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Ouço Clara de Sousa, no Jornal da Noite, da SIC: "Manuel Pinho vai mesmo ser constituído arguido no processo EDP. Nova derrota para o juiz Ivo Rosa". Confusa, recuo na televisão a gravação que ainda não está disponível na rede... sim, ouvi bem.

Encontro uma notícia não assinada, no Observador: "Caso EDP. Juiz Ivo Rosa volta a perder na Relação de Lisboa e Manuel Pinho mantém-se como arguido". E fico com menos dúvidas.

 

Se bem percebo, tribunais da relação, ou tribunais de segunda instância, são o garante de que tanto os cidadãos como o representante do Estado, o Ministério Público, podem discordar de uma primeira decisão judicial e apelar para outra entidade: que podem, podemos, solicitar a reavaliação de uma decisão. Os juízes seguem, sempre, o mesmo regime legal; mas, sobre um mesmo caso, apresentam  perspectivas, sensibilidades, interpretações e, por isso, análises distintas uns dos outros - que se podem traduzir em decisões distintas. Daí que na primeira instância as deliberações sejam obra de um juíz e na segunda se submetam a um colectivo de juizes.

Deliberações distintas entre os tribunais da primeira e da segunda instância não são uma derrota deste ou daquele juiz, mas uma vitória do funcionamento do sistema judicial, que prevê este mecanismo também como controlo perante interpretações desajustadas. Porque um tribunal da relação não é um órgão que avalie o desempenho de um juiz - avalia a sua decisão. Portanto, as vitórias e as derrotas são atribuídas aos arguidos e aos acusadores, neste concreto caso o Ministério Público, pois o pleito é entre estes e não entre os tribunais.

Ora como não consta que...

o juiz Ivo Rosa se tenha constituído assistente ou seja arguido no caso EDP;

que este juiz tenha entrado com acção judicial contra alguém, ou vice-versa, no âmbito do mesmo processo;

ou que os tribunais disputem entre si qualquer campeonato...

... parece-me algo abusivo dizer que o juiz, este ou outro, teve uma "derrota" ou "perdeu" perante a anulação de uma sua decisão.

Parece-me mesmo muito abusivo: independentemente da opinião que se possa ter sobre o desempenho deste ou daquele juiz, quando jornalistas relatam factos devem usar da máxima isenção, do maior rigor. A menos que pretendam manipular quem lê e ouve. E depois das polémicas mediáticas havidas com as declarações do juiz Carlos Alexandre, desculpar-me-ão se não atribuir a escolha do léxico ao acaso ou à incúria. 

 

Ainda a propósito da forma das notícias, o Sol apresenta como título "Ex-ministro Manuel Pinho volta a ser arguido no caso EDP" e, em destaque, "Os desembargadores do TRL acreditam que o juiz Ivo Rosa não tinha legitimidade para voltar a nomear Pinho como arguido".

Não me parece que os juízes desembargadores tenham agido movidos por , crença ou convicção, antes por análise e interpretação racional dos elementos que analisaram à luz da lei vigente. Também sei que acreditar pode ter sido usado como sinónimo de aceitar, admitir, considerar válido; mas, dada a perniciosidade da primeira acepção, suponho que os jornalistas poderiam escolher melhor o vocabulário que usam.

 

E sobre a notícia? Verifico que ainda estamos no início da instrução... o que me reforça a ideia de que estes mega-processos foram monumentais erros de perspectiva. Esperemos que não prescrevam antes de ouvidos todos os arguidos.

 

imagem colhida no Medieval Imago & Dies Vitae

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Do ócio e do ódio

por Sarin, em 27.06.19

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Há 15 milhões de jovens na União Europeia que nem estudam nem trabalham.

Serão...

indigentes ?

jovens com problemas de saúde e sem qualquer tipo de apoio escolar?

jovens fugitivos, crianças raptadas há anos, indivíduos cujo assento de nascimento foi feito mas aos quais se perdeu o rasto?

