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A nossa Língua é vasta e é também produto local

Um desafio aproveitando a pergunta da Equipa

por Sarin, em 30.09.19

Embalada no estarmos em campanha eleitoral...

para as Legislativas de 2019, que ocorrerão dia 6 de Outubro,

para os Sapos do Ano 2019, cuja fase de nomeações termina hoje,

para o Euromilhões, que espero me calhe amanhã pois já estou farta dos Excêntricos,

para Miss Universo-lá-de-casa, que, como o Natal, é quando eu quiser,

... aproveito e faço mais uma campanha, verdadeira arruada aqui no burgo!

 

Talvez já se tenham apercebido da pergunta que a Equipa nos colocou recentemente, Uma pergunta que dispensa explicação... e cujas opções são Post / Artigo / Postal / Posta / Publicação / Outro.

Reparemos que 5 opções estão em Português, a nossa língua, aquela que é riquíssima e que aqui nos une no gosto pelo seu uso;

e uma opção está em Inglês, língua que querem universal e que vai simplificando o uso das línguas escritas e faladas, descaracterizando-se porque encolhendo-se, e descaracterizando quase todas as outras por ocupar os seus lugares.

Nada tenho contra falar-se inglês, ou outras línguas - aliás, defendo que quanto mais línguas percebermos mais fácil será a comunicação entre os povos. Mas uma coisa é saber usar línguas estrangeiras, outra é substituir as nativas...

Reparemos que o site, que quase todos usamos para indicar um sítio da internet, significa, literalmente.... sítio. Já aquela, a internet, é rede entre vários. Fica giro escrito em cámone, mas é triste ver que nomearam as invenções tal como nós as nomearíamos - e que agora lhes recusamos os nomes que são seus. Adiante.

Olhemos o blog, que nasceu da contracção entre web e log = weblog = blog. Um verdadeiro neologismo. Que desde que nasceu já teve aportuguesamento para blogue. Tal como a chauffage se aportuguesou para chaufagem - e hoje mal se usa, culpai, senhores, o ar condicionado. Ou como o hotel era, há 60-80 anos, uma palava com sílaba tónica grave, tal como a diziam os americanos e ingleses, e hoje já quase ninguém diz hótel - embora duvide que, chegados a Inglaterra, algum de nós pergunte pelo hotél.

Este intróito serve para explicar aquilo que todos sabemos: que a Língua Portuguesa evolui, transforma-se, absorve palavras estrangeiras, perde o uso de palavras antigas - é dinâmica. E é muito rica.

Mas para continuar a ser rica e dinâmica precisa de nós, depende de nós, que a falamos e escrevemos. Precisa que a continuemos a usar.

Que tal darmos-lhe mais valor? Que tal dizermos bistrot em francês, risotto em italiano, post em inglês...

... e em português usarmos palavras portuguesas, saindo desse sítio onde nos querem de vocabulário reduzido e homogéneo?

 

Podemos começar já, com esta pergunta que a Equipa do Sapo nos coloca: escolhendo usar,  em vez de post, uma palavra portuguesa ou aportuguesada - mas nossa.

Defender o Ambiente passa por consumir local. Querem produto mais local do que a nossa Língua?

Pode parecer que não, mas está tudo ligado.

[Cuidemos de todos cuidando de nós: Etiqueta respiratória. Higiene. Distância física. Calma. Senso. Civismo.]
[há dias de muita inspiração. outros que não. nada como espreitar também os postais anteriores]

Autoria e outros dados (tags, etc)

lançado às 19:22

Onde ideias-desabafos podem nascer e morrer. Ou apenas ganhar bolor.


Obrigada por estar aqui.



10 comentários

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De Ricardo Nobre a 30.09.2019 às 22:33

