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Manifestações e confinamento III

Postal 3 de uma série de 3, publicados hoje

por Sarin, em 08.06.20

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# Vidas Negras Importam

Vidas Negras, sim.

Mas não apenas:

Vidas Humanas!

# VIDAS HUMANAS IMPORTAM

Menos que isto é confinar os direitos de alguém.

 

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# Black Lives Matter

Black Lives, yes.

But not only:

Human Lives!

# HUMAN LIVES MATTER

Less than this is to lockdown someone's rights.

[Cuidemos de todos cuidando de nós: Etiqueta respiratória. Higiene. Distância física. Calma. Senso. Civismo.]
[há dias de muita inspiração. outros que não. nada como espreitar também os postais anteriores]

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lançado às 08:40

Manifestações e confinamento I

Postal 1 de uma série de 3, a publicar hoje

por Sarin, em 08.06.20

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Enquanto vivemos esta pandemia que nos confinou e ainda confina, têm eclodido por muito mundo manifestações contra o racismo e a violência policial, espoletadas pela morte de George Floyd mas, creio, devidas a todos os maus tratos e a todos os destratos sofridos na pele de outra cor, no formato de outros olhos, nos hábitos de outra etnia. [também abordo, noutra perspectiva, o tema destas manifestações aqui]

 

E há quem se insurja contra as manifestações e contra os manifestantes porque estão a violar a regra do distanciamento social.

É verdade, estão. E eu defendo o distanciamento desde o início. Continuo a defender, até provas que contrariem ser esta uma das melhores acções de contenção do vírus.

Tal como defendi e defendo que não podemos nem devemos estar presos em casa, desde que, e reforço este desde que, respeitadas as regras de distância, higiene e etiqueta respiratória (agora com máscara, assim a saibamos usar).

Também não aprecio manifestações de rua. Posição minha: sou um ser social que não aprecia multidões por reconhecer as dinâmicas de grupo e desconhecer as intenções do manifestante do lado, cada vez menos claras.

Não as apreciando, reconheço o peso que as manifestações podem ter na formação da opinião pública, na captação de atenção mediática, na pressão junto do poder político. Mas nem interessa se gosto ou reconheço validade às manifestações, estas ou outras - defendo o direito de manifestação, e é quanto basta para não me insurgir quando ouço falar nelas, mesmo em tempos de pandemia (desde que, cf. acima).

E defendo o respeito pelas orientações legais definidas para o nosso comportamento, pois que de base democrática e orientadas pelos Direitos Humanos.

Tanto como defendo o direito de objecção de consciência, o direito de resistência e a não legislada mas reconhecida desobediência civil, que nesta métrica de obedecer tem de haver pesos e contrapesos de justiça.

 

Entre estes sins e estes nãos, quase pareço dividida quanto às manifestações em plena pandemia... mas tenho as ideias inteiras e claras. Muito claramente, parece-me que o racismo é mais letal que a covid-19, aliás, parece que a própria covid-19 é também racista em algumas democracias. E, segundo as estatísticas, o racismo tem demonstrado ser, também ele, altamente contagioso.

Chegamos assim ao ter de escolher entre distanciamento social para aplanar a curva da covid-19 e ajuntamento social para aplanar a curva da racismo-XXI. Como, sequer, ter coragem de criticar uma ou outra opção, dizer o que deve ou não defender, como deve ou não sofrer, e quiçá morrer, cada um de nós? Quem for da cor certa que vista a pele dos outros antes de tossir, que a curva da covid-19 é premente e recente e a do racismo, latente e prevalente.

Não, eu não me manifesto nas ruas. Escolho outras formas de manifestação. Mas percebo quem sai à rua contra o racismo e a violência policial - ou melhor, percebo quem pacificamente sai à rua contra o racismo e a violência policial, porque vandalismo ou cartazes como "um polícia bom é um polícia morto" e "make racists afraid again" não, não percebo. E percebo quem teme as manifestações por causa da covid-19 - ou melhor, percebo quem teme pelo não cumprimento das regras de distanciamento social, porque as críticas à realização como "realmente, não se percebe porque é que a situação em Lisboa é tão grave" ou a negação do direito de manifestação por comparações com "festivais de música" e "reabertura de estádios de futebol" não, não percebo.

Tal como não percebo quem acha "um exagero, tanta manifestação" - um exagero é um ataque racista, mais ataques são demasiados exageros. Sem exagero, as reacções nas redes e as manifestações quase ubíquas estão a provocar mudanças reais nos EUA. A forma como os dirigentes reagem às manifestações também pode provocar mudanças, Trump que o diga.

