Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]



Gravidez tardia, procriação assistida e mais qualquer coisa

Algumas considerações para uma discussão sobre bioética

por Sarin, em 29.10.19

Methuselah_Stained_glass.jpg

Uma mulher chinesa deu à luz uma menina. Até aqui nenhuma novidade. A novidade é que a chinesa que deu à luz  tem 67 anos. E parece ter sido uma concepção natural.

As pessoas cometem tantas excentricidades para terem direito à imortalidade num qualquer livro ou placa comemorativa que não coloco de parte a possibilidade de o casal ter recorrido a inseminação artificial numa clínica e de se ter deslocado a outra para os tais exames de rotina onde foi detectada a gravidez. Isto, porque os pais estão a dar relevância a tal circunstância, e daí a minha dúvida - se reclamam o feito de serem os mais velhos do país a conceberem naturalmente, talvez encontrem no facto algo de muito importante para além da filha.

 

Mas o que me fez parar na notícia foram considerações de outra ordem: os limites.

Ao ler os comentários que a notícia recebeu na China, pensei que não seriam muito diferentes dos que se leriam por cá se o casal fosse português - entre egoísmo porque não viveriam tempo suficiente e a criança seria um encargo para os outros filhos, e serem demasiado velhos para terem paciência para educarem uma criança e que seria esta quem cedo teria teria de tomar conta deles, houve de tudo um pouco. Faltou o "ah, garanhão" que certamente soaria por cá, e não faltou o "ah, mas ultrapassaram o limite de filhos, serão penalizados?" que nos é estranho; mas todos os outros que li seriam pouco diferentes por cá. Portanto, os preconceitos e os pré-conceitos ser-nos-ão comuns, afinal.

E sobre estes surgiram-me as tais questões sobre limites, que serão questões comuns às sociedades.

Haverá uma idade limite para se assumir a educação de uma criança? Não acho que haja. O bom senso diz-nos que uma pessoa com quase 70 anos talvez não viva tempo suficiente para acompanhar um filho até à adultícia. Mas o bom senso também nos diz que uma mulher deixa naturalmente de ser fértil entre os 50 e os 60 anos, portanto talvez em casos extraordinários o bom senso seja uma batata. Aliás, penso que não haverá nem idade limite nem quaisquer outros limites impostos por terceiros - os limites devem ser traçados pela mulher, pelo homem, pelo casal, pela família.

A maternidade é, essencialmente, uma opção egoísta - depende do querer. Mesmo que depois tudo seja entrega e sublimação. Sendo uma opção pessoal, como se pode dizer a alguém que não tem idade para ser mãe? Como se pode dizer que não tem condições para ser mãe? O que define, quem define o que é aceitável e o que não é? 

E se, em vez de concepção natural, fosse resultado de procriação assistida? Já haveria limites a impor?

Não, não me parece. A partir do momento em que a solução médica existe, não pode haver moralização ou limitação do seu acesso por razões subjectivas. Porque o que define a idade limite? A menopausa? E as mulheres que têm menopausa precoce, devem ser inelegíveis para esta solução? E as outras que não tiveram menopausa precoce mas sim falta de acompanhamento médico ou maus diagnósticos ou diagnósticos impossíveis?

Por outro lado, imaginemos que, em vez de ser chinesa, a mulher era portuguesa. E que tinha recorrido a tecnologias médicas de reprodução assistida. Uma gravidez comparticipada, portanto. Neste caso, não deverá haver um limite de idade para que um casal seja elegível? Aqui poder-me-ia desequilibrar entre a necessidade de afectar os recursos a soluções viáveis e o direito que os indivíduos têm às suas escolhas. Mas será porque o bom senso nos diz que aos 60 anos um casal não terá tanta hipótese de acompanhar um filho recém-nascido que devemos negar a esse casal o direito de ter um filho? Será o facto de serem os nossos impostos a pagar a intervenção que nos dará o direito de julgar as suas opções e o motivo que os fez protelar a parentalidade até serem sexagenários? Parece-me o mesmo que negar um coração a um octogenário porque as probabilidades de rentabilizar a vida útil do coração são menores - e detesto esta visão economicista! Portanto, sim, os recursos são escassos. Sim, são pagos pelos nossos impostos - mas não aceito que quem possa pagar do seu bolso tenha regras distintas. Porque a questão é de bioética - quem julga sobre o direito de viver, de nascer ou de morrer?

