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Museu. Salazar?

por Sarin, em 23.08.19

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Museu. O termo, talvez quase tão antigo como a necessidade de preservar as artes, significa Templo das Musas. Casa onde se veneravam Calíope, Clio, Erato, Euterpe, Melpómene, Polímnia, Tália, Terpsicore, Urânia - as Artes, as Letras e as Ciências vistas como consequências de inspirações e desígnios.

 

A Humanidade avançou na História, as Ciências a Fé as Artes a Política sofrendo convulsões, revoluções, involuções e evoluções num continuado avanço em espiral. Nas civilizações moldadas pelas grega e romana poucos serão os que recordem as Musas; mas buscamos ainda a transcendência nas artes e no conhecimento, embora este século se vá assemelhando a um mergulho numa nova Idade Média, de um lado a Revolução Tecnológica e do outro a negação da Ciência, a censura das Artes - a crença a ocupar o lugar do pensamento, a emoção a anular a razão.

No entretanto, e será talvez uma questão de tempo, mas neste entretanto em questão, em que estamos, ainda há uma clara distinção entre o que são as Artes, as Letras, as Ciências Naturais e as Ciências Sociais e Humanas.

Sabemos distinguir Bibliotecas de Museus, mesmo que não percebamos a sua importância e ainda menos deles usufruamos; e vamos pedindo, as novas gerações mas também as mais velhas, que os Museus sejam interactivos, que nos permitam cruzar informação enquanto olhamos o exposto.

Porque os Museus são, genericamente, espaços estáticos, aglomerados de montras que nos permitem espreitar, ser tocados sem tocar aquilo que observamos. O exposto entra-nos nos sentidos, ou não. Recolhemos, expomo-nos a sensações e pensamentos com apenas um sentido - a visão. Basicamente, recebemos estímulo do objecto sem contexto.

O que estará muito bem para as Artes - sentir a obra não carece perceber o Artista ou a técnica, basta a obra e a sensibilidade de cada um.

As Ciências Naturais tratam os Museus com mais objectividade: expõem factos, as emoções que suscitam resultam mais das crenças e das sensibilidades de quem entra do que daquilo que é exposto e que tem como alvo o intelecto.

E depois temos as Ciências Sociais e Humanas... queiramos ou não, visitar a História da Humanidade é visitar aqueles que a viveram, é conviver por breves momentos com aquilo que foi.

3000 anos depois vejo nas Pirâmides os mortos caídos na sua construção tanto quanto vejo os ali intencionalmente sepultados - e sem os quais a edificação não existiria. Que dizer dos campos de concentração nazis, dos gulag soviéticos, dos tarrafais e peniches da minha própria História?

Museus destes têm obrigação de contar as várias histórias da História, e exigem especial sensibilidade quando alguns dos protagonistas vivem ainda.

Sim, os ditadores fazem parte da nossa História. Mas se hoje se visita o Louvre e os actos e omissões dos últimos Luíses já não emocionam, o mesmo não dirão ainda todos os que passam na António Maria Cardoso.

Os locais históricos acabam, em alguma altura, por se transformar em locais de romaria, o que, se no caso das vítimas é socialmente aceitável, no caso dos vitimadores é ofensivo para com os que lhe sofreram o regime - lembremo-nos do que se passa ali ao lado, no Vale dos Caídos, e da polémica por os corpos das vítimas terem entre eles o corpo do vitimador. 

O mínimo que podemos fazer é respeitar a História e evitar o seu branqueamento: confrontar quem venera uma figura com todo o seu legado. Todo. Sem omissões.

 

Museu do Estado Novo em Santa Comba Dão? Concordo: um centro de estudos interactivo, em rede, ligado a Peniche, ao Tarrafal se Cabo Verde quiser.

Chamar-lhe Museu Salazar? Está bem: as paredes do museu e os muros das ruas que levam ao museu ostentando os nomes dos mortos políticos, dos prisioneiros políticos, dos exilados, dos emigrados, das vítimas da Guerra Colonial - as mortais e as outras.

Que Clio não poupe os romeiros.

 

[Este postal começou por ser um comentário ao postal do meu caro Filipe Vaz Correia, um poeta do caneco - ou melhor, do Caneca. De Letras. Mas era extenso... desisti. Envio-lhe daqui este postal. E um beijo abraçado nas discordâncias que não nos impedem o diálogo e o carinho.]

