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A História e os erros históricos

por Sarin, em 30.11.18

I

A França vai devolver artefactos e peças de arte subtraídos às antigas colónias durante a vigência da colonização.

Não se trata de ressarcir ninguém por ter estado do lado errado da história, mas de devolver parte dos registos culturais às origens, despidas que foram estas de tantas das suas obras durante parte da sua história comum.

Os museus franceses ficarão mais nus, mas os povos estarão mais próximos das suas artes e das suas histórias.

 

Os museus britânicos vão ceder temporariamente algumas peças a museus das antigas colónias. Será uma forma de branquear - não apenas de lavar mas de tornar branco imperial - o facto de não abrirem mão do saque. E teriam mãos cheias para abrir; mas não, os ingleses - pois que são os museus ingleses que concentram tais peças arrancadas de todos os cantos do mundo - não ponderam, por enquanto e que seja público, reavaliar tais devoluções. Embora apoiem a devolução do património judaico subtraído pelos nazis, mas aparentemente desde que tal património seja artístico pois nunca mais li nada sobre o ouro checoslovaco, a menos que por ser checo e eslovaco lhes não mereça as mesmas considerações.

Questões demasiado subtis para que eu consiga perceber.

Mas as devoluções não são mais do que justiça, pois se é verdade que no mundo animal impera a lei do mais forte, a verdade é que já não somos assim tão animais e há milénios que reconhecemos a importância da arte. Entregar o seu a seu dono. Como devolver aos judeus as obras pilhadas pelos nazis. Justiça, sim, e tardia.

[Claro que ninguém fala em devolver a Portugal as jóias roubadas nas invasões francesas nem, antes, durante o domínio dos Filipes; mas isso porque se perdeu o rasto, e temos por cá muitas jóias parecidas. Como aliás, temos terras parecidas com Olivença e por isso a deixamos para quem a gere, ou temos águas do lado de cá do Alqueva que construímos e por isso não batemos o pé quando os espanhóis nos interditam a navegação no lado deles - esqueçam, é outro assunto, voltemos ao cerne.]

 

II

Na Holanda, a companhia ferroviária estatal, Nederlandse Spoorwegen (NS), vai indemnizar todas as vítimas do nazismo que foram transportadas de comboio para os campos de concentração. Já antes a francesa SNCF havia feito o mesmo às vítimas francesas.

Trata-se aqui de empresas civis assumirem responsabilidade por actos praticados durante a guerra, e sobre os quais não há sequer consenso sobre serem colaboração dada ou forçada.

Portanto, de indemnizar as vítimas por uma circunstância que transcendeu os que assumem tal responsabilidade.

É interessante analisar este  precedente: 

* Por um lado, empresas que aceitam uma responsabilidade que objectivamente lhes não pode ser atribuída, como forma de evitar demandas jurídicas e quebras de simpatia na opinião pública;

* Por outro, a responsabilização da sociedade civil por actos de eventual colaboracionismo;

* Por outro, ainda, a centralização do discursos indemnizatório apenas nos judeus.

 

Os judeus sofreram às mãos dos nazis. Os católicos às mãos dos anglicanos. Os judeus às mãos dos católicos. Os católicos às mãos dos católicos. Os romanos às mãos dos bárbaros. Os lusitanos às mãos dos romanos. Os pictos às mãos dos romanos. Os troianos às mãos dos gregos. ... Estamos só a falar da Europa.

Ao longo da história houve sociedades que condenaram grupos e até outras sociedades ao sofrimento, que lhes alienaram direitos e cultura e modo de vida. Em tempo de guerra mas também em tempo de paz. É o princípio da coexistência pouco pacífica... Responsabilizar sectores dessa sociedade, compreendo - mas não foi para isso o Plano Marshall e não foi também para isso Israel?

Quando acaba? Ou não acaba, e chegará a vez de outras empresas, de outras sociedades, de outros povos?

 

Devolver o espólio cultural ao país de origem é devolver o acervo à História. Indemnizar pela História é outra história.

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Obrigada por estar aqui.



