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Lido e ouvido sobre o racismo

por Sarin, em 23.06.19

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Na sexta-feira li de Alexandra Lucas Coelho um artigo de opinião no qual estranha a quase inexistência de alunos negros numa escola de artes cénicas sediada numa zona onde costuma "ser das poucas pessoas brancas, ou mesmo a única, numa carruagem, sobretudo à noite."

Não concordarei com tudo o que diz ALC, até porque no texto defende a inclusão da tal pergunta, mas percebo onde quer chegar. Nomeadamente, à inexistência de dados que sustententem ou rebatam a sua percepção quanto à desproporção entre o número de alunos negros e a população envolvente.

Algures no texto, indica o racismo como uma das causas para a falta de representatividade de negros numa escola inserida num meio proeminentemente negro.

Não argumento - como ela, não conheço os números. E não tenho a sua percepção, pois não vivo na Grande Lisboa. Mas também noto a quase inexistência de professores negros, bancários negros, jornalistas negros, actores negros, médicos negros, empresários negros. E interrogo-me porquê.

Ontem mal consegui ler fosse o que fosse, mas passou-me pelos olhos um artigo lido agora com calma, que refere que Milton Gonçalves, actor e presidente do brasileiro Sindicato dos Artistas, vai processar Paulo Betti, actor e concorrente à direcção do mesmo sindicato, por racismo. Porque este terá dito que a actual direcção tem  "uma forte representação negra e isso pode confundir as coisas" - presumindo eu que "as coisas" sejam a luta sindical e a luta contra a discriminação, esta muito activa no Brasil.

 

E pergunto-me que mundo é este, onde uma fotografia e o seu negativo são declarados racistas mas pelos motivos inversos: haver poucos negros numa instituição é racismo, dizer que há mais negros do que brancos numa instituição é racismo. Assim. E em português.

 

 

Esta madrugada, Ricardo Araújo Pereira, Pedro Mexia e João Miguel Tavares falaram também da pergunta recusada pelo INE. JMT ficou-se no nim, ao recusar o endosso de "raça" mas ao ser sensível ao argumento da necessidade de quantificar a população das várias comunidades (sim, a pergunta já vai com esta interpretação), PM apontou a necessidade de tal quantificação mas também a importância de clarificar a recusa do INE, pois com a recusa ficou no ar a ideia de um inquérito autónomo e mais aprofundado sobre a questão (também assim li, e a ele aludo no meu postal quando digo responder mas não ao Gabinete dos Censos), e RAP, o mais parco em explicações na matéria, teve a frase da noite, que tento citar de memória "No meu tempo, os racistas é que falavam em raça. E digo 'no meu tempo' porque o que antes era racismo agora já não é, e o que hoje é racismo na altura não era."

Os seus tempos são também os meus.

 

 

imagem colhida no Mercado Livre

[Cuidemos de todos cuidando de nós: Etiqueta respiratória. Higiene. Distância física. Calma. Senso. Civismo.]
[há dias de muita inspiração. outros que não. nada como espreitar também os postais anteriores]

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lançado às 09:43

Onde ideias-desabafos podem nascer e morrer. Ou apenas ganhar bolor.


Obrigada por estar aqui.



2 comentários

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De Não Identificado a 23.06.2019 às 15:13

Ao ler a imprensa de certos países como o UK, EUA e mesmo do Brasil a ideia que tenho é que emergiu uma “ciência/indústria/crença/corrente política” que denominei como sendo o “politicamente correto”. Efetivamente penso que nalguns destes países esta reação se justifica pois ainda hoje têm níveis de racismo, sentimento anti LGBT, desigualdade das mulheres na sociedade que acredito serem muito superiores aos portugueses. Como este movimento do “politicamente correto” também se pauta por uma postura agressiva e que considero provavelmente justificada. Pela minha experiência pessoal o nível de agressividade de racismo em Portugal é muito menor do que nesses países (mas sendo derivado da experiência pessoal obviamente que esta minha realidade poderá não ser representativa). Contudo acho que a importação para a realidade portuguesa de toda esta indústria do politicamente correto anglosaxonico poderá não ser benéfica. Um exemplo inicial foi o facto de se ter posto em causa a criação do museu dos descobrimentos que eu considero totalmente descabida e que acho que atacar os descobrimentos é atacar a cultura comum dos Portugueses que nos torna únicos enquano povo (mesmo que a sua representação cultural não seja completamente correta do ponto de vista histórico). Não me parece positivo para Portugal e para os portugueses que daqui a uns anos os descobrimentos se comece a achar que faz sentido dar uma conotação negativa aos descobrimentos nem a favorecer a entrada de estudantes nas universidades consoante a sua raça. Do meu ponto de vista a agressividade desmesurada destes movimentos “politicamente corretos” levou a uma contra reação que levou ao poder trump, bolsonaro e o brexit que foram votos a meu ver baseados na rejeição do politicamente correto.
-da Vinci 
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De Sarin a 25.06.2019 às 07:28

Caro da Vinci, respondi-lhe mas por algum motivo acabei por não submeter a resposta embora convicta de que o havia feito... lamento o atraso.


Não terá sido a agressividade dos movimentos minoritários que terá levado à ascensão de Trump, Bolsonaro e outros, mas as campanhas de desinformação e o explorar dos medos sociais apelando ao sentimento - em ambos os casos, o político-salvação, enviado de Deus. Poucos falam do apoio dado pelas congregações religiosas, segregadoras, às candidaturas de ambos. Além da contestação de parte da população às políticas vigentes, claro - cansaço de uns, ideologia de outros... e o caldo de oportunismo que antes referi.


Sobre as restantes questões abordadas no seu comentário, respondo hoje em forma de postal.


Espero redimir-me pelo atraso :)

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