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Que as enfie quem de direito!

por Sarin, em 10.01.19

burro.jpg

(fonte da imagem aqui; e por aí em cargos vários, as orelhas)

 

Leio que "Alunos com piores notas no exame de português são os que escolhem ser professores".

E fico estupefacta, pois conheço antigos colegas hoje professores de várias áreas que tiveram excelentes notas, antes durante e depois da minha frequência de tal disciplina nos ensinos básico e secundário. Intrigada e preocupada com as eventuais alterações curriculares que terão afastado as boas notas a português dos professores, ou com a (má) vida que terá afastado os professores das boas notas a português, vou-me à notícia.

Choco, embora não chocada porque já habitual, com a evidência do sensacionalismo jornalístico: não, afinal não são apenas os piores alunos de português que acorrem aos cursos pedagógicos, pois afinal trata-se da análise de 1 média de 1 exame nacional em 1 ano lectivo. Singular, tudo isto...

Convém referir que a média em causa se situava, no ano lectivo analisado que foi o de 2016/17,  em 10,2, dez vírgula dois - já os alunos de comunicação social granjearam 11,8. Onze vírgula oito. Fixemos estes valores, a eles voltaremos.

Entretanto, vejamos que entre os futuros profs estatisticados, e assim denunciados como fraquinhos na língua pátria, estão os que estudaram a Língua Portuguesa porque em Humanidades, os que estudaram a Língua Portuguesa porque em Ciências Económicas e Sociais, e os que estudaram a Língua Portuguesa porque em Ciências Naturais, e talvez ainda todos os outros de todas as outras áreas de estudos que não refiro não lembro não conheço. Todos estudaram a língua, tal como os alunos que se candidataram a cursos de Comunicação Social, mas estes com mais profundidade do que os de Ciências Naturais ou Económicas pois que maioritariamente oriundos de um  secundário de Humanidades feito. E muitos das humanidades perdidos quando na vida activa. Cá voltaremos, também...

Estas baixas médias em Língua Portuguesa permitem reabrir o debate: afinal, o que se pretende dos professores? Que sejam bons alunos na língua que todos falamos ou que sejam exímios pedagogos e que dominem conhecimentos na sua área científica?

Um professor é um modelador de mentes e de carácteres, não apenas um explicador limitado à sua área de formação. Logo, tem de conhecer, tem de aplicar e tem de exigir aplicadas as regras comuns da Gramática da Língua Portuguesa, Pragmática antes de Sintaxe e Semântica.

Por outro lado, um exame não avalia as capacidades de um aluno. Classifica apenas o que o aluno consegue debitar no momento do exame - pois é, a avaliação contínua é uma prática muito do meu agrado, e embora compreenda a necessidade de quantificar o conhecimento, deparo-me sempre com a impossibilidade matemática de resumir o saber adquirido ao longo de uma recta de anos num ponto do mesmo eixo temporal. É este um outro tema - se bem que relacionado, pois nisto da cidadania da educação e do ensino anda tudo mais interligado que o ovo e a galinha, só não se pode é contar com o dito no dito-cujo da dita.

Voltando às médias e aos professores saberem ou não saberem português, lembro-me de um meu professor universitário da área da biologia que escrevia muito. Escrevia tanto que, nas aulas teóricas, projectava nas paredes as sebentas que escrevera e, não satisfeito, lia-as vírgula a vírgula numa excelente dicção apenas audível nas três primeiras filas. Felizmente imobilizava-se junto ao retroprojector, movesse-se ele e lá se iriam as ondas espraiar longe dos ouvidos sonolentos que as aguardavam. Lembro isto nitidamente, já menos nítida recordo a microbiologia por ele escrita que, não obstante, foi muito bem ensinada nos laboratórios pelo próprio e pelos assistentes sob sua orientação.

Pretendo com esta ilustração verídica demonstrar que, se a Língua Portuguesa é condição sine qua non  para se ser um bom professor, as competências comunicacionais deviam-no ser mais. Mas, e acima de tudo, deviam ser avaliadas e equacionadas as capacidades e limitações de quem  realmente sabe, para que o Saber não fique perdido entre vozes baixas que funcionam em laboratório mas não perante cem alunos,  ou em textos técnicos confusamente escritos porque, entre decorar definições gramaticais e praticar a sua aplicação, a quantificação ganhou e o professor de física teve que aprender e apreender outras fórmulas, não tendo por isso pachorra para, sozinho, tentar perceber o que raio seria aquilo de atractores de próclises. Sim, disse sozinho - a forma como são leccionadas as disciplinas de português aos alunos de outras áreas científicas é muitas vezes direccionada para a nota positiva nos exames e não tanto para a aprendizagem efectiva. Porque os professores conhecem, na prática, os desajustes dos currículos e das fórmulas de avaliação, e o modelo de ensino não lhes permite muito espaço de manobra para ajustes directos (ao contrário do que acontece com o Código das Contratações Públicas um muito por todo o Estado! Desculpem, isto não é deste postal, escapou-se-me...)