A notícia não esclarece. É pena, porque números, assim soltos, não dizem nada e permitem muitas interpretações. Decido ir à fonte. Mas a notícia não indica qualquer fonte, apenas se refere a "dados hoje divulgados pelo gabinete de estatísticas da UE"... enfim, mais um deficiente serviço noticioso.

 

Abro a página do Eurostat e tento localizar, entre os emitidos hoje, um relatório subordinado a um ou a qualquer dos temas juventude, emprego, escolaridade. Nada. Finalmente, lá descubro o artigo - que, afinal, é de Abril.

Os jovens que nem trabalham nem estudam, nomeados NEET, não se enquadram afinal em nenhuma das hipóteses antes aventadas. São jovens que, acabados os estudos, não conseguem encontrar emprego. Gente em início de vida, cheia de força, prenhe de vontade... e sem onde as aplicar.

 

No espaço de tempo que mediou entre ler a notícia e escrever o postal, li outra notícia: "Europol alerta para a acção de três grupos de extrema-direita em Portugal",  sendo que esta actividade não se esgota no nosso país. Mas é preocupante, vejam-se os números no Relatório Anual de Segurança Interna.

 

Parece-me poder haver aqui uma qualquer relação causa-efeito. E um padrão. E resultados. Não em Portugal - não ainda.

 

E, entretanto, sobre políticas demográficas, sobre políticas de emprego, sobre sustentabilidade social, estamos conversados. Ou melhor, não conversamos. Mas, avaliando pelas conversas do Presidente da República, pelos projectos na Assembleia da República, pelas opiniões dos comentadores políticos e, até, pelas conversas de café, também não deve ser importante.

 

imagem colhida em Segredos do Mundo

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Passando os olhos no portal Sapo, deparei-me com aquilo que supus ser uma nova resposta para o Brexit: os britânicos andam a besuntar-se com óleo de cozinha. A moda, repassada das brumas dos anos 70, promete um bronzeado mais bonito e já granjeou o apoio de 1/5 dos britânicos, . Para quem acredita em carapaus de corrida, fritar por fritar, ao Sol terá talvez melhor saída...

Descubro também que as selfies têm matado mais nos últimos 10 anos do que os temidos ataques de tubarões. Estranhei a notícia, então e os problemas ambientais e as capturas? Reli: afinal estava escrito ataques de tubarões, não ataques a tubarões. Assim, faz sentido!

Mais à frente, leio algo sobre uma foto que está a causar polémica. Espantada por ser apenas uma foto, abro a notícia e vejo que a polémica volteia em torno das mamas descaídas de uma cantora que usou um decote profundo numa gala dos BET Awards. De uma mulher que se aceita e gosta das mamas que tem mesmo que o mundo diga que a norma não é mamas naturais mas seios arrebitados. Palavras para quê? Estou contigo, miúda!

Volto à secção das notícias menos ligeiras, e descubro um artigo intitulado "Pouco dinheiro para férias?" Supus ser um excelente artigo para mais de metade da nossa sociedade, para aqueles cujo salário acaba antes do mês; mas não havia lido o título completo, parece que, por pouco que seja o dinheiro, há sempre uma ou outra cidade por onde se pode veranear. Pouco dinheiro parece ter, afinal, o Jornal Económico, que nesta notícia despiu cabeçalho, uma linha e duas fotografias deixando nua uma notícia que o não é.

 

E pronto, foi isto.

Nota: Se chegados ao fim deste postal não percebem o que tem o texto a ver com o título, é porque não andaram nem andam a prestar atenção às Comissões de Inquérito.

 

 

imagem: está na caderneta de cromos

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"Não pares, não pares"

por Sarin, em 26.06.19

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"O Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, sublinhou hoje que o combate à corrupção “é uma grande prioridade” desde o início do seu mandato, e vincou que o país “não pode parar” com as investigações."  leio no Sapo 24.

Isto quer dizer exactamente o quê? Que Marcelo está pessoalmente empenhado comprometido dedicado ao combate à corrupção? 

