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Cara ganho eu, Coroa perdes tu

por Sarin, em 14.04.20

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Bolsonaro, homem atento por indicação divina e sábio por decisão própria, decidiu em Janeiro (re)criar o Conselho da Amazónia,  que para trás fica o passado. Este Conselho inter-ministerial, criado por decreto em 12 de Fevereiro, parece que, e perdão pela gramática mas outra não é possível, estará a preparar-se para preparar um plano que incluirá acções repressivas contra a desflorestação da Amazónia. Ou assim se depreende do que foi dito em Março pelo Vice-Presidente Hamilton Mourão, que é também chefe do Conselho. Enfim, reuniram finalmente na semana passada - mas a preparação para prepararem um plano continua.

 

Bolsonaro, homem crente na protecção da sua igreja, desde o dia 6 de Abril que se sentirá defraudado por ver que, afinal, o SARS-CoV-2 é um ateu inveterado e não liga a rezas nem a ordens de homens santos.

O que, na verdade, até poderá ter sido uma bênção, já que se o incréu e desrespeitoso vírus tivesse obedecido, agora este Messias feito Presidente de tolos os cidadãos que nele votaram e também dos outros, este heróico lutador contra a loucura do coronavírus, ficaria sem argumentos para justificar o aumento de 51% de desflorestação na Amazónia face ao primeiro trimestre de 2019, o seu primeiro também.

Com um vírus pouco inteligente, desobediente e absolutamente alheio a poderes divinos ou messiânicos, Jair e seus capangas, perdão, colegas, sempre poderão dizer que esta subida se deveu ao empenho do governo nas medidas de combate ao coronavírus, como sugeriu Mourão.

 

É, o governo bem que se empenhou... Mas foi o governo regional, não o federal. E, ainda assim, Bolsonaro deve ficar feliz: o Grande Irmão está em acção, e é brasileiro!

Quem chega ao aeroporto, automaticamente entra em quarentena. Temos um aplicativo que monitora essa pessoa. No momento em que ela desembarca ela tem a temperatura medida, nossas equipes fazem uma entrevista com essa pessoa, baixa um aplicativo no celular dela e ela vai sendo monitorada com georreferenciamento. Ela dá o endereço dela e temos condição de saber no sistema se está em casa ou se está saindo.

 

imagem: Peso Muerto, no Blog do Esmael

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Não me apetece falar da COP25, nem de Greta Thunberg ter defendido (ou vendido?) o verde na sua breve passagem por terras lusas, nem da poupança política do esbanjador Marcelo. Nem sequer quero falar do facto de Portugal ter caído oito posições no ranking do desempenho climático mas continuar a liderar no desempenho das políticas ambientais, o que apenas provará quão pouco fazem os outros países.

 

Quero falar do que nós fazemos. Nós, cidadãos que escrevemos e publicamos umas coisas giras sobre o Ambiente, nós cidadãos que nos manifestamos motivadíssimos pela jovem Greta - e ainda bem, mesmo que não creia, como ela crê, nas alterações climáticas como resultado único e exclusivo da acção do Homem, mesmo que não defenda, como ela defende, que não vale a pena estudar já que não há futuro, mesmo que as minhas grandes preocupações sejam as interferências desproporcionadas nos ecossistemas (invasão, sobre-exploração de recursos, poluição). É bom estarmos assim motivados em prol do Ambiente!

Mas é mau fazermos desta questão uma matéria de fé... em ambos os extremos.

E é péssimo termos arroubos ambientalistas e chorarmos de emoção ao ouvir Greta Thunberg mas corrermos para uma black friday , num ataque feroz ao modo de vida menos consumista que a jovem nos implora. Porque a televisão está boa mas já é velha, porque convém ter uma chaleira de reserva não vá esta avariar, porque se quer um telemóvel com mais capacidade para jogar ou só porque sim, porque a roupinha está em saldo e não se precisa de nada mas nunca se sabe, não é, mais vale aproveitar... Compramos porque é barato, não porque precisemos. E só a definição do verbo "precisar" neste contexto daria para três postais.

