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Precisamos claramente de mudar os nossos hábitos. Repensar como vivemos: reduzir o consumo, recuperar o danificado, reutilizar o possível, reciclar o restante.

Passa por assumir que não precisamos de tudo o que nos querem vender, passa por reinventarmos a nossa própria moda, passa por reestruturarmos os hábitos alimentares, passa por olharmos a posse dos objectos com responsabilidade.

E passa também pela escolha das e pela exigência nas nossas actividades de lazer.

Uma ida ao cinema implica, ao que vejo, e entre outros adereços, a embalagem das pipocas, o copo da bebida e a palhinha.

Estar na esplanada é estar também com uma infinidade de papéis e plásticos e metal - a garrafa da água, a lata do refrigerante, os guardanapos que vêm nos pratos e os que, estando no suporte, usamos para limpar desde os lábios até à gota de refrigerante que salpicou a mesa. E isto é apenas o que temos em cima da mesa.

E há o outro lazer, o que parte do desperdício para gerar diversão.

Como por exemplo La Tomatina. Com mais de 70 anos de existência, esta tradição de Buñol sempre me afligiu - não que a não pensasse divertida, aos 20 anos ponderei até participar... mas não consegui,  porque à possibilidade de diversão sobrepunha-se, sobrepôs-se, sobrepõe-se a noção do desperdício alimentar que dela resulta. Toneladas de tomate destinados a serem atirados aos e entre participantes, entre molho e risos e manchas, a maior a da vergonha por chegarmos a este nível de desrespeito pelos alimentos.

E Almeirim quer seguir-lhe os passos, realizando pelo segundo ano a Tomatada.

Mas parece que esta actividade  não ofende os defensores do ambiente e da sustentabilidade, talvez porque afinal os tomates até são excedente da indústria transformadora, a coisa é boa para o Turismo e no fim até se aproveitam os resíduos para alimentação animal...

... Isto afirmado como se a produção de alimentos para animais, e muito particularmente de alimentos para animais destinados ao consumo humano, não estivesse sujeita a apertadas regras de segurança alimentar, como se o tratamento (?) a que os resíduos serão sujeitos eliminasse os riscos de contaminação com bactérias ou fármacos presentes nos fluídos humanos, com fibras e tintas do vestuário cuja toxicidade se desconhece, com contaminantes físicos de toda a espécie.

... Isto dito como se a água que vai ser disponibilizada para lavagem dos participantes durante os festejos (de quê?) estivesse canalizada para reaproveitamento para rega em vez de destinada a escorrer indiscriminadamente.

... Isto defendido como se não houvesse outro destino para o tomate - que, sendo destinado à indústria transformadora, não deixa de ser comestível em cru. E como se a água não fosse um bem escasso até à beira-Tejo.

 

Recordo um correspondente que tive há muitos anos, no início do século, um habitante do deserto e por lá guia turístico. Que dizia que o que mais o havia impressionado nos poucos meses em que estudara na Europa havia sido a nossa relação com a água. Sem censura, apenas espanto, vira como a usávamos como ornamento em fontes, como a deixávamos escorrer sem uso das torneiras para o ralo, como empapávamos os jardins, as rotundas, como não precisávamos de aproveitar a água da chuva. Ficara maravilhado com a prodigalidade de água, não lhe ocorrendo que o que via não era apenas não ter carência, que o que observava era mesmo desperdício. Há 20 anos.

 

De então para cá pouco mudou na gestão da água. Pouco mudou no nosso comportamento, na nossa exigência, nas nossas políticas.

Dizem que este arder da Amazónia está a servir para mudar consciências. Que por pouco que se faça pelo menos ganha-se consciência para o problema do Ambiente. Pois eu digo que a consciência ambiental que se possa ganhar, e eu duvido desse ganho, não chega. É preciso ganhar consciência política e agir globalmente - em cada opção  no nosso quotidiano, na nossa vida. O Tempo e a demografia estão contra os lentos despertares de consciência. E os hábitos que não mudarmos por política serão mudados por necessidade por escassez por imposição. Sem aviso nem preparação.

 

 

imagem de fonte desconhecida. se identificada, agradeço alerta.

 

[Cuidemos de todos cuidando de nós: Etiqueta respiratória. Higiene. Distância física. Calma. Senso. Civismo.]
[há dias de muita inspiração. outros que não. nada como espreitar também os postais anteriores]

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lançado às 11:17

Onde ideias-desabafos podem nascer e morrer. Ou apenas ganhar bolor.


Obrigada por estar aqui.



9 comentários

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De ossapossabembeijar a 27.08.2019 às 12:33

Texto fabuloso
TOP mesmo 
Subscrevo cada palavra, cada frase e a ideia
Sim somos todos ambientalistas, mas porra não mudem para já o meu estilo de vida 
Como o Jacinto, homem da minha família,
 “Sou a favor das mudanças ... mas tinham que começar logo por mim???”
Beijinhos  
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De Sarin a 27.08.2019 às 12:47

Olá, sapo beijoqueiro :)
O tio é sap...iente ;)


Os pequenos gestos são importantes, mas devem ser vistos como parte do todo na nossa vida - colocar no contentor certo e reutilizar os sacos mas continuar a comprar garrafinhas de plástico e embalagens pequenas de leite para o puto levar para o lanche...
Há uns anos os descartáveis usavam-se em viagem. Agora usam-se diariamente, e nem nos apercebemos que é descartável, tão habituados estamos.
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De ossapossabembeijar a 27.08.2019 às 12:51

A opção pelo ambiente e agora ainda mais pela Descarbonização da nossa economia tem que ser assumida todos os dias e de forma permanente
Não pode ser só de vez em quando, quando nos apetece 
E depois há a hipocrisia, como Espanha está a fazer com e energia elétrica (com origem no carvão) que importa de Marrocos. Uma vergonha que desfaz o que podes conseguir sensibilizar 
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De Sarin a 27.08.2019 às 12:59

As mudanças têm mesmo de ser políticas, micro e macro.
Não queremos retrocesso no conforto, no conhecimento, na segurança, no bem-estar - a energia continuará a ser um grave problema. Espanha cortou alguma dependência em relação ao petróleo, não foi a questão ambiental que motivou a mudança. E enquanto as reservas de petróleo de alguns países forem elevadas, acredito que pouco será feito a nível industrial.
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De ossapossabembeijar a 27.08.2019 às 13:09

Tudo será diferente quando se esgotar a hipocrisia ...
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De Sarin a 27.08.2019 às 13:48

O problema é se o tudo se esgota antes disso...
... problema para nós, animais e plantas e fungos de hoje; a Terra sobreviver-nos-à.
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De ossapossabembeijar a 27.08.2019 às 13:51

Mas em que condições miga?
Certamente pior do que a que nos deixaram 
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De Sarin a 27.08.2019 às 13:58

Disso não duvido! Apenas digo que o "Salvem o Planeta!" é incorrecto - a expressão é "Salvemos o Planeta que conhecemos!"
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De ossapossabembeijar a 27.08.2019 às 14:03

Melhor seria 
“Salvem o Planeta de nós”

[a palavra a quem a quer]:

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