E pergunto-me: acaso as investigações parariam se Marcelo pedisse com jeitinho? Ou será por Marcelo pedir para não pararem que Lucília Gago irá diligentemente prosseguir o seu trabalho?

 

Que tem feito Marcelo, afinal e concretamente? Penso que o nosso Presidente se poderia, nos poderia poupar a estes desconchavos acarinhadores. Melhor lhe ficaria se a nós se dirigisse e explicasse o incumprimento das resoluções do Grupo de Estados Contra a Corrupção (GRECO) do Conselho da Europa, supra União Europeia, portanto. Nos dissesse quão longe estamos dessa implementação, nos falasse dos relatórios de avaliação e os traduzisse na sua linguagem de quem conversa em família, que manifestasse a sua preocupação por tanto haver ainda a fazer - devo relembrar o senhor Presidente da República, tão preocupado com as eventuais? supostas? alegadas? paragens das investigações, que uma simples Comissão Eventual para o Reforço da Transparência, eventual como era demorou mais de dois ciclos legislativos para parir um documento que mereceu sérios reparos de quem o teve que validar?

Acredito que seria menos verbo de encher se pedisse, exortasse o Parlamento e o Governo a desenvolverem, a verterem claramente no nosso ordenamento legal todas as recomendações que estão por implementar. Pelo menos ficaríamos a par dos incumprimentos de resoluções concretas. Seria agradável, por uma vez que fosse, que a nós se dirigisse directamente e explicasse que o país não cumpre resoluções tomadas no âmbito de convenções pan-europeias e que por isso exigisse explicações a quem de direito.

Agora, pedir que as investigações não parem? A sério, isso é o quê?!

 

 

imagem : Rapaz a jogar ioió (medalhão de cílix ático , 440 A.C.). de domínio público

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Da resposta devida a um comentário, naufragada entre temporais de disponibilidade e bateria, aproveito para fazer postal. A resposta incial era menos elaborada mas, notando agora que não a submeti, sigo à bolina e abordo mais profundamente dois temas sobre os quais acabei por nunca publicar mais do que comentários: o Politicamente correcto e o Museu das Descobertas de Lisboa.

 
Sobre o politicamente correcto
Ao politicamente correcto surgido nos anos 80 como forma de exigir igualdade no tratamento e elidir conotações desiguais e discriminatórias, sobrepôs-se agora o politicamente correcto referente ao incorrecto, ao exagero. O problema deste termo é que acaba por promover a descredibilização do tal inicialmente correcto. Manipulações linguísticas que muitos usam para retirar força às exigências legítimas. Há muito exagero, sem dúvida, e o exagero é politicamente incorrecto.
Chamemos os bois pelos nomes, e se o PAN não gostar que entre também na discussão.
 
 
Sobre o Museu dos Descobrimentos
Acabei por nunca escrever o postal que alinhavei mentalmente, pelo que aproveito o ensejo.
Um museu destes nesta época faz-me sentido se contar ambos os lados da História, dos descobridores e dos então descobertos territórios para o mundo europeu.
Não contesto o nome, Descobrimentos porque descobertos novos caminhos e novos territórios habitados, sim, mas depois colonizados pelos descobridores. O que alterou todo um modo de vida anterior e desenhou novas sociedades. Agradável ou não, é um facto, e chamar-lhe outra coisa não o vai alterar. Expansão afigura-se-me muito mais colonialista, imperialista: a população não se expandiu, miscigenou-se, e se os territórios inicialmente serviram para expandir impérios, ao cabo de 400 anos recuperaram a independência - um museu da Expansão não pode incluir estes novos países, tem de os deixar de fora do estudo da história sob pena de a continuar a colonizar, integrando-os num território político expandido que já não é o seu.
Não contesto o nome mas contesto tal museu se tem como objectivo único a exaltação, a glorificação da arte e engenho lusos, até porque já temos alguns museus dedicados ao tema.
Um museu dos Descobrimentos tem de contar a evolução técnica, as aventuras marítimas, mas também a história dos encontros de culturas e as suas consequências, boas e más: a escravatura que existia e o nosso papel no processo, a evolução técnica e agrícola e a adaptação das sociedades, o convívio e os processos mais e menos pacíficos de aculturação de ambas as partes, enfim, todas as vertentes de tal mudança.
 