É bom abolirmos os sacos de plástico e defendermos a reciclagenzinha doméstica, mas é péssimo nem pensamos na outra, naquela que muitos não fazem quando produzem e trazem à nossa porta todas as coisinhas que adquirimos, incluindo os ecopontos domésticos que orgulhosamente enchemos. Isto enquanto corremos a arranjar miniaturas de produtos. Que colocaremos na bagagem que levaremos nas viagens que comprámos na black friday e cujo destino provavelmente estará menos típico porque sobrelotado com turistas como nós. Assim como o Algarve ou o centro de Lisboa.

Viajar é bom e faz bem, poupar também, reciclar idem - mas haja coerência. Ajamos com coerência.

Sempre achei um desperdício de produto e de embalagem as miniaturas oferecidas nos hotéis. Mesmo apreciando a delicadeza de uns ou a genialidade de outros, considerava e considero tais miniaturas um mau hábito de consumismo, e fiquei fascinada a primeira vez que entrei num hotel com dispensadores - durante muitos anos uma das poucas cadeias a recorrer a tal opção. Conheço quem coleccione  ou junte frasquinhos, cujos conteúdos perdem validade numa feia prateleira onde o bolor lhes traça os rótulos. Mas adoram-nos, e não passam sem os trazerem, "são de borla" e os dispensadores "o roubo de um direito, malvados unhas-de-fome!" As marcas, que durante décadas ignoraram o mercado português (não, as miniaturas comerciais não surgiram agora nem sequer neste milénio), sabem disto e começam a inundar os nossos hipermercados. Não para fazerem face a uma necessidade, como diz este artigo, mas porque o stock tem de ser despachado - e o português compra. Sem questionar, pois que isto de ser amigo do ambiente funciona com bandeiras da época balnear.

Tal como da maré são as viagens que se fazem, pois que importa salvar o Mundo mas, pelo sim pelo não, melhor será visitá-lo antes que rebente. Para nos ajudar em tal desidério, temos este tipo de artigos, em que de uma assentada se apontam os santuários da vida selvagem e se convidam os leitores a visitá-los. Parece-me um brutal paradoxo. O frágil equilíbrio de que tais santuários ainda usufruem é ameaçado por cada grupo de turistas, gente que tem todo o direito de visitar e observar mas não tem o direito de invadir, não tem o direito de poluir - e são tantas as formas de poluição que levamos a tais espaços! Se os governantes de cada um destes, e de outros, santuários não percebem a delicadeza da questão, então que a percebamos nós, potenciais turistas. Mesmo que calcemos botas de cauchu, vistamos linho e algodão, façamos a viagem a pé e apenas comamos vegetais locais da época, há santuários que merecem que os deixemos para os que os habitam, eventualmente para alguns estudiosos da vida natural. Por muito que os gostássemos de visitar.

Já agora, aproveito a viagem e relembro que andar, ou adquirir bens transportados, de e por barco também pode ter elevadíssimos custos ambientais

 

Não abdiquemos de viajar, de visitar, de conhecer - mas sejamos ponderados na forma como o fazemos e sejamos coerentes com a nossa defesa do Ambiente. Pensarmos como e para onde viajamos será mais uma forma de ajudarmos a salvar o planeta. Afinal, é sobre isso que andamos a escrever por aí, certo?

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Tejo que não levas as águas

O que talvez explique os novos crimes fome terror

por Sarin, em 15.11.19

Partilhamos o Tejo, o Douro, o Guadiana e mais uns quantos rios com os nossos vizinhos espanhóis. Nunca foi uma partilha pacífica, a gestão das águas a funcionar ao abrigo de planos independentes que comprometem ambos os países. Ora são as cheias provocadas pela abertura de comportas do lado de lá, ora são as falhas pelo incumprimento dos caudais mínimos ou, até, as contaminações vindas do outro lado da raia... mesmo o Alqueva, construído com fundos afectados a Portugal, tem sido mais aproveitado pelos espanhóis do que por nós. Abuso deles? Sim, sem dúvida. Mas, acima de tudo, falha nossa. Nunca tivemos um verdadeiro Plano Nacional da Água, que olhasse os recursos hídricos com a importância que  efectivamente têm e que nestes vissem uma questão de soberania nacional e de coesão territorial.