 

 

Títulos como o da notícia mais não fazem que rebaixar a profissão do professor. De qualquer professor.

Numa sociedade que exige tudo e nada dá, onde o ruído abafa qualquer som, onde a moda é contestar sem saber ler nem escrever os porquês da contestação quanto mais as propostas para melhoria, este tipo de títulos dá, certamente, muita visibilidade ao jornal que o escreve.

 

Mas... lembram-se dos números que deixámos uns parágrafos acima? Pois é, os senhoras da Comunicação Social, cuja formação no ensino secundário é feita maioritariamente em Humanidades e cujo ensino superior prevê mais horas de disciplinas de Língua Portuguesa do que o dos professores de Matemática, Física e Biologia juntos, têm uma excelente razão para se regozijarem (11,8)... entredentes e com orelhas de burro, digo eu perante títulos como este.

 

Que a Língua Portuguesa é por nós muito maltratada, é um facto.

Que os professores são maltratados e destratados, tendo ou não responsabilidades individuais e colectivas, é outro facto.

Que a Comunicação Social tem enormes responsabilidades nos factos anteriores, desafio-vos a contradizer!

 

Agradeço aos Professores que foram meus. Mais do que me ensinarem a matéria curricular, apoiaram-me e deram-me liberdade para ser curiosa e perguntar  criar  sonhar - e por isso os guardo em mim. Foram e serão sempre meus.

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21 comentários

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De naomedeemouvidos a 10.01.2019 às 17:56

Sabes que fiz uma leitura completamente diferente da tua, em relação ao teor da notícia? Tu leste-a como uma crítica aos professores, ou aos potenciais professores, e eu lia-a como uma crítica ao sistema de avaliação e ensino, que temos, independentemente da área. Os professores são, muitas vezes, reféns de orientações "pedagógicas" completamente absurdas no que toca, por exemplo, aos instrumentos de avaliação. O que daí pode resultar, em termos das chamadas "competências" adquiridas pelos alunos, chega a ser anedótico. E dramático, para aqueles professores que ainda têm energia para remar contra a maré.




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De Sarin a 10.01.2019 às 18:10

Os dados avançados são, todos eles, uma crítica estrondosa ao sistema de ensino e avaliação porque o evidenciam assim mensuravelmente pobre.


Mas o título não é inocente, nada inocente, e acredito que são a bondade e o cansaço que te permitem tal leitura :)
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De naomedeemouvidos a 10.01.2019 às 18:20

O título não é inocente, claro, mas, entendi-o mais como "chocante" no sentido dessa tal crítica, do que como uma espécie de ataque velado à classe docente. Talvez esteja enganada.
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De P. P. a 10.01.2019 às 18:33

Infelizmente, também eu entendi-o tal como a Sarin. 
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De Sarin a 10.01.2019 às 18:48

Com notas que oscilam entre (10) e (12,4), usar termos como melhor ou pior é comparar o assim-assim com o mais-ou-menos: são notas positivas baixas.


É o tipo de abordagem que apenas potencia o destrato e o descaso: "como é que o meu menino, coitadinho, há-de perceber alguma coisa se os professores nem sabem português?!"


O que será pontualmente verdadeiro, mas não pode servir de desculpa para nada. 
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De Sarin a 10.01.2019 às 18:31

E repara que indico as falhas metodológicas e a limitação dos professores para, em campo, as corrigirem. Mas o postal é mesmo sobre a perfídia do título e as responsabilidades que a comunicação social tem neste estado de destrato aos profissionais de vários sectores, professores à cabeça da lista.


Que os professores merecem críticas várias, corporativa e individualmente - mas responsabilizemo-los pelas suas responsabilidades e não por responsabilidades alheias. O estado do Ensino é uma questão política, o estado da Educação é uma questão social e o estado da Aprendizagem é uma questão pedagógica. Ou algo assim ;)
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De P. P. a 10.01.2019 às 18:30


Como professor, obrigado por este artigo.


Tal como referes, as competências comunicacionais são de suma importância. A forma como se gesticula, nos movimentamos na sala, projetamos a voz, adequamos a linguagem aos contextos da turma são outros fatores, todos eles da área comunicacional, muito relevantes. Não foi por acaso que, no 1.º ano de curso tive expressão corporal/dramática, por exemplo.
Concordando com toda a tua análise há ainda a referir a baixa procura por cursos via ensino. Que em muitos estabelecimentos de ensino superior, fecharam, dando lugar a "novas atrações". Aliás, com o envelhecimento da classe docente, daqui a uns anos assistir-se-á ao que sucedeu na década de 70 (e não só), com professores que o não são frente a uma ou várias turmas.
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De Sarin a 10.01.2019 às 19:01

Há muito para abordar; como disse à M.C., o Ensino é questão política, a Educação é questão social e a Aprendizagem é questão pedagógica, ou seja, há muitos vectores e pontos de força para explorar. Não sendo professora nem estando ligada ao ensino, defendo que sem Educação não há sociedade viável neste mundo global - e não falo apenas de erudição mas de raciocínio crítico, de cultura tradicional, de capacidade argumentativa, de empreendedorismo, de curiosidade, de exploração. Educar não tem de ser formatar.