8 comentários

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De cheia a 30.11.2018 às 23:28

Estamos a viver tempos muito esquisitos!
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De Sarin a 30.11.2018 às 23:34

Infelizmente, assemelham-se a continuação de algo já vivido...
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De O ultimo fecha a porta a 02.12.2018 às 18:06

Concordo com a Cheia. É esquisito. Porquê agora?
I
Faz-se justiça, mas será que para os países colonizadores vão devolver tudo? Ou o que não lhes interessa?
Por outro lado, será que os paises subdesenvolvidos precisam neste momento de peças de museu? Não haverá outras prioridades? Ah, vamos fachar a portas a imigrantes do Norte de África, mas em contrapartida, fiquem com estas esculturas...
II
Tb desconhecia estas indemnizações. Vão ser 2.5 M€? A dividir por quantas pessoas? Numa empresa que fatura e tem dívida muito superior a isso, de facto só pagar 2,5 M € para limpar a consciência e evitar o escândalo (com consequências políticas) é um excelente e barato negócio.
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De Sarin a 02.12.2018 às 20:40

Abordas vários pontos distintos, por isso, e respondendo por partes:
 I
Vão devolver grande parte, pelo menos é o plano de Macron.
Agora, porque talvez se comece a aceitar que a arte é património de quem a desenvolve, não de quem a rouba.
Achar que os países subdesenvolvidos precisam apenas de bens utilitários é visão miserabilista, e até perigosa, porque a) nega-lhes o direito de gerir o que é deles, b) considera que arte e cultura não são importantes para o desenvolvimento pessoal e social, c) atribui aos países desenvolvidos o direito de reterem para si o que entenderem, porque os outros não precisam de arte nem de, por exemplo, gerir a sua floresta pois têm coisas mais prioritárias a atender, e quem diz florestas diz, por exemplo, quotas de carbono.
Devolver o que é de alguém apenas é contrapartida em negócios de má-fé; e essa hipotética proibição francesa à imigração oriunda de uma determinada zona do planeta é mera retórica, ou tem algum suporte cuja divulgação não me apercebi?


II
Os valores serão apurados por uma equipa, e não, não é uma verba a distribuir por n vítimas, é uma verba a multiplicar por n vítimas.
2,5M€ nada tem a ver com as indemnizações; foi o valor que a NS recebeu pelo serviço prestado aos nazis.
Não há consciência para limpar, há é, parece-me, uma poderosa máquina de vitimização a funcionar à revelia da história, pois além de apenas visar ressarcir um povo agora responsabiliza também a sociedade civil por, forçada ou por opção, ter estado do lado errado da história.
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De O ultimo fecha a porta a 02.12.2018 às 22:27

Os países subdesenvolvidos precisam da sua cultura, naturalmente, mas mais que "bens utilitários " ou culturas, esses países precisam de investimentos na educação, trabalho qualificado e segurança. Só desta forma os países e as suas populações se conseguirão desenvolver. Não minorizo a cultura, mas isso não chega na minha opinião.  
No último ano comecei a pouvir falar do Quénia. É o unico país onde a minha empresa tem fábrica em África. Uma amiga minha que começou a trabalhar numa empresa africana com o seu shared services aqui no Porto, tem os serviços centrais (e mais qualificados) em Nairobi.
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De Sarin a 02.12.2018 às 22:32

Desculpa, mas devolver arte roubada à sua origem nada tem a ver com protocolos e apoios outros.
Os países precisam de muita coisa, e por isso há ONG e há ONU e há protocolos multilaterais. 
Dar-lhes o que é deles não é ajuda nem acção humanitária, é apenas devolução.
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De O ultimo fecha a porta a 02.12.2018 às 22:34

eu concordo com a devolução da arte, mas continuo a achar incompleto naquilo que um país pode fazer pelo outro.
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De Sarin a 02.12.2018 às 22:46

Uma matéria nada tem a ver com outra... sobre solidariedade, ingerência, parcerias, etc há muito para dizer (falo nestes assuntos com frequência); mas não se confunda: devolver o fruto de um  roubo não é uma "boa acção", é uma obrigação.

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