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Quem são estes inquisidores?

por Sarin, em 10.10.18

inquisição.jpg

 (fonte da imagem aqui)

 

 

 

Há um mês, surgiu em escolas de Lisboa e Porto um questionário que incluía perguntas sobre a etnia.

Agora, surge na Escola Básica Francisco Torrinha, no Porto, um questionário da disciplina de Cidadania que pergunta, entre outras, a orientação sexual de crianças do 5º ano de escolaridade. De seres com 9-11 anos, portanto.

 

 

No inquérito de Setembro ninguém nas escolas teve responsabilidade porque o mesmo teria proveniência numa agência de estudos e dados.

[Pergunta que se impõe: fontes externas porquê? Não temos, na dependência do ME, nenhuma organização que faça tais estudos, sei lá, um gabinetezinho de uma universidadezita?]

Percebo a necessidade de conhecer a população de emigrantes no país. Mas, percebendo ou não tal necessidade, não percebo porque é isso competência do ME e não do SEF e da Administração Interna. Sinergias? Com crianças?

Por outro lado, mesmo aceitando (que remédio!) que a fonte das perguntas seja externa, porque é que nenhum dos professores que distribuiu o inquérito se recusou a fazê-lo... não leram o que distribuiram? Leram e não acharam estranho? Até acharam estranho e nenhum alertou que os ciganos portugueses são portugueses desde 1822?

E mesmo que o não fossem desde então, a Lei da Nacionalidade diz que, à data dos tais inquéritos, eram. São. Saber quantos não será tarefa para departamentos estatais relacionados com integração (? fica para outro dia) discutirem com os pais, em vez de as escolas perguntarem aos filhos?

 

E hoje surge este, numa mesma zona onde andaram a circular os outros, mas desta vez a perguntar quais as orientações sexuais das crianças, se já tiveram namorado, qual a sua identificação de género... 

 

Por mais perspectivas que tente, não consigo perceber para que querem os professores na Torrinha saber a vida sexual de crianças de 10 anos!

 

Não consigo perceber mas assusta-me.

E assusta porque não foi ninguém concreto, foi alguém mas não se consegue rastrear, não se consegue rastrear mas vai ser aberto um inquérito... ... ...

E assim sabemos que nas escolas entram e circulam documentos sem controlo. Nas escolas, que deviam ser espaços seguros, qualquer um pode meter perguntas do foro íntimo no meio de uma ficha e sacar informação privada às crianças.

Porquê?

Quem?

E, mais importante ainda, 

Para quê?

 

Chamem-me paranóica, mas estes inquéritos não são acaso, tal como não é coincidência os locais onde foram detectados. Duas vezes, não apenas uma.

Não vamos assobiar para o ar, foram só umas folhas com perguntas chatas... Não foram! Foram perguntas pessoais e discriminatórias, distribuídas pelos professores a crianças sob a sua responsabilidade, perguntas estas feitas por não se sabe quem nem porquê e cujas respostas serão lidas por não se sabe quem nem para que fim.

E, assim, de repente, ocorrem-me muitos fins e nenhum deles agradável.

Comparado com isto, Tancos é um jogo de subuteo.

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16 comentários

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De júlio farinha a 10.10.2018 às 23:56

Partilho a preocupação de Sarin. As escolas têm que garantir o rigoroso sigilo da informação que, por vezes involuntariamente, lhe vai chegando via pais , psicólogos e outros. A recolha e eventual uso da informação a que se refere devia ser estritamente proibida e é abusiva. A salvaguarda da defesa da privacidade deve começar na casa da educação, quer seja ela familiar ou escolar. Quem se justificar que é para uma boa causa, responde-se: de boas intenções está o inferno cheio.
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De Sarin a 11.10.2018 às 00:19

Sem dúvida.
Pior ainda, a perniciosidade de tais perguntas... orientações sexuais de crianças? Ocorrem-me tantos cenários para a utilização de tais informações que até fico agoniada, Júlio! E não me ocorre um único onde tal informação seja relevante sem dano.

