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Sarin - nem lixívia nem limonada

Um blogue irregular onde ideias e desabafos podem nascer e morrer. Ou apenas ganhar bolor. Não faltava onde escrever e opinar. Mas faltava o blogue. Pronto, agora já não.

Sarin - nem lixívia nem limonada

Um blogue irregular onde ideias e desabafos podem nascer e morrer. Ou apenas ganhar bolor. Não faltava onde escrever e opinar. Mas faltava o blogue. Pronto, agora já não.

A História e os erros históricos

I

A França vai devolver artefactos e peças de arte subtraídos às antigas colónias durante a vigência da colonização.

Não se trata de ressarcir ninguém por ter estado do lado errado da história, mas de devolver parte dos registos culturais às origens, despidas que foram estas de tantas das suas obras durante parte da sua história comum.

Os museus franceses ficarão mais nus, mas os povos estarão mais próximos das suas artes e das suas histórias.

 

Os museus britânicos vão ceder temporariamente algumas peças a museus das antigas colónias. Será uma forma de branquear - não apenas de lavar mas de tornar branco imperial - o facto de não abrirem mão do saque. E teriam mãos cheias para abrir; mas não, os ingleses - pois que são os museus ingleses que concentram tais peças arrancadas de todos os cantos do mundo - não ponderam, por enquanto e que seja público, reavaliar tais devoluções. Embora apoiem a devolução do património judaico subtraído pelos nazis, mas aparentemente desde que tal património seja artístico pois nunca mais li nada sobre o ouro checoslovaco, a menos que por ser checo e eslovaco lhes não mereça as mesmas considerações.

Questões demasiado subtis para que eu consiga perceber.

Mas as devoluções não são mais do que justiça, pois se é verdade que no mundo animal impera a lei do mais forte, a verdade é que já não somos assim tão animais e há milénios que reconhecemos a importância da arte. Entregar o seu a seu dono. Como devolver aos judeus as obras pilhadas pelos nazis. Justiça, sim, e tardia.

[Claro que ninguém fala em devolver a Portugal as jóias roubadas nas invasões francesas nem, antes, durante o domínio dos Filipes; mas isso porque se perdeu o rasto, e temos por cá muitas jóias parecidas. Como aliás, temos terras parecidas com Olivença e por isso a deixamos para quem a gere, ou temos águas do lado de cá do Alqueva que construímos e por isso não batemos o pé quando os espanhóis nos interditam a navegação no lado deles - esqueçam, é outro assunto, voltemos ao cerne.]

 

II

Na Holanda, a companhia ferroviária estatal, Nederlandse Spoorwegen (NS), vai indemnizar todas as vítimas do nazismo que foram transportadas de comboio para os campos de concentração. Já antes a francesa SNCF havia feito o mesmo às vítimas francesas.

Trata-se aqui de empresas civis assumirem responsabilidade por actos praticados durante a guerra, e sobre os quais não há sequer consenso sobre serem colaboração dada ou forçada.

Portanto, de indemnizar as vítimas por uma circunstância que transcendeu os que assumem tal responsabilidade.

É interessante analisar este  precedente: 

* Por um lado, empresas que aceitam uma responsabilidade que objectivamente lhes não pode ser atribuída, como forma de evitar demandas jurídicas e quebras de simpatia na opinião pública;

* Por outro, a responsabilização da sociedade civil por actos de eventual colaboracionismo;

* Por outro, ainda, a centralização do discursos indemnizatório apenas nos judeus.

 

Os judeus sofreram às mãos dos nazis. Os católicos às mãos dos anglicanos. Os judeus às mãos dos católicos. Os católicos às mãos dos católicos. Os romanos às mãos dos bárbaros. Os lusitanos às mãos dos romanos. Os pictos às mãos dos romanos. Os troianos às mãos dos gregos. ... Estamos só a falar da Europa.

