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O trigo e o pão que o diabo amassou

por Sarin, em 17.08.18

trigo.jpg

(fonte da imagem aqui)

 

 

O genoma do trigo foi descodificado.

"Para que raio me interessa isso?!" perguntarão muitos. Na verdade, por agora não interessa. Nada, mesmo: afinal, ainda não entrámos em escassez de alimentos na Europa. Aquilo das quotas da sardinha é só por causa da preservação da espécie...

 

Agora, a sério: "Para que raio me interessa isso?!"

Aos outros não sei, mas a mim interessa-me e muito: o trigo é alimento básico para mais de um terço da população mundial, significa um quinto das calorias e proteínas ingeridas, é cultivado em vários climas e em várias estações do ano... ou seja, é um dos alimentos mais importantes do mundo.

 

[Faço um parêntesis para relembrar que o genoma é o conjunto de toda a informação hereditária, aquela que permite que um indivíduo de uma espécie se desenvolva com determinadas características próprias dessa espécie. Está codificado no ADN, que mais não é que uma sequência realmente muito longa de aminoácidos agrupados - também conhecidos como genes. As características do indivíduo dependem do gene, i.e da informação transmitida, mas também da posição que cada gene ocupa na cadeia, pois esta determina a forma como a informação genética será traduzida. Por aqui ter-se-á uma ideia da dificuldade sentida pelos 200 investigadores ao longo destes 13 anos de investigação: foram mais de 100.000 os genes identificados. O que permitirá também um vislumbre da importância atribuída ao assunto]

 

Terem descodificado o genoma do trigo traduz-se na possibilidade de, no curto prazo, as cultivares (variedades criadas pelo homem) serem manipuladas geneticamente para aumentar a produtividade do trigo diminuindo o consumo de outros recursos produtivos, aumentando a resistência da planta às doenças e a resposta às condições ambientais de desenvolvimento, e até a melhorar a dimensão e a qualidade nutricional do grão. 

 

E isto é uma excelente notícia para quem deseja ver minorado o problema da alimentação da população mundial. População que já ultrapassa os sete biliões e que se prevê aumentar mais de dois biliões até 2050 - pouco mais de 20 anos. 20 anos!

 

 

É nestas horas que eu adorava ver apenas uma perspectiva...

 

Porque, do outro lado da balança, deparo-me com a questão dos Organismos Geneticamente Modificados (OGM). Tenham segmentos de ADN de outros seres (passando a denominar-se transgénicos) ou sejam resultado de manipulação exclusiva do próprio ADN, a verdade é que os OGM não se distinguem dos outros indivíduos da mesma espécie a não ser em laboratório e desde que tenham os marcadores genéticos a que estão obrigados. [Que foram introduzidos para, e se destinam a, identificar proveniências e níveis hereditários] 

Mais fortes e resistentes, mais homogéneos, aparentemente melhores.

Mas ninguém sabe exactamente de que forma a ingestão de tais cadeias manipuladas terá ou não influência no organismo humano. [Além de o nutrir no curto prazo.] Ou como serão as interacções com outros organismos vivos que possam ser ou tornar-se focos de doenças resistentes. [Além do que se sabe sobre indivíduos humanos devidamente nutridos terem mais resistência à generalidade das doenças.]

 

De momento minoramos um problema. Um problema grave e que urge solucionar! Só não sabemos quantos ou quais problemas criamos...

Esta tem sido a constante nestes dois séculos de revolução industrial, mas pelo menos agora estamos muito mais preparados para vigiar as consequências - ou, no limite, teremos uma classe política mais alertada, uma classe investigadora mais centrada nos riscos e uma classe consumidora mais informada... o que, na ausência de regulação, não nos servirá de muito perante interesses corporativos. Na alimentação, como em tudo.

 

Face a tal solução e a tais incógnitas, impõe-se procurarmos respostas em todas as frentes - demografia e fenómenos migratórios, alimentação, agricultura, ambiente, saúde,... em toda e qualquer disciplina que omiti por falta de espaço ou por esquecimento e não por desmerecimento. 