As denúncias virem de pais e não de professores, o silêncio de escolas e de sindicatos, o pouco interesse que tal matéria gerou na comunicação social E no parlamento E a nosso El-R, perdão, PR Marcelo, apenas provam como a Educação está pela rua da amargura.

Não me digam que o tema é irrelevante...!
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De júlio farinha a 11.10.2018 às 01:00

Se há, como diz e acredito, perguntas nesses questionários sobre orientação sexual, isso é relevante sim. Espanta-me o silêncio ou desinteresse dos professores e entidades que refere, Salva-se a atenção dos pais, pois a escola está em regressão.
A orientação sexual é assunto privado para os adultos quando estes o desejam, mas é estritamente proibido pela ética e pela salvaguarda da boa e sã prática escolar, quando de crianças se trata. Quando muito, esses assuntos devem ser tratados com os pais ou, em última instância, por técnicos habilitados se disso houver exigência,Nunca esses assuntos devem ser objecto de estudos em crianças, sobretudo quando se desconhece a qualidade científica, a origem e o fim dos mesmos.
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De júlio farinha a 11.10.2018 às 01:54

Sarin, a sua útil ligação demorou a aparecer, mas quem é vivo ...

A disciplina de Cidadania foi, neste ano lectivo, reintroduzida nas escola, no âmbito de uma grande confusão, para os professores e ME, a que se chamou pomposamente flexibilização curricular. Resumindo: cada um faz mais ou menos o que quer desde que invente uns projectos que exigem a criação de outras disciplinas que se cruzam à moda daquilo a que no passado se chamava interdisciplinaridade.
Não estranha,pois, que apareça na azáfama da novidade, alguém que não se sabe quem, a lançar iniciativas insensatas e absurdas. Este inquérito é reaccionário e maquiavélico. É uma ofensa a todas as cartas de direitos. Estamos a falar de crianças de nove anos. É impensável, a não ser no quadro de uma idiotice. Só à sombra do desnorte em que se afundou o ângulo menor do triângulo obtusângulo é que a coisa é legível.
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De Sarin a 11.10.2018 às 02:10

Sem dúvida, meu caro Júlio! Isto é uma trapalhada maliciosa, e o silêncio de todos é ofensivo.

Se os professores fizessem greves também por estes abusos E os explicassem, a opinião pública deixaria de os ver como "funcionários públicos a querer aumento". Falar alto e bom som destes assuntos sobre qualidade do ensino (alterações curriculares? casos, exemplos! Parte da Opinião Pública não domina, quanto mais conhece, o léxico dos professores; porque será difícil aos professores, que se adequam ao léxico dos alunos, adequarem-se ao léxico da OP?)
E se falassem, aproximavam a Escola da sociedade - cf conversa há uns tempos :)
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De Pedro a 11.10.2018 às 13:11

"Até acharam estranho e nenhum alertou que os ciganos portugueses são portugueses desde 1822?"

Pois, mas nalguns casos parecem ter estatuto especial.

Juíza aceita jovem cigana fora da escola

https://www.cmjornal.pt/sociedade/detalhe/juiza-aceita-jovem-cigana-fora-da-escola?v=cb

Quem tira a virgindade às noivas ciganas é uma mulher

“Quando está em causa o respeito por regras fundamentais à vida em sociedade são os distintos grupos, etnias, raças ou credos que têm de se adaptar à ordem social e jurídica", pode ler-se em sentença que condena este tipo de prática.

No Público.
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De Pedro D. a 11.10.2018 às 13:52

Onde está o sigilo deste estranho inquérito!? Vida sexual aos 10 anos??? Para que querem os professores saber a vida sexual de crianças!? Medo, muito medo...
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De Sarin a 11.10.2018 às 14:40

Medo ainda maior do silêncio que envolve estes estranhos inquéritos.
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De Sarin a 11.10.2018 às 14:16

O Estado falhou aos ciganos dirante séculos, obrigando-os à indigência. Nestes dois séculos parece querer compensá-los...