Ao longo da história houve sociedades que condenaram grupos e até outras sociedades ao sofrimento, que lhes alienaram direitos e cultura e modo de vida. Em tempo de guerra mas também em tempo de paz. É o princípio da coexistência pouco pacífica... Responsabilizar sectores dessa sociedade, compreendo - mas não foi para isso o Plano Marshall e não foi também para isso Israel?

Quando acaba? Ou não acaba, e chegará a vez de outras empresas, de outras sociedades, de outros povos?

 

Devolver o espólio cultural ao país de origem é devolver o acervo à História. Indemnizar pela História é outra história.

Unfair play de articulistas de desporto

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No Sapo 24 de hoje, aparece um artigo intitulado

"Premier League: três motivos para perceber o ódio entre o Arsenal e o Tottenham".

 

Não li o artigo. O título foi suficiente para perceber qual é  o principal motivo.

 

Na Premier League, ou nas ligas com os nomes dos patrocinadores, os adeptos da violência surgem nas bancadas mas também nos cabeçalhos dos jornais. Resta-me esperar que, nestes, seja por inadvertência editorial - por advertência já cansa.

 

Mas, porque me atenta muitas vezes o bichinho do benefício da dúvida, fui investigar o que diz o autor sobre si, e descubro que quem assim escreve é "um jovem treinador" que trabalha "na terra de sua majestade", ainda que venere Bobby Robson e não Isabel II.

Passou, assim, de articulista a treinador que usa a palavra ódio para se referir à animosidade entre alguns adeptos de clubes rivais - para mais num país que teve  graves problemas de violência entre adeptos e que entretanto os conseguiu controlar.

 

Serei apenas eu que considero o conjunto uma deprimente normalidade?

 

Desejo sinceramente que este "jovem treinador" amadureça o suficiente para perceber que ser treinador não se esgota no treino do jogo, que o treinador treina mentes e molda indivíduos.

Desejo também que, no processo, se aperceba da diferença entre escrever qualquer coisa na comunicação social, tarefa para treinadores de bancada, e a responsabilidade que deveria orientar profissionais quando peroram sobre a sua área temática. Não?

Estranho sonho de construção

Em criança construía sonhos com Legos. Uma simples caixa de algumas peças transformava-me na mais conceituada arquitecta do universo e da minha rua. Ganhei-me vários prémios, e até um Pritzker me atribuí pela carreira, mas os meus empreendimentos nunca sobreviviam às tempestades Sarin, que destruíam Roma sobre Roma em menos tempo do que leva a dizer Bauhaus e o resto do texto em alemão.

 

Soubesse eu e apenas teria construído hospitais, que permaneceriam intactos até ser oportuno inaugurar as notícias: se o Estado não protocolasse nada e eu não tivesse capacidade para atrair pacientes, talvez por não ser o objectivo, restar-me-iam sempre as peças para atirar à cabeça dos governantes, qual comentadora de redes sociais que só lê "hospitais às moscas". E, claro, ainda poderia conseguir salvar a placa e vender a qualquer outro privado. 

Vacina contra a confusão de poderes

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(fonte da imagem aqui)

 

 

Ontem a Assembleia da República aprovou a integração de 3 novas vacinas no Plano Nacional de Vacinação. A proposta foi do PCP, e foi aprovada com votos favoráveis do PCP, do PSD, do BE, do PEV e do PAN. O CDS-PP absteve-se e o PS votou contra.

As vacinas eram já recomendadas por grande parte dos pediatras, e a própria Sociedade Portuguesa de Pediatria defendia a imunização das crianças com tais vacinas, as quais seriam administradas em idades distintas.

Os custos destas imunizações, suportados pelos pais, orçaram este ano mais de 600€ (custo total das doses das três vacinas). Convém lembrar que não são ministradas nas mesmas idades, portanto estes 600€ dividem-se entre os 2 meses e os 14 anos. Negociadas em escala, sairão muito mais baratas ao Estado - quer pelo custo directo, quer pelo custo indirecto associado ao internamento.

Promove-se a Saúde individual e pública, redireccionam-se os recursos hospitalares antes dedicados ao tratamento das doenças em causa e poupa-se no bolso do cidadão, três vantagens absolutas e inegáveis.