 

 

imagem: "Clio", de Pierre Mignard (Séc. XVII), domínio público

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33 comentários

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De Mia a 23.08.2019 às 18:11

Concordo. Enterrar o passado é negar a sua existência. Compreendo quem tem medo que se transforme num lugar de culto.
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De Sarin a 23.08.2019 às 18:19

Há que mostrar a História, preservar a História. Toda. Depois que quem venera o faça em plena consciência - e que assuma ser a veneração também uma afronta às vítimas, que isto de enaltecer virtudes tem a outra face.
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De ossapossabembeijar a 23.08.2019 às 18:12

Oh pah concordo contigo 
Não sou contra um Museu qualquer que seja a reposição da nossa história
Apenas temos que assegurar que uma casa, qualquer que ela seja, não romanceie a verdade e coloque os factos acima de tudo 
E se o fizer, nada melhor que abrir ao lado o Museu Anti-Salazar explicando os factos e desvendando os dados
Excelente post 
Beijinhos e bom fim-de-semana 
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De Sarin a 23.08.2019 às 18:14

Obrigada, beijoquices ;)
Beijocas, e bom fim-de-semana


(Viste o postal do género? Ontem vi o teu de relance e era para te alertar, mas depois passou :/ alerto agora :))
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De ossapossabembeijar a 23.08.2019 às 18:33

Estou a ve-lo
Vou comentar 
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De MJP a 23.08.2019 às 18:32

Olá, Sarin! :)


Como comentei em casa do Filipe: considero inconcebível querer ocultar "pedaços" da Nossa História, independentemente, do "valor" que cada um lhe atribui... é de factos (acontecimentos reais) que se trata, não de "opiniões"...


Beijos
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De Sarin a 23.08.2019 às 18:40

Pois, MJP, mas o problema é que quem quer um "Museu Salazar" quer um museu fofinho, onde se mostre o senhor professor e a sua boa obra - quando a obra deve ser mostrada por inteiro. Há quem diga que nunca houve presos políticos nem tortura em Portugal, e que Salazar foi muito bom porque não era corrupto nem esbanjador.
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De MJP a 23.08.2019 às 18:44

Lamentavelmente, há sempre quem queira "florear e romantizar a coisa"! :(
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De Maria a 23.08.2019 às 19:36

Não creio que a ideia do Museu ou Centro seja criar um centro romagem para saudosistas ou veneradores.
Antes será  um.local onde sem tentações de escamotear a verdade se  saiba o que foi o Estado Novo. Tema que até agora tem sido quase tabu. 
Por isso estou de acordo com a criação do Centro  interpretativo do Estado Novo. 
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De Sarin a 23.08.2019 às 20:53

Um Centro Interpretativo ou de Estudos é o correcto - aceder aos factos, analisar os vários ângulos, perceber.


Mas um Museu Salazar, Maria, será um lugar de romagem e veneração - a campa e a casa são-no. Não viste alguns dos cartazes dos manifestantes a favor? Para uns poderá não o ser, mas para muitos será. E pior que omitir a História é branquear a História.
E há quem defenda que nunca houve tortura nem mortos políticos - tal como há quem defenda que o Holocausto é invenção...
Um museu da História tem que contar as histórias, ainda para mais quando há vítimas vivas.
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De Maria a 23.08.2019 às 21:28

Não defendo um museu para ser local de romagem bem creio, como disse queria este o objectivo.
Sei muito bem o que era a PIDE e o terror que era ve-los bater a porta de vizinhos  . Um inspetor vivia 2 casas a seguir à minha. Não podíamos ouvir certas músicas.  Certos livros estavam escondidos . 
Conheço pessoas que negam a existência de tal polícia. 
Um Centro que desmistifique que mostre o que era o Estado Novo acho muito útil. Para todos mas sobretudo para a geração pós 25 de abril.  
Nunca defenderia um museu no sentido tradicional, acredito que nunca sera tal coisa.
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De Sarin a 23.08.2019 às 21:47

Há o risco. E com o nome Salazar não. Não! Assino uma petição, crio uma petição para banir tal homenagem!


Não assinei a petição sobre o museu, não a li ainda. Mas talvez não seja o que dizem que é, hoje em dia pouco ou nada corresponde ao que os sinos dizem.
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De Maria a 23.08.2019 às 21:52

No.mail que enviei falo do nome e explico.  
Centro interpretativo do Estado Novo, foi aliás o primeiro  nome que ouvi. Museu Salazar ouvi posteriormente. 
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De Sarin a 24.08.2019 às 00:10

A rapidez com que evoluiu do nome da época política para o nome do político... só por aí dá para perceber a benignidade de algumas intenções. :(
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De Luísa de Sousa a 23.08.2019 às 20:41

Olá Sarin, gostei muito do teu post!!
E concordo com o Museu, não podemos esconder uma parte da nossa história.
Não colocaria o nome Salazar, para não ferir susceptibilidades!!!


