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Gosto dos morcegos que me invadiram o ecrã, uma travessura divertida da Equipa do Sapo.

E gosto de abóbora, apesar de ter enjoado durante uns dias - mas isso porque me caíram cabelos no doce... fruto da travessura dos Pássaros, e entretanto passa.

 

O que não gosto mesmo nada é de ouvir chamar Halloween à festa. Sempre foi Noite das Bruxas, uma tradição nossa... de meter medo, não de brincar aos carnavais.

E sem doces, que esses são do Dia de Todos os Santos, o dia do pão-por-deus, o dia do bolinho.

A Miluem arranjou 12 receitas de bolinho aqui da nossa zona - e de outras - e ofereceu-as lá pelo As coisas que eu gosto. E as outras! Recordou-me a festa e a diversidade: os grupos de miúdos a palmilhar a aldeia, e uma semana inteirinha de lanches com os variados bolinhos - não surgiam duas casas com a mesma exacta receita! Havia quem desse frutos secos em vez de bolinho - e até pêras e maçãs, enfeitadas com uma fitinha no pedúnculo. E eu, que tinha pomares e tinha nogueiras e tinha doceiras de mão-cheia na família, gostava destas ofertas. Os raros chocolates e rebuçados não tinham graça - podiam ter carinho, mas não tinham a atenção dada ao que é tratado pelas nossas mãos.

 

Hoje há menos tempo para fazer bolos com carinho. Mas... e a atenção? Adivinho que a maioria vá comprar gomas e rebuçados e outros doces assim simpáticos para as cáries e a obesidade infantil. Daqueles doces que higienicamente vêm em saquinhos dentro de sacos herméticos; mas o plástico das muitas embalagens não interessa, é só desta vez e certamente irá para a reciclagem, abençoados sejamos. E oferecer umas nozes, umas tangerinas, umas bolachas de aveia... os miúdos iam gozar com a dádiva, não era? Iam ficar tristes sem os doces que hoje lhes são quase imprescindíveis em tudo quanto é festinha, certo?

 

Pois é. Depois de depois de amanhã voltaremos a vestir a indignação e a preocupação com o ambiente e com a saúde e etc, que hoje é dia de festa e amanhã é feriado. E no dia seguinte é Dia de Finados e as flores de plástico e os detergentes agressivos dão um jeitão pelos cemitérios. Feliz alóuin.

 

imagem: CM Montalegre

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lançado às 12:23

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Estou cansada dos reaccionários que acham mal a saia do assessor e estou cansada dos progressista que acham bem a saia do assessor. Até estou cansada dos críticos de moda que não ligam ao manequim mas ao modelito, embora estes sempre tenham uma abordagem mais engraçada porque utilitária - a discussão do gosto pode ser útil.

O vestuário preocupa-me pelos atropelos sociais e ambientais que os trapos e as marcas que se exibem possam promover, não pelas figuras que propiciam que essas são com cada um. Talvez tenha uma cegueira selectiva que me bloqueia os pormenores, ou talvez me preocupe mais com a linguagem corporal ou com a harmonia dos gestos, não sei. Sei que acho uma perda de tempo discutir o que veste fulano - ainda mais perda de tempo quando fulano não está ligado à indústria da moda e da imagem. E acho absurdo, até deprimente, dedicar-se a nação a atacar ou a defender os trapinhos. Supunha que para isso existiriam as revistas cor-de-rosa e de glamour.

Se a roupagem é importante e há códigos a respeitar, então que se definam formalmente regras protocolares de indumentária - e aí qualquer atropelo deverá ser avaliado nas suas causas e nas suas consequências porque, então sim, contrariar os ditames será uma declaração política.

Agora, arrepelar cabelos por códigos estéticos não escritos? Neste século e nesta sociedade?! Olho os que falam no assunto e lembram-me vetustas alcoviteiras palrando sobre escolhas que não suas. E lamento a importância dada a trapos de lana caprina. Talvez isto seja mesmo a queda no precipício...