 

Mas...

A Ministra da Saúde não sabia de nada e a Direcção Geral de Saúde não foi consultada.

E eu pergunto como é que chegámos ao ponto de termos os deputados a votar matérias tão específicas sem consultar os órgãos envolvidos no processo. 

Não é que eu não seja pela prevenção.

Não é que goste de ver crianças e adultos doentes quando há vacinas disponíveis no mercado.

Não é que não ache correcto o Estado substituir-se às famílias no que se refere à saúde pública.

Não é que não seja. Mas as coisas são como são.

E é facto que uma vacina pode ser comparticipada, parcial ou até integralmente, pelo Estado sem que esteja incluída no Plano Nacional de Vacinação.

É facto que a vacinação é um processo de inoculação do corpo que geralmente corre bem mas nem sempre, e por isso a sua administração deve ser ponderada não apenas pela lógica do custo material e do benefício imediato mas também pela óptica do organismo vivo e da sua dinâmica sistémica.

É facto que a Saude Pública é uma questão política mas também técnica que necessita de técnicos de saúde para ser devidamente pensada e executada, sendo os órgãos máximos da Saúde Pública em Portugal a Direcção Geral de Saúde, como órgão técnico, e o Ministério da Saúde, como órgão político.

Mas parece que há um novo facto: ser deputado confere omnisciência.

 

Já era contra a obrigatoriedade da vacinação, que felizmente não passou. Imagine-se um plano de vacinação obrigatório a ser coordenado pelos deputados... fico doente.

Percebi a intenção. Mas não. Assim não.

 

A Assembleia da República pode e deve fazer recomendações ao Governo. Não se pode substituir ao Governo, por questões óbvias de separação de poderes, e muito menos se pode substituir aos órgãos técnicos que nos governam - coisa que pensava ser também óbvia numa assembleia que congrega profissionais de vários sectores.

Porque há-de o PNV ser aprovado na Assembleia da República, sequer? Ou, então, porque não aprova a Assembleia da República o caderno de encargos de cada obra promovida pelo Governo Central? Ou cada contrato de parceria público-privada, cada emissão de dívida pública, cada computador onde marcam as presenças?

 

Liberace over the rainbow

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(fonte da imagem aqui)

 

Estava em amena cavaqueira com dois simpáticos bloguistas, e oh! desculpem-me, mas se nada tenho contra estrangeiros por serem estrangeiros, já os estrangeirismos dão-me cabo da moleirinha; eu sei que acabarão por (se) vingar, mas ainda posso presidir ao seu assassinato ou reinicializar o tema até acertar na muche! Por isso insisto no bloguista em detrimento do blogger, e nada tem a ver com o desacordo heterográfico. Allez!

Dizia que estava em amena cavaqueira sobre um antigo blogue de sexo, falou-se num blogue gay, brinquei com os termos gay e jolly, e subitamente ocorreu-me:

Será que a malta que tão intransigentemente adultera a nossa Língua, como o camarado e outr@s extremist@s da genderização (olha outra!), não necessariamente bloquistas (nem bloguistas)...

.... que justamente reclama sobre a discriminação de género e exige, também justamente, paridade para os homossexuais....

... e que a Homossexual prefere o termo Gay, num colorido LGBTTT...

... será que, pergunto eu talvez não originalmente mas com muita curiosidade, ...

... se apercebeu que ao usar o termo Gay está a recorrer a uma das primeiras discriminações da época pós-vitoriana, em que os dândis (dandy, pl. dandies) eram aqueles senhores bem vestidos e os homossexuais eram-no todos mas com cores mais berrantes e por isso terem  merecido o insultuoso epíteto Gay?

 

Oscar Wilde teria achado um must!

Como trato os meus erros de comunicação

Gosto de comunicar. Por isso gosto de aprender sobre as muitas formas de comunicar que temos, a oralização e o gesto a encimar a lista.

Preferindo de criança as Ciências Naturais, dediquei e dedico tempo e interesse às Língua Portuguesa e Língua Gestual Portuguesa, a algumas Línguas estrangeiras e à Neuro-Linguística. 