Contesto também que seja mais um museu municipal - um museu destes devia ser supra-nacional pois aborda a história comum a outros estados-nação, história que desenhou novos países e inaugurou uma nova época da humanidade, a globalização. Lisboa é a capital do país, quer um museu dedicado ao tema e tem toda a legitimidade, tem todo o sentido. Mas o Ministério da Cultura deve ter um papel activo na coordenação dos museus, do acervo mas também do objectivo pois trata-se de museus financiados. Assim, um museu dos Descobrimentos em Lisboa, sim, mas pensado como parte integrante de um conjunto e não como um museu autónomo. Lisboa tem de aprender a descentralizar. Incluindo na cultura, dinamizando e privilegiando a ligação em rede.
 
Um museu não é uma bandeira, é um acervo de registos que contribui para contar a História, e por isso não deve, pelo menos não devem os que têm capitais públicos, ser usado com fins políticos. Excepto no cortar da fita, pronto. As polémicas geradas em torno da questão são políticas e não se centraram nem centram, afinal, no museu mas em interpretações da História.
 
Por outro lado, os museus tendem a ser vistos como mostruários. Quando serão projectados como fonte de conhecimento? Quando os usaremos interactivamente como investigação e aprendizagem? Este seria uma excelente oportunidade para tudo isso: definindo pólos em diversos locais geográficos, até noutros países, criar-se-ia uma rede de museus especializados ligados sob o mesmo tema - verdadeiramente ligados, com partilha do acervo, com interactividade entre investigadores e público localmente e via videoconferência... as possibilidades são enormes. E querem reduzir tal potencialidade a umas salas com montras? Cristalizadas numa história que já foi contada de várias maneiras?
 
Deixo o Centro Interpretativo de Belmonte como exemplo de interactividade.
Ou, dedicado a outra época, o antigo Museu Militar de São Jorge: de Museu passou a Centro de Interpretação da Batalha de Aljubarrota.
Visitem, e depois contem como foi.
 
 
 
imagem: Caravela Vera Cruz no Rio Tejo, de Lopo Pizarro

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Madeira ou metal?

por Sarin, em 24.06.19

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Lia num postal opinião sobre a opção de um café que passara a disponibilizar paletinas de madeira em vez de colheres de metal. Pelo texto e pelos comentários, percebi que todos preferiam as colheres de metal às paletinas de madeira por questões ecológicas.

Será mesmo melhor optar pela colher de metal?

Uma paletina de madeira é usada uma única vez. Tem apenas madeira. É reciclável e sofre degradação natural.

Uma colher de metal é reutilizável. Para ser reutilizada precisa de ser lavada com detergente vendido em embalagens plásticas que, para ser detergente, tem de conseguir emulsionar a sujidade recorrendo normalmente a compostos tensio-activos que obrigam a tratamento das águas antes de devolvidas aos mares; tem de ser lavada a 55-60•C, temperatura de desinfecção, para o que exige um equipamento que consome electricidade e aquece o ambiente envolvente seja Verão ou Inverno. A colher é geralmente constituída por ligas de metais, o que torna a sua reciclagem difícil. Se se perder, não se degrada no meio ambiente.

Se formos analisar o processo de reciclagem, os custos ambientais são ainda maiores: as paletinas podem ser recicladas enquanto madeira (para combustível ou serradura para camas animais, por exemplo) ou podem ser recicladas com outras matérias celulósicas na produção de pasta de celulose para uso na produção de papel e de outros produtos, incluindo objectos utilitários ou de decoração. A colher de metal ou pode ser fundida numa amálgama que mantenha características metálicas suficientes para moldagem resistência e adequação ao uso, ou tem de passar por um processo de separação dos metais que nem sempre é viável, o que leva ao seu depósito em aterros onde ficará séculos até se degradar.

E, claro, temos a questão a montante: a produção.