 

De nada nos adiantará fechar as fronteiras a terceiros - fechadas à entrada de gente, fechadas estarão também à entrada de alimentos. Não temos área que nos permita a subsistência, a todos os que cá somos e estamos; mas talvez com a política do filho único que condenámos à China consigamos controlar a demografia. E talvez expulsando "os que não são de cá", como defendem alguns... Teremos menos gente e talvez a comida chegue... isto se não nos devolverem também os nossos que por lá andam nesses outros continentes, claro. E mesmo que não, seremos velhos... as máquinas trabalharão por nós, mas quem nos cuidará, quem nos continuará?

Sejamos ponderados nas análises e nas políticas.

Ou isso, ou os que vierem depois que segurem a porta. E que siga a marcha e que toquem as trumpetas.

 

 

 

Deixo um filme, cuja tradução lamentavelmente não encontrei nem apeteceu fazer, sobre Aritmética, População e Energia - uma aula do Prof. Dr. Albert Allen Bartlett, professor emérito do Departamento de Física na Universidade do Colorado que dedicou parte da sua carreira a estudar o crescimento populacional. Quem não apreciar números que pense em Shakespeare e chame-lhe Pesadelo de uma noite de Verão.

 

 

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Obrigada por estar aqui.



13 comentários

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De Corvo a 17.08.2018 às 13:51

Boa tarde, Sarin.
Antes de mais faço votos para que tenha desfrutado de umas excelentes férias.
Depois não podia vir mais a propósito, "o pão de o diabo amassou"
Cai que nem Louboutin à beldade a decisão do tribunal em colocar o inefável Bruno de novo na presidência.
:)
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De Sarin a 17.08.2018 às 14:29

Boa tarde, Caro Corvo, bem aparecido.
Temo ter perdido a mensagem.. COMO???
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De Pedro D. a 17.08.2018 às 13:55

É uma questão muito complicada, se por um lado quero acreditar que vão utilizar esse conhecimento para colmatar o défice alimentar de muitas população, por outro lado não sei se a manipulação dos alimentou aumento ou diminuí a qualidade dos mesmos ou pior, se pode causar problemas de saúde aos consumidores. Por exemplo, desconfio sempre daquelas maçãs lindas que vêm de Espanha, mas que apenas duram dois dias mesmo estando refrigeradas. sabemos que são manipuladas com alguns produtos que ainda ninguém explicou o que são.

Temos o mau exemplo da manipulação das sementes pela multinacional MONSANTO.

Por outro lado, temos uma população de 20% que consome 80% dos recursos do planeta - incluindo alimentares - os outros 80% apenas ficam com 20%. Se aumentar a capacidade de produção alimentar é bom e pode acabar com a fome em muitas populações, por outro lado o aumento de produtos base na alimentação como o trigo pode originar um aumento exponencial da população em algumas zonas do planeta que podem ser incomportáveis para o ser humano. Lembro-me de Pequim em que o número elevado de população por km2 é de tal forma elevado que por vezes existe carência de alguns produtos base na alimentação. Para não falar no desgaste de recursos do planeta.

Como a Sarin escreve, terá que se ter pessoas competentes e governos em alerta para que esta descoberta não dê em maus resultados. Outra coisa que em quero acreditar, mas tendo a consciência que usaram sempre qualquer descoberta para beneficio próprio, é que a usaram para beneficio geral e nunca para encher cofres nas ilhas Cayman de um tipo qualquer. Há que estar alerta....

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De Sarin a 17.08.2018 às 15:15

Preferi omitir a questão das patentes e dos agricultores que nunca semearam OMG mas tiveram que pagar direitos e indemnizações porque não conseguiram provar que os OMG eram dominantes e infestaram os seus terrenos (e por isso em 2002 ter passado a ser obrigatória a introdução de marcadores genéticos para determinação de proveniência e nível hereditário, ou seja, se primeira geração ou não).
Assim como preferi não falar sobre as resistências induzidas para aumentar o escoamento de fitofármacos e herbicidas.


A desconfiança é um mundo - e a indústria farmacêutica é mais poderosa que a militar. Mas temos que comer, e excesso de informação desta levanta vozes inocentes que pregam ser a produção biológica a solução... Bom, a fome é biológica, é um facto...