A responsabilidade pelo não cumprimento dos seus deveres impede primeiro sobre os ciganos, iguais a tantos não ciganos no aproveitamento do Estado; e em segundo, a este mesmo Estado que não faz cumprir a lei e que abre excepções pela etnia a que muitos chamam raça. Seja. Sindiquemos em Tribunal o Estado pela discriminação racial a que vota os restantes portugueses... é que respeitar hábitos e tradições que não ferem a lei, acho bem (se a cozinha é mais importante que o resto da casa, porquê insistir em enfiar ciganos em casas cujas paredes vão ser rebentadas por terem quarto a mais e cozinha a menos? Adaptem as estruturas ao mercado, sai mais agradável para todos)
Mas a lei é para todos. Ou devia ser.
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De Pedro a 11.10.2018 às 16:44

Sarin , os ciganos têm um problema de integração em qualquer Estado de Direito. Existe uma incompatibilidade cultural. A sua integração depende da abdicação da sua tradição.
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De Sarin a 11.10.2018 às 17:15

Não é bem assim, Pedro - só recentemente tentamos integrar. Durante estes dois séculos quisémos impor os nossos hábitos, mecanismos de auto-defesa fecharam as comunidades ciganas a tais imposições. Depois do 25 de Abril tentámos integrá-las pela via da paternalização, também não funcionou. Repara que há comunidades e famílias muito bem integradas. Portanto, a questão é de comunicação e diagnóstico do que cada comunidade está disposta a abdicar. O exemplo que dei da cozinha foi factor de desestabilização - enquanto em bairro de lata com organização do espaço à maneira daquela comunidade cigana, havia algum temor na vizinhança mais pelo preconceito do que por ocorrências reais, e partilhavam calma e relativa boa vizinhança. Deslocaram essa cominidade cigana para um bairro novo de apartamentos, na mesma zona... e acabou o sossego: queixas por barulho, por lixo, por cortes de água, por zaragatas... a violência foi crescendo com a insatisfação. Os vizinhos eram os mesmos.
É como estares habituado a olhar as estrelas em grupo e de repente estás num quarto sozinho a olhar o tecto.

Haverá choques, mas também há aculturação.
Não podemos obrigar um português a abdicar do bacalhau ou do galo no Natal - imagina que em França te obrigavam a comer pescada em molho de manteiga... um Natal escapa, mas dois? :))
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De Pedro a 11.10.2018 às 19:15

Existem práticas incompatíveis com um processo de aculturação. De "reeducação ",nomeadamente casamentos forçados com menores, assim como o abandono escolar. Quantos aos apartamentos de que falas até que ponto o Estado deve permitir que crianças vivam em tendas, sem as condições higieno-sanitárias mínimas ?

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De Sarin a 11.10.2018 às 19:30

Não deve! Nem crianças nem ninguém, Pedro, pela saúde pública e pela dignidade humana - não por caridade.

A aculturação não se faz por formação intensiva... é por cedências mútuas, começando por definir o fundamental e o acessório.
Na Amnistia Internacional trabalhei com comunidades ciganas exactamente em prol da integração - é possível, Pedro, mas não pode depender apenas da boa vontade e da mediação ao nível local. Porque a questão é de política nacional.

As suíças tiveram direito de voto em 1971, Pedro, 1971... Suíca, Comunidade Helvética, centro financeiro do mundo.
Como podemos exigir a abdicação de tudo a comunidades fechadas por auto-preservação devido a séculos de não reconhecimento de direitos básicos (cidadania, adquirir terras, adquirir casas, fixar trabalho ou residência)?
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De Pedro a 11.10.2018 às 19:44

a palavra a quem a quer




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