A produção florestal, se devidamente organizada, contribui para a manutenção da biodiversidade, combate a erosão e a desertificação, promove o aproveitamente paisagístico, aumenta as quotas de carbono, além de ser uma actividade económica que promove trabalho ao ar livre e contribui para a função fundamental da fotossíntese. A transformação da árvore em paletina é um processo mecânico.

A extracção de minério fere a paisagem, é uma actividade de elevado risco para os trabalhadores e recorre a elevado consumo de energia podendo os processos extractivos ser altamente poluentes, pois vão da perfuração mecânica à dinamitação e à fracturação hidráulica. A transformação do minério em colher exige processos físicos (fracturação, fusão a altas temperaturas), químicos (lavagens e depurações) e mecânicos (moldagem).

 

Nem sempre o que parece ser mais ecológico o é.

Mas nós, cidadãos, não temos de conhecer todos os processos produtivos, certo? No entanto, para fazermos escolhas ecologicamente conscientes devemos mesmo conhecê-los. Porque em produção florestal, uma árvore abatida significa uma nova árvore plantada. Significa renovação florestal. Significa sustentabilidade.

 

Adenda: em comentário, é sugerida a partilha de ligação para o postal que, contrariamente ao indicado, não citei, pois nem transcrevi nem usei como referência, mas que mencionei por, em conjunto com os comentários, me ter levado à escrita deste. Não o liguei por não ter sido o conteúdo do postal a espoleta, antes a unanimidade da opinião. A omissão foi, assim, natural e não intencional; mas porque a sugestão é boa, fica a ligação para o postal d' O último fecha a porta.

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Lido e ouvido sobre o racismo

por Sarin, em 23.06.19

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Na sexta-feira li de Alexandra Lucas Coelho um artigo de opinião no qual estranha a quase inexistência de alunos negros numa escola de artes cénicas sediada numa zona onde costuma "ser das poucas pessoas brancas, ou mesmo a única, numa carruagem, sobretudo à noite."

Não concordarei com tudo o que diz ALC, até porque no texto defende a inclusão da tal pergunta, mas percebo onde quer chegar. Nomeadamente, à inexistência de dados que sustententem ou rebatam a sua percepção quanto à desproporção entre o número de alunos negros e a população envolvente.

Algures no texto, indica o racismo como uma das causas para a falta de representatividade de negros numa escola inserida num meio proeminentemente negro.

Não argumento - como ela, não conheço os números. E não tenho a sua percepção, pois não vivo na Grande Lisboa. Mas também noto a quase inexistência de professores negros, bancários negros, jornalistas negros, actores negros, médicos negros, empresários negros. E interrogo-me porquê.

Ontem mal consegui ler fosse o que fosse, mas passou-me pelos olhos um artigo lido agora com calma, que refere que Milton Gonçalves, actor e presidente do brasileiro Sindicato dos Artistas, vai processar Paulo Betti, actor e concorrente à direcção do mesmo sindicato, por racismo. Porque este terá dito que a actual direcção tem  "uma forte representação negra e isso pode confundir as coisas" - presumindo eu que "as coisas" sejam a luta sindical e a luta contra a discriminação, esta muito activa no Brasil.

 

E pergunto-me que mundo é este, onde uma fotografia e o seu negativo são declarados racistas mas pelos motivos inversos: haver poucos negros numa instituição é racismo, dizer que há mais negros do que brancos numa instituição é racismo. Assim. E em português.

 

 

Esta madrugada, Ricardo Araújo Pereira, Pedro Mexia e João Miguel Tavares falaram também da pergunta recusada pelo INE. JMT ficou-se no nim, ao recusar o endosso de "raça" mas ao ser sensível ao argumento da necessidade de quantificar a população das várias comunidades (sim, a pergunta já vai com esta interpretação), PM apontou a necessidade de tal quantificação mas também a importância de clarificar a recusa do INE, pois com a recusa ficou no ar a ideia de um inquérito autónomo e mais aprofundado sobre a questão (também assim li, e a ele aludo no meu postal quando digo responder mas não ao Gabinete dos Censos), e RAP, o mais parco em explicações na matéria, teve a frase da noite, que tento citar de memória "No meu tempo, os racistas é que falavam em raça. E digo 'no meu tempo' porque o que antes era racismo agora já não é, e o que hoje é racismo na altura não era."

