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Madeira ou metal?

por Sarin, em 24.06.19

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Lia num postal opinião sobre a opção de um café que passara a disponibilizar paletinas de madeira em vez de colheres de metal. Pelo texto e pelos comentários, percebi que todos preferiam as colheres de metal às paletinas de madeira por questões ecológicas.

Será mesmo melhor optar pela colher de metal?

Uma paletina de madeira é usada uma única vez. Tem apenas madeira. É reciclável e sofre degradação natural.

Uma colher de metal é reutilizável. Para ser reutilizada precisa de ser lavada com detergente vendido em embalagens plásticas que, para ser detergente, tem de conseguir emulsionar a sujidade recorrendo normalmente a compostos tensio-activos que obrigam a tratamento das águas antes de devolvidas aos mares; tem de ser lavada a 55-60•C, temperatura de desinfecção, para o que exige um equipamento que consome electricidade e aquece o ambiente envolvente seja Verão ou Inverno. A colher é geralmente constituída por ligas de metais, o que torna a sua reciclagem difícil. Se se perder, não se degrada no meio ambiente.

Se formos analisar o processo de reciclagem, os custos ambientais são ainda maiores: as paletinas podem ser recicladas enquanto madeira (para combustível ou serradura para camas animais, por exemplo) ou podem ser recicladas com outras matérias celulósicas na produção de pasta de celulose para uso na produção de papel e de outros produtos, incluindo objectos utilitários ou de decoração. A colher de metal ou pode ser fundida numa amálgama que mantenha características metálicas suficientes para moldagem resistência e adequação ao uso, ou tem de passar por um processo de separação dos metais que nem sempre é viável, o que leva ao seu depósito em aterros onde ficará séculos até se degradar.

E, claro, temos a questão a montante: a produção.

A produção florestal, se devidamente organizada, contribui para a manutenção da biodiversidade, combate a erosão e a desertificação, promove o aproveitamente paisagístico, aumenta as quotas de carbono, além de ser uma actividade económica que promove trabalho ao ar livre e contribui para a função fundamental da fotossíntese. A transformação da árvore em paletina é um processo mecânico.

A extracção de minério fere a paisagem, é uma actividade de elevado risco para os trabalhadores e recorre a elevado consumo de energia podendo os processos extractivos ser altamente poluentes, pois vão da perfuração mecânica à dinamitação e à fracturação hidráulica. A transformação do minério em colher exige processos físicos (fracturação, fusão a altas temperaturas), químicos (lavagens e depurações) e mecânicos (moldagem).

 

Nem sempre o que parece ser mais ecológico o é.

Mas nós, cidadãos, não temos de conhecer todos os processos produtivos, certo? No entanto, para fazermos escolhas ecologicamente conscientes devemos mesmo conhecê-los. Porque em produção florestal, uma árvore abatida significa uma nova árvore plantada. Significa renovação florestal. Significa sustentabilidade.

 

Adenda: em comentário, é sugerida a partilha de ligação para o postal que, contrariamente ao indicado, não citei, pois nem transcrevi nem usei como referência, mas que mencionei por, em conjunto com os comentários, me ter levado à escrita deste. Não o liguei por não ter sido o conteúdo do postal a espoleta, antes a unanimidade da opinião. A omissão foi, assim, natural e não intencional; mas porque a sugestão é boa, fica a ligação para o postal d' O último fecha a porta.

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Obrigada por estar aqui.



33 comentários

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De O ultimo fecha a porta a 24.06.2019 às 19:25

o mundo dos blogs é assim: inspiramo-nos uns aos outros e saudavelmente com opiniões nem sempre concordantes :)
os bens duradouros são menos duradouros e os ganhos obtêm-se ao longo do tempo pela sua redução e reutilização. Mas como em tudo, não há bela sem senão.
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De Sarin a 24.06.2019 às 19:33

O importante é abrirmos a discussão e apresentarmos e ouvirmos as várias perspectivas :)


O problema está em nos ocultarem os processos de extracção, fabrico e manutenção dos produtos que consumimos (defendo a rotulagem também para isto) - os senãos são por vezes muito feios porcos e maus :))
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De Sarin a 25.06.2019 às 11:37

Esclareço que quando me inspiro em postais de outros bloguistas faço ligação. No caso, não fiz porque não foi o postal, que comentei, mas a quase unanimidade da concordância que me motivou à escrita.
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De Sarin a 25.06.2019 às 11:38

Cf respondi ao Robinson:
"Esclareço que quando me inspiro em postais de outros bloguistas faço ligação. No caso, não fiz porque não foi o postal, que comentei, mas a quase unanimidade da concordância que me motivou à escrita."
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De O ultimo fecha a porta a 26.06.2019 às 22:24

Tranquilo e obrigado pelo link :)
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De Sarin a 26.06.2019 às 23:14

