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Demos kratos ou demos cabo?

por Sarin, em 09.12.18

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Ontem foi dia 8 de Dezembro, dia importante entre amigos que se fizeram na Universidade e que ao dia 8 lá tornam. Com saudades, ouço os discos de O Trovante porque "Trovante, Praça de Toiros de Évora, 3 de Maio de 1991" fomos nós, uma pesada e louca empreitada para segundanistas caloiros de meio ano, que o outro meio fora-se nas greves dos professores e nos exames adiados. Mas queríamos e acontecíamos, entre alecrim e mangerona as nossas guerras assim também.

 

Ouvia a Linha das Fronteiras,  e os primeiros acordes "Não se espantem se eu não fico aqui, Há sempre outro ver para o que vi" a pesarem-me nos coletes amarelos, sobre quem tenho vadiado por postais alheios.

Há. Há sempre outro ver para o que vi, mas não gosto quando olho, abomino quando vejo: como podemos ficar serenos, quiçá a sorrir do passado, enquanto apontamos o dedo ao teclado e nele pisamos e repisamos a dor duma democracia arrastada pela turba na lama onde a deixámos merdar, lentamente medrando o desprendimento até vicejar desprezo em cada um absentista, por cada assembleia em que não fomos ouvidos por nela não sermos,  em cada projecto que ignorámos expectantes desses alguéns que o foram burilando nos nossos ossos? Expectantes, não, despejantes. Habituámo-nos a despejar nos partidos, nos políticos - em itálico porque todos o somos, os nossos gestos políticos por consciência ou a rogo,  mas os daqueles pensados por carreira. Despejamos neles o voto, a responsabilidade e a irresponsabilidade. São eles que a assumem, é certo, e nela se aninham - primeiro em ninhos, depois em cóios de onde assaltam os feudos instalados. E nós, desligados, abstinentes ou votantes, deixamos a impotência fingir-se grito no teclado porque alguém há-de fazer algo mas não hoje ou não eu.

 

E depois aguém faz: pega nas redes e enleia os descontentes que querem soluções simples e imediatas para os problemas que todos deixámos acontecer, que se lixe o futuro, e os princípios, se os há, por ferro e por fogo feridos no fundo do monturo a que ainda chamam consciência. Nós, humanos, somos bichos sociais, senhores, quando sós procuramos iguais, quando no mesmo espaço agimos em manada. Se os líderes, os alfas, não reflectirem, quem segurará o tropel reflexo do impensado gesto, da impulsiva afronta?

 

Vejo a exaltação por contágio, pandémica na sua vontade de mudança. Mas que mudança? Quem a pede apenas a quer, não a pensou nem pensa; e quem a oferece  tem objectivos definidos onde só cabem uns quantos eleitos, os outros condenados à exclusão ainda antes da partida.

 

Chegou a hora de dizer Basta! Basta de alienação, basta de falar para desaturdir a mágoa, basta de teclar para esfiapar consciência aqui e acolá. Desafio-vos a pensar, a discutir, a propor correcções à nossa Democracia, ao nosso sistema eleitoral, ao nosso futuro enquanto Portugueses e enquanto Europeus. Sem partidos, sem acusações, sem invectivas - têm certamente o seu espaço, enorme!, mas não cabem na discussão que vos proponho.

Quero gritar Basta de retrocesso! 

Não quero murmurar Porra, o passado é hoje!

 

Fica o modesto apelo. 

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Obrigada por estar aqui.