Soberania, pois que sem água não há agricultura, não há indústria, não há saúde pública - e pouco sobra para não haver.

Coesão territorial, porque sem uma eficaz redistribuição das águas pelas populações, e sem a vigilância da sua potabilidade, aumenta o risco de desertificação. Parte da população está ainda sem acesso a água do serviço público, 7% no norte, 9% no Alentejo e outro tanto no Algarve. Estes são os primeiros, também, a terem acesso condicionado à água quando esta escasseia - enquanto em Serpa as torneiras só abastecem x horas por dia, em Lisboa as rotundas continuam a ser regadas.

Isto para dizer que não basta gerir as Regiões Hídricas, há que pensar a organização do aproveitamento, do tratamento e do abastecimento como um todo, pois que a coesão passa também por aí.

Enfim, é este postal apenas um lembrete. Porque os espanhóis se preparam para, oficialmente, desrespeitarem a garantia dos caudais mínimos nos rios que também são nossos, mas não estarão isolados na responsabilidade pelas consequências que sofreremos.

 

Os título e sub-título são uma usurpação desta canção. Nem Manuel da Fonseca, que lhe escreveu os versos, nem Adriano Correia de Oliveira, que a musicou e cantou, me levariam a mal pelo seu uso. Acredito, até, que tristemente  aplaudiriam.

 

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Memorando sobre esta semana

Porque tenho estado ausente mas quero abordar estes temas

por Sarin, em 08.11.19

O mundo tem acontecido enquanto eu fora daqui.

Não me quero esquecer de escrever sobre a desigualdade salarial entre mulheres e homens em Portugal, 16,7% a ser muito dinheiro de diferença. O que até nem parece mau quando sabemos que o Japão continua a ser notícia pelas múltiplas posturas discriminatórias dos empresários para com as funcionárias, incluindo em questões de saúde.

Nem sobre os problemas associados à exploração de lítio, entre eles o poder colocar em causa a classificação do Douro como património mundial da Unesco - e, não tardará muito, desconfio que também a própria certificação da mais velha região vitivinícola demarcada do Mundo. [Esta última é conversa minha, não li em lado algum. Calma, posso ser apenas pessimista, até porque não há nenhuma potência internacional ansiosa por ganhar este nosso mercado mundial]

Fica a nota.

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Urge mudar o estilo de vida.

Mas urge mudar de forma global e concertada, não por acções isoladas - que se arriscam a surtir efeitos adversos ou a não surtir qualquer efeito que não fazer-nos perder tempo ou paciência. 

E urge mudar não apenas pela degradação do meio ambiente mas porque seremos 9 biliões de humanos dentro de 30 anos, demasiados humanos para os recursos do Planeta - a curva de Malthus anda a gritar-nos isto desde princípios do séc. XIX, apesar de haver quem insista em a negar.

Como solução, há quem entenda que devemos adoptar uma alimentação vegetariana. O que é interessante para alguns; mas sê-lo-á para toda a população? 

Nós, animais humanos, estamos no topo da cadeia alimentar. Aquilo que nos serve de alimento resulta de escolhas racionais, sim, mas resulta, antes de tudo, de uma evolução genética que nos trouxe o polegar oponível, o bipedismo e um intestino que assimila o que está geneticamente programado para assimilar, sem qualquer respeito pela nossa racionalidade. Para mais, especializou-se nas dietas locais, o que faz com que muita gente se dê mal com a ementa dos países que lhe são exóticos ou que, com isto da globalização, se descubra com estranhos sintomas de doenças que não tem. Claro que o intestino se pode habituar a novas dietas, mas nem sempre nem todas. Ao que não se habitua é a processar proteínas que não está programado para processar - e um alimento de bom sabor que nos deixa saciados pode perfeitamente ser expelido sem nos nutrir.

