assim, de repente, ocorrem-me muitos fins e nenhum deles agradável.

Comparado com isto, Tancos é um jogo de subuteo.

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[Explicação da etiqueta 'dois postais numa estampilha'

Em debate com outro bloguista (Pedro D. do iTUGGA) surgiu a ideia de ocasionalmente lançarmos postais simultâneos subordinados a um tema. Não combinámos nenhuma etiqueta especial - e aqui no burgo siga esta até melhor sugestão. Estejam à vontade para sugerir.

Na verdade, apenas acordámos o tema, nem sequer combinámos a abordagem ou a dimensão do postal. Ou postais: calculo surgirão temas para os quais #1 postal será mero aperitivo... A Prostituição é talvez um desses. E é o tema combinado para hoje.]

 

 

6-fatos-que-com-certeza-você-não-sabia-sobre-a-I

 (fonte da imagem aqui)

 

 

Dizem que a prostituição é a mais velha profissão do mundo.

Talvez já fosse mais do que tempo de os profissionais do ramo pagarem impostos e terem segurança social...

 

Comecemos pelo princípio - não pelo início da profissão, que essa talvez date de quando Eva, a ameba, se tornou eucarionte a troco de uma malga de caldo primevo, mas pelo princípio que faz com que a prostituição seja considerada profissão e, no entanto, não conste na Classificação Portuguesa das Profissões do INE.

 

Todos sabemos que no princípio era o verbo, e o verbo "cobiçar" conjugava-se "não cobiçarás a mulher do próximo" - sem equivalente feminino porque os verbos são como os anjos e não têm sexo. Já as mulheres, essas, não tinham asas.

Não sei como o fizeram, mas daqui resultaram três outros verbos importantes:

O verbo "ter": "se a mulher não tiver próximo, posso cobiçar"

O verbo "ser": "sendo eu o próximo, à minha mulher ninguém pode cobiçar - nem eu se não me apetecer"

O verbo "marginalizar": "há mulheres que não podem ser de nenhum próximo senão estamos cobiçados"

... e como nenhum homem queria tais mulheres com andrajos sobre pele-e-osso, vá de lhes darem dinheiro para os alfinetes, pois sem terem próximo ficariam com uma mão à frente e outra atrás e isso não dava jeito nenhum para cobiçar.

 

Tal foi a importância atribuída a tais verbos que acabaram por atravessar o latim e o gótico e o árabe  e o leonês e o português com e sem acordos de 1911 e 1944, e continuaram a ser oficialmente conjugados até ao fim do Estado Novo -  o qual  estava decrépito para caramba e ainda assim tinha manias de puto fino.

 

Entretanto o léxico transformou-se, e do verbo passámos para o advérbio:

Obviamente que as prostitutas são cidadãs.

Sinceramente, a passearem-se na rua onde passam famílias!

Efectivamente as prostitutas são um risco para a saúde pública.

Nitidamente só têm o que merecem por andarem a vender o corpo...

 

'mentes a mais para tão pouco resultado... e a vocês não sei, mas a mim esta gramática chateia-me como tudo!

 

Antes de avançar aos pontapés, convém relembrar: as mulheres que vendem serviços sexuais são prostitutas, os homens que vendem serviços sexuais são prostitutos. Gigolo é mania de gente fina que desafina no português. E o plural, à semelhança dos outros plurais, faz-se no masculino. Prostitutos. Soa mal? É a bruta da gramática!

Voltemos ao tema.

 

Os prostitutos mais não fazem que vender um serviço em que usam o corpo. Como fazem modelos, como fazem actores, como fazem escriturários, como fazem médicos, como fazem professores. Até aqui, tudo igual.

São remunerados pelos serviço que prestam. Mas não declaram tal remuneração. Não porque fujam aos impostos, mas porque os impostos não estão pensados para contabilizar estes rendimentos. A profissão não está na tal tabela, lembram-se? Não pagam impostos, não pagam segurança social (não se ponham à tabela...) nem têm segurança social. Ou talvez tenham, mas não por esta profissão - ou talvez tenham, mas pela falta de uma profissão.