38 comentários

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De Tudo Mesmo a 09.12.2018 às 17:44

Sarin, Adoro a Mafalda e de ter rido com o tema "sério". Temos que rir com as desgraças. Com o devido respeito, Bons Tempos em que acreditava que algures, nos meandros da política haveria alguém que fizesse a diferença. Actualmente não. Quem "lute" por utopias já não existe. Por outro lado, a política virou "emprego" e nesse, há regras muito rígidas. E, temos que as cumprir. Estamos na Comunidade e temos que pagar os excessos de alguns. Propostas não irão passar disso.
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De Sarin a 09.12.2018 às 18:04

Olá, Tudo mesmo :)


A reflexão que proponho é aquela que nos evite vestir coletes, que nos faça pensar nos objectivos que temos - não pretendo revolucionar nada que isso caberá a outros; mas quero sentir que nós que respingamos ou carpimos teclando estes e outros temas apensos não somos já balofos verbos de encher, como outros foram há anos. Que não temos soluções de curto prazo mas que podemos pensá-las, que conseguimos ser gente que constrói em vez de deprimentes placas de indicação... A reflexão conjunta, síncrona na forma que não no conteúdo (chiça, caixas de ressonância não!), se para mais não servir então que baste para nos acordar e manter alerta inquientando quem ao redor. Antes as pulgas que a sarna ;)
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De Tudo Mesmo a 09.12.2018 às 18:27

Olá de novo,
Eu entendi a sugestão. Só que, não acredito que se consiga elaborar objectivos realistas para mudar o que quer que seja. Não passam de miragens ou utopias que não vais/vamos conseguir colocar no papel, quanto mais na prática.
Há muitas formas de mudança. Depende do nome que lhe queiram atribuir a mudanças estruturais do que está mal liderado e/ou conduzido. Os objectivos durante a longo prazo, de Portugal, irá ser pagar a dívida, e temos que ser nós a fazê-lo. Cheguei à conclusão há algum tempo, que temos que fazer o trabalho de casa bem feito. Ponto. Sarna, já temos há algum tempo e, para mim, não vai acabar tão cedo. Vale o que vale :-)
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De Sarin a 09.12.2018 às 19:28

Concordo contigo, têmo-la há algum tempo. Mas tem de haver alternativa para este abuso político-partidário que paulatinamente se instalou, para esta transmigração pornográfica entre poderes, para este despautério militante. Que não é da AR, é omnipresente. E nós conscientes e quietos... não somos assim tão fatalistas, Tudo Mesmo, somos?! Porra, agora é que me dizem?! ;)
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De Sarin a 09.12.2018 às 19:30

Ups, alerta de chapéu extra: temo-lo, sff
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De Tudo Mesmo a 09.12.2018 às 20:26

Não existe incentivo que leve as pessoas a mudar de forma de estar. Por isso é que quem não está bem, mudou-se para outros Países. Pagamos bem "caro" por ser Português. É a realidade que temos.
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De Sarin a 09.12.2018 às 20:29

Um Estado mais transparente, menos pesado, mais eficaz nas políticas e mais eficiente nas respostas para mim é incentivo qb


Democracia participativa, não?
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De Tudo Mesmo a 09.12.2018 às 20:33

Em Marte, não?!
Tenho sempre a sensação de que o feijão frade, é algo que nunca vai desaparecer do planeta. E, embora goste muito de leguminosas, chega a uma altura que "enjoa".
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De Sarin a 09.12.2018 às 20:44

Não gosto de feijão frade, mas se aprecias tenta com ovo de avestruz.
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De Tudo Mesmo a 09.12.2018 às 20:46

Eu gosto de feijão frade...não gosto é de duas caras...
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De Sarin a 09.12.2018 às 20:57

Pelo menos podias usar uma, então. Enterrar a cara e encher a boca no "é a realidade que temos" é excelente para teclar, para apontar o dedo "aos culpados"; prefiro dar a minha cara pela reflexão conjunta, pelo recuperar da pouca democracia que ainda nos sobra. Mas haverá uma muito grande maioria que acha inútil, não estás sozinha: repara como continuam agarrados às fórmulas que se provaram ineptas... a história repete-se, e podes sempre aplaudir a reprise.
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De Não Identificado a 09.12.2018 às 20:37

Boa noite.
Hábitos de Leitura: Portugal na cauda da Europa
https://jpn.up.pt/2004/04/23/habitos-de-leitura-portugal-na-cauda-da-europa/
Saudações patrióticas. fl
Francisco Laranjeira     
https://www.facebook.com/francisco.laranjeira.796
https://franciscolaranjeira.blogs.sapo.pt/?utm_source=posts&utm_content=1543775192192
...
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De Sarin a 09.12.2018 às 21:05