 

imagem: O voo de Ícaro, de Jacob peter Gowy). domínio público

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lançado às 18:59

Gravidez tardia, procriação assistida e mais qualquer coisa

Algumas considerações para uma discussão sobre bioética

por Sarin, em 29.10.19

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Uma mulher chinesa deu à luz uma menina. Até aqui nenhuma novidade. A novidade é que a chinesa que deu à luz  tem 67 anos. E parece ter sido uma concepção natural.

As pessoas cometem tantas excentricidades para terem direito à imortalidade num qualquer livro ou placa comemorativa que não coloco de parte a possibilidade de o casal ter recorrido a inseminação artificial numa clínica e de se ter deslocado a outra para os tais exames de rotina onde foi detectada a gravidez. Isto, porque os pais estão a dar relevância a tal circunstância, e daí a minha dúvida - se reclamam o feito de serem os mais velhos do país a conceberem naturalmente, talvez encontrem no facto algo de muito importante para além da filha.

 

Mas o que me fez parar na notícia foram considerações de outra ordem: os limites.

Ao ler os comentários que a notícia recebeu na China, pensei que não seriam muito diferentes dos que se leriam por cá se o casal fosse português - entre egoísmo porque não viveriam tempo suficiente e a criança seria um encargo para os outros filhos, e serem demasiado velhos para terem paciência para educarem uma criança e que seria esta quem cedo teria teria de tomar conta deles, houve de tudo um pouco. Faltou o "ah, garanhão" que certamente soaria por cá, e não faltou o "ah, mas ultrapassaram o limite de filhos, serão penalizados?" que nos é estranho; mas todos os outros que li seriam pouco diferentes por cá. Portanto, os preconceitos e os pré-conceitos ser-nos-ão comuns, afinal.

E sobre estes surgiram-me as tais questões sobre limites, que serão questões comuns às sociedades.

Haverá uma idade limite para se assumir a educação de uma criança? Não acho que haja. O bom senso diz-nos que uma pessoa com quase 70 anos talvez não viva tempo suficiente para acompanhar um filho até à adultícia. Mas o bom senso também nos diz que uma mulher deixa naturalmente de ser fértil entre os 50 e os 60 anos, portanto talvez em casos extraordinários o bom senso seja uma batata. Aliás, penso que não haverá nem idade limite nem quaisquer outros limites impostos por terceiros - os limites devem ser traçados pela mulher, pelo homem, pelo casal, pela família.

A maternidade é, essencialmente, uma opção egoísta - depende do querer. Mesmo que depois tudo seja entrega e sublimação. Sendo uma opção pessoal, como se pode dizer a alguém que não tem idade para ser mãe? Como se pode dizer que não tem condições para ser mãe? O que define, quem define o que é aceitável e o que não é? 

E se, em vez de concepção natural, fosse resultado de procriação assistida? Já haveria limites a impor?

Não, não me parece. A partir do momento em que a solução médica existe, não pode haver moralização ou limitação do seu acesso por razões subjectivas. Porque o que define a idade limite? A menopausa? E as mulheres que têm menopausa precoce, devem ser inelegíveis para esta solução? E as outras que não tiveram menopausa precoce mas sim falta de acompanhamento médico ou maus diagnósticos ou diagnósticos impossíveis?

Por outro lado, imaginemos que, em vez de ser chinesa, a mulher era portuguesa. E que tinha recorrido a tecnologias médicas de reprodução assistida. Uma gravidez comparticipada, portanto. Neste caso, não deverá haver um limite de idade para que um casal seja elegível? Aqui poder-me-ia desequilibrar entre a necessidade de afectar os recursos a soluções viáveis e o direito que os indivíduos têm às suas escolhas. Mas será porque o bom senso nos diz que aos 60 anos um casal não terá tanta hipótese de acompanhar um filho recém-nascido que devemos negar a esse casal o direito de ter um filho? Será o facto de serem os nossos impostos a pagar a intervenção que nos dará o direito de julgar as suas opções e o motivo que os fez protelar a parentalidade até serem sexagenários? Parece-me o mesmo que negar um coração a um octogenário porque as probabilidades de rentabilizar a vida útil do coração são menores - e detesto esta visão economicista! Portanto, sim, os recursos são escassos. Sim, são pagos pelos nossos impostos - mas não aceito que quem possa pagar do seu bolso tenha regras distintas. Porque a questão é de bioética - quem julga sobre o direito de viver, de nascer ou de morrer?