Voltando aos 9 biliões. Arranjar alimento para esta gente toda, mesmo sabendo que a quantidade difere drasticamente entre os povos (a qualidade também), implica esgotar os solos e acabar por ter de adubá-los industrialmente ou recorrer a outros substratos - artificiais, porque os naturais não chegam; também passa por desenvolver cultivares mais produtivas e resistentes, cada vez mais resistentes; e passa ainda por combater as doenças e as pragas que atacam as culturas, o que traz dificuldades acrescidas para os vegetarianos já que os coloca em desvantagem na competição directa com as pragas. Tudo isto coloca-nos a todos sob a influência da poderosíssima indústria farmacêutica - poderosa e muito poluente. Deixando-nos, aos humanos,  dependentes dos países que tenham capacidade para absorver aos produtos das tais farmacêuticas.

A poluição resultante da produção dos alimentos é cumulativa com a causada pela sua transformação (desidratação, moagem, etc) e com a resultante da conservação e transporte de alimentos refrigerados... De todos os estudos feitos sobre impacto ambiental (nem falo dos económicos) de cada produção, há um que está em falta: a comparação, por porção de referência e capacidade produtiva, entre produção local para consumo omnívoro e produção local para consumo vegetariano. Porque os animais são importantes, mas são apenas uma parte do planeta.

Volto ao que disse no início do texto... Somos animais e estamos no topo da cadeia alimentar. Não é uma opção, é um facto biológico e evolutivo. Se deixássemos todos de consumir proteína animal, quanto tempo demoraria até surgirem os problemas de saúde pública por subnutrição? Falo de vegetarianismo em escala, não de pequenos grupos de indivíduos. Uma escala que não se compadece com o ser Portugal deficitário na produção agrícola ou ser metade do Mundo altamente deficitário em tudo, incluindo água. Uma escala que não se importa com as proporções necessárias para uma substituição minimamente equilibrada. Uma escala que desdenha as alergias e as intolerâncias alimentares.

Respeitar os animais e a natureza passa por aceitar que somos tão animais e fazemos tanto parte da natureza como os outros seres. Que temos direito a um espaço no planeta. Estamos a destruí-lo? Estamos. Claramente, e desde a revolução industrial. O problema, infelizmente, não está relacionado com a poluição e o consumo de recursos naturais advindos da industrialização mas sim com a explosão demográfica que esta permitiu. Nos países industrializados conquistaram-se décadas de vida e eliminaram-se muitos factores de mortalidade: agora nascemos menos mas duramos mais. E consumimos muito mais do que precisamos.

Curiosamente, não ouço aos activistas uma ponderação, sequer uma palavra, sobre a demografia. Ou sobre as políticas agrícolas que permitiriam alterar sustentavelmente os nossos hábitos alimentares no médio-longo prazo.

Uma criança é uma boca para alimentar, é mais um humano a esgotar durante 80 anos os recursos desta Terra depauperada principalmente por nós, mundo ocidental industrializado... e ninguém fala em controlo de natalidade? Não daquele controlo que se faz porque agora não dá jeito ser mãe ou ser pai, mas daquele que se terá de fazer para que não canibalizemos a espécie, animais que somos sem outro predador que não nós. Nós que em 2050 seremos 9 biliões. 9 000 000 000 000, para que não haja confusões.

Quase um cenário distópico. E que levanta outro tipo de questões num mundo em desequilíbrios vários.

 

Por tudo isto, pergunto-me o que pretendem exactamente estes manifestantes. Se realmente respeitar os animais e talvez o planeta, ou se eliminar o seu desconforto, na crença de que o mundo, ou mesmo o país, é igual à cidade em que se criaram com água potável, saneamento básico, alimentos diversificados e consultas de especialidade.

As políticas devem ser sensíveis mas guiadas pela razão. Guiadas pela emoção geram coisas estranhas.

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imagem: Periodista Digital

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Onde ideias-desabafos podem nascer e morrer. Ou apenas ganhar bolor.


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