Bom Fim de Semana!
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De Sarin a 23.08.2019 às 21:19

Olá, Luísa. Não é só para não ferir - é para não homenagear!
E não pode ser apenas a versão fofinha do Estado Novo, como queriam algumas das pessoas que empunhavam cartazes a favor do museu...
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De Luísa de Sousa a 24.08.2019 às 12:47

"Para não homenagear" e a frase correcta!!!
Beijinhos Sarin e Bom Fim de Semana!
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De Sarin a 24.08.2019 às 13:22

Beijos, Luísa, bom fim-de-semana :)))
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De ó menina a 23.08.2019 às 23:14

Concordo em absoluto.
Recomendo a propósito a visualização do documentário 'El silencio de otros' sobre o absurdo que é a 'Lei do Esquecimento' espanhola.
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De Sarin a 23.08.2019 às 23:38

Boa lembrança, essa. É um documentário impressionante e que poderá esclarecer alguns idealistas.


Convém, a propósito e já que os tempos vão cinzentos, relembrar que o PP quis anular a Lei da Memória - que tenta anular alguns dos efeitos dessa arrepiante Lei do Esquecimento, ou da Amnistia. O mesmo PP de que falo no postal 'Mientras tanto, em Espanha'. Há quem não veja a perversidade de ter um museu com o nome Salazar, quem creia e queira intenções de esclarecimento no projecto.
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De Filipe Vaz Correia a 25.08.2019 às 14:55

Minha querida Sarin...
Venho tarde mas cheguei.
Queridíssima amiga diria até mais são estas discordâncias que mais do que não impedir aproximam sempre que o diálogo é carregado de sincero debate e carinho.
E entre nós isso não se esconde.
Um beijinho Canequiano 
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De Sarin a 25.08.2019 às 15:17

É isso mesmo, Filipe. :)
Um beijo e votos de um bom domingo
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De O ultimo fecha a porta a 25.08.2019 às 18:59

Tb já postei sobre isso.
A liberdade serve para expressarmos a nossa opinião. Não faz sentido esconder um pedaço da história só porque sim, além de que em Peniche já existe um museu na antiga cadeia. Eu já lá fui.
Quanto ao nome, não me parece ser crítico que se chame estado novo ou salazar. Prefiro isso do que movimentos de extrema direita que espalham violência, em garagens clandestina ou coisas piores!
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De Sarin a 25.08.2019 às 19:07

Estado Novo indica ser sobre a época política, incluindo as gentes. Salazar indica ser sobre a pessoa.


Perdi vários postais da malta que sigo, de quando em vez as ausências ou as presenças com pouca disponibilidade dão nisso. Vou tentando recuperar... sabes que se algo tiver a dizer não deixarei de comentar lá por ser um postal com um ou mais meses ;)
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De O ultimo fecha a porta a 25.08.2019 às 19:07

Seja de um ou de outro, não me choca.
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De Sarin a 25.08.2019 às 19:25

Havendo a quem choca, use-se um nome que a ninguém doa :)
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De HD a 26.08.2019 às 21:06

O nome não diz tudo, mas pode ditar o interesse... ;-)
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De Sarin a 26.08.2019 às 21:11

Com o presidente do município a falar em ser bom para o turismo e apoiantes do museu a dizerem que o senhor professor merece o museu... há dúvidas?
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De HD a 26.08.2019 às 21:14

Duvido é de quem o vá visitar... ;-p
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De Sarin a 26.08.2019 às 21:26

A um museu à figura? Os mesmos que lhe visitam a campa, os que votaram nele para figura do século, os saudosistas. Alguns dos que nunca visitarão um museu onde apareça a figura e a obra, nomeadamente a má. 
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De Vorph Valknut a 27.08.2019 às 16:14

Parece - me bem um Museu dedicado ao Estado Novo, mas discordo que leve o nome, ou seja "dedicado" a Salazar. O Estado Novo foi uma exigência política, da altura, perante o descalabro económico e social de então. Há que entender a Primeira República para compreender a fatalidade do Estado Novo. Assim nesse museu deveria haver uma secção dedicada ao Estado Velho, da primeira República. 
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De Sarin a 27.08.2019 às 16:28

Vou mais longe, os museus e centros interpretativos ou de estudos da nossa História deveriam estar ligados em rede, facilitarem a permuta de informação. Por isso não, não uma sala da Primeira República - um museu por direito próprio. Ligado em rede.
Porque as épocas não nascem em ovos e é importante perceber como surgem, sim.
Por isso, e cf digo no postal sobre o Museu das Descobertas, estes museus deverem nascer de um plano integrado e não apenas porque sim.
Muito menos por causa do turismo ou do senhor professor. 
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De Sarin a 27.08.2019 às 16:32

E talvez eu não tenha sido clara no postal, mas a única forma de aceitar um museu sobre o Estado Novo com o nome de Salazar, é, exactamente, se este contiver em volta homenagem individual a cada uma das vítimas do regime que comandou - o que é tecnicamente impossível.

a palavra a quem a quer




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