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Gosto dos morcegos que me invadiram o ecrã, uma travessura divertida da Equipa do Sapo.

E gosto de abóbora, apesar de ter enjoado durante uns dias - mas isso porque me caíram cabelos no doce... fruto da travessura dos Pássaros, e entretanto passa.

 

O que não gosto mesmo nada é de ouvir chamar Halloween à festa. Sempre foi Noite das Bruxas, uma tradição nossa... de meter medo, não de brincar aos carnavais.

E sem doces, que esses são do Dia de Todos os Santos, o dia do pão-por-deus, o dia do bolinho.

A Miluem arranjou 12 receitas de bolinho aqui da nossa zona - e de outras - e ofereceu-as lá pelo As coisas que eu gosto. E as outras! Recordou-me a festa e a diversidade: os grupos de miúdos a palmilhar a aldeia, e uma semana inteirinha de lanches com os variados bolinhos - não surgiam duas casas com a mesma exacta receita! Havia quem desse frutos secos em vez de bolinho - e até pêras e maçãs, enfeitadas com uma fitinha no pedúnculo. E eu, que tinha pomares e tinha nogueiras e tinha doceiras de mão-cheia na família, gostava destas ofertas. Os raros chocolates e rebuçados não tinham graça - podiam ter carinho, mas não tinham a atenção dada ao que é tratado pelas nossas mãos.

 

Hoje há menos tempo para fazer bolos com carinho. Mas... e a atenção? Adivinho que a maioria vá comprar gomas e rebuçados e outros doces assim simpáticos para as cáries e a obesidade infantil. Daqueles doces que higienicamente vêm em saquinhos dentro de sacos herméticos; mas o plástico das muitas embalagens não interessa, é só desta vez e certamente irá para a reciclagem, abençoados sejamos. E oferecer umas nozes, umas tangerinas, umas bolachas de aveia... os miúdos iam gozar com a dádiva, não era? Iam ficar tristes sem os doces que hoje lhes são quase imprescindíveis em tudo quanto é festinha, certo?

 

Pois é. Depois de depois de amanhã voltaremos a vestir a indignação e a preocupação com o ambiente e com a saúde e etc, que hoje é dia de festa e amanhã é feriado. E no dia seguinte é Dia de Finados e as flores de plástico e os detergentes agressivos dão um jeitão pelos cemitérios. Feliz alóuin.

 

imagem: CM Montalegre

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lançado às 12:23

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Estou cansada dos reaccionários que acham mal a saia do assessor e estou cansada dos progressista que acham bem a saia do assessor. Até estou cansada dos críticos de moda que não ligam ao manequim mas ao modelito, embora estes sempre tenham uma abordagem mais engraçada porque utilitária - a discussão do gosto pode ser útil.

O vestuário preocupa-me pelos atropelos sociais e ambientais que os trapos e as marcas que se exibem possam promover, não pelas figuras que propiciam que essas são com cada um. Talvez tenha uma cegueira selectiva que me bloqueia os pormenores, ou talvez me preocupe mais com a linguagem corporal ou com a harmonia dos gestos, não sei. Sei que acho uma perda de tempo discutir o que veste fulano - ainda mais perda de tempo quando fulano não está ligado à indústria da moda e da imagem. E acho absurdo, até deprimente, dedicar-se a nação a atacar ou a defender os trapinhos. Supunha que para isso existiriam as revistas cor-de-rosa e de glamour.

Se a roupagem é importante e há códigos a respeitar, então que se definam formalmente regras protocolares de indumentária - e aí qualquer atropelo deverá ser avaliado nas suas causas e nas suas consequências porque, então sim, contrariar os ditames será uma declaração política.

Agora, arrepelar cabelos por códigos estéticos não escritos? Neste século e nesta sociedade?! Olho os que falam no assunto e lembram-me vetustas alcoviteiras palrando sobre escolhas que não suas. E lamento a importância dada a trapos de lana caprina. Talvez isto seja mesmo a queda no precipício...