Temos que estar atentos ao que fazem os governantes.
E temos que estar atentos a quem são os governantes.
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De Pedro D. a 17.08.2018 às 15:40

As patentes darão com certeza para outro post, assim como a gigante Monsanto. Em relação aos produtos supostamente biológicos (também dá para outro post), na maior parte dos casos é apenas marketing para vender mais caro, pois os produtos têm herbicidas acima das quotas estabelecidas. Tenho como referência um estudo do Grupo SONAE (em que a minha mulher participou) aos produtos que vendem - foram retirados do mercado 30% dos produtos supostamente biológicos. Mas há mais...

http://visao.sapo.pt/actualidade/sociedade/2017-06-29-ASAE-vai-ter-em-conta-o-estudo-da-VISAO
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De Sarin a 17.08.2018 às 15:56

Dá efectivamente para muitos postais... mas à Monsanto não dedicarei nenhum, bastam-me as ligações que vou fazendo a artigos noticiosos.

Sobre os produtos biológicos, a questão não é tanto "levarem herbicidas como os outros": não temos área para garantir a maior parte das ditas produções biológicas evitando contaminações cruzadas, os terrenos que deveriam demorar 10 a 12 anos em reconversão consideram-se reconvertidos ao fim de 3 anos... e mais umas impossibilidades físicas. A batatota não está propriamente no lado do produtor.

O importante é que falemos e alertemos para estes temas.
A guerra hoje é biológica, é genética, é de laboratório.
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De Pedro a 18.08.2018 às 10:42

Esse vídeo é um clássico. Existe a versão pdf na net.

Um dos problemas da manipulação genética prende-se também com a Liberdade da propriedade. Ou seja as sementes manipuladas passarem a ser propriedade dos manipuladores, sendo obrigados os agricultores a devolverem as sementes dadas pelas suas plantas, plantas estas provenientes de sementes manipuladas.
Simultaneamente é ponderado que a longo prazo as "versões "naturais das sementes se tornem na minoria o que implicaria que deixaríamos de ter a liberdade de cultivar, de fazer uso das sementes dadas pela "natureza ".

PS :Desculpa o português
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De Sarin a 18.08.2018 às 11:05

Português desculpado.
Cf disse ao outro Pedro, o que já teve "D.", não quis falar na questão das patentes no postal porque há vozes inocentes que se ergueriam em ataque à indústria fitofarmacêutica (que domina também a manipulação genética) em defesa da produção biológica sem terem em conta os 9biliões a alimentar.

Pior ainda que esse aproveitamento, controlado com a obrigatoriedade de introdução nas cultivares de marcadores genéticos de proveniência e nível hereditário, é a manipulação para criação de resistências não a doenças mas a fitofármacos e herbicidas. Indetectável...

Há quase 30 anos que digo ser a indústria farmacêutica mais perigosa e mais poderosa do que a militar. Pelo menos agora não me chamam louca, mas é triste continuar a ver tanta desinformação.
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De Pedro a 18.08.2018 às 12:36

Por vezes a indústria militar e farmacêutica têm os mesmos rostos.

Ex- Donald Rumsfeld.

Na Índia houve uma aderência às sementes manipuladas em virtude das promessas de maior produtividade e foi um fiasco. Milhares de agricultores endividaram-se, as colheitas foram uma miséria e os suicídios uma tragédia.

Na América do Sul o milho selvagem têm hibridado com o transgênico, o que têm conduzido a uma maior fragilidade da planta - menos resistente às mudanças climáticas, por exemplo

Veja Zeitgeist, the movie no YouTube
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De Sarin a 18.08.2018 às 13:11

Já falamos nesse filme :)

Têm o mesmo rosto porque, indubitavelmente, foi nos laboratórios que as grandes armas do último século nasceram: foi a busca de fitofármacos que encontrou o gás mostarda, o ziclon, o sarin, três marcas de três estádios da evolução bélica. E depois da guerra química e da guerra nuclear, a guerra biológica.

Ainda descobriremos que a culpa disto é do Malthus
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De Pedro a 18.08.2018 às 14:33

A culpa não é de Malthus. É da malta.
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De Pedro a 19.08.2018 às 01:02

a palavra a quem a quer




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