É, sem dúvida, mais fácil quando as questões surgem por métodos naturais. Será a natureza, para uns, para outros será o destino... mas a intervenção médica, humana, veio baralhar as contas do destino ou da natureza desde antes de Esculápio. E é bom que nós, sociedade, pensemos estas coisas da bioética:

* Porque vivemos num mundo sobrepovoado embora completamente desequilibrado demograficamente.

* Porque a esperança de vida está a aumentar numas zonas do globo mas os genocídios e a falta de cuidados básicos de higiene e saúde continuam noutros pontos - demasiados, e um já o seria.

* Porque o envelhecimento da população europeia é preocupante enquanto noutras sociedades  continuamos com uma mortalidade infantil inadmissível.

* Porque os senhores que costumam tratar destas coisas da bioética não têm muito o hábito de se dedicar à discussão pública do tema - dizer "está aberta a discussão" não é nada. Até porque a discussão está sempre aberta.

 

imagem: Robert Scarth, CC BY-SA 2.0

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lançado às 11:14

Um erro delicioso

Lido de passagem, cravou-se-me na retina

por Sarin, em 29.10.19

Perdi-me de amores, acho a palavra bonita. Ou talvez seja pela repetição.

Seja como for, não pude ler e esquecer.

Porque lamento os erros, ainda mais em prefixos; mas admiro o engenho e a arte que recria as palavras com esta desenvoltura.

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Por razões óbvias, não indico onde recolhi tal pérola por ser a fonte um comentário e não um artigo da comunicação social.

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lançado às 01:50

Sobre o docente que agrediu o aluno

Uma resposta à Pequeno Caso Sério

por Sarin, em 28.10.19

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O docente agrediu o aluno. E foi notícia. E reabriu discussões que nunca estiveram encerradas.

A reacção

O docente agrediu o aluno. Foi chamada a autoridade de segurança e o professor foi detido. Foi decretada suspensão imediata e foi-lhe instaurado processo disciplinar. 

O aluno foi agredido. Foi observado no hospital. Foi sujeito a perícias técnicas. Foi decretado acompanhamento psicológico ao aluno e aos colegas de turma.

Pelo que li, o docente não é professor. É um técnico com habilitações suficientes para leccionar a disciplina. O sistema educativo prevê que possam ser docentes indivíduos com habilitação profissional, com habilitação própria e com habilitação suficiente para qualquer ciclo de estudos a partir do 2º Ciclo. Não é exigida uma formação adicional em pedagógicas, por exemplo. E eu não percebo como não são exigidas competências pedagógicas para leccionar até ao 3º Ciclo, dadas as médias de idades em causa serem inferiores a 15 anos. Também não sei se ou como as escolas comunicam as habilitações do corpo docente aos encarregados de educação, ou se associação de pais tem uma palavra na matéria - mas estranho este assunto não ser propalado. E sei que eu exigiria tal informação.

Também não sei que outros mecanismos terão as escolas para seleccionar os docentes mais adequados.

Faço aqui um aparte para falar dessas figuras interessantíssimas que são o Técnico de Segurança no Trabalho e o Médico do Trabalho. Aparentemente surgiram para onerar as empresas e criar emprego para uma série de gente que usa chapa 5 no seu trabalho. Bom, eu não sou uma dessas gentes - mas sou das outras, daquelas (muito poucas!) que exigem que técnicos e médicos façam o que lhes compete: avaliar as condições de trabalho, os riscos de segurança e saúde no trabalho e a aptidão física e mental do trabalhador para desempenhar a sua função face aos riscos a que está exposto. E levo isto tão a sério que me chateio seriamente quando vejo que o Estado é o primeiro a não cumprir. E que os MT, que tecnicamente deveriam ser os que decidem sobre doenças profissionais e encaminham para juntas médicas, muitas vezes nem saibam que os trabalhadores cujas fichas assinam com "APTO" têm graus de incapacidade profissional. Uma descoordenação terrível, uma terrível perda de dinheiro e de paciência. Ficaram com uma ideia, e volto ao tema do postal.