Obrigada pela divulgação.
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De Pedro Vorph a 09.12.2018 às 22:16

Nós somos um povo de respeitinho muito lindo, saímos à rua de cravo na mão sem dar conta de que saímos à rua de cravo na mão a horas certas, né filho? Consolida filho, consolida, enfia-te a horas certas no casarão da Gabriela que o malmequer vai-te tratando do serviço nacional de saúde. Consolida filho, consolida, que o trabalhinho é muito lindo, o teu trabalhinho é muito lindo, é o mais lindo de todos, como o astro, não é filho? O cabrão do astro entra-te pela porta das traseiras, tu tens um gozo do caraças, vais dormir entretido, não é? Pois claro, ganhar forças, ganhar forças para consolidar, para ver se a gente consegue num grande esforço nacional estabilizar esta destabilização filha-da-puta, não é filho?

Pois, o irreversível, pois claro, o irreversívelzinho, pluralismo a dar com um pau, nada será como dantes, agora todos se chateiam de outra maneira, né filho? Ora que porra, deixa lá correr uma fila ao menos, malta pá, é assim mesmo, cada um a curtir a sua, podia ser tão porreiro, não é? Preocupações, crises políticas pá? A culpa é dos partidos pá! Esta merda dos partidos é que divide a malta pá, pois pá, é só paleio pá, o pessoal na quer é trabalhar pá! Razão tem o Jaime Neves pá! (Olha deixaste cair as chaves do carro!) Pois pá! (Que é essa orelha de preto que tens no porta-chaves?) É pá, deixa-te disso, não destabilizes pá! Eh, faz favor, mais uma bica e um pastel de nata. Uma porra pá, um autentico desastre o 25 de Abril, esta confusão pá, a malta estava sossegadinha, a bica a 15 tostões, a gasosa a sete e coroa... Tá bem, essa merda da pide pá, Tarrafais e o carágo, mas no fim de contas quem é que não colaborava, ah? Quantos bufos é que não havia nesta merda deste país, ah? Quem é que não se calava, quem é que arriscava coiro e cabelo, assim mesmo, o que se chama arriscar, ah? Meia dúzia de líricos, pá, meia dúzia de líricos que acabavam todos a fugir para o estrangeiro, pá, isto é tudo a mesma carneirada! 
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De Sarin a 09.12.2018 às 22:34

Zé Mário, tu não sabes mas há quem saiba que nunca fugi da briga, pá! Mas esgoto o diálogo até à palavra FIM cair ou jazer apunhalada, e disso não abdico.
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De Pedro Vorph a 09.12.2018 às 22:47

Não são os Lusíadas, ou a Mensagem , os poemas do Ser Português. É o FMI,  do José Mário Branco, O Poema da Portugalidade. Está lá tudo , mesmo o que ainda há -de chegar...tentei decorá-lo e à Tabacaria,  mas são longos para caraças....eu tenho que os consolidar.
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De Sarin a 09.12.2018 às 22:58

Na falta de uma tua, podes usar a versão do Zé Mário a cuspir o desdém e o cansaço :)
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De Pedro Vorph a 09.12.2018 às 22:20

Tu vais conversando, conversando, que ao menos agora pode-se falar, ou já não se pode? Ou já começaste a fazer a tua revisãozinha constitucional tamanho familiar, ah? Estás desiludido com as promessas de Abril, né? As conquistas de Abril! Eram só paleio a partir do momento que tas começaram a tirar e tu ficaste quietinho, né filho? E tu fizeste como o avestruz, enfiaste a cabeça na areia, não é nada comigo, não é nada comigo, né? E os da frente que se lixem... E é por isso que a tua solução é não ver, é não ouvir, é não querer ver, é não querer entender nada, precisas de paz de consciência, não andas aqui a brincar, né filho? Precisas de ter razão, precisas de atirar as culpas para cima de alguém e atiras as culpas para os da frente, para os do 25 de Abril, para os do 28 de Setembro, para os do 11 de Março, para os do 25 de Novembro, para os do... que dia é hoje, ah?