 

imagem: O voo de Ícaro, de Jacob peter Gowy). domínio público

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lançado às 18:59

Gravidez tardia, procriação assistida e mais qualquer coisa

Algumas considerações para uma discussão sobre bioética

por Sarin, em 29.10.19

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Uma mulher chinesa deu à luz uma menina. Até aqui nenhuma novidade. A novidade é que a chinesa que deu à luz  tem 67 anos. E parece ter sido uma concepção natural.

As pessoas cometem tantas excentricidades para terem direito à imortalidade num qualquer livro ou placa comemorativa que não coloco de parte a possibilidade de o casal ter recorrido a inseminação artificial numa clínica e de se ter deslocado a outra para os tais exames de rotina onde foi detectada a gravidez. Isto, porque os pais estão a dar relevância a tal circunstância, e daí a minha dúvida - se reclamam o feito de serem os mais velhos do país a conceberem naturalmente, talvez encontrem no facto algo de muito importante para além da filha.

 

Mas o que me fez parar na notícia foram considerações de outra ordem: os limites.

Ao ler os comentários que a notícia recebeu na China, pensei que não seriam muito diferentes dos que se leriam por cá se o casal fosse português - entre egoísmo porque não viveriam tempo suficiente e a criança seria um encargo para os outros filhos, e serem demasiado velhos para terem paciência para educarem uma criança e que seria esta quem cedo teria teria de tomar conta deles, houve de tudo um pouco. Faltou o "ah, garanhão" que certamente soaria por cá, e não faltou o "ah, mas ultrapassaram o limite de filhos, serão penalizados?" que nos é estranho; mas todos os outros que li seriam pouco diferentes por cá. Portanto, os preconceitos e os pré-conceitos ser-nos-ão comuns, afinal.

E sobre estes surgiram-me as tais questões sobre limites, que serão questões comuns às sociedades.

Haverá uma idade limite para se assumir a educação de uma criança? Não acho que haja. O bom senso diz-nos que uma pessoa com quase 70 anos talvez não viva tempo suficiente para acompanhar um filho até à adultícia. Mas o bom senso também nos diz que uma mulher deixa naturalmente de ser fértil entre os 50 e os 60 anos, portanto talvez em casos extraordinários o bom senso seja uma batata. Aliás, penso que não haverá nem idade limite nem quaisquer outros limites impostos por terceiros - os limites devem ser traçados pela mulher, pelo homem, pelo casal, pela família.

A maternidade é, essencialmente, uma opção egoísta - depende do querer. Mesmo que depois tudo seja entrega e sublimação. Sendo uma opção pessoal, como se pode dizer a alguém que não tem idade para ser mãe? Como se pode dizer que não tem condições para ser mãe? O que define, quem define o que é aceitável e o que não é? 

E se, em vez de concepção natural, fosse resultado de procriação assistida? Já haveria limites a impor?

Não, não me parece. A partir do momento em que a solução médica existe, não pode haver moralização ou limitação do seu acesso por razões subjectivas. Porque o que define a idade limite? A menopausa? E as mulheres que têm menopausa precoce, devem ser inelegíveis para esta solução? E as outras que não tiveram menopausa precoce mas sim falta de acompanhamento médico ou maus diagnósticos ou diagnósticos impossíveis?

Por outro lado, imaginemos que, em vez de ser chinesa, a mulher era portuguesa. E que tinha recorrido a tecnologias médicas de reprodução assistida. Uma gravidez comparticipada, portanto. Neste caso, não deverá haver um limite de idade para que um casal seja elegível? Aqui poder-me-ia desequilibrar entre a necessidade de afectar os recursos a soluções viáveis e o direito que os indivíduos têm às suas escolhas. Mas será porque o bom senso nos diz que aos 60 anos um casal não terá tanta hipótese de acompanhar um filho recém-nascido que devemos negar a esse casal o direito de ter um filho? Será o facto de serem os nossos impostos a pagar a intervenção que nos dará o direito de julgar as suas opções e o motivo que os fez protelar a parentalidade até serem sexagenários? Parece-me o mesmo que negar um coração a um octogenário porque as probabilidades de rentabilizar a vida útil do coração são menores - e detesto esta visão economicista! Portanto, sim, os recursos são escassos. Sim, são pagos pelos nossos impostos - mas não aceito que quem possa pagar do seu bolso tenha regras distintas. Porque a questão é de bioética - quem julga sobre o direito de viver, de nascer ou de morrer?