Até esfreguei as mãos e estalei os dedos quando abri a caixa de comentários deste texto. Vamos lá!
Blog digo blogue porque é uma palavra única para designar aquilo que mantemos a força de posts.
Post digo texto porque é aquilo que é. Embora aprecie o seu esforço quanto ao postal (que vem do francês), ainda o associo ao cartão (sou do tempo em que se enviavam postais e ainda os compro); pode ser que na continuação do acompanhamento do seu blogue o meu cérebro faça a transição. Ainda por cima a Sarin faz postais ilustrados (este não tem imagem só para me desmentir!).
Site digo site mas às vezes escrevo sítio. Acho que depende da audiência a que me dirijo.
Internet digo e escrevo internet (sem a maiúscula que aparentemente deveria ter, mas que eu não lhe reconheço) e online digo online (sem hífen, já agora), mas tento escrever em linha quando espero ser percebido.
O que se passa em vários destes casos é muito interessante porque tem que ver com a quantidade de palavras das línguas. O inglês é uma língua que tem muitas, muitas palavras, e por isso permite-se usar uma palavra para designar uma coisa. Tem ainda a vantagem de aglomerar palavras de origem germânica e outras (por vezes com o mesmo sentido) de origem latina (são aqueles equivalente enter/come in, exit/come out). O inglês é, ainda, uma língua sobre a qual não se debate se se deve ou como se deve integrar uma palavra na língua: as pessoas usam, logo, é deles, falantes. A ajudar, a completa falta de problemas quanto ao inglesamento («inglês» aqui e em todo este texto refere a língua, e nunca a comunidade de falantes que vive em Inglaterra) das palavras estrangeiras. Talvez porque — faltava este tópico… — é uma língua de grafia etimológica e não houve nenhum intelectual (agora até é possível se seja inteletual, porque chegámos ao grau zero ortográfico) que propusesse uma simplificação ortográfica para os burrinhos aprenderem de auditiva.
Mas falava [verbo que uso no sentido metafórico, porque estou caladinho a escrever] do léxico e da quantidade de palavras.
As línguas românicas não são assim. Tal como o latim, têm menos palavras e palavras com muitos sentidos, que foram sendo alterados, por extensão de sentido (metonímia) ou transposição (metáfora). E estão quase todos activos ao mesmo tempo. Assim, e falando só da nossa, temos uma língua com muito colorido semântico e muito rica, embora as palavras não sejam assim tantas. Acrescentar-lhes significados tem um efeito de sobrecarga, por vezes injustificada (ainda se falou na tensão para exprimir stress). Um exemplo interessante que tem entrado é «googlar» ou — má opção ortográfica, porque é um nome de uma marca — «guglar» porque se pensa que é preciso um verbo intransitivo para «procurar na internet» (cá está ela; procurar na rede parece que vamos em cata de sardinhas). Se daqui a vinte anos eu cá estiver e ainda se usar, pode ser que entre no meu léxico activo. Outro exemplo: é mesmo preciso um nome para «fotografia que se tira com o telemóvel a si próprio para colocar na internet»? Antes dizia-se «tirar o retrato». Passou da pintura para a fotografia, e ninguém precisou de lhes chamar sélfis (já aportuguesei).
Claro que muito pior — e esse é um problema importante levantado no seu texto — é esquecer as nossas palavras para usar as estrangeiras. Vaquinha é popular; subscrição é antiga e boa palavra portuguesa, mas todos dizem crowdfunding… Há diversos outros exemplos — não foi há muito tempo que li sans serif para se referir um tipo de letra não serifada. As pessoas não têm culpa de não saber que existem essas palavras em português, mas eu não vou deixar de as usar porque não tenho culpa de as conhecer.
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De Sarin a 30.09.2019 às 22:54

Esperava que gostasse do tema :))))
O meu postal vem do facto de eu não escrever apenas o texto - procuro encontrar-lhe uma imagem que o acompanhe. Quando são curtinhos até lhes chamo telegramas.
Nos blogues, associa-se muito a imagem e a palavra, portanto quase todos me são postais. Mas também há textos. Que podem ser artigos. E todos são publicados. Já a posta, eram as cartas postais encomendas enviadas - e nós aqui não enviamos, publicamos ou lançamos ao ar :)
A internet ainda me sai com itálico - ou sai rede. Porque é isso que é, liga-nos. Alguns até são apanhados - e é sabido que o que cai na rede lá fica....
Mas, basicamente, a ideia é mesmo essa: se temos local, porquê importar? E se tivermos que importar, porque não tentar a aclimatação? :)))
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De Ricardo Nobre a 30.09.2019 às 23:18