Não há português nenhum que não se sinta culpado de qualquer coisa, não é filho? Todos temos culpas no cartório, foi isso que te ensinaram, não é verdade? Esta merda não anda porque a malta, pá, a malta não quer que esta merda ande, tenho dito. A culpa é de todos, a culpa não é de ninguém, não é isto verdade? Quer isto dizer, há culpa de todos em geral e não há culpa de ninguém em particular! Somos todos muita bons no fundo, né? Somos todos uma nação de pecadores e de vendidos, né?
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De Pedro Vorph a 09.12.2018 às 22:23

Somos todos, ou anti-comunistas ou anti-faxistas, estas coisas até já nem querem dizer nada, ismos para aqui, ismos para acolá, as palavras é só bolinhas de sabão, parole parole parole e o Zé é que se lixa, cá o pintas azeite mexilhão, eu quero lá saber deste paleio vou mas é ao futebol, pronto, viva o Porto, viva o Benfica, Lourosa, Lourosa, Marraças, Marraças, fora o arbitro, gatuno, bora tudo p'ro caralho, razão tinha o Tonico de Bastos para se entreter, né filho? Entretém-te filho, com as tuas viúvas e as tuas órfãs que o teu delegado sindical vai tratando da saúde aos administradores, entretém-te, que o ministro do trabalho trata da saúde aos delegados sindicais, entretém-te filho, que a oposição parlamentar trata da saúde ao ministro do trabalho, entretém-te, que o Eanes trata da saúde à oposição parlamentar, entretém-te, que o FMI trata da saúde ao Eanes, entretém-te filho e vai para a cama descansado que há milhares de gajos inteligentes a pensar em tudo neste mesmo instante, enquanto tu adormeces a não pensar em nada, milhares e milhares de tipos inteligentes e poderosos com computadores, redes de policia secreta, telefones, carros de assalto, exércitos inteiros, congressos universitários, eu sei lá! Podes estar descansado que o Teng Hsiao-Ping está a tratar de ti com o Jimmy Carter, o Brezhnev está a tratar de ti com o João Paulo II, tudo corre bem, a ver quem se vai abotoar com os 25 tostões de riqueza que tu vais produzir amanhã nas tuas oito horas.

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De Pedro Vorph a 09.12.2018 às 22:24

ver quem vai ser capaz de convencer de que a culpa é tua e só tua se o teu salário perde valor todos os dias, ou de te convencer de que a culpa é só tua se o teu poder de compra é como o rio de S. Pedro de Moel que se some nas areias em plena praia, ali a 10 metros do mar em maré cheia e nunca consegue desaguar de maneira que se possa dizer: porra, finalmente o rio desaguou! Hão te convencer de que a culpa é tua e tu sem culpa nenhuma, tens tu a ver, tens tu a ver com isso, não é filho? Cada um que se vá safando como puder, é mesmo assim, não é? Tu fazes como os outros, fazes o que tens a fazer, votas à esquerda moderada nas sindicais, votas no centro moderado nas deputais, e votas na direita moderada nas presidenciais! Que mais querem eles, que lhe ofereças a Europa no natal?! Era o que faltava! É assim mesmo, julgam que te levam de mercedes, ora toma, para safado, safado e meio, né filho? Nem para a frente nem para trás e eles que tratem do resto, os gatunos, que são pagos para isso, né? Claro! Que se lixem as alternativas, para trabalho já me chega. Entretém-te meu anjinho, entretém-te, que eles são inteligentes, eles ajudam, eles emprestam, eles decidem por ti, decidem tudo por ti, se hás-de construir barcos para a Polónia ou cabeças de alfinete para a Suécia, se hás-de plantar tomate para o Canada ou eucaliptos para o Japão, descansa que eles tratam disso, se hás-de comer bacalhau só nos anos bissextos ou hás-de beber vinho sintético de Alguidares-de-Baixo! Descansa, não penses em mais nada, que até neste país de pelintras se acho normal haver mãos desempregadas e se acha inevitável haver terras por cultivar! Descontrai baby, come on descontrai, arrefinfa-lhe o Bruce Lee, arrefinfa-lhe a macrobiótica, o biorritmo, o euroscópio, dois ou três ofeneologistas, um gigante da ilha de Páscoa e uma 'Graciv Morn' (??) de vez em quando para dar as boas festas às criancinhas.
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De Pedro Vorph a 09.12.2018 às 22:25