 

Todas as profissões têm especificidades. A prostituição tem algumas muito suas, mas que não são impossíveis de equacionar numa futura legislação: está quase tudo legislado. Basta os governantes serem governantes laicos do estado laico que somos e deixarem-se de moralismos hipócritas - quase todos os moralismos o são, mas este da prostituição... gruta que os pariu!

Os serviços que os prostitutos prestam implicam trocas de fluídos e, à semelhança de outras profissões onde tal acontece, os profissionais deviam estar sujeitos a apertadas consultas de Medicina do Trabalho (para protecção do trabalhador) em estreita articulação com o departamento de Saúde Pública da zona - que, neste caso concreto, deveria ser a entidade responsável pela aprovação das respectivas fichas de aptidão profissional. Para garantir isenção e, assim, a protecção do cliente. Claro que aqui se levanta a questão: e se o estado de saúde não permitisse aprovação? Pois, é também para isto que deveriam pagar impostos e segurança social: para terem baixa por doença, para terem subsídios por incapacidade, para terem reforma.

Sendo uma profissão de pleno direito, estariam estes profissionais, tal como todos os outros, obrigados a seguro de acidentes de trabalho e talvez a seguro de responsabilidade civil profissional - como tantos profissionais que trabalham com o corpo do cliente: médicos, esteticistas, professores e orientadores de educação física, ... Isto significa também que estariam sujeitos a maior escrutínio das condições em que desempenham a sua actividade, o que se traduziria em maior segurança para ambos, profissional e cliente.

Do lado da legalidade não é preciso muito. Até porque a prostituição não é crime, o crime está em obrigar à sua prática ou tirar dividendos da mesma sem ser prostituto.

 

Já do lado da sociedade... é um problema, este de não valorizarmos as profissões pelo benefício que representam efectivamente para a Sociedade mas pelo estatuto que conferem para a saciedade de alguns. E a prostituição tem às costas o tal peso dos verbos e dos advérbios...

E qual é a importância da prostituição? O sexo é uma actividade natural. Não é apenas praticada por casados, como sabemos. É muitas vezes praticada por casados mas nem sempre entre casados uns com os outros; e às vezes até é praticada por vários casados e solteiros em simultâneo. Enfim, as variantes são muitas e a cada um a sua - a relevância resulta de nem todos terem com quem praticar, ou com quem aprender; ou terem com quem praticar e saberem muito do assunto mas gostarem de variar; ou... na verdade, os motivos não interessam para determinar a relevância: há quem procure serviços sexuais e estes existem. Ponto.

 

Não se muda a sociedade por decreto - ainda que o Estado tenha que dar o exemplo. Criando condições para que os prostitutos possam ser cidadãos de pleno direito com profissão reconhecida e regulada, com direitos sociais e deveres fiscais; para que ninguém os possa voltar a acusar de serem os marginais que actualmente são por falha do Estado. O resto é educação: sexualidade, cidadania, ética e moral.

 

Mas.... há muitos indivíduos a prestarem serviços sexuais pagos pelo cliente que não são, não podem ser chamados de prostitutos: forçados a prostituirem-se não são prostitutos, são escravos.

E um escravo não é um profissional, é uma vítima. Que não cabe neste postal mas terá direito a postal próprio em breve.

 

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Bombeiros Voluntários Portugueses

por Sarin, em 14.08.18

bombeiros.jpg

(fonte da imagem aqui)

 

Sou grata aos Bombeiros Voluntários Portugueses.

Grata pela dedicação que demonstram inúmeras vezes, grata pelo desprendimento com que se entregam ao combate às chamas, ao apoio nas cheias, ao transporte de doentes...