Os docentes têm ADSE (porque pagam para a ter, e este é outro assunto). Mas não têm Medicina do Trabalho. E como ninguém pode ser discriminado e os dados médicos são pessoais e intransmissíveis - daí a importância da Medicina do Trabalho! - não imagino como farão as escolas a avaliação do perfil psicológico de quem irá trabalhar com crianças. Mas parece que o cadastro criminal é quanto baste para atestar da idoneidade. Não sabendo quais os critérios de admissão à docência em cada agrupamento, e portanto esperando estar enganada, desconfio que não serão muito exigentes nesta matéria. Não é por nada, mas é só alguém que vai lidar com as nossas crianças. Com muitas crianças distintas em simultâneo.

Perante o acima exposto, e sendo contra a violência em qualquer contexto, a par de assacar responsabilidades ao professor, gostaria de assacar responsabilidades ao agrupamento escolar, à associação de pais, ao ministério e ao legislador. Porque TODOS permitiram que este docente fosse colocado naquela sala de aulas.

Acresce a completa penalização que vem sendo feita aos professores, o desrespeito que estes vêm vivendo por parte de todos os sectores. E a falta de educação que as crianças demonstram.

Onde está o processo disciplinar às crianças que desrespeitam os professores? O facto de os pais não educarem os filhos não obriga o corpo docente a lidar com insultos e desrespeitos impunemente. E por isto também gostaria de assacar responsabilidade aos agrupamentos escolares, às associações de pais, ao ministério e ao legislador, pois qualquer processo disciplinar acaba por ser inconsequente, coitadinha da criança que não é responsável... e não será enquanto não for responsabilizada - com medidas adequadas à idade e à infracção, obviamente.

Defendo há muito a criação de cursos de formação para pais. Não para lhes orientar os valores a educar, mas para os dotar de ferramentas que lhes permitam educar os filhos com os valores que entenderem. Pedagogia. Aprende-se em livros, mas só nos muito bons - e o que não falta por aí são maus livros para aprender a lidar com as crianças. Nem falta maus pais a despejarem os filhos nas escolas e a esperarem que os docentes façam aquilo que é competência dos pais.

Poderia ainda falar do nosso modelo de organização social, que contribui para a falta de tempo de qualidade entre pais e filhos - mas sendo verdade que o modelo não ajuda, infelizmente também não tem todas as responsabilidades. Fica para outros postais.

Discussão 2 - A Notícia

Vendo esta mini-reportagem da SIC Notícias, em que o representante dos pais dos alunos da sala de aulas explica (sic) o ocorrido dentro e fora desta, apercebo-me da impraticabilidade descrita: se o professor agarrou o pescoço do aluno de frente, segundo indicado pelas marcas descritas, nunca poderia bater com a cabeça do aluno na mesa a menos que o forçasse para trás (e o dano seria na coluna do aluno). A alternativa seria agarrar-lhe a face e bater com a própria mão contra a mesa, puxando e não empurrando.

Não pretendo analisar os contornos judiciais deste caso, não o faço em nenhum; apenas denuncio contradições ecoadas sem filtro.

Os órgãos de comunicação social congregam esforços para o sangue; os factos talvez nos venham a ser revelados um dia. Ou não. Mas nos entretantos, entre tantos, não esperem que eu acredite em tudo o que é noticiado.

E muito menos esperem que compreenda as razões dos pais indignados. A reacção deste docente é inaceitável. Mas há muitas inaceitabilidades antes desta - e assobiaram para o ar. Pais, sociedade, comunicação social. Todos são culpados por termos voltado a este ponto.