É, sem dúvida, mais fácil quando as questões surgem por métodos naturais. Será a natureza, para uns, para outros será o destino... mas a intervenção médica, humana, veio baralhar as contas do destino ou da natureza desde antes de Esculápio. E é bom que nós, sociedade, pensemos estas coisas da bioética:

* Porque vivemos num mundo sobrepovoado embora completamente desequilibrado demograficamente.

* Porque a esperança de vida está a aumentar numas zonas do globo mas os genocídios e a falta de cuidados básicos de higiene e saúde continuam noutros pontos - demasiados, e um já o seria.

* Porque o envelhecimento da população europeia é preocupante enquanto noutras sociedades  continuamos com uma mortalidade infantil inadmissível.

* Porque os senhores que costumam tratar destas coisas da bioética não têm muito o hábito de se dedicar à discussão pública do tema - dizer "está aberta a discussão" não é nada. Até porque a discussão está sempre aberta.

 

imagem: Robert Scarth, CC BY-SA 2.0

[Cuidemos de todos cuidando de nós: Etiqueta respiratória. Higiene. Distância física. Calma. Senso. Civismo.]
[há dias de muita inspiração. outros que não. nada como espreitar também os postais anteriores]

Autoria e outros dados (tags, etc)

lançado às 11:14

Onde ideias-desabafos podem nascer e morrer. Ou apenas ganhar bolor.


Obrigada por estar aqui.



16 comentários

Imagem de perfil

De Happy a 29.10.2019 às 17:34

A maternidade ganhou novos contornos com o facto de ser assistida. A verdade é que me lembro de há mais ou menos 10 anos uma espanhola com uma idade semelhante também ter dado à luz gémeos, depois de um tratamento de fertilidade. Mas morreu 2 anos depois. São essa condicionantes que me põem de pé atrás. Porque bem sei que isso pode acontecer a qualquer pai jovem, mas há maior probabilidade de acontecer com pais mais avançados na idade. E eu penso sempre, e se o bebé tivesse doenças, quem cuidaria? 
Imagem de perfil

De Sarin a 29.10.2019 às 17:48

Mas, Happy, a questão é tu pensares para ti ou pensares para os outros. Porque a bioética são meia-dúzia a pensar para todos...


E os casais em que ela é velha e ele novo? E os casais que tentaram uma vida inteira e que só agora vêem surgir solução comparticipada? E os casais que nem nos passam os motivos para ter filhos - incluindo manter património na família?!
E se a esperança de vida está a aumentar, não é expectável que aumentem também outras etapas - a idade de frequência da escola, a idade de reforma, a idade a que os filhos saem de casa dos pais... todas estas dilataram.
Apenas lanço o tema à discussão nas nossas cabeças - as questões  demográficas são várias, e interligadas. :)
Imagem de perfil

De Luísa de Sousa a 29.10.2019 às 18:33

Minha Querida Sarin, adoro estes temas que nos trazes e que nos fazem reflectir!!!
Acho que a decisão de ser mãe cabe à mulher ou ao casal, na idade que quiser, da forma e como quiser!
Confesso que faz-me confusão o facto de uma mulher ser mãe na casa dos 60 anos, por tudo o que acarreta essa decisão, numa fase mais tardia da vida da mulher.
Eu tive 3 filhas, a última com 42 anos. Nunca desejaria ter filhos agora, com 58 anos, já tive a minha "dose", pretendo neste momento gozar da minha liberdade enquanto tenho saúde e vontade para tal.
Imagino que quem nunca foi mãe e se o deseja tanto, o queira ter em qualquer idade e de que forma for, cedo ou mais tarde. A esperança média de vida está a aumentar o que possibilita poder acompanhar o filho por mais tempo, ainda que talvez com a saúde mais debilitada.
Respeito a decisão de quem quer ser mãe!!!
Beijinhos
Imagem de perfil

