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Do Bairro da Jamaica

por Sarin, em 28.01.19

 

 

Nunca lá fui. Nem tenciono ir: não tenho familiares ou amigos que lá morem, não tem nenhuma atracção cultural, portanto não tenho motivos para conhecer ou visitar um bairro cuja existência desconhecia até há pouco.

Ouvi falar dos confrontos entre moradores, que teriam acabado  em confrontos com a polícia.

Nestas coisas nunca ligo muito a quem provoca o quê, porque o ruído é ensurdecedor. E desta vez foi desastrosamente ensurdecedor. Foi o vozear dos que não estiveram envolvidos mas que gritaram muito alto que tinham sido confrontos por motivos racistas, tão alto gritando que abafaram a voz dos moradores, dos que lá estiveram, e que diziam que não, que não foi discriminação, foi abuso de força - o que, não sendo bom, não é tão mau.

Também houve o ruído por causa da Língua Portuguesa, que bosta tanto pode ser substantivo como adjectivo - e há por aí muitos sujeitos não substantivos cujo objectivo é adjectivar tudo e mais alguma coisa que lhes possa dar visibilidade. De um assessor espera-se mais fluência, mas quem nunca borrou a pintura que atire a primeira nódoa. Já nódoas como as gentes que insultam por não perceberem português e perseguirem objectivos racistas além de perseguirem outras gentes, nódoas dessas podem atirá-las para um canto e lá as deixarem esquecidas, bafientas, sujas.

Nódoas de todas as cores, essas que perseguem e as que filmam a polícia que dizem vai "ser agora, vai ser agora" enquanto focam alguém virado para a polícia, desfocam e voltam a focar quando o polícia está já envolvido num corpo-a-corpo, o que foi dito e feito entre uma imagem e outra não sabemos mas ouvimos distintamente a antecipação do confronto, "é agora, é agora" qual director de cena preparando as claquetes.

E também houve o ruído daqueles que têm bairros de porto-rico e bairros das honduras nas respectivas autarquias mas aproveitam para apontar o dedo à autarquia, que quem não gosta de reggae não é bom político e o Bairro da Jamaica sempre é de outro caribe.

Caribe sem carimbo, como todos os bairros ilegais, e este é ilegal muitas vezes, desde obras abandonadas a terrenos hipotecados e deixados ao abandono.

 

Estando o ruído mais calmo, aguço o olhar e vejo

* Que os problemas da violência policial se dissiparão quando cada agente tiver uma câmara de filmar no bolso, a protecção de dados que se arranje com esta solução.

* Que o problema dos bairros ilegais não pode ser tratado como um problema dos municípios, a habitação é um direito constitucional que implica deveres - dos cidadãos e do Estado. Tratar um bairro ilegal como legal, com saneamento básico e luz, será avalizar a ilegalidade em terrenos particulares, deixar 1200 pessoas viverem sem saneamento básico é uma questão de saúde pública, uns endividarem-se para pagar a casa e outros terem casa gratuitamente é injustiça social, garantir abrigo a famílias sem tecto é dever humanitário. Não é simples, e resumir esta questão a "vontade política" é ser desassombradamente hipócrita.

* Que a câmara do Seixal começou a reintegração de 200 famílias em 2018; desconheço os trabalhos que foram desenvolvidos, mas a reintegração começou antes dos confrontos pelo que os ataques partidários dizendo que a autarquia nada fez são falsos. Quando muito, terá feito muito pouco ou muito tarde; mas, e como disse antes, os bairros habitados ilegalmente não são mera questão de vontade política.

* Que os partidos e os seus actores directos nestes ataques à polícia, precipitados e mesmo antes de saber o que se passou, deviam ser responsabilizados política e criminalmente. Só assim conseguiremos acabar com a irreflexão. 

* Que a comunicação social devia ser criminalmente responsabilizada por esta vergonha desinformativa, responsável que é pela exaltação de uma ou outra perspectiva em detrimento dos factos e com as consequências que já conhecemos.

 

Quanto aos cidadãos, apenas vejo que muitos continuam a preferir embarcar de ouvido e destruir do que pensar e construir. Apenas posso desejar que cresçam, amadureçam, sejam cidadãos de plena consciência em vez de joguetes de interesses vários.

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18 comentários

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De O ultimo fecha a porta a 28.01.2019 às 22:19

Muito se tem falado sobre isso. 
Muitos nem sequer estão interessados em apurar a verdade, preferem lançar frases incendiárias para serem notícia, marcarem a agenda e ganharem uns likes. Nem que para isso vendam alma ao diabo, como esse assessor.


Tb não estive lá nem conheço o bairro. Vai uma filmagem, mas não sei que provocações e insultos houve à polícia. O vídeo não tem som (que conveniente!)
Por isso não teço juízos precipitados.


Porém, não posso concordar com atos de vandalismo e esses têm de ser punidos.
Tb me preocupa que quem foi se manifestar e apedrejar a polícia na Avenida da Liberdade sejam anarquistas que em nada estão relacionados com o Bairro da Jamaica-
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De Sarin a 28.01.2019 às 22:27

Exactamente, o que é matéria criminal que seja criminalmente tratado. Nem sequer me referi aos actos de vandalismo porque são outro caso, embora relacionado - como dizes, provavelmente obra de quem nada tem a ver com este assunto, e apenas a ele ligado por propiciar a satisfação do estranho gosto por violência e caos.


O que me importa salientar é todo o aproveitamento que envolve uma situação quase banal de intervenção policial num litígio entre vizinhos. Porque foi isto. A violência policial está a ser investigada e vai dar os resultados normais - ou são dados como culpados para acalmar a agitação, ou são dados como inocentes e vai o GOI para a rua evitar novas manifestações. Ou surge outra polémica qualquer e daqui a dois meses apenas os habitantes do bairro se recordarão do ocorrido.

a palavra a quem a quer




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