Pois pá, isto é um país de analfabetos, pá! Dá-lhe no Travolta, dá-lhe no disco-sound, dá-lhe no pop-xula, pop-xula pop-xula, iehh iehh, J. Pimenta forever! Quanto menos souberes a quantas andas melhor para ti, não te chega para o bife? Antes no talho do que na farmácia; não te chega para a farmácia? Antes na farmácia do que no tribunal; não te chega para o tribunal? Antes a multa do que a morte; não te chega para o cangalheiro? Antes para a cova do que para não sei quem que há-de vir, cabrões de vindouros, ah? Sempre a merda do futuro, a merda do futuro, e eu ah? Que é que eu ando aqui a fazer? Digam lá, e eu? José Mário Branco, 37 anos, isto é que é uma porra, anda aqui um gajo cheio de boas intenções, a pregar aos peixinhos, a arriscar o pêlo, e depois? É só porrada e mal viver é? O menino é mal criado, o menino é 'pequeno burguês', o menino pertence a uma classe sem futuro histórico... Eu sou parvo ou quê? Quero ser feliz porra, quero ser feliz agora, que se foda o futuro, que se foda o progresso, mais vale só do que mal acompanhado, vá mandem-me lavar as mãos antes de ir para a mesa, filhos da puta de progressistas do caralho da revolução que vos foda a todos! Deixem-me em paz porra, deixem-me em paz e sossego, não me emprenhem mais pelos ouvidos caralho, não há paciência, não há paciência, deixem-me em paz caralho, saiam daqui, deixem-me sozinho, só um minuto, vão vender jornais e governos e greves e sindicatos e policias e generais para o raio que vos parta! Deixem-me sozinho, filhos da puta, deixem só um bocadinho, deixem-me só para sempre, tratem da vossa vida que eu trato da minha, pronto, já chega, sossego porra, silêncio porra, deixem-me só, deixem-me só, deixem-me só, deixem-me morrer descansado. Eu quero lá saber do Artur Agostinho e do Humberto Delgado, eu quero lá saber do Benfica e do bispo do Porto, eu quero se lixe o 13 de Maio e o 5 de Outubro e o Melo Antunes e a rainha de Inglaterra e o Santiago Carrilho e a Vera Lagoa, deixem-me só porra, rua, larguem-me, zórpila o fígado, arreda, 'terneio' Satanás, filhos da puta. Eu quero morrer sozinho ouviram? 

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De Pedro Vorph a 09.12.2018 às 22:28

Mãe, eu quero ficar sozinho... Mãe, não quero pensar mais... Mãe, eu quero morrer mãe.
Eu quero desnascer, ir-me embora, sem ter que me ir embora. Mãe, por favor, tudo menos a casa em vez de mim, outro maldito que não sou senão este tempo que decorre entre fugir de me encontrar e de me encontrar fugindo, de quê mãe? Diz, são coisas que se me perguntem? Não pode haver razão para tanto sofrimento. E se inventássemos o mar de volta, e se inventássemos partir, para regressar. Partir e aí nessa viajem ressuscitar da morte às arrecuas que me deste. Partida para ganhar, partida de acordar, abrir os olhos, numa ânsia colectiva de tudo fecundar, terra, mar, mãe... Lembrar como o mar nos ensinava a sonhar alto, lembrar nota a nota o canto das sereias, lembrar o depois do adeus, e o frágil e ingénuo cravo da Rua do Arsenal, lembrar cada lágrima, cada abraço, cada morte, cada traição, partir aqui com a ciência toda do passado, partir, aqui, para ficar...