Desvalorizar o trabalho do pedagogo é fácil, muito fácil. Perceber as condições em que é realizado não tem piada, a menos que seja para bater nos governantes. E por isso, se é para bater, eu escolher bater em quem alimenta animosidades destas em vez de promover o debate. Nada a agradecer, P.P. :)
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De Gaffe a 11.01.2019 às 13:28

Confesso que estou longe de me considerar bem informada em relação a este assunto.
No entanto, lembrei-me da notícia que dava conta, há muito pouco tempo, de um professor perdido nos confins dos montes, onde o diabo se esqueceu das botas - e não as foi buscar, porque teve medo de se perder -, que elevou a escola que dirigia a um nível de reconhecida excelência em termos pedagógicos. Foi alvo de um abaixo-assinado porque "era muito vaidoso". 
Foi a população que teve a iniciativa. 
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De Sarin a 11.01.2019 às 14:33

Nas palmilhas de tais botas, esquecidas pelo Diabo, pelo Ministério e quiçá pelo Vereador Municipal, esse professor teve talvez espaço para os tais ajustes directos nas metodologias. Que chocam normalmente com a desresponsabilização que permite às populações culpar o professor pelo insucesso dos alunos. Aluno estudioso e entusiasmado é ainda um desperdício em muitos meios.




Gostava de conhecer tal caso, e agradeço ligação, se encontrada :)
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De Sarin a 11.01.2019 às 21:20

Obrigada pela ligação via e-mail.


O Professor Joaquim Sousa, que atraiu os adolescentes do Curral das Freiras para algumas das melhores notas do país, merece ter visibilidade.
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De Sarin a 11.01.2019 às 22:59

Quais operações psicológicas? As de não compactuar com sensacionalismos?




Mais uma vez, o que os dados indicam é que todo o sistema Ensino precisa de diagnóstico global e de revisão, não de medidas avulsas e pontuais... 
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De Pedro Vorph a 12.01.2019 às 12:26

Sarin, falava naquelas manchetes, incluídas em campanhas negras. As tais que:


Títulos como o da notícia mais não fazem que rebaixar a profissão do professor.
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De O ultimo fecha a porta a 13.01.2019 às 19:10

Reforço o mesmo abaixo no meu comentário. O título de uma "notícia" não assinada (Não faço ideia o que é NN) é o que dá mais jeito para captar likes e receber links. Mesmo que isso signifique dar uma conotação muito negativa à situação e o texto diga o oposto.
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De Sarin a 13.01.2019 às 19:46

O grande problema, pois que é um problema, é que tens plataformas, lifestyle, facebook, WhatsApp, a difundir informação falsa que passa por notícia. E fazem-no à boa maneira de Aleixo: com verdade à mistura. O relatório, por si, apenas divulga resultados e conclui com base na comparação dos mesmos. O artigo não é de jornal por acaso, nos jornais também não assinam muitas peças e escrevem com o mesmo sensacionalismo e rigor nenhum; mas todos são lidos por muitos e prestam mau serviço.
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De Sarin a 13.01.2019 às 19:39

Denunciar tais ataques é o objectivo do postal.


E, sim, apresentar os dados dos vencimentos, escrevendo quase desapercebidamente lá pelo meio que afinal a comparação não é exactamente entre os prof da UE mas sim dentro de cada país, faz com que a notícia se enquadre no objectivo de denegrir os professores.
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De O ultimo fecha a porta a 13.01.2019 às 19:08

A notícia vinda do Sapo Lifestyle deixou-me logo de pé atrás. Depois "assinada" pela N.N. que não faço ideia do que seja. Terceiro, fico a saber que é um "jornal" pela notícia (vou chamar-lhe noticia). Enfim, clickbait do Sapo. Não dou grande credibilidade a um site não jornalistico que publica clickbaits para obter pageviews, que me parece ser o caso. Vale o que vale.

Penso que se pretende demonstrar que o ensino não é a primeira opção da maioria dos alunos. 
Várias razões o justificam. Já debati esse assunto com o PP do Insensato e porque razão nunca equacionei ir para professor.
No nosso percurso de 12 anos de escola e 4 de universidade é normal encontrar uns melhores que outros (perfil e competências técnicas).
A forma como se escolhe o título é a que rende mais likes.
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De Sarin a 13.01.2019 às 19:33

Copiei do Lifestyle porque já tinha o título exactamente assim. A Sábado e o Público também publicaram, com título parecidíssimo.


Não costumo escrever sobre notícias sem investigar, mas o postal não versava tanto sobre os dados e sobre o título usado. Sítios e revistas não  jornalísticos também propalam informação desinformada e mal-intencionada, e na luta contra o clickbaite entendo que também os artigos destes devem ser desconstruídos. 
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De Sarin a 13.01.2019 às 19:35

"(...) não versava tanto sobre os dados e sim sobre o título (...)"

a palavra a quem a quer




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