 

Sou fluente em algumas, sofrível noutras e devo dizer que com o alemão sofro quase o mesmo que com o mandarim, o íidiche ou o árabe, línguas em que, se fosse dada à pesca, não pescaria nem um plástico quanto mais um carapau.

 

Folheio dicionários e gramáticas por gosto e por hábito, e é também por hábito que ao escrever um texto me certifico de que uma determinada palavra não tem significados que eu desconheça e me possam desvirtuar a mensagem. O mesmo faço quando as dúvidas gramaticais me atravessam, embora estas sejam bem menos porque a gramática não é tão dinâmica como a semântica; e faço-o porque gosto e respeito a comunicação e as Línguas que no-la facilitam.

 

Numa conversa fluída e informal, na qual o tempo que medeia entre pensar e expor a frase é tão mais reduzido, poderá surgir uma ou outra dúvida, facilmente sanável com uma explicação mais aprofundada - na semântica, porque na gramática o pontapé tanto pode doer-me à saída, e eu mesma interrogo ou corrijo, como doer a outros, e cá estarei para analisarmos se foi ou não exercício de kung fu.

 

Tal como cá estou e estarei para corrigir falhas nos meus textos, assim as detecte ou as apontem. [Considerem um convite aos alertas, convite feito, aliás, num dos textos orientadores cá do burgo.]

 

Os comentários em jornais ou em blogues são para mim conversas, não textos, e quando não são editáveis dificultam a correcção do auto-detectado, só mesmo com errata... e, ainda assim, quando o meu erro me fere, lá vou. As gralhas, se não forem gralhudas, não causam engulho e por isso deixo-as voar se libertas, que também são criaturas do teclado que nos une. Tento evitar ambos, erros e gralhas, mas por vezes abrem as asas. Ou as fauces, que há gralhas e erros que assustam.

Porque num comentário nascido do calor do debate só há tempo para lançar mão do conhecimento que detemos e, eventualmente, de fontes que o sustentem, ao conhecimento do tema e não propriamente da Língua, quantas vezes se me escapa um acento, circunspecto circunflexo a voar  qual chapéu distraído no vento, ou um agudo que se assenta numa esdrúxula e me cai ao chão; litros de aliterações forçadas, plurais que singularmente se submetem e até artigos a preceder palavras transgéneras quais valetes em antecâmara de uma dama... um dama, perdão, um drama!

Mas, e porque o meu amor à Língua Portuguesa não me torna infalível, além do esvoaçar das gralhas uma ou outra vez tropeço com estrondo.

Aconteceu ontem, por exemplo.

Num comentário a um postal de outro blogue, escrevi "Porque continuarão a haver audiências mistas e plateias só de homens e assistências só de mulheres." Poderia ter escrito "continuarão a surgir" ou "continuarão a juntar-se" ou até "continuarão assistências", assim mesmo sem mais nada; mas na guinada do raciocínio saiu isto.

Fui alertada para o gravíssimo erro, e segue em itálico porque assim foi escrito e porque erros de conjugação verbal são, também para mim, gravíssimos.

Analisando a frase entretanto publicada e assim comentada, surgiu-me a dúvida: "o verbo haver é irregular, mas aqui surge precedido de preposição e funciona como complemento da oração... o que está a ser conjugado é o verbo simples "continuar", portanto o "haver" nem funciona como principal nem como auxiliar... ou nada disto?!" Pedi explicações, mas como tenho lido vários comentadores que identificam os erros (muitos deles inexistentes) sem o conseguirem explicar ou corrigir devidamente, enviei pedido de assistência ao Ciberdúvidas.

