Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]



Que vergonha

por Sarin, em 24.05.19

6ED18DCC-C0AB-4030-A998-9458BBB83366.jpeg

 

Antes de entrar no postal propriamente dito, cumpre-me esclarecer que aprecio o Polígrafo, apesar de este ter muito a melhorar; que não conheço o verificador nem lhe conheço mais trabalhos; e que não conhecia, continuo sem conhecer, o colectivo responsável pelo texto avaliado. O que neste postal partilho resulta exclusivamente da leitura dos artigos em causa.

Esclarecida esta questão, sigamos...

 

O Polígrafo dá-me conta de que circula nas redes um texto [de um colectivo autodenominado Os Incorruptíveis] afirmando que os deputados portugueses custam 40 vezes mais do que os deputados espanhóis, e que vai verificar tais factos.

E eu li a verificação dos factos, e verifiquei que o verificador não verificou grande coisa, antes escreveu um texto em que apenas demonstra a sua confusão.

O verificador Gustavo Sampaio, doravante G.S., pessoa talvez muito competente que neste dia teve azar, falha logo na interpretação que dá às alegações: o texto que se propôs verificar fala em custo, o verificador diversas vezes entende salário. Mas já voltarei a esta questão.

 

G.S. começa por verificar os orçamentos, e corrige: o orçamento da Assembleia da República para 2018 foi de 104 909 890,00€, mas em Espanha as Cortes Gerais têm três orçamentos e não apenas um, que em 2018 foram os tais 54,5 milhões de euros, cf. indicado, acrescidos dos orçamentos específicos do Senado, cerca de 54,1 milhões de euros, e do Congresso, cerca de 39 milhões de euros. O que, segundo as contas do Polígrafo, contabilizaria cerca de 147 milhões de euros em Espanha contra os cerca de 105 milhões de euros em Portugal.

Seria quanto bastaria para desmontar a veracidade das alegações, factos concretos rebatidos.

Mas G.S. quis ir mais além, suponho que com o intuito de desmontar a proporcionalidade aventada por Os Incorruptíveis - afinal, mesmo com erro nos valores, até sem grandes contas se verifica que temos mais de 2/3 do orçamento espanhol para uma casa com um pouco mais de 1/3 dos deputados. [Relembro, como fazem no texto Os Incorruptíveis, que Portugal tem 230 deputados e Espanha conta com 616 pessoas, entre 266 senadores e 350 congressistas.]

 

Se até aqui G.S. foi claro, a partir deste ponto deixa de o ser, deixa de explicar, deixa de verificar. Confunde-se, baralha-se, opina - e factos, nenhum.

Apurar o custo per capita de um deputado não é verificar a sua folha salarial mas contabilizar todos os encargos relacionados com a manutenção do seu lugar. Portanto, de forma simplista, dividir o orçamento da Assembleia da República pelo número de deputados da nação. Como fizeram no tal texto que o Polígrafo verificou.

E se o verificador, diligentemente, se apressou a contestar tais contas avançando que os deputados espanhóis auferiram em 2018 cerca de 55 000€ e os seus homólogos portugueses apenas 49 000€ [sem explicar onde ou como apurou este valor], foi incapaz de explicar o que aconteceu ao remanescente do orçamento: nem apresentou o custo de cada deputado nem rebateu a proporção, ou desproporção, verificada em ambos os lados da fronteira.

 

Em compensação, pespega no artigo 

"No caso de Espanha, acrescem as 17 comunidades autónomas e respetivos parlamentos (em Portugal há apenas duas assembleias regionais das regiões autónomas da Madeira e dos Açores)"

informação que apenas faria sentido se os orçamentos dos parlamentos  das regiões autonómas saíssem dos orçamentos dos parlamentos nacionais. Que não saem. Já se pretendia evidenciar a quantidade de deputados (17 regiões e províncias deles contra as nossas 2) e, com isso, o esforço orçamental adicional em terras de Espanha, teria sido interessante que tivesse analisado os respectivos orçamentos e o número de deputados em causa - por exemplo, a Catalunha tem 136 deputados para cerca de 7,5 milhões de habitantes, La Rioja tem 33 deputados  para cerca de 300 mil habitantes, a Madeira tem 47 deputados para perto de 255 mil habitantes. [não tive oportunidade para averiguar os orçamentos de cada um, mas também não é esse o objectivo do postal]

 

Apresentando unicamente os valores dos orçamentos dos parlamentos nacionais e do tal valor auferido pelos deputados - que, repito, não foi justificado - G.S. termina aquilo a que chama verificação de factos dizendo que as afirmações de Os Incorruptíveis são falsas porque sustentadas "Partindo mais uma vez de números errados quanto aos orçamentos e fazendo cálculos pouco rigorosos a partir dos salários médios, dívida pública e PIB de cada país."

Assim. Confundindo salário com custo, sem apresentar contas nem fontes, abstendo-se de explicar o raciocínio que lhe permita sustentar os "cálculos pouco rigorosos" e adicionando informação desnecessária.

 

É preciso ter muito descaramento para escrever  um tal artigo e chamar-lhe verificação de factos, mas parece que é o que vamos tendo mesmo nos que desejamos "jornais de referência".

 

Nota: apesar de Os Incorruptíveis terem errado as contas e apresentado uma relação acima da real, ainda assim a diferença entre os dois países é acentuada. Seria bom dedicarmos mais tempo a pensar estas contas, estes orçamentos, estes retornos.