Assim mesmo, como entrevi um dia, a chorar de alegria, de esperança precoce e intranquila, o azul dos operários da Lisnave a desfilar, gritando ódio apenas ao vazio, exército de amor e capacetes, assim mesmo na Praça de Londres o soldado lhes falou: Olá camaradas, somos trabalhadores, eles não conseguiram fazer-nos esquecer, aqui está a minha arma para vos servir. Assim mesmo, por detrás das colinas onde o verde está à espera se levantam antiquíssimos rumores, as festas e os suores, os bombos de lava-colhos, assim mesmo senti um dia, a chorar de alegria, de esperança precoce e intranquila, o bater inexorável dos corações produtores, os tambores. De quem é o carvalhal? É nosso! Assim te quero cantar, mar antigo a que regresso. Neste cais está arrimado o barco sonho em que voltei. Neste cais eu encontrei a margem do outro lado, Grandola Vila Morena. Diz lá, valeu a pena a travessia? Valeu pois.

Pela vaga de fundo se sumiu o futuro histórico da minha classe, no fundo deste mar, encontrareis tesouros recuperados, de mim que estou a chegar do lado de lá para ir convosco. Tesouros infindáveis que vos trago de longe e que são vossos, o meu canto e a palavra, o meu sonho é a luz que vem do fim do mundo, dos vossos antepassados que ainda não nasceram. A minha arte é estar aqui convosco e ser-vos alimento e companhia na viagem para estar aqui de vez. Sou português, pequeno burguês de origem, filho de professores primários, artista de variedades, compositor popular, aprendiz de feiticeiro, faltam-me dentes. Sou o Zé Mário Branco, 37 anos, do Porto, muito mais vivo que morto, contai com isto de mim para cantar e para o resto.


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De Sarin a 09.12.2018 às 22:36







Podias colocar o audio, já agora ;)
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De Pedro Vorph a 09.12.2018 às 22:49

Tu é que és a dona do estaminé
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De Sarin a 09.12.2018 às 23:03

Prefiro almoxarife, sff; o bailio é do Sapo e a Altice é que, em bom rigor, é dona 


Ficar-me-ia muito mal terminar o que começaste! Seria usurpação de ideias, e eu não gosto :)
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De Pedro Vorph a 09.12.2018 às 23:09

Os vivos plageiam os mortos. E a história repete -se
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De Sarin a 09.12.2018 às 23:17

Repete, sim; mas se somos inteligentes, como é que o permitimos?! Porque nada fazemos para desviar um nadinha o eixo de rotação da História se até o da Terra se desvia por si?!
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De Pedro Vorph a 09.12.2018 às 23:22

Somos inteligentes, comparados com o quê?  Aprenda cada um a gerir o seu estado de simplicidade 
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De Sarin a 09.12.2018 às 23:35

Homo sapiens sapiens, mas por vezes penso que o comodismo nos fez cair um dos cromagnons repetidos. Les bourgeois, meu caro...
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De Pedro Vorph a 09.12.2018 às 23:47

"Abre" um livro de história e o presente fará todo sentido à luz do passado.
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De Sarin a 09.12.2018 às 23:50

Di-lo a quem amarelou... não há paciência para ser desta espécie, e depois os ratos é que têm rodas nas gaiolas...
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De naomedeemouvidos a 10.12.2018 às 10:02

O Quino é brilhante e o teu título é excelente.