Entretanto, o comentador escreveu sobre a lamentável conjugação do verbo haver que prolifera por este país, mas não percebeu a minha questão - verbo composto ou verbo simples - e entendeu estar eu a recusar ter um erro gramatical no meu texto. Esclareço: não tenho especial predilecção por erros e prefiro passar sem eles, mas se e quando os dou gosto de corrigi-los porque me corrijo - e não tenho pejo em o assumir, ao erro mas também à correcção. Não por ser humano errar, mas por ser inteligente não insistir no erro. Só que corrigir um erro implica perceber as causas desse erro, caso contrário corrigir-se-á aquela expressão particular mas não o que a permitiu, perpetuando-se assim o erro que se multiplica feliz na sua própria inconsciência. Distingue-se, em várias disciplinas, a Correcção (corrigir o erro escrito) e a Acção Correctiva (perceber as causas e eliminá-las, evitando novas ocorrências do erro)

 

Do Ciberdúvidas tive notícias há pouco: a expressão continuar a haver é um verbo composto. Não me responderam exactamente assim, antes "Quando o verbo "haver" se combina com um auxiliar - por exemplo, "continuar", como é o caso (...)". Mas era este o cerne do meu erro, e é este esclarecimento que me fará evitar novos tropeções - porque agora sei e fixei que, mesmo que seja dispensável, ou que tenha uma preposição a separá-los, o verbo Haver forma um verbo composto quando com outro verbo.

 

Se tivesse pensado no assunto, talvez me tivesse lembrado do estar a ser ou do ficar a ver, compostos tão comuns. Mas todos sabemos que se a minha avô não tivesse morrido a futurologia não teria futuro e o Senhor de La Palisse não seria chamado ao caso - ele que, coitado, nada mas nada tem a ver com a lapalissada que lhe atribuem.

A verdade é que há regras, gramaticais ou outras, cuja existência apenas questionamos quando nelas tropeçamos.

Só tenho a agradecer o alerta.

 

 

Nota de Rodapé

Sobre a maltratada memória do Senhor de La Palisse, celebrado por ser valente cavaleiro no comando das suas tropas caído frente a Pavia, e a quem atribuem a frase "Se não estivesse morto, estaria ainda vivo" (S'il n'etait pas mort il serait encore en vie) convém dizer que no seu epitáfio, ou em versos cantados pelos seus soldados que lhe sobreviveram, teria sido escrito "Se não tivesse morrido, ainda faria inveja" (S'il n'etait pas mort il ferait encore envie). A confusão parece resultar da grafia - nos antigamentes do Séc. XVI o S também se escrevia com um grafema hoje quase indistinto do f, e parafraseando, ser ou fazer, eis a questão.

É por estas e por outras que penso ser melhor deixar a sua memória em paz. E a da minha avó também...

Como as eleições determinam o que votar

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(fonte da imagem aqui)

 

 

Para quem chega esperando um postal sobre o condicionamento do voto em alguns regimes, desenganem-se: esse tema fica para outros devaneios. Hoje debruço-me, afloro ou mergulho, logo se verá, nas votações em Portugal, no geral.

E isto por causa dos Sapos do Ano, votações sobre as quais muito especialmente falarei. Quem não sabe o que são, aconselho a visitar - siga a ligação ou o primeiro sapo ilustrado, à direita ou abaixo conforme a dimensão do ecrã).

 

Calmamente visitando todos os blogues nomeados em cada categoria, comecei por pensar em mandar a votação votar sozinha; como escolher entre tantos e tão diversos mas agradáveis resultados da entrega dos seus autores, onde todos e cada um se dá e me dão tanto sem esperar qualquer retorno?

 

Entendamo-nos: por cá a menestrel trata da escrita pois que do seu pelouro, mas sente o que a almoxarife pensa, e nestas coisas de votar a menestrel e a bobo votam na outra como porta-voz. Sendo a almoxarife moça dada à reflexão e à organização, acabou por dizer: mas se defendemos a meritocracia e não fugimos de bons desafios... que tal aproveitarmos para desafiar a cordialidade e fazermos da iniciativa uma forma de, mais do que conhecermos os blogues, conhecermos em nós o que nos faz gostar deles? Todas apludiram, e a almoxarife pôs-se logo a ditar critérios de avaliação que a menestrel copiosamente assentou. A bobo pisgou-se, desculpando-se com trabalho paleolítico. E fiquei eu para aguentar a bronca, e que por isso resolvi esticar a linha um bocadinho além dos Sapos porque votar em consciência é cada vez mais premente. Entendidos? Sigamos!