É, sem dúvida, mais fácil quando as questões surgem por métodos naturais. Será a natureza, para uns, para outros será o destino... mas a intervenção médica, humana, veio baralhar as contas do destino ou da natureza desde antes de Esculápio. E é bom que nós, sociedade, pensemos estas coisas da bioética:

* Porque vivemos num mundo sobrepovoado embora completamente desequilibrado demograficamente.

* Porque a esperança de vida está a aumentar numas zonas do globo mas os genocídios e a falta de cuidados básicos de higiene e saúde continuam noutros pontos - demasiados, e um já o seria.

* Porque o envelhecimento da população europeia é preocupante enquanto noutras sociedades  continuamos com uma mortalidade infantil inadmissível.

* Porque os senhores que costumam tratar destas coisas da bioética não têm muito o hábito de se dedicar à discussão pública do tema - dizer "está aberta a discussão" não é nada. Até porque a discussão está sempre aberta.

 

imagem: Robert Scarth, CC BY-SA 2.0

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lançado às 11:14

Um erro delicioso

Lido de passagem, cravou-se-me na retina

por Sarin, em 29.10.19

Perdi-me de amores, acho a palavra bonita. Ou talvez seja pela repetição.

Seja como for, não pude ler e esquecer.

Porque lamento os erros, ainda mais em prefixos; mas admiro o engenho e a arte que recria as palavras com esta desenvoltura.

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Por razões óbvias, não indico onde recolhi tal pérola por ser a fonte um comentário e não um artigo da comunicação social.

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lançado às 01:50

Sobre o docente que agrediu o aluno

Uma resposta à Pequeno Caso Sério

por Sarin, em 28.10.19

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O docente agrediu o aluno. E foi notícia. E reabriu discussões que nunca estiveram encerradas.

A reacção

O docente agrediu o aluno. Foi chamada a autoridade de segurança e o professor foi detido. Foi decretada suspensão imediata e foi-lhe instaurado processo disciplinar. 

O aluno foi agredido. Foi observado no hospital. Foi sujeito a perícias técnicas. Foi decretado acompanhamento psicológico ao aluno e aos colegas de turma.

Pelo que li, o docente não é professor. É um técnico com habilitações suficientes para leccionar a disciplina. O sistema educativo prevê que possam ser docentes indivíduos com habilitação profissional, com habilitação própria e com habilitação suficiente para qualquer ciclo de estudos a partir do 2º Ciclo. Não é exigida uma formação adicional em pedagógicas, por exemplo. E eu não percebo como não são exigidas competências pedagógicas para leccionar até ao 3º Ciclo, dadas as médias de idades em causa serem inferiores a 15 anos. Também não sei se ou como as escolas comunicam as habilitações do corpo docente aos encarregados de educação, ou se associação de pais tem uma palavra na matéria - mas estranho este assunto não ser propalado. E sei que eu exigiria tal informação.

Também não sei que outros mecanismos terão as escolas para seleccionar os docentes mais adequados.

Faço aqui um aparte para falar dessas figuras interessantíssimas que são o Técnico de Segurança no Trabalho e o Médico do Trabalho. Aparentemente surgiram para onerar as empresas e criar emprego para uma série de gente que usa chapa 5 no seu trabalho. Bom, eu não sou uma dessas gentes - mas sou das outras, daquelas (muito poucas!) que exigem que técnicos e médicos façam o que lhes compete: avaliar as condições de trabalho, os riscos de segurança e saúde no trabalho e a aptidão física e mental do trabalhador para desempenhar a sua função face aos riscos a que está exposto. E levo isto tão a sério que me chateio seriamente quando vejo que o Estado é o primeiro a não cumprir. E que os MT, que tecnicamente deveriam ser os que decidem sobre doenças profissionais e encaminham para juntas médicas, muitas vezes nem saibam que os trabalhadores cujas fichas assinam com "APTO" têm graus de incapacidade profissional. Uma descoordenação terrível, uma terrível perda de dinheiro e de paciência. Ficaram com uma ideia, e volto ao tema do postal.