 

Nota: A Pequeno Caso Sério queria ficar calada mas não conseguiu, e fez muito bem! Nos comentários disse-lhe que o meu comentário teria muitos argumentos. Era demasiado para comentário, não era?

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lançado às 15:31

Problemas de identidade continuam...

por Sarin, em 28.10.19

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Bom, este blogue foi nomeado também para a categoria Opinião, nos Sapos do Ano 2019.

A sério... surgiu sem ser blogue, andou largos meses sem conceito, e quando finalmente é blogue e tem conceito, metem-no em várias categorias... como não ter crises de identidade? [Não tenho. O blogue é que aparenta ter]

Mas não me apetece fazer outro inquérito... fica apenas a nota. E o agradecimento a quem nomeou.

 

Um destes dias hei-de voltar a falar do assunto das identidades, mas hoje não é a véspera desse dia. Entretanto... navegai. E boas descobertas!

 

E se se perguntam se ando ausente... ando. e desinspirada. e cansada. Mas hoje ainda publicarei postais de opinião. Sobre assuntos diversos.

imagem: Meus animais

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lançado às 12:49

desafio de escrita dos pássaros #7

A máscara da Mercearia da Vila

por Sarin, em 25.10.19

[Tema #7 A Constança precisa duma mascara capilar mas o teu patrão só quer que vendas compotas de abobora com amêndoa. Convence-a a escolher a compota para usar]

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A máscara da Mercearia da Vila

Já vivi muitas vidas.

 

Recordo de numa delas estar na mercearia e a Constança me abraçar, perguntar se tudo bem e dizer precisar de um bom banho e de uma máscara para o cabelo. Acrescentou algo, mas interrompi-a, Compota de abóbora com amêndoas é o melhor para aplicares: a abóbora fornece vitaminas A e C, fundamentais para a saúde e o espessamento dos cabelos, e a amêndoa tem zinco, que lhes dá flexibilidade, e selénio, um antioxidante. Além disso, o açúcar realça o brilho natural... compota de abóbora é melhor que qualquer máscara capilar.

Lembro que comprou dois frascos, olhou o rótulo e dirigiu-se ao escritório da gerência. Falou em engano e não ouvi mais, não me interessava. Nada me interessava. Fiquei onde não estava.

 

Reencontrei a Constança nesta vida. Chorámos, recordámos outras vidas, chorámos mais, abraçámo-nos, sorrimos enfim. Ao sair deixou um papel, um email velho de muitos meses:

"Ex.mo Sr Dr Fulano de Tal,

Venho da Mercearia da Vila, loja que certamente conhece. A balconista vendeu-me compota de abóbora para aplicar no cabelo como máscara capilar, dizendo meias-verdades sobre os benefícios de tal mistela - e senti-a vazia de vergonha ou preocupação ao fazê-lo.

Recém-regressada de dois meses no deserto, estranhei a minha amiga de infância, a pessoa mais honesta que jamais conheci; mas se me dizia para comprar compota em vez da máscara, teria as suas razões e comprei.

Falei com o marido, gerente da loja de ambos. Contou-me estar apática, submissa, inerte desde que perderam o bebé, dias após eu partir. De nada soube, mas sei agora: da intrépida e animada amiga pouco resta. Já não chora nem ri, não fala sem que lhe falem, não rejeita as carícias do amantíssimo marido mas também não as acolhe... e ele, desesperado, cria-lhe tarefas absurdas, quase vis, na esperança de que reaja.

Conheço-a, crerá que ele a culpa e a castiga, ferindo-lhe a honestidade – e ela aceita, sente merecer todos os castigos por se impacientar com o filho que não mamava enquanto um aneurisma lho matava nos braços sem alarde.

A vida enganou-os, tentam sobreviver enganando a dor, enganando-se.

O Sr Dr é um psicólogo de renome. Mas nasceu cá, tem ligações a esta terra, a esta gente.  Não nos pode ajudar?"