:)
Comentei. E teria ficado por aí - quando comento e digo o que me apraz sobre o tema acho desnecessário repetir-me em postal. Teria, se não tivesse reparado que a opinião, se extrapolasse os comentários, era universal. Foi à universalidade que respondi, não propriamente ao teu postal - mas como foi ele que causou o meu encontro com tal universalidade, não fica nada mal indicá-lo :))
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De Luísa de Sousa a 24.06.2019 às 20:05

Sarin, li atentamente o teu post, e, sinceramente "trocaste-me as voltas"! 
Sou das que lutam pelo reutilizável, vezes sem conta, tenho talheres em casa deste o casamento dos meus pais, do meu casamento, que são e serão utilizados milhares de vezes, assim como a maior parte dos produtos/utensílios que adquiro!!!
É esta a minha filosofia no que respeita ao ambiente .... mas sempre aberta a nova opiniões, se bem fundamentadas, e é aqui que me "trocaste as voltas".
E tens toda a razão ..... Ai Sarin .... sempre a "inventar" para mexer com a nossa consciência (no bom sentido, claro).
Grata por termos a Sarin aqui na blogosfera!
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De Sarin a 24.06.2019 às 20:12

Sou a favor do reutilizável. Mas nem sempre o reutilizável é preferível mediante outras soluções. Em nossa casa, os talheres não se perdem - e teremos sempre de lavar a louça, seja de que material for. Portanto, em nossa casa pretendemos materiais com longa vida e cuja lavagem seja mais eficaz com pouca água e pouco detergente - os materiais orgânicos obrigam a outros cuidados além da lavagem.
Mas na indústria da restauração as coisas passam-se de forma diferente, pelo que temos de as ponderar com outras premissas :)
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De P. P. a 24.06.2019 às 20:45


Excelente abordagem e reflexão, além da abordagem científica.
De facto, nos dias que correm, a reflexão torna-se impreterível. 
Relativamente à reflorestação, e ainda não escrevi acerca daquilo que constatei junto aos secretários de estado não sei do quê, daqui e dali, no projeto com a minha turma, a vontade e preocupação dos nossos políticos é … angustiante.
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De Sarin a 24.06.2019 às 20:59

Por vezes as justificações não são claras, e temos que reconhecer que há circunstâncias que alteram as respostas - pensar em usar colheres de madeira reutilizáveis levanta as questões da necessidade de maior higienização, praticável em casa mas não na restauração - excepto da de nicho. 


A produção florestal não está nem estará devidamente salvaguardada enquanto não for vista como actividade muito mais abrangente do que a indústria madeireira e das celuloses.
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De P. P. a 24.06.2019 às 21:02

Exatamente.
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De Mariali a 24.06.2019 às 21:25

Excelente análise, Sarin. Se eu já me tinha questionado devido a certas dúvidas, agora, ainda fiquei mais desperta para certos procedimentos, pois, nem sempre serão os melhores para a sustentabilidade do planeta.
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De Sarin a 24.06.2019 às 21:48

As melhores respostas em cada momento dependem da tecnologia e do objectivo. Por exemplo, detesto utensílios de madeira na minha cozinha porque espero que me durem a vida toda e em madeira ainda são uma dor de cabeça de higienização para quem tem alergias várias e pouco tempo. Mas num café, não tenho dúvidas sobre paletinas de madeira. Ou sobre o abuso que é colocarem guardanapos de papel sobre o prato do pão ou bolo - refilo sempre :)
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De imsilva a 24.06.2019 às 22:46

Se estivesses aqui ao meu lado, e me conhecesses bem eu dizia-te, " lá estás tu a levantar lebres das tocas" mas como não me conheces bem e não estás aqui ao meu lado, não digo nada. 
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De Sarin a 24.06.2019 às 22:51

Podes dizer o que te aprouver - se concordar, concordo, se discordar, rebato com argumentos ;)


Agora as lebres, 'tadinhas, não sou eu que as levanto; limito-me a mostrar que não correm sempre para o mesmo lado 
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De Rui Pereira a 24.06.2019 às 23:12

Faz sentido, de acordo com os argumentos que apresentaste. Estava certo de que seria ao contrário.
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De Sarin a 24.06.2019 às 23:15

Num café é diferente de em casa.
Entretanto a tecnologia evolui e outros argumentos surgirão :))
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De /i. a 25.06.2019 às 01:21

Uma solução extremista: bebemos o café sem açúcar. E o PAN devia já estar a preparar esse projecto-lei para ser votado no Parlamento. 


Agora a sério: tens razão e será a solução para amanhã. Uma vez que os plásticos descartáveis vão ter uma legislação apertada. 
A moda do pau de canela a substituir a colher de metal ou a paletina de plástico parece que já passou. 
E a propósito há uma empresa em Santarém que desenvolve projectos de inovação tecnológica e inventou uma paletina comestível. 
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De Sarin a 25.06.2019 às 04:49

Mais extremista sou eu, que não o bebo! Mas bebo chá. Sem açúcar - só me meti na conversa porque gosto de mandar bitaites, que eu até nem uso disto...