 

Votar num blogue, ou num livro, ou em qualquer resultado do labor de alguém e que doravante condensarei em Blogue, é para mim dramaticamente oposto a votar num partido ou num político. Ou num grupo de pessoas que se propõe gerir qualquer coisa, e que misturarei - apenas no presente discurso - com os políticos.

Deste parágrafo poder-se-ia depreender que vejo políticos com muita carreira mas pouco trabalho... e quem assim depreendesse estaria correcto, mas não é esse o objectivo do postal, está bem?

 

Na política, somos chamados a votar projectos, programas eleitorais definidos por partidos  ou por pessoas apoiadas ou alinhadas nesses partidos. Muitos acabarão por votar no partido desconhecendo o programa, outros seguirão a pessoa mais do que o partido ou o programa, e os próprios políticos que se submetem a sufrágio acabam por se dedicar mais à acusação do outro do que à explicação de si e do seu programa. Basicamente, o programa é um adereço. E a sua semi-assim-assim-meia execução, uma inevitabilidade sempre sujeita a contingências externas e preferencialmente condicionada por programas anteriores. A responsabilidade da sua inexecução nunca mas nunca é dos eleitos. Enfim, o programa não tem audiência e talvez seja por isso que os populistas até já o dispensam.

 

Ora, num Blogue votamos a execução. Pelo menos não tenho o hábito de seguir autores que publicam sistematicamente promessas de postais, e nem sei se os haverá mas, a haver, serão talvez falhas temporárias.

Há quem siga blogues porque gosta dos temas ou porque abomina os temas, porque gosta do autor ou porque gosta de provocar o autor, porque gosta de debater ou porque gosta de bater, enfim, cada um terá as suas motivações e obsessões - mas todas resultam da existência do Blogue, da execução de um programa que talvez nunca tenha sido sequer esboçado mas vai sendo concretizado em cada postal.

 

E, fazendo jus à deliberação do triunvirato que me rege, o que atrai num blogue? Porque votaremos num Blogue em detrimento de outros?

Um Blogue é uma dádiva, é-nos dado por quem o cria para seu e nosso deleite e mel ou vinagre. Tem a função que lhe dermos, mais do que a função que o seu autor lhe esperou dar (vejam este burgo, de bloco-de-notas a blogue generalista e eu que não sei bem o que seja ser isso)

Sei que muitos votarão um Blogue (ou livro ou..., lembram-se?) por amizade ao seu autor/autores ou à mensagem que veiculam, amizade ou simpatia que os fará serem visita frequente e por isso seus votantes. Mas isso assemelha-se ao clubismo, ao partidarismo... e se na política redunda no corolário científico "repetir procedimentos sem alterar os factores gera os mesmos resultados", na arte e na comunicação resulta em restringir um espaço que, por definição, é ilimitado. 

No caso dos Sapos do Ano, então, não consigo mesmo fazê-lo, seja porque nutro simpatia por muitos blogues seja porque não conheço pessoalmente nenhum autor (acho eu!) - mas, principalmente, porque as mensagens podem mudar com o tempo, mesmo no curto prazo (vejam-se os políticos!), e votar humores cheira-me a escolha dos sentidos e não a voto da razão.

Então, o que sobra?

A mensagem é importante, claro que é - mas como escolher um Blogue entre vários cuja mensagem não é assim tão diferente? Ou que, sendo diferente e não semelhante à nossa ou à que gostaríamos, ainda assim nos atrai?

Indo além da mensagem, claro... Analisando tudo aquilo que é um blogue pois tudo é comunicação num blogue (ou num filme, ou num... recordam?)