 

Enfim, a covid-19 é questão de vida e de morte. Tal como são de vida e de morte as reivindicações destes manifestantes. E quem achar que podem ser adiadas para depois da pandemia que se fique sossegado a aguardar-lhe o fim, porque é este um daqueles raros casos em que calar é ficar do lado da solução e falar é ficar do lado do problema.

imagem recolhida em Postal

parte das críticas surgiram associadas a esta fotografia. o que estranho, dada a quantidade de manifestações e de fotos disponíveis.

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lançado às 08:30

Como se lava dinheiro

deixando-o ainda mais sujo

por Sarin, em 09.05.20

 

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lançado às 17:22

Agora que passou a Páscoa, poder-me-ão explicar...

qual a indignação com as tolerâncias de ponto?

por Sarin, em 16.04.20

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Agora que passou a Páscoa, e com ela a tolerância de ponto de dois dias, expliquem-me por favor: qual foi o motivo, qual é o motivo, de tanta indignação em torno das tolerâncias de ponto?

 

Um trabalhador precisa de, ou dá-lhe jeito, faltar por motivos não previstos na lei. 


No particular

Ou melhor, nas PME, que empregavam em 2018 cerca de  3 230 000 indivíduos

66, 4% do pessoal empregado,

79,6% do pessoal empregado por conta de outrem.

O trabalhador dirige-se ao patronato, directamente ou aos seus serviços de pessoal, e apresenta pedido para falta.

O patronato não aceita, e o trabalhador

ou pede (e aceitam-lhe) o dia para férias

ou não falta.

Se faltar, incorre em falta não justificada, sujeitando-se a todas as consequências que esta possa ter.

O patronato aceita o pedido de falta, o trabalhador não comparece ao serviço, a falta está e é considerada justificada, o trabalhador perde a remuneração correspondente ao tempo de falta e o subsídio de alimentação, e o tempo de falta abate na majoração das férias.

 

Na função pública

O patronato é o Estado, aqui representado pelo Governo, e as faltas justificadas estão reguladas e tipificadas nos Contratos Colectivos de Trabalho e demais instrumentos legais.

Se o trabalhador faltar sem ser por motivos previstos na lei, incorre em falta injustificada, sujeitando-se a todas as consequências que esta possa ter. 

Se, por acaso, o trabalhador pediu férias, goza o período como férias mesmo que o Governo o venha a decretar  como de tolerância de ponto. 

O Governo promulga a tolerância de ponto. Basicamente, decreta que o funcionário público que quiser usufruir de dispensa ao trabalho, naquele período, o poderá fazer pois a falta será considerada justificada. 

O Governo decreta tolerância de ponto, o trabalhador opta por não comparecer ao serviço, a falta está e é considerada justificada, o funcionário público perde a remuneração correspondente ao tempo de falta e o subsídio de alimentação, e o tempo de falta abate na majoração das férias. 

 

Afinal, 

O patronato aceita o pedido de falta, o trabalhador não comparece ao serviço, a falta está e é considerada justificada, o trabalhador perde a remuneração correspondente ao tempo de falta e o subsídio de alimentação, e o tempo de falta abate na majoração das férias.

=

O Governo decreta tolerância de ponto, o trabalhador opta por não comparecer ao serviço, a falta está e é considerada justificada, o funcionário público perde a remuneração correspondente ao tempo de falta e o subsídio de alimentação, e o tempo de falta abate na majoração das férias. 

 

 

Qual o motivo da indignação, exactamente? É por o funcionário público, quando lhe dá jeito faltar por motivos não previstos na lei, não ter a possibilidade de pedir ao patrão para lhe justificar a falta? Realmente deve ser chato, pá... 

 

 

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lançado às 15:47

Os factos agonizam

por Sarin, em 15.04.20

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Passeava pelos Últimos Posts, e deparei-me com isto:

China “deve ser processada sob a lei internacional” por causa dos seus perigosos hábitos alimentares

O mundo não pode continuar a ignorar o risco das exóticas (para ser subtil) práticas alimentares dos asiáticos. Sopa de morcego é um dos pratos mais comuns na China, mas nos hábitos alimentares orientais consta o cão, o rato, o cérebro de macacos vivos, insectos, aranhas, (...)

 

Li este bocadinho e pensei se valeria a pena comentar ou não.

Como explicar que exótico nada tem de subtil porque exótico significa estrangeiro?

Como explicar que sopa de morcego não apenas não é comum na China como nem sequer chinesa é?

Como explicar que ratos e ratazanas são comidos nos mesmos países que a sopa de morcego, ou seja, Vietname, Tailândia e atéTaiwan mas não China?