Era um desperdício de canela, sinceramente. Mas podem surgir as paletinas naturalmente aromatizadas, não apenas de canela. As paletinas de chocolate são solução fácil, também. Não conheço essa empresa de Santarém, mas ainda bem que existe essa opção - penso que o futuro do café nos locais públicos como cafés e quiosques passa pela eliminação da lavagem da chávena, e as máquinas automáticas também precisam de recipientes descartáveis: Copos e pratos de celulose, pex, leves e 100% recicláveis.


Tecnologia não falta, falta mudar os hábitos :))
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De Vorph Valknut a 25.06.2019 às 09:37

Dó uma questão:
E se mexêssemos o café com o dedo e comêssemos com as mãos? 


Agora a sério. Gostava de saber a pegada ecológica da "indústria dedicada à reciclagem" ( emissão de gases com efeito estufa, produtos usados e seu maneio - ex: lodo de papel - etc). Cheira-me, em grande parte, a patranha.
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De Vorph Valknut a 25.06.2019 às 09:37

"Só uma questão"....o resto fica igual
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De Sarin a 25.06.2019 às 09:44

Não se trata de regredir mas de escolher alternativas menos prejudiciais.
Nada encontras que não tenha pegada ecológica - até o simples facto de procurares na net como reciclar papel em casa... 
A reciclagem de celulósicos tem custos ambientais - pouco menores do que os de produção inicial. No entanto, menores do que os custos ambientais das siderurgias.


Podemos (e devemos) optar pelo que for menos agressivo, mais equilibrado.
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De Vorph Valknut a 25.06.2019 às 10:19

Se aqui é assim, imagina noutras paragens:


https://youtu.be/lqrlEsPoyJk
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De Sarin a 25.06.2019 às 10:34

Mais um motivo para optar por biodegradáveis - se ninguém os tratar, pelo menos a natureza lhes dará caminho.


Sobre os problemas do não tratamento de resíduos falei noutros postais, os mais recentes o Excesso de Beatas ou a glorificação das políticas nanicas e O lixo dos outros ;)
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De Vorph Valknut a 25.06.2019 às 10:44

O problema é se a biodegradação é de tal modo lenta, comparativamente ao consumo e acumulação desses materiais, que em termos práticos pouco, ou "nada" contribui para a gestão do lixo. 


https://www.google.com/amp/s/www.publico.pt/2019/04/30/p3/noticia/depois-de-tres-anos-no-mar-e-na-terra-um-saco-biodegradavel-afinal-sobrevive-1870906/amp
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De Sarin a 25.06.2019 às 10:51

Não fui clara, desculpa, estava na sequência do postal - falava de biodegradáveis orgânicos.
Ainda assim, uma biodegradação em 5 anos é 100 vezes mais rápida que em 500 anos. Não é suficiente, mas melhora as perspectivas. E a investigação é activa, portanto...
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De Happy a 25.06.2019 às 10:35

Entendo o teu ponto de vista, mas tendo em conta que o café já existia, limitou-se a substituir a colher pelo pauzinho, e que não fazem uma máquina apenas para lavar as colheres, mas aproveitam a lavagem das chávenas, parece-me um desperdício de recursos...
Mas é válida a tua argumentação!
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De Sarin a 25.06.2019 às 10:48

No projecto de produtos industriais, espaço é dinheiro - o espaço ocupado pelo tabuleiro ou pelo cesto das colheres (não 'aproveitam para lavar', têm de lavar) significa volume, tem custos. Significa mais umas quantas chávenas e pratos - cuja tendência será a substituição por descartáveis orgânicos.
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De Corvo a 26.06.2019 às 12:42


Bom dia, cara Sarin.
Vou pelo metal. Decididamente!
Primeiro porque sendo metal meta-se a colher onde for não adultera o sabor do que se ingere, coisa que dificilmente imagino igual na utilização da madeira que liberta as matérias resinosas de que o vegetal se compõe.

Depois porque acho muito improvável alguém perder uma colher, quanto mais colheres.

Seguidamente porque ainda mais dificilmente imagino alguém perder uma colher de metal, quanto mais colheres. Não estou a ver o mais fanático da higienização levar a própria colher no bolso ao ir tomar café fora de casa; e se, porventura, algum mais descuidado a perder, também não vejo muito bem que uma ou duas, vá, três colheres caídas por ele algures possam perturbar o saudável movimento giratório a que já nos habituou.

Resto de um excelente dia.
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De Sarin a 26.06.2019 às 18:15

Olá, caro Corvo!
Nem imagina a quantidade de colheres de café, aquelas minúsculas pecitas, que vão para o lixo, que são perdidas, nos cafés! Porque ocultadas por lixos vários, o empregado nem nota a colher ao despejar o pires onde o cliente coloca a embalagem do açúcar e o guardanapo e a pastilha e, até, a beata (a beata!!!) do cigarro... fora as que caem ao chão e se escondem sob equipamentos e mobiliário que não são deslocados diariamente, embora as colheres sejam de uso diário... Parece incrível, eu sei :))


Não me parece que as paletinas, metidas entre o que for, adulterem qualquer sabor, Corvo; até porque temos décadas de experiência com palitos ;))

a palavra a quem a quer


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