De Sarin a 29.10.2019 às 23:19

Olá, Luísa :)
Também respeito as decisões de cada um. A minha questão é que tomam-se estas decisões em grupos fechados e depois impõem-se limites com base na tal bioética. Por outro lado, sendo comparticipados, até que ponto devem ser estipuladas regras de elegibilidade?
É uma discussão sempre em aberto - e de resultados maleáveis :)


Beijos, e obrigada pelo teu testemunho :)
Sem imagem de perfil

De Rita a 29.10.2019 às 19:34

Olá Sarin, os casos que se enumeram neste post já estão regulamentados em Portugal. Não há comparticipação na reprodução assistida apartir de uma certa idade (penso que é aos 40) e as hipóteses de obter um transplante de órgãos diminuem com a idade, da mesma forma que os tratamentos e operações oncológicas têm prioridades diferentes conforme a idade do paciente. E eu acho isso certo. Também acho certo ser mãe aos sessenta. Há por aí muita avó que é mãe três vezes, uma vez por fazer de mãe e duas vezes por ser avó.
Imagem de perfil

De Maria Araújo a 29.10.2019 às 20:40

Bom comentário.
Imagem de perfil

De Sarin a 30.10.2019 às 00:21

Olá, Maria.
É, sim, a Rita costuma tê-los :)
A minha questão passa exactamente pela ausência de debate aquando da regulamentação. Os Conselhos de Bioética definem a ética com bases científicas mas não só - e este não só é aquele que deveria ser debatido connosco, sociedade... mas não é :/
Imagem de perfil

De Sarin a 29.10.2019 às 23:47

Olá, Rita :)
Estão regulamentados, sim - e a minha questão é exactamente essa, pois a regulamentação sobre liberdades pessoais em questões de saúde é feita atendendo aos Conselhos de Bioética, mas ninguém nos pergunta nada. O debate não vem  à sociedade.
Sobre a idade limite comparticipada, a Associação Portuguesa de Fertilidade defende aumento da idade enquanto o presidente do Conselho Nacional de Procriação Medicamente Assistida (eleito!) considera os 40 demasiado e que o acesso por mulheres solteiras ou lésbicas "tornou a questão [da lista de espera] mais complicada". Só as casadas ou em união de facto com um homem podiam ter acesso, antes de 2016.
No transplante de órgãos os critérios são clínicos (compatibilidade e gravidade) e regionais (proximidade); a idade por si mesma não é factor de decisão - nem acho que deva ser, o homem de 30 é um assassino e o de 70 é um médico... a idade salva o assassino em detrimento do médico? Por outro lado, o assassino pode ter matado o homem que lhe tentava violar a filha, e o médico pode ser um negligente com vários processos às costas, e a Lista não se pode substituir aos tribunais... :)))


Estas matérias devem ser geridas por cientistas de forma objectiva. Mas a ética deve ser discutida por todos - o que não acontece. E, graças também a esta dissociação entre quem dita a ética e a sociedade, somos um país onde a ética é semelhante à galinha do vizinho, mas porque nos outros até funciona mas por cá não :(
Imagem de perfil

De /i. a 29.10.2019 às 21:11

O ditado: um homem velho é capaz  de fazer homem novo começa a aplicar-se às mulheres.
Agora a sério...
Temos o livre arbítrio por isso cada um faz o que a sua vontade manda. Se fosse comigo? Não teria filhos com essa idade, porque acho que não têm culpa de virem ao mundo com os pais com um prazo de validade tão próximo do fim (quem de novo passa, de velho não passa) e acho uma irresponsabilidade deixar a educação dessa criança em mãos alheias. É legítimo o objectivo/sonho, no entanto, quando não é realizado em tempo útil para educar e acompanhar o crescimento (claro que pode acontecer mesmo a mãe sendo jovem deixar o filho órfão), torna-se num capricho pois a esperança de vida está alta mas chega-se aos oitenta anos e somos uma farmácia ambulante e mesmo assim não se disfarça as maleitas físicas e psicológicas. Que futuro para essa criança? Caso não haja uma estrutura sólida familiar em linha recta  mesmo assim não têm obrigação.