Como explicar que o cérebro de macacos vivos assim que retirado do crânio passa a ser de macacos mortos - e que o vapor que se vê no Indiana Jones e o templo perdido é do gelado e não da respiração do macaco decapitado?

Como explicar que em algumas regiões da China comem o cérebro de macacos tal como por cá comem a mioleira do cabrito e do borrego? Ou que as aranhas estão para eles como o camarão para nós? 

Como explicar que o consumo de carne de cão está para muitos chineses como as touradas estão para muitos portugueses - uma tradição a eliminar? Ou que muitos de nós comemos vacas - que na Índia são sagradas ?

Como explicar a alguém tão cheio de certezas...

... a alguém que nem verifica aquilo que publica

... que os chineses e os vietnamitas e os tailandeses e os indonésios e os japoneses e os filipinos vivem todos para aquelas bandas do Mundo, têm todos culturas milenares mas não são a mesma cultura, não são a mesma cultura, não são a mesma cultura?!

 

Aquele título e o pequenino exemplo são um amontoado de preconceitos. Mas dei o benefício da dúvida, poderia tratar-se de um pobre crente que come tudo o que lê e vê nas redes sociais, mesmo que alguns jornais desmintam e voltem a desmentir tais "notícias". Por isso, abri o postal e fui ao blogue. Para me deparar com a continuação:

(...), o Pangolim. Enfim um conjunto repugnante de "iguarias", que são uma verdadeira ameaça para toda a humanidade.

Enquanto não houver um tribunal que julgue as consequências das práticas alimentares asiáticas que se têm revelado perigosas para o mundo, estaremos sempre à mercê do surgimento de vírus que matam milhares de pessoas e destroem economias.

Em meados da década de 2010, os morcegos foram a origem de outra doença respiratória semelhante à Sars: a Síndrome Respiratória do Oriente Médio, que afectou menos pessoas mas foi mais letal. 

Quanto a este novo coronavírus - baptizado de Covid-19-19 (..)

 

Porra! Que entenda que as práticas alimentares chinesas e as práticas alimentares asiáticas são tudo a mesma coisa, vá, eu ainda aceito a tacanhez e a confusão. Que tenha a opinião de que são perigosas para o mundo e que seja necessário um tribunal para julgar os hábitos alimentares de cada país, entre pezinhos de coentrada, tripas à moda do Porto e percebes eu ainda engulo. Mas estava capaz de jurar que a Equipa do SAPO teve, durante semanas, um texto pespegado na área de gestão de blogues a dizer algo parecido com

Como autores, temos o dever de ser rigorosos com a informação que veiculamos sobre a Covid-19

Porque falará esta gente com poupa e circo estância daquilo que aparentemente não sabe, que não se dá ao trabalho de verificar, que não tenta sequer avaliar antes de publicar?!

Em 2009 a Pandemia foi de Gripe A, Gripe A, causada pelo vírus H1N1, vírus H1N1, que não é um coronavírus. Mas a Gripe A é uma zoonose - ligada aos suínos, suínos, não aos morcegos. E surgida na América do Norte, América. A SARS (Síndrome Respiratória Aguda Severa) é uma zoonose ligada a morcegos, morcegos que não são alimento, e surgiu em 2002 na China. Já a MERS (Síndrome Respiratória do Médio Oriente) é uma zoonose ligada aos dromedários, dromedários, e surgiu em 2012 em países do Médio Oriente - mas não por os comerem.

Este novo coronavírus chama-se SARS-CoV-2, SARS-CoV-2; Covid-19 é a doença, Covid-19 é a doença  provocada pelo coronavírus SARS-CoV-2.

Irra!

A uns dá para pararem na estrada para ver os acidentes, a mim dá-me para ler textos cheios de contradições, incorrecções e alegações absurdas. Com um desprazer mórbido, continuei a ler, talvez que este texto nada tivesse com aquilo dos Prognósticos antes do jogo. Talvez.

Mas a pedra-de-toque do argumento e que me apeteceu atirar à cabeça do autor de tal texto foi

Tudo isto [os excertos acima e mais um conjunto de frases sobre "o mercado de Wuhan", animais selvagens, pangolins e morcegos] são mais do que evidências que é preciso julgar a China nos tribunais internacionais, entre outras responsabilidades por não controlarem as práticas alimentares que violam o Regulamento Sanitário Internacional (...)

 

Terá quem isto escreveu alguma vez lido o Regulamento Sanitário Internacional, ou saberá para que serve e ao que se refere?! Se leu, para que escreve um absurdo destes? Se não leu, porque menciona sequer tal diploma?! Não há pachorra! 