Os seus tempos são também os meus.

 

 

imagem colhida no Mercado Livre

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As casas do monopólio

por Sarin, em 21.06.19

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Passo os olhos nas notícias e leio:

"Arrendatários de bairros sociais vão poder beneficiar de redução ou eliminação de multas."

 

Passo à frente, pensando "olha, contrapartidas para quem arrenda casas sem saber até quando". Mas enquanto avanço e relembro, por falar em dinheiro, que Notre Dame recebeu 9% dos apoios sonoramente prometidos e estes 9% vindos afinal de pequenos doadores, vou também pensando a que multas se poderão recusar os donos das casas arrendadas. Atraso no IMI? Na declaração de IRS? E num micro-segundo de pausa, o alerta: estava escrito arrendatários!

Volto atrás, e leio na notícia coisas como redução ou eliminação da indemnização pelo atraso no pagamento das rendas pode ser acordada entre senhorio e arrendatário, “sem prejuízo do direito à resolução do contrato e à cobrança de juros de mora, em caso de incumprimento do acordo”.

Perplexa, pergunto-me se não será este ponto comum a qualquer contrato, quero dizer, haverá leis que obriguem senhorio e arrendatário ao contrário do entre si acordado quando o acordo não é lesivo do interesse de terceiros?

Mais abaixo leio que esta lei  introduz proteções contra o despejo de inquilinos idosos ou deficientes e que residam nas casas “há mais de 15 anos” para contratos anteriores a 1990 e “há mais de 20 anos” para contratos celebrados entre 1990 e 1999.

Contas rápidas, um inquilino que viva há mais de quinze anos em algum local terá  entrado no local em 2004. Quatorze anos depois de 1990. Significará isto que se o contrato for de um avô que arrendou a casa em 1976, e que entretanto foi acolhendo a família, o neto não pode ser despejado se residente na casa desde 2004, o que quase significa dar a posse da casa à família? Ou quererá dizer que o escrevedor pretendia transmitir, mas falhou, que quem ocupar a casa já desde 1976 e tiver contrato de arredamento datado de 1990 não poderá ser despejado?

 

Ou a notícia está muito mal redigida ou está a lei. Como à lei ainda não li, o que fica para mais tarde, apenas posso supor.

E suponho que a notícia esteja mal redigida e a lei redigida fora de tempo, ou dentro conforme as perspectivas - porque, e genericamente falando, tanto precisa de revisão a gramática dos escrevedores de jornal como precisa o problema da habitação em Portugal.

Acreditem que terei muita satisfação em pedir desculpa se estiver errada.

 

Adenda: os parágrafos a itálico são transcrições e respeitam por isso a ortografia original. Eu não escrevo segundo as regras do AO90.

 

 

imagem colhida no Sol

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A gralha de rapina

por Sarin, em 21.06.19

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Snow Harpy, de Mark Bulahao

 

Lia no Sapo 24 uma crónica sobre o concerto do Eddie Vedder - do, não de, porque o artigo se intitula "Eddie Vedder é um de nós" e as palavras nele nos transportam àquele lugar e àquele momento em que Vedder é e se sente Eddie entre nós. O Eddie.

 

Saudavelmente triste por não ter estado presente, dançava no tom da prosa sentindo na pele surda o calor do momento que não vivi...

... e num suspiro de notas falsas tropecei em gralhas que me pareceram gaviões bicando as entranhas do texto. Morto. O momento estava morto e o sangue ali jorrado manchou-me a Língua e os despojos da crónica.

Mas Eddie continuará a ser um dos meus.

 
 
* "já depois de Glen Hansard (e que fabuloso foi Glen Hansard!) se ter encarregue"
Poderia a ansiedade confundir verbos auxiliares, mas apenas a paixão daria vida a um particípio inexistente. Hansard ter-se-á encarregado de a sublimar. Ou não.
 