Como deve imaginar adorei o tema!
O nosso Horácio dizia (parece que sou mais velho do que realmente sou… adiante) que as palavras vão e vêm como as folhas das árvores. Umas caem (em desuso), outras nascem (com influência de outras línguas). 
O latim beneficiou muito do grego, o português do espanhol, do francês (houve o tempo em que o ataque ao galicismo era feroz; no século XVIII chamavam aos que usavam galicismos galiparlas e aos «puristas» latiniparlas — não esquecer que a nossa língua se consegue torcer muito) e agora do inglês. O que ficar depois da passagem das estações é nosso, ao nosso gosto, com a tal roupinha. Até mudámos a casa de pasto [ADORO!] para restaurante [cuja origem é uma anedota com alguma graça]!
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De Sarin a 30.09.2019 às 23:32

Os meus avós tinham uma casa de pasto :)))
Mas o português não terá beneficiado muito do espanhol... desculpe, sei que é a sua área, mas não reconheço o espanhol como língua - leonês ou castelhano, escolha o que melhor lhe aprouver, mas deixe lá o espanhol fora do rol :)) Eu até gosto tanto do valenciano, do catalão e do galego! ;)
(Não se preocupe, ninguém o suporá Matusalém)
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De Ricardo Nobre a 01.10.2019 às 18:57

Se fosse hoje, os seus avós abririam um bistrot.
Quanto ao «espanhol», tem razão. Já me conformei, todavia, com o espanhol como castelhano enquanto língua internacional. Por contaminação com o inglês, que manteve a designação local (e o português, já agora), a menção da língua pelo país (mais recente) e não pela actual região de um país reconhecido pela comunidade internacional. E um argentino, uruguaio, peruano ou mexicano dirá sempre que fala espanhol, e nunca castelhano. Aliás, quando comecei a ver uma famosa série no Netflix, comentei com uma amiga mexicana que estava a aprender calão em espanhol, e a resposta foi: «do castelhano» — não que a língua não seja a mesma, mas porque o calão é eminentemente espanhol (de Espanha), e não sul-americano.
Pode evidentemente dizer que o galego, o catalão ou o basco também são línguas espanholas (faladas em Espanha), mas, por muito meritório que seja o sentimento nacionalista de Galiza, Catalunha ou País Basco, são as suas línguas que se diferenciam do castelhano, erigido a norma do espanhol (língua internacional, repito). No entanto,  além de ser esse o nome dos cursos do Cervantes e das escolas e universidades em todo o mundo, a Real Academia chama-se de la Lengua Española, faz dicionários e ortografias do espanhol — e não, repito, do castelhano. É por tudo isto que me apaziguei com a designação, que aceito e uso sem reservas. A língua, dizia-lhe eu noutro lugar qualquer, é também uma forma de fazer política. É este mais um exemplo.
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De Sarin a 01.10.2019 às 19:33

Claro que a língua é uma forma de fazer política. O meu "castelhano ou leonês mas não espanhol" não é inocente :))) E nós falávamos português ainda Espanha era sonhada, daí a minha irredutibilidade ;)
Não! Os meus avós nunca teriam um bistrot! Foi uma guerra, quando no carimbo lhes trocaram o "casa de pasto" por "restaurante": "restaurantes são casas finas com amostra de comida! aqui vende-se comida a quem trabalha!" :))
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De Ricardo Nobre a 01.10.2019 às 19:40

Linguisticamente falando, restaurante é um fricassé (Camilo dixit) do francês. Casa de pasto é boa e antiga frase portuguesa (Garrett). Mas agora voltou a moda das cantinas e das tascas (às vezes com K, naturalmente).
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De Sarin a 01.10.2019 às 20:22

As tascas agora servem risotto e hamburguer de peixe e casserole de qualquer-coisa. Vejo-me grega para encontrar carapaus fritos!
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De Ricardo Nobre a 01.10.2019 às 21:05

Eu, que não sou grande francófono, já fui corrigido por um empregado numa dessas tascas por ter dito entrecosto em vez de entrecôte.
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De Sarin a 01.10.2019 às 21:23

Ter-me-ia lamentado sobre estar em Portugal num restaurante português a pedir comida portuguesa com nome francês mas cozinhada por um chefe português, e ter-lhe-ia perguntado se não achava isso errado. Ter-me-ia lamentado, sim... mas em francês. E se o empregado dissesse não perceber, responderia "então traga-me o entrecosto, sff" :D
Não, não o faria - mas faria uma observação, não duvide.

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