 

Já vivi muitas vidas, e em todas tive a Constança para me apoiar, e até para me salvar. Em nenhuma gostou de doce de abóbora.


Nota de roda: o AO90 é uma abóbora e cheira a amêndoa. Amarga.

imagem: “Lady Godiva”, John Collier (óleo, 1898). De domínio público

[Desafio de Escrita by Pássaros]

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lançado às 15:00

Foi com muita honra que a Almoxarife se chegou às outras duas

e as informou que este burgo, este onde nos encontramos, havia sido, mais uma vez,

nomeado para Sapo do Ano na Categoria Generalista.

Já a Menestrel escrevia

pela sua própria mão

(com certo toque de artista)

um cântico de alegria

por esta nomeação

Como blogue generalista...

...

 

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lançado às 08:32

Confusões entre obra e obreiro

considerações sobre censuras várias

por Sarin, em 24.10.19

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Tenho este postal em rascunho há meses. Melhor pensando, tenho este postal em rascunho desde uma altura em que apenas escrevia postais em viagens, daqueles postais em papel, ilustrados, que mais não pretendiam do que ser lembrança. Mais concretamente, tenho este postal em rascunho desde 2009. 

Assistia a um concerto de Amy Winehouse num qualquer canal, e notei que a cantora estava ausente, desequilibrando-se constantemente e desafinando notas que normalmente dominaria. Muitos outros tiveram assim comportamentos, até em palcos à minha frente, mas por desconhecido motivo apenas naquele momento me surgiu a dúvida: deveria eu comprar discos, assistir a concertos, sequer ouvir as músicas de quem se auto-destruía e mergulhava nas drogas e no álcool até em pleno palco?

Pouco demorei a perceber que, embora lastimando Amy, eu não era sua amiga, não a conhecia, não tinha qualquer influência no seu círculo - e que, por isso mesmo, ao deixar de comprar o seu trabalho apenas por não concordar com a vida que levava e transportava para o palco, estaria a censurar uma opção que era dela, ainda que o fizesse por a querer saudável. Acaso fosse espectadora de tal concerto, eventualmente poderia reclamar, exigir devolução do meu dinheiro por quebra de contrato dada a fraca actuação, poderia até escrever cartas e artigos iracundos por me sentir defraudada com tal prestação ou apreensiva pela saúde da artista. Mas o consumo de álcool e outras drogas eram opções pessoais, e a minha relação com Amy não era pessoal, era artística porque ela a artista e eu a apreciadora, e por esta era também comercial, ela a fornecedora de produtos artísticos (embora por interpostas pessoas) e eu a cliente. Reflectir nas nossas relações artísticas e comerciais o meu desacordo com as suas opções pessoais seria boicote e censura moral.

Não boicotei nem censurei. Quando Amy morreu voltei a colocar-me a questão e obtive a mesma resposta, portanto o assunto ficou arrumado: repudiar o artista e a sua obra devido à discordância com o seu modo de vida é censurar as suas escolhas. Obra é trabalho, indivíduo é personalidade - e são questões distintas.

 

Devo afirmar que nem sempre pensei assim. Tempos houve em que as atitudes públicas de alguém me condicionariam a vontade de conhecer o seu trabalho, especialmente na literatura pois que muito forte transmissor de conceitos e preconceitos. Na verdade, continuam a condicionar; mas iniciar a descoberta da obra com algumas resistências ou permanecer dela ignara por discordar das opções do indivíduo são caminhos muito distintos. E lembro-me sempre do machismo, do racismo e do imperialismo do homem que disse "a democracia é a pior forma de governo, com excepção de todas as outras", um grande democrata que nem por isso atendeu aos direitos humanos antes dos 65 anos. Continuo a ter dúvidas se atendeu depois, mas sabemos que quase octogenário ganhou um Nobel pelos seus dons de "oratória em nome dos mais elevados valores humanos". Serve-me esta história de bitola, e adiante.