* "ter aberto as hostilidades sonoras"
Estranho a metáfora. Sim, é moda... e é errada a moda e é inadequada a expressão ao momento intimista assim confrontado com evocações de barbárie. 
 
* "e ainda nos entreteu com as suas guitarras"
Entreteceu o autor as conjugações, entristeceu quem lhe leu os inglórios tropeções... o Eddie entreteve. Quem lá esteve, que eu por cá ainda triste e assim mais.
 
 

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das raças, dos sensos e dos censos

por Sarin, em 20.06.19

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Nunca percebi isto das raças humanas. Caucasóides, Negróides e Mongolóides sempre se esboroaram nas perguntas que fazia, nenhuma resposta antiga satisfazendo as minhas dúvidas.

Segundo o que li e continuo a ler, as classificações das raças humanas baseiam-se em questões anatómicas: o formato do crânio, do nariz, do maxilar, da testa... e não, abaixo do queixo não apresentam grande distinção, esqueçam lá isso.

A frenologia é uma pseudo-ciência, desvalorizada por praticamente todos os investigadores dado não apresentar sólidas evidências que relacionem a estrutura dos ossos do crânio com a personalidade do indivíduo; mas no século XIX tinha alguma validade e chegaram a consultar frenologistas em matéria de criminologia. Bom, eu penso que as teorias racialistas estão ao nível da frenologia. 

Peguemos numa das que dizem ser distinções das raças: o formato do crânio. Os negróides têm crânio dolicocéfalo, mas alguns têm-no braquicéfalo; os mongolóides têm crânio braquicéfalo, mas alguns têm-no dolicocéfalo; e os caucasóides sem dúvida que o têm dolicocéfalo, mas nem todos porque os há braquicéfalos. Estes "alguns" e "nem todos" não são indivíduos aleatórios mas grupos de indivíduos originários de uma mesma região, a que atribuiram a classificação de sub-raças. Suponho que outras diferenças dentro das sub-raças definiriam sub-sub-raças, mas talvez aos investigadores racialistas não seja útil seguir por aqui, não vão descobrir sub-sub-raças negróides cujas características sejam iguais a sub-sub-raças caucasóides - é que perante tal nem os mais astutos se desembrulhariam e poderiam os dados acabar por autopsiar de vez uma teoria que, para esta leiga, se assemelha a uma fraude maior que o Homem de Piltdown. 

Então, se um negróide pode ter as mesmas características que um caucasóide, como se define a raça? "Pela cor da pele." Ah, a cor da pele, essa barreira...

E, assim, cheguei aos dias de hoje acreditando não existirem raças humanas. E cada dia mais convicta. Até porque entre animais selvagens falamos de sub-espécies, raças reservamos unicamente para os animais domesticados. Raça é uma criação humana, não apenas o conceito, que esses são todos, mas a própria diferenciação anatómica tão cara aos criadores de puros-sangue de tantas espécies.

E lembremo-nos da escravatura, que vai muito além daquilo que os nossos lusos ancestrais fizeram e que deles não foi nem invenção nem exclusivo: escravatura é todo o acto de subjugar um indivíduo, domesticando-o e considerando-o propriedade. Numa época pós-iluminista em que barcos de expedição se cruzavam com barcos negreiros sem qualquer rebuço, seria natural, fácil e até politicamente relevante racificar a humanidade. E não confundamos raças com castas, por favor. Penso que ter uma base científica para justificar o tratamento desigual lhe seria, à sociedade ocidental, muito mais racional e adequado aos tempos dos grandes filósofos modernos - uma excelente justificação para costumes antigos e economicamente confortáveis. 