A gestação tardia é acompanhada rigidamente pela equipa multidisciplinar médica, contudo, suscita-me esta dúvida: com que fragilidades vai nascer a criança, será mais propenso a ter doenças uma vez que a mãe não tem histórico de doenças que aparecem com os maus hábitos, ou as associadas à idade.

Imagem de perfil

De Sarin a 29.10.2019 às 23:57

A minha questão passa por aí: são liberdades individuais. Mas tens Conselhos Nacionais disto e daquilo a definirem a ética dos procedimentos - e os requisitos de elegibilidade dos mesmos.
São questões científicas, mas não apenas. E alguém define as regras  que não são apenas científicas sem que a sociedade debata ou sequer dê sinais do que pretende.
Além disso, com o envelhecimento da população, será assim tão desacertado as mulheres serem mães aos 50/60, quando a média para o primeiro filho já anda nos 32 e o número de mulheres inférteis tende a aumentar?
O meu problema, /i., é sempre estas coisas das liberdades individuais serem reguladas à margem da sociedade e tenderem a pensar a Ética escrita nas Tábuas... não aceito dogmas! E não aceito manipulações morais da ciência! Objectividade é fundamental :))))
Imagem de perfil

De /i. a 30.10.2019 às 13:26

Há um lobby. E podemos resistir, mas a manipulação vence sempre. Apelam à emoção e esses conselhos aplicam o que promovam a ciência para ser insubstituível para o avanço da sociedade. E muitas vezes não é avanço, mas antes um retrocesso ético e cometem-se monstruosidades. Não pode valer tudo. 
Imagem de perfil

De Sarin a 30.10.2019 às 14:18

Resistindo-lhe, não vence porque nunca se conseguirá impor como deseja: absoluta e dominadora como outrora.
Não consigo aceitar que se tentem disfarçar de bases científicas conceitos que não passam de construções arbitrárias. E porque arbitrárias, no mínimo há que as adequar aos tempos. A Ética é o que a definirem - e volto à minha questão: quem a define?!
Não pode valer tudo. E o único limite possível é traçado exactamente pela tal ética...
Imagem de perfil

De Ricardo Nobre a 29.10.2019 às 22:01

Com o aumento da esperança média de vida e com as mulheres a serem mães mais tarde (depois de formadas, empregadas e algumas efectivas, conheço quem vá ter o primeiro filho aos 37 ou 38 anos), é esta uma consequência natural… queira a natureza.
Imagem de perfil

De Sarin a 29.10.2019 às 23:59

Também penso que sim, Ricardo.
Mas os Conselhos Nacionais que tratam da Bioética fazem-no sem sequer trazerem o debate a público - e eu aproveito todos os bocadinhos para contrariar tal tendência :D
Imagem de perfil

De Maria Sá a 30.10.2019 às 14:02

Tens razão quanto à ausência de debate público. É uma aridez infelizmente comum a muitos outros temas socialmente relevantes... Nos antípodas tens a fartura de "debates da bola", o que mostra muito sobre nós, portugueses. 
Imagem de perfil

De Sarin a 30.10.2019 às 14:08

E sabes o que é mais triste, Maria? Podemos debater a bola e debater muitas outras coisas, mas insistem em que nos cinjamos ao circo...

[a palavra a quem a quer]




logo.jpg




e uma viagem diferente



Localizar no burgo

  Pesquisar no Blog



Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Cave do Tombo

  1. 2021
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2020
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2019
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2018
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D