No parágrafo seguinte tinha um aplauso à Índia por apresentar queixa contra a China por crimes de guerra, um aplauso caído assim do nada pois todo o texto cirandava pelos hábitos alimentares e, subitamente, um parágrafo inteirinho retirado daqui. Sem umas aspas, sequer. Não percebi onde passou do garfo à baioneta, mas percebi a necessidade de visar a China, de acusar a China, de atacar a China fosse como fosse. E depois de tudo isto nada mais li - antes comer miolos de macaco vivo

 

Opinião é um conjunto de ilações sustentadas pela interpretação de factos, e se as interpretações podem variar, os factos são imutáveis. No entanto, postais como este são violação de factos, são adejar de falsas informações, são atentados à análise e ao raciocínio - em suma, são atentados à Opinião.

E o problema de postais como aquele de que falo nem é estarem cheio de falsidades nem é arvorarem ilações que não podem resultar daquilo que apresentam como factos, pois que deles desconexas. O problema de postais como aquele é serem o portentoso reflexo da mistura de falta de esclarecimento com a vontade de alardear certezas - reflexo, portanto, dos que, de crença em crença, acabam por aniquilar o rigor, desprezar o raciocínio e, finalmente, adorar quem gritar mais alto durante mais tempo.

Cada vez acredito mais que não aprenderemos grande coisa com esta pandemia.

 

Nota final: Já depois de ter escrito este texto, e em plena busca de ilustração, fui tentar perceber quem era o autor do postal. Diz que é jornalista. Do Económico. Maria Teixeira Alves. Tenham dó, porra!

 

imagem de Chema Madoz

 

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lançado às 01:53

Cara ganho eu, Coroa perdes tu

por Sarin, em 14.04.20

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Bolsonaro, homem atento por indicação divina e sábio por decisão própria, decidiu em Janeiro (re)criar o Conselho da Amazónia,  que para trás fica o passado. Este Conselho inter-ministerial, criado por decreto em 12 de Fevereiro, parece que, e perdão pela gramática mas outra não é possível, estará a preparar-se para preparar um plano que incluirá acções repressivas contra a desflorestação da Amazónia. Ou assim se depreende do que foi dito em Março pelo Vice-Presidente Hamilton Mourão, que é também chefe do Conselho. Enfim, reuniram finalmente na semana passada - mas a preparação para prepararem um plano continua.

 

Bolsonaro, homem crente na protecção da sua igreja, desde o dia 6 de Abril que se sentirá defraudado por ver que, afinal, o SARS-CoV-2 é um ateu inveterado e não liga a rezas nem a ordens de homens santos.

O que, na verdade, até poderá ter sido uma bênção, já que se o incréu e desrespeitoso vírus tivesse obedecido, agora este Messias feito Presidente de tolos os cidadãos que nele votaram e também dos outros, este heróico lutador contra a loucura do coronavírus, ficaria sem argumentos para justificar o aumento de 51% de desflorestação na Amazónia face ao primeiro trimestre de 2019, o seu primeiro também.

Com um vírus pouco inteligente, desobediente e absolutamente alheio a poderes divinos ou messiânicos, Jair e seus capangas, perdão, colegas, sempre poderão dizer que esta subida se deveu ao empenho do governo nas medidas de combate ao coronavírus, como sugeriu Mourão.

 

É, o governo bem que se empenhou... Mas foi o governo regional, não o federal. E, ainda assim, Bolsonaro deve ficar feliz: o Grande Irmão está em acção, e é brasileiro!

Quem chega ao aeroporto, automaticamente entra em quarentena. Temos um aplicativo que monitora essa pessoa. No momento em que ela desembarca ela tem a temperatura medida, nossas equipes fazem uma entrevista com essa pessoa, baixa um aplicativo no celular dela e ela vai sendo monitorada com georreferenciamento. Ela dá o endereço dela e temos condição de saber no sistema se está em casa ou se está saindo.

 

imagem: Peso Muerto, no Blog do Esmael

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lançado às 22:00

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Em 2007 Sócrates anunciou um programa de incentivo à aquisição de computadores portáteis e a descontos em Internet de banda larga - uma medida que incluía alunos e professores. Logo muitas vozes se levantaram contra o despesismo, o populismo e a excessividade da medida.

13 anos depois, surge uma pandemia, as crianças ficam em casa com as aulas possíveis à distância...

... e logo se levantam imensas vozes, muitas das mesmas, contra as aulas online porque há muitos alunos que não têm computador nem Internet.