 

Este postal não é apenas sobre uma vergonha.

3524B168-9A23-4980-B3D1-2B8C4A138D93.jpeg Foto de Eduardo Gageiro, recolhida em Parlamento

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Obrigada por estar aqui.



20 comentários

Imagem de perfil

De Pedro Vorph a 24.05.2019 às 08:40

Seria interessante analisar o custo dos deputados das Cortes Gerais, com os Deputados da Assembleia, tendo em conta a população de um e outro país e o PIB. Quanto ao resto é dificil a comparação, pois são países com organizações politicas- administrativas completamente diferentes.


Quanto a G.S tem excelentes livros publicados sobre corrupção ex: os Facilitadores.
Imagem de perfil

De Sarin a 24.05.2019 às 08:44

Leste o texto de Os Incorruptíveis? Fazem-no, embora com contas arrevesadas.


Não conheço G.S., tenho que investigar (embora, pelo artigo do Polígrafo, o cartão de visita tenha sido muito mau... ou o processador de texto comeu-lhe metade do trabalho, pode ter sido isso) 
Imagem de perfil

De /i. a 24.05.2019 às 13:21

Bem os salários dos nossos deputados... ora bem para mim não é bem o salário, o problema são as ajudas de custo, os subsídios que somando tudo é igual ou mais do que o salário, e livre de impostos.  Não há interesse em diminuir ou mesmo acabar com alguns subsídios. Por exemplo recebem subsídios de presença, a tal confusão da presença-fantasma, ora se recebem salário esse subsídio não devia ser extinto? enfim
Imagem de perfil

De Sarin a 24.05.2019 às 13:40

Ah, mas temos uma Comissão da Transparência a tratar disso... 


As ajudas de custo são uma enorme aberração! Era um x por quilómetro ou reembolso de bilhete, e alojamento pago num hotel convencionado - isto para não falar em residências para deputados, que seria o ideal. 
Subsídio de refeição como aos outros funcionários do estado - a AR até tem cantina...
Imagem de perfil

De /i. a 24.05.2019 às 15:13

Comissão opaca. Exactamente. Mas ninguém discute isso. É uma bandalheira. 
Imagem de perfil

De Sarin a 24.05.2019 às 15:57

Acho que atrasaram a entrega do Projecto de Lei à Provedora só para que ela dissesse de sua justiça durante os festejos do campeonato, e a coisa passar em claro... (viste o meu postal, não viste? Quantos mais viste?)
Imagem de perfil

De /i. a 24.05.2019 às 17:04

Sim li. Não vi mais nada escrito sobre o assunto porque andou tudo entretido, como disseste e bem, com os festejos do Benfica. Arranjam sempre qualquer coisa para desviar a atenção de coisas que nos interessam saber, que os envergonha a eles ou que cause prejuízo ao contribuinte e a ele cause benefício. 
Imagem de perfil

De MJP a 24.05.2019 às 18:15

Olá, Sarin!


Vamos acreditar que o G.S. teve, aqui, um momento de "confusão neuronal"...
Imagem de perfil

De Sarin a 24.05.2019 às 18:35

Olá, MJP!


Sim, é melhor, até porque parece que é pessoa que sabe escrever e argumentar... mas todos têm direito a um dia mau, certo? 
Imagem de perfil

De MJP a 24.05.2019 às 18:37

É verdade!!!... "quem nunca... que atire a 1ª pedra!"
Imagem de perfil

De Luísa de Sousa a 24.05.2019 às 18:24

E as ajudas de custos??? 
Imagem de perfil

De Sarin a 24.05.2019 às 18:39

Pelas minhas contas de merceeiro, algumas terão sido contempladas - mas, lá está, não explica como apurou tal valor... que verificação de factos é esta?!


E, Luísa, nesta és capaz de me ajudar - sabes que tentei apurar o salário dos deputados regionais e ver o orçamento da ALR da Madeira e não consegui? Perdi a paciência e avancei - mas rapidamente descobri de Barcelona... 
Imagem de perfil

De Luísa de Sousa a 24.05.2019 às 20:12

Parece-me que o salários dos deputados da RAM está no segredo dos deuses. Até compreendo, ficaríamos chocados! E então o duplo subsídio nas viagens dos deputados? Uma vergonha!
Imagem de perfil

De Sarin a 24.05.2019 às 20:20

Vergonha absoluta!


Pois, se calhar está... 
Imagem de perfil

De Sarin a 25.05.2019 às 00:19

No texto tenho apenas ligação para a actual tabela... deve ser interessante, ver a evolução.
Imagem de perfil

De HD a 24.05.2019 às 22:37

Uma vergonha que não acaba, repete-se a cada eleição, a cada voto de (des)confiança dos portugueses... :-(
Imagem de perfil

De Sarin a 24.05.2019 às 23:19

Um dia acaba: ou a falta de vergonha ou a paciência ou o dinheiro...
Imagem de perfil

De Mia a 25.05.2019 às 12:17

Sabes quando é que isto vai rebentar? Quando desaparecer o fundo de pensões. Até la anda tudo entretido com o benfica.
Imagem de perfil

De Sarin a 25.05.2019 às 13:21

Concordo.
E ainda falta ver o resultado desta Europa, as torneiras podem fechar mais cedo... 

a palavra a quem a quer




logo.jpg




Localizar por cá

  Pesquisar no Blog




Memórias

  1. 2019
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2018
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.