Tenho que sistematizar todas as avaliações que faço e de acordo com o objectivo da avaliação. Se num blogue o objecto é a comunicação, e se não me quero deixar seduzir pela mensagem, encontro afinal muitas outras característcas para admirar:

Imagem do blogue

Harmonia de cores; Estrutura e distribuição dos campos do blogue; Presença e quantidade de imagens estáticas ou animadas; Dimensão e contraste dos caracteres; Legibilidade.

Informação veiculada

Identificação da fonte das imagens, textos, músicas usadas ou dos factos comentados; Cuidado na organização da mesma, que é como quem diz, textos ou imagens com alguma sequência; Atenção dada à língua, mais do que à linguagem, e seja em português, francês ou inglês; Coerência; Idoneidade.

Gestão do Blogue

A moderação/resposta aos comentários; A forma como o autor(es) se nos dirige nos textos; As etiquetas usadas e a sua disponibilização; A forma como o autor(es) invoca ou evoca ou, ainda, se refere a terceiros nos postais.

 

Encontraria mais, mas penso que chegam.

Já a escala, sempre par para evitar a tendência central, é sempre simples e muito pessoal, ligada à minha percepção de cada critério:

a) Não muito, b) Talvez, c) Sim, d) Certeiro!

 

Não descortino outra forma de votar sem ser avaliando.

Com estes critérios ou outros, sempre função do objecto da votação. Mas sempre, sempre escrutinando as candidaturas.

Quando políticos, o programa que prometem e o currículo que têm (os verbos diferem, e não por acaso!)

Quando Blogues, o programa executado.

Até porque pelas simpatias o boletim não deixa, só podemos colocar uma - Uma! - bolinha... francamente, Magda e David, é coisa que se faça?!

 

Finalmente, umas notas sobre estas votações dos Sapos do Ano 2018:

* As categorias são muitas, sim, mas esta latitude é também uma forma de conhecermos mais blogues, onde os encontramos dedicados a temas tão diversos como sexo ou política (se bem que muitos políticos se dediquem à arte da simultaneidade), moda ou livros (embora haja escritores que sejam moda), fotografia ou tecnologia (embora uma dependa da outra, mas a coisa vai mais pela arte ou ciência), e muitas mais. Música não lembro, mas como é constante em quase todos os blogues talvez tenha dispensado representação, afinal quem precisa de embaixador sendo ubíquo? 

* Tenho-me divertido muito nestas descobertas, e ainda não cheguei a metade. Sem o pedirem, dou um conselho: votem como e em quem quiserem mas visitem todos os blogues. A viagem é gratuita e certamente trarão boas lembranças. 

 

P.S.: Escrevi no telemóvel. É provável que, e por ser um postal enorme escrito num ecrã minorca, quando ao computador lhe altere uma coisita ou outra, mas nada de substancial. Fica o alerta e o pedido de desculpa.

(In)Acção e Reacção

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A imagem, Desmembramento de Tupac Amaru, é de autor não identificado e pertence ao domínio público.

Foi retirada da Wikipédia

 

Hoje soube-se de mais uma pena suspensa num caso de condenação por abuso sexual. Desta vez, de crianças com debilidade mental.

Os comentários, indignados, invectivam juízes e advogados. Clamam por justiça popular. Pedem castrações. Condenam julgados e julgadores quase unanimemente.

Mais uma vez, (in)acção e reacção.

 

Tanta notícia sobre penas suspensas para criminosos sexuais permite-me várias reflexões:

 

mais julgamentos por crimes sexuais em Portugal

Não que haja, necessariamente,   mais crimes sexuais; mas serão talvez mais denunciados, mais investigados, mais  suficientemente sólidos para serem submetidos a juízo; e, cada um e todos, estes motivos denotam um amadurecimento social perante este tipo particular de crime.

 

As molduras penais estão mal definidas

Os juízes julgam por comparação dentro da moldura penal onde cada crime se enquadra. Há regras para a suspensão da pena, e criminosos sem antecedentes são bons candidatos. Apesar de depender da sensibilidade de cada juiz, também estes estão sujeitos a limites que não estipularam. Sem uma profunda alteração do enquadramento penal para este tipo de crimes, abusadas e abusados continuarão a cruzar-se quotidianamente com os seus abusadores julgados culpados. E a responsabilidade não será dos juízes mas dos legisladores. Daquela malta em quem votamos, na verdade.