O que apenas prova que há pessoas que nem pensam a longo prazo, como não pensaram em 2007, nem pensam que uma situação de excepção, como o actual confinamento, obriga a medidas de excepção.

Se tivesse sido dada continuidade à medida, hoje a questão das aulas online seria muito mais pacífica, pois nestes 13 anos todas aquelas coisas que assustam alguns pais e familiares (onde me incluo), como violações de privacidade, protecção do direito de imagem e outros assim direitos e perigos, estariam mais do que precavidos, prevenidos, treinados, educados.

Ou não, uma vez que muitos pais e familiares continuam a colocar as fotografias das criancinhas nas redes, malvada Escola que agora quer filmar o interior das casas e quiçá os irmãos que se aproximem do aluno!

 

Ainda sobre o presente ano lectivo, concordo que o Ministério da Educação deve tentar salvar o possível. Mas não o pode nem deve fazer por questões estatísticas. Muito menos o pode fazer colocando em risco docentes, discentes e demais pessoal - colocando em risco a sua a saúde, ou a sua privacidade.

Sim, que os pais coloquem a privacidade dos filhos em risco é mau, mas é responsabilidade dos mesmos.

O Estado é que não pode alinhar em tamanha irresponsabilidade.

Não é fácil sentir perdido um ano lectivo por razões a que somos alheios. Razões que nos transcendem e sobre as quais nada podemos.

Lembro-me do tempo que os alunos do 12.º Ano de Escolaridade perdemos em 1989. Não foi fácil nem agradável de suportar ou recuperar. Não se podia recuperar com aulas pela televisão, mesmo que no-las quisessem ministrar - ficámos sete longos meses entre exames adiados, é hoje, é na próxima semana, sem saber se no ano lectivo seguinte ingressaríamos no ensino superior, tentaríamos melhorar notas ou entraríamos no mercado de trabalho... E o ano lectivo seguinte começou e o primeiro trimestre terminou com os exames por fazer, é hoje, é na próxima semana... Não, não foi mesmo nada fácil de suportar. Também não foi simples de recuperar. Mas recuperou-se. E descobrimos que se recupera mais facilmente meio ano lectivo do que a saúde ou a privacidade.

As crianças e adolescentes recuperam mais facilmente o tempo perdido do que se recuperarão das assimetrias criadas por sistemas transversais a alunos agora em aprendizagem domiciliária.

Há que tentar chegar ao maior número de crianças possível, sim, e há que não deixar instalar-se a ideia de férias de Março a Setembro, para que não percam hábitos de estudo nem se percam do trabalho já desenvolvido. Mas como se pode avaliar equilibradamente crianças e adolescentes que, na mesma sala de aula, já evidenciam diferenças devido ao acompanhamento familiar e que, agora, dependem quase inteiramente desse mesmo acompanhamento?

E, depois, com aulas a algumas disciplinas sujeitas a exame e com notas a todas, onde fica a tal avaliação contínua?

Já nem falo da minha discordância com os sistemas de avaliação assentes em exames - por muito que digam que a avaliação é contínua, sabemos serem os testes e exames que dão nota aos períodos lectivos.

Não, não vou entrar por aí, o que está em causa não é a revolução do Sistema de Ensino, embora pudessem aproveitar para finalmente o promoverem.

O que está em causa é a continuidade de um ano lectivo tanto para crianças e adolescentes que vivem em casas  com tecnologia, espaço e conforto como para crianças e adolescente que vivem em zonas sem Internet, que vivem em casas com outros irmãos e com pais em tele-trabalho, que vivem há meses entre quatro paredes...

Todos merecem aulas, e todos merecem cuidados de prevenção. Há soluções, é coordená-las - as aulas por televisão são um passo possível, assim a TDT não lhes falhe.

A isto voltarei outro dia, que agora interessam soluções imediatas -

que, por serem urgentes, não têm de ser também imponderadas.

Outras soluções haverá, entre programas de licença aberta e redes várias - o Governo tem um gabinete da modernização tecnológica e o Estado tem uma Comissão Nacional de Protecção de Dados, em conjunto hão-de perceber mais disto do que eu. Trabalhem como equipa, organizem-se com os professores, sempre com os professores, e tenho a certeza de que surgirão as soluções para que os trabalhos lectivos prossigam o mais equilibradamente possível.

 

Mas avaliações, nestes tantos contextos, parecem-me válidas apenas para os censos.

 

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lançado às 17:53

Onde ideias-desabafos podem nascer e morrer. Ou apenas ganhar bolor.


Obrigada por estar aqui.




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