 

Quando surgiu o movimento #metoo a questão voltou a pairar-me na ideia. E coloquei-me na posição de solidária com as vítimas quando, quase simultaneamente, percebi que poderia haver vários tipos de vítimas, incluindo as vítimas de falsas denúncias e as vítimas de descontextualizações, aquelas que em tempos tiveram algumas atitudes vistas como normais à época mas das quais hoje se fazem outras leituras. Como fui comentando os linchamentos públicos sem entrar no julgamento dos actos que lhes davam origem, aos tribunais o que é dos tribunais, acabei por deixar passar a onda do postal mantendo a minha opinião: trabalho e homem devem ser apreciados e avaliados em planos distintos. Uma coisa é recusar determinado actor, realizador, produtor por querer proteger a restante equipa de tal personalidade ou, o mais comum, por ter medo da reacção dos espectadores. Outra, negar-lhe o mérito, retirar-lhe prémios e distinções que a sua obra merece. E aos tribunais o que é dos tribunais.

Mas em Fevereiro deste ano o tema voltou a bailar-me na memória, e foi quando tecnicamente o coloquei em rascunho. Quero dizer, apenas colei uma ligação a partir de onde desenrolaria o tema - um artigo sobre o afastamento de Bryan Singer dos BAFTA, na sequência de denúncias de abusos sexuais. Dei-lhe o título, colei a tal ligação... e nunca mais lhe peguei. Em Maio deparei-me com um artigo de opinião sobre a deslocação de Louis CK a Portugal, e pela primeira vez encontrava alguém que, deixando aos tribunais o que é dos tribunais, separava o homem e a obra no meio desta enxurrada benfazeja mas certamente com inocentes arrastados na lama, como em todas as enxurradas. Mas não me competia separar lama e homens, apenas obra e obreiro. E reavaliei a minha posição.

Reavaliar mais não é do que refazer o trajecto para detectar alterações na paisagem. Acrescentei com mais ênfase o profissional, já não apenas o artista. Mas, sendo embora o homem uno com a sua arte ou engenho, continuei a achar, continuo a achar, que obra e obreiro constituem mundos separados. Posso amar a obra e desprezar o obreiro, e relembro a bitola churchilliana.

Analisei também a posição das academias que entregam tais prémios... Dizerem que os prémios servem para distinguir os melhores profissionais mas depois dependerem essa distinção (ou outras) de "valores" ["Bafta considers the alleged behaviour completely unacceptable and incompatible with its values"] apenas exsuda um moralismo muito flutuante e transforma os prémios que deveriam ser de mérito em alguma coisa que não é nem deixa de ser. Como faremos com essa coisa do mérito se lhe metermos a moral como padrão - e que moral? Vamos cortar a História, como perguntou Dame Judy Dench a propósito de Kevin Spacey?

Outros assuntos mais prementes surgiram, e o postal continuou em rascunho... até que surgiu a polémica com um dos nomeados para o Nobel da Literatura, Peter Handke. Surgiram os apoiantes e os opositores da sua obra, mas as grandes oposições à atribuição do Nobel passaram pela avaliação do seu apoio a Milosevic - passaram, portanto, pelas suas atitudes políticas e não pelas suas capacidades artísticas. O homem a ser confundido com a sua arte, com a sua obra - e atacou-se a arte, atacou-se o artista, atacou-se o profissional, atacou-se o mérito, porque se discorda do homem ou porque se desgosta das suas opções ou porque se lhe vê imoralidade. Não apenas se relevou o homem em detrimento do artista, que é afinal o que está em causa, como se tentou que outros lhe negassem mérito por motivos em nada relacionados com a sua arte ou com a sua obra.

E isto, à semelhança do que vinha ponderando desde Amy, nada mais é do que censura. É negar ao artista, ao profissional, o direito de o ser porque se discorda do seu carácter ou se considera que as suas opções são moralmente condenáveis. É o querer impor aos outros o seu próprio paradigma, condenando, eliminando até, todo o trabalho que não seja fruto dos eleitos.