Os docentes têm ADSE (porque pagam para a ter, e este é outro assunto). Mas não têm Medicina do Trabalho. E como ninguém pode ser discriminado e os dados médicos são pessoais e intransmissíveis - daí a importância da Medicina do Trabalho! - não imagino como farão as escolas a avaliação do perfil psicológico de quem irá trabalhar com crianças. Mas parece que o cadastro criminal é quanto baste para atestar da idoneidade. Não sabendo quais os critérios de admissão à docência em cada agrupamento, e portanto esperando estar enganada, desconfio que não serão muito exigentes nesta matéria. Não é por nada, mas é só alguém que vai lidar com as nossas crianças. Com muitas crianças distintas em simultâneo.

Perante o acima exposto, e sendo contra a violência em qualquer contexto, a par de assacar responsabilidades ao professor, gostaria de assacar responsabilidades ao agrupamento escolar, à associação de pais, ao ministério e ao legislador. Porque TODOS permitiram que este docente fosse colocado naquela sala de aulas.

Acresce a completa penalização que vem sendo feita aos professores, o desrespeito que estes vêm vivendo por parte de todos os sectores. E a falta de educação que as crianças demonstram.

Onde está o processo disciplinar às crianças que desrespeitam os professores? O facto de os pais não educarem os filhos não obriga o corpo docente a lidar com insultos e desrespeitos impunemente. E por isto também gostaria de assacar responsabilidade aos agrupamentos escolares, às associações de pais, ao ministério e ao legislador, pois qualquer processo disciplinar acaba por ser inconsequente, coitadinha da criança que não é responsável... e não será enquanto não for responsabilizada - com medidas adequadas à idade e à infracção, obviamente.

Defendo há muito a criação de cursos de formação para pais. Não para lhes orientar os valores a educar, mas para os dotar de ferramentas que lhes permitam educar os filhos com os valores que entenderem. Pedagogia. Aprende-se em livros, mas só nos muito bons - e o que não falta por aí são maus livros para aprender a lidar com as crianças. Nem falta maus pais a despejarem os filhos nas escolas e a esperarem que os docentes façam aquilo que é competência dos pais.

Poderia ainda falar do nosso modelo de organização social, que contribui para a falta de tempo de qualidade entre pais e filhos - mas sendo verdade que o modelo não ajuda, infelizmente também não tem todas as responsabilidades. Fica para outros postais.

Discussão 2 - A Notícia

Vendo esta mini-reportagem da SIC Notícias, em que o representante dos pais dos alunos da sala de aulas explica (sic) o ocorrido dentro e fora desta, apercebo-me da impraticabilidade descrita: se o professor agarrou o pescoço do aluno de frente, segundo indicado pelas marcas descritas, nunca poderia bater com a cabeça do aluno na mesa a menos que o forçasse para trás (e o dano seria na coluna do aluno). A alternativa seria agarrar-lhe a face e bater com a própria mão contra a mesa, puxando e não empurrando.

Não pretendo analisar os contornos judiciais deste caso, não o faço em nenhum; apenas denuncio contradições ecoadas sem filtro.

Os órgãos de comunicação social congregam esforços para o sangue; os factos talvez nos venham a ser revelados um dia. Ou não. Mas nos entretantos, entre tantos, não esperem que eu acredite em tudo o que é noticiado.

E muito menos esperem que compreenda as razões dos pais indignados. A reacção deste docente é inaceitável. Mas há muitas inaceitabilidades antes desta - e assobiaram para o ar. Pais, sociedade, comunicação social. Todos são culpados por termos voltado a este ponto.

 

Nota: A Pequeno Caso Sério queria ficar calada mas não conseguiu, e fez muito bem! Nos comentários disse-lhe que o meu comentário teria muitos argumentos. Era demasiado para comentário, não era?

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lançado às 15:31

Obrigada por estar aqui.


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