A reflexão e a "revolta" que propões exige uma dose de seriedade que, por si mesma, talvez exija demasiado de uma sociedade que se habituou a dar pouco. Como se compactuássemos com a fraude do próximo para garantir o "direito" torpe à tolerância com a nossa própria fraude. Exigindo menos dos outros, garantimos o relaxado "privilégio" de exigimos menos de nós próprios, de permitir que os outros exijam menos de nós. E, quando rejeitamos fazer parte deste "nós", somos, não poucas vezes, alvo de galhofa. Como combater? Com educação, dizemos. E, mesmo na educação, falhamos tantas vezes. Digo ao meu filho, isto deve fazer-se assim, não assado e ele, criança, curioso e arguto, responde, e porque faz aquele de modo contrário ao que tu dizes, e "aquele" é alguém que era suposto ser um exemplo e eu nem sempre sei o que lhe responder...  
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De Sarin a 10.12.2018 às 10:22

Agradeço-te as palavras e apetece-me fazer um postal com o teu comentário! Porque é essa mesma a causa, inconfessável, de todo o laxismo que a este isto nos conduziu, não exigir para que não nos seja exigido, a mão que lava a mão num lavar podre de branqueamento das acções próprias.
A educação é a pedra de toque - e é o nosso calcanhar de aquiles. Querer resultados no imediato não é compatível com desejar semear e sedimentar hábitos - de reflexão e de actuação. Numa analogia grosseira, por isso o eucalipto e poucos o carvalho, o primeiro é lucro rápido. E é nesta mentalidade omnipresente que tropeçamos, seja ao pedir reflexão seja ao pedir calma. Mas, enfim, as ilusões de revolução e mudança do mundo foram-se aos 20, desde então sei que tem de ser uma pessoa de cada vez. Calma não me falta ;)


Ando a chocar um projecto bloguista e gostaria de to expor. Nada de muito exigente em tempo, nada de blogues colectivos, muito, se não tudo, a ver com o tema. Entra em contacto se tiveres interesse. 
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De naomedeemouvidos a 10.12.2018 às 17:48

Agora, apanhaste-me de surpresa. Tanto mais que, nisto de blogues, sou bastante limitada. Mas, vou enviar-te um e-mail.
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De júlio farinha a 11.12.2018 às 19:56

" Despejamos neles - políticos de carreira - o voto, a responsabilidade e a irresponsabilidade". " Alguém há-de fazer algo mas não hoje ou não eu". Em França fez-se algo, mas foi obra do "tropel do impensado gesto". Certo. Queremos mudança. Mas "que mudança?", pergunta. "Quem a pede apenas a quer, não a pensou nem pensa (sublinhado meu). É preciso mudança? Sim. Consegue-se tal transformação com anarquia e arruaça dos de direita e da esquerda? Não. É preciso que a mudança se faça sob uma ideologia humanista e igualitária onde caiba a diversidade.
O ser diz-se de muitas maneiras. Isto pede um Estado transitório que não represente uma só classe ou a simples média aritmética das classes. Pensar numa democracia baseada no voto de indivíduos que valem todos o mesmo, ou pensar que só pela educação se consegue uma democracia perfeita é ilusão. Para se atingir uma boa democracia alguém tem que perder privilégios e poder. É preciso não esquecer que a economia anda de braço dado com a política.
O tipo de democracia real. e não aparente (Platão),terá que elevar ao poder um conjunto de almas próximas da Ideia (verdade) onde a Razão seja rainha. Tecnicamente, e na sua essência, uma real democracia não se alcança com eleições viciadas à partida. A verdadeira Democracia terá que abandonar o mundo cópia da Verdade platónica e contactar com o supremo Bem. Este rompimento com o mundo das trevas referido em A República, transposto para a nossa temática equivale a uma revoluçao. Esta, dar-se-á quando os de baixo já não quiserem (lucidamente) viver como até então e os de cima estiverem, prestes a cair de podre, impossibilitados, mergulhados nas suas irremediáveis contradições, de governar.
Às tantas, pensarão que estive para aqui a escrevinhar utopias e impossibilidades históricas em desuso. Se assim for, "naomedeemouvidos". É uma hipótese, Sarin.
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De Sarin a 11.12.2018 às 22:38

Acredito que também aderirá... já envio o email :)

a palavra a quem a quer


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