Defendo o direito ao boicote, mas peço que se pensem as causas de tais boicotes. E peço mais, peço que não avaliemos o mérito pela personalidade, a obra pelo indivíduo, não os coloquemos sequer no mesmo plano ou acabaremos mutilando todos os santos nos seus pés de barro. Mais uma vez, a bitola churchilliana.

 

Ainda sobre esta questão das censuras, vi ser publicamente questionado o direito de um professor se pronunciar também publicamente sobre uma matéria da sua área, invocando como motivo para o seu (defendido pelo questionador) silêncio o ter estado esse professor ligado a um caso alheio à sua dissertação e sobre o qual não foi, até à data, acusado de qualquer crime - nem sequer no artigo em que se pedia o seu silêncio e até o seu afastamento dos holofotes, num apontar de dedo a quem lhe deu espaço ou visibilidade. Declarado tal comportamento como imoral, no entender de quem questionou seria isto suficiente para substantivar o congelamento do seu direito de expressão.

Basicamente, a mesma questão desde Amy, moralidade versus arte e engenho, mas exponenciada a outro nível. Se nos casos de Amy e de Louis CK a censura passaria por um boicote pessoal e nos casos de Singer e de Handke pela não atribuição de um prémio, já no caso deste profissional a censura passaria por lhe cercear direitos básicos e constitucionais.

Entendamo-nos:

1. No nosso código penal, imoralidade não é sinónimo de ilicitude.

2. Num estado de direito, não podemos invocar a presunção de inocência para uns e negá-la a outros.

3. Se defendemos a presunção de inocência - que nada tem a ver, que não impede e que deve mesmo ser concomitante com o exigir recursos, celeridade e seriedade à Justiça - defendemos que um indivíduo não perde o seus direitos de cidadania quando alvo de suspeitas, muito menos por questões morais.

4. Se aceitamos este princípio, então ao questionarmos o direito que um indivíduo tem em expressar opinião, ainda para mais na sua área de trabalho, estaremos a fazer exactamente o quê senão a tentar encontrar fundamento para o censurar? 

 

Não gostar do indivíduo e discordar das suas opiniões não é o mesmo que questionar o seu direito a expressá-las, mesmo que se acredite o indivíduo culpado de um crime pelo qual não foi acusado. Apoiar artigos de tal professor não é o mesmo que apoiar as suas opções pessoais. Tal como ler Handke não é apoiar Milosevic ou como rir com Louis CK não é aplaudir a sua vida sexual ou como ouvir Amy Winehouse não é fazer uma apologia do vício. E tal como enaltecer a capacidade de liderança de Churchill durante a Segunda Guerra Mundial não é subscrever a repressão colonial que então defendia. E muito mal vai a democracia quando não se percebem estas diferenças.

 

Nota 1: Não tenho quaisquer: interesses sobre os bens materiais ou imateriais, ligações familiares, partidárias ou outras a nenhum dos referidos - li um livro de Handke, gosto de Amy, não aprecio CK Louis, dos filmes produzidos por Singer guardo de memória (e que memória!) Os suspeitos do Costume e do professor apenas subscrevo a opinião que defendeu num artigo que motivou o tal artigo onde se pede o seu silêncio.

Nota 2: Não faço ligação ao artigo que invoco pois para o fazer teria de desmontar, esmiuçar tudo o que nele foi dito, incluindo a indignação que o motivou. Não vale a pena.

Nota 3: Tenho a sensação de que repito demasiadas vezes obra obreiro... mas o postal é longo, debruça-se exactamente sobre tais temas e eu estou bastante desinspirada. Desculpem qualquer coisinha.

imagem: Chema Madoz

[há dias de muita inspiração. outros que não. nada como espreitar também os postais anteriores]

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Pas-de-moi

por Sarin, em 23.10.19

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Não tenho paciência para estar impaciente. A impaciência é um espaço prenhe do ruído da espera, e eu não sei esperar que não em silêncio.

Exijo clamando, mas esperar... apenas desfolho sons sem perturbar equilíbrios dormentes em pontas de pés. E em passos miúdos aproximo-me do presente.

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