Sei que são o garante e a salvaguarda de vidas e bens em muitos teatros de pânico por este país fora - não apenas nos que aparecem nas notícias mas naqueles que ocorrem na casa do vizinho, no terreno do outro que queimava as infestantes, naqueles todos que são apenas notícia no bairro/aldeia e que muitas vezes não chegam a ser notícia porque os Bombeiros o evitam.

 

Sou grata. E isto que fique claro!

 

Mas... numa altura em que Portugal ainda arde e está de prevenção, fizeram-se paradas (!) com uns militares e o chefe máximo dos Bombeiros queixou-se de desrespeito (.) por estes não terem sido convidados (...). Não percebo a parada, não percebo a ausência dos Bombeiros, percebo mas deploro a oportunidade da queixa... e o que resta é um retrato de como funcionamos neste país que tantas vezes me parece feudal.

 

[Todos querem visibilidade? Nada a obstar, se bem que considere um desejo extemporâneo. Porque... numa época de prevenção? Não haverá nada mais importante que paradas e queixas? Deixem, mero desabafo... ]

 

Olhemos os feudos: inúmeros casos de guerras abertas entre comando e presidência da mesma unidade por questões de hierarquia e representação, guerra entre corporações na atribuição das áreas porque são apoiados também mediante a área ardida, vantagens sociais do bombeiro (sim, ainda significa estatuto em muitas aldeias e vilas) e regalias previstas para si e seus familiares no acesso ao SNS e ao Ensino, por exemplo. [Nada tenho contra estas últimas, face ao actual modelo.]

 

Tal estado resulta da demissão do Estado no que à protecção civil respeita, fazendo do Bombeiro Voluntário o grande suporte - mas sempre gerido por gente sentada em gabinetes distantes e que de voluntária nada tem. [Uma pequena contradição adicional.]

 

E as desvantagens? Como se pode exigir formação e treino altamente especializado a indivíduos que, bem-intencionados, têm uma outra actividade diária que abandonam quando soam os alarmes? Qual o benefício técnico de ter dois ou três profissionais numa equipa de 20 ou 30 voluntários? Como se aguenta a produção de uma unidade fabril cujos funcionários-chave são bombeiros quando estes são chamados ao serviço? Qual a vantagem de ter gente bem-intencionada mas cansada e com menos preparação técnica e física do que a necessária para arrostar com combates duros de horas ininterruptas?!

 

Não são só os senhores feudais - está-nos enraizado que os Bombeiros Voluntários são a salvação das populações e que por isso não podemos abdicar deles. Uma realidade que ninguém aparenta ter interesse em contrariar.

 

E que se justificaria - se os incêndios não fizessem parte do nosso quotidiano.

 

O Bombeiro Voluntário será sempre necessário e terá sempre um papel fundamental no apoio às populações - mas não deveria ser lançado para a primeira linha de combate a incêndios, florestais ou urbanos. Porque o homem sabe lidar com o fogo, mas não controla o Fogo, apenas algumas das circunstâncias em que este se desenvolve. Circunstâncias voláteis, que de um momento para o outro transformam um cenário controlado num terreiro de morte - e quase todos os bombeiros que morreram em serviço foram apanhados de surpresa pelas chamas.

O Bombeiro Profissional, porque exclusivamente nesta actividade, terá mais tempo para estudar, preparar, treinar - o corpo, a mente, os cenários prováveis. Cansar-se-á, será surpreendido pelas chamas, entrará em pânico e morrerá no combate talvez - será humano como o Voluntário. Mas terá mais treino, terá mais preparação, terá mais descanso antes de um alerta porque não sai do posto de trabalho onde desenvolve uma actividade distinta, sedentária quiçá.

 

Profissional e Voluntário são necessários à sociedade e há espaço para ambos - não pode é ser o mesmo espaço. 

 

Apetece dizer como dizem alguns Sportinguistas sobre as claques: votarei no partido que me apresentar políticas e medidas claras sobre Protecção Civil...

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