 

Muitos comentadores são reincidentes no crime de julgar

Uns nem lêem os factos - e disto a responsabilidade será  também do ensino que não estimulou nem fomentou leitura & debate.

Outros não conhecem nem tentam perceber procedimentos e responsabilidades - e disto a culpa será também do poder judicial, fechado durante anos na sua própria importância e fechado de tal modo que levou os próprios juízes a terem dúvidas quanto a serem pilares do Estado ou funcionários públicos.

E a maioria dos comentadores  talvez nem se aperceba dos riscos associados às penas que preconiza - e disto a responsabilidade será de cada um, indubitavelmente de cada um de nós quando não pensamos o que expressamos ou quando expressamos o impulso que, tantas vezes, recebemos de outros.

 

Os jornais não ajudam a liberdade de expressão ao permitirem caixas de comentários nas notícias

Digo isto sendo comentadora desde que os jornais abriram as caixas, portanto nenhum preconceito me move também nesta reflexão.

Uma crónica, um artigo de opinião, um inquérito, são peças jornalísticas em que a interacção seria, se não desejável, pelo menos compreensível. Uso o condicional porque, com raras excepções, o articulista não responde.

Mas qual a interacção que se deseja numa notícia? Apurar se o leitor a percebeu, se está bem redigida, se é suficiente para esclarecer os factos noticiados? Seria construtivo, certo? Seria, mas não é. Porque o que se gera é maioritariamente ruído a que chamam opinião pública, num desfilar confrangedor de desconhecimento, incivilidade e desrespeito pelos deveres de cidadania. E os jornalistas, que bastas vezes nem assinam as peças, também não ouvem os alguns alertas para os erros que redigem.

As caixas de comentários são uma outra forma de abusar do outro. Cui bono?

 

Em jeito de conclusão

Noto um avanço na forma como, socialmente, olhamos os crimes, nomeadamente os crimes sexuais e especialmente os crimes sexuais que envolvem crianças.

Mas não vejo a evolução social que a possibilidade de debate público poderia promover.

Como pode uma sociedade evoluir quando assim auto-esquartejada?

 

 

Made in China

 

Importamos tanta coisa da China, podíamos importar também esta decisão...

 

Sou a favor da meritocracia, portanto os bons têm que ser mais bem remunerados que os assim-assim, os maus não devem ser remunerados porque não têm lugar na profissão e os excelentes devem ter remunerações de excelência. Não se trata, assim, de retirar mérito a quem o tem.

Por outro lado, a vida profissional enquanto atleta de alta competição tem um prazo muito limitado e incerto; aliás, normalmente só dura até mais de metade da idade da reforma prevista pela lei para o comum dos mortais se se for atleta de xadrez - e nem vou entrar pela questão de o xadrez ser um desporto... Assim, é lógico que, sendo uma profissão de alto desgaste e sobre cuja duração apenas temos certeza de ser breve, as remunerações sejam mais elevadas do que as praticadas noutras profissões.

 

No entanto, e por muito que a indústria do desporto, ou melhor, de alguns desportos, mova e influencie PIB e Bolsa de vários países, a verdade é que neste século atingiram-se patamares absolutamente pornográficos, o que dilatou ainda mais o fosso entre os atletas, as expectativas e o comum dos mortais que alimenta tudo isto.

 

Sou a favor de tectos salariais. Num mundo perfeito tais tectos seriam desnecessários porque a meritocracia seria transversal à sociedade. Mas não é, apenas é transversal a quem vende nesta sociedade de consumo exacerbado.

Assim, aplaudo esta tendência lançada do outro lado do mundo.

Principalmente porque, sendo o investimento chinês cada vez maior nas antigas empresas públicas portuguesas, pode ser que finalmente as administrações de tais empresas comecem a ganhar ordenados condignos... 

Obrigada por estar aqui.

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