Mas não, creio pelas evidências científicas que o homem se adaptou a quase todos os climas, e nisto seremos das poucas espécies conhecidas assim quase ubíquas, e com os diferentes climas surgiu a diferenciação na organização social dos indivíduos e na organização de algumas células do indivíduo (não valerá a pena falar desta questão, na escola falámos de hereditariedade e da teoria das espécies, e todos saberemos que os olhos e pele clara são típicos dos nórdicos e que a pele clara fica normalmente morena ao sol - excepto talvez a daqueles indivíduos que têm pouca melanina e muita pressa de a activarem, o que apenas lhes vale queimaduras de primeiro e segundo grau). Com a incursão dos povos noutros territórios, noutros povos, as características deixaram de estar concentradas em grupos homogéneos - globalizaram-se de acordo com a dominância genética em cada reprodução.

 

Vem esta longa introdução a propósito dos censos e daquela pergunta que o Grupo de Trabalho criado pelo Governo tinha recomendado ao Instituto Nacional de Estatística, e que este recusou: a que grupo étnico-racial pertencemos, cada um de nós.

Pergunta cuja recusa fez alguns actores políticos e comentadores da nossa praça arrancarem os cabelos e acusarem o INE, o Governo, a Oposição, e até talvez a Maria da Fonte, de quererem empurrar o assunto do racismo com a barriga.

Pessoalmente, agradeço que a tenham retirado, pois perante tal pergunta sou muito bem capaz de me dizer túlipa arraçada de pão-de-ló - porque, vejamos, não será pertinente começarmos por esclarecer muito bem o que é isso de "grupo étnico-racial"?

Grupo étnico percebo, compreendo, aceito, respondo. Embora não ao Gabinete dos Censos, mas já lá vamos. Etnia é cultura, vivência, povo. Agora, raça... tecnicamente pode ser sinónimo de família, de grupo com usos e costumes iguais entre si. Mas a confusão que vai, que nos vem de séculos, com este conceito, parece-me mais do que suficiente para desaconselhar o seu uso em questões desta natureza.

E, afinal, no Grupo de Trabalho e no grupo dos comentadores descabelados, defendem a existência de raças humanas?

Porque se com a pergunta querem respostas para aquilatar a dimensão do racismo em Portugal, penso que deveriam começar por esclarecer de que racismo falamos, do que se centra no grupo com hábitos distintos ou naquele que tem por alvo o indivíduo com fenótipo diferente - e que fenótipo. Porque não acredito que as loiras sejam burras, e assim morena aguardo interessadíssima o esclarecimento desta questão "etno-rácica" e de quais os fenótipos que entendem dignos de nota. Também não percebo como pretendem medir o racismo por aqui, mas primeiro esclareçam-me estas questões, por favor.

 

Note-se que defendo que se conheça com a maior exactidão possível os grupos étnicos que compõem a nossa sociedade, mas este aprofundar maciço por parte do Estado levanta-me várias dúvidas sobre a sua interpretação: será um açoriano do mesmo grupo étnico que um transmontano? E um cabo-verdiano de 50 anos que chegou a Portugal há 44 e que de Cabo Verde guarda as mornas e o embalo da grande Cesária, a que grupo étnico pertence? E um português filho neto e bisneto de ucranianos, qual a etnia se nem fado nem hopak?

Desculpar-me-ão a falta de clarividência, mas não percebo de que serve ao Estado usar os censos para conhecer os grupos étnicos e a sua dimensão. O Estado deve preocupar-se com estabelecer regras de cidadania iguais para todos, sem adaptações. Ou estaremos a querer legislar em função da etnia?

A etnia importa, e deve ser tida em conta quando se lida com as pessoas. Por exemplo, quando se metem famílias inteiras em bairros sociais criados para o efeito - se os apartamentos são destinados a grupos que fazem da cozinha o centro da casa, por que demónios insistem em construir cozinhas minúsculas e salas enormes? Este é apenas um exemplo, minúsculo, de como o desconhecimento, a irrelevância dada à etnia, cria muros cujo derrube sai caro.

E não é um inquérito de 10 em 10 anos que caracteriza as pessoas. Isso faz-se no terreno. Todos os dias. Com outras ferramentas.

 

 

imagem: Gulliver em Brobdingnag, de Jean Grandville. de domínio público. colhida na Wikipédia

 

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