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Eu, troll

por Sarin, em 11.12.19

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Em conversa vespertina com uma bloguista amiga, dizia-lhe que provavelmente seríamos ambas mulheres de pés grandes pois passamos a vida a tropeçar em perfis fantasmas - aqueles perfis que hoje são um e amanhã são outro e em cada dia se fingem, se omitem, se escondem em novos blogues, privados ou eliminados os anteriores, quais rei morto e rei posto. Perfis surgidos para dar largas a obsessões, para satisfazer impulsos, para liquefazer fígados? Por mim, estaria tudo bem pois a cada um a sua diversão - se, no caminho, não contaminassem os mais incautos. Mais incautos porque mais puros, porque mais doces, porque mais gentis - incapazes de aceitar que, até aqui, surjam monstros no nosso caminho.

Porque, aqui, somos uma comunidade de blogs com gente dentro. Gente que acolhe quem chega, gente que visita e apoia os aqui vizinhos, gente que se partilha de variadíssimas formas, gente que normalmente sabe estar. E que, repentinamente, se vê envolta em tentativas de intriga. Em falsas simpatias. Em falsas doenças. Em falsos suicídios. Em verdadeiras ofensas. Em reais ataques. Gente que, com as palavras, abre os braços e abre o peito - onde as cascavéis acabarão por cuspir o seu veneno. Gente que sai desconfiada, debilitada, fraca destes nefandos encontros.

Perante estas misérias que, ocasionalmente, nos infectam o charco, disse-me um bloguista que muito prezo serem tais criaturas gente sem gente dentro. Não poderia haver melhor definição.

 

Duas outras queridíssimas bloguistas tropeçaram há horas nas mesmas criaturas e disso me alertaram, para minha confusão pois supunha ter-lhes falado da ressurreição destes lázaros de pacote. Percebemos que, se pouco nos espanta realmente neste mundo, a sobrevivência destas malsãs quase-baratas continua a ser-nos um fantástico mistério!

Porque só pode ser quase-barata quem dos dejectos faz alimento, quem na putrefacção se banha, quem com o fétido se perfuma! Mas se as baratas se fingem de mortas quando apanhadas, as quase-baratas estrebucham, e é essa a derradeira diferença: na sua vaidade de casca grossa não se apercebem das semelhanças entre os seus alter ego e ainda se tentam fingir alheias a tais criações, acabando esmagadas entre o seu id e o seu superego.

 

Intróito feito, passemos aos factos.

Numa noite de Agosto, em que a actualização e limpeza de computadores não me permitiam afastar os olhos dos ecrãs, tropecei num blogue que inicialmente me atraiu por falar em sociedade e tolerância. Fui lendo, fui comentando, cada vez mais incomodada com a transformação da preocupação com a sociedade e do espírito humanista em ofensas a pessoas específicas e em moralização - mas uma moralização muito particular, que rapidamente notei idêntica à de algumas personagens Orwellianas. Por exemplo, se num postal se dizia sofredor por esta sociedade intolerante, num outro identificava pelo nome uma bloguista aqui da comunidade dizendo-a narcisista e vociferando que tal pessoa não devia ter filhos pois que se manifestara orgulhosa da posição tomada pelo rebento, menor de 10 anos, contra as touradas, enquanto num terceiro postal chamava, e cito, "pedaço de merda" ao padre que tirou fotos em cuecas e assumiu ter e manter actividade sexual com mulheres. A frequência dos meus comentários foi-se tornando inversamente proporcional à inconsistência, à vaidade e ao ódio que fui encontrando nos postais de que acabei por desistir. 

No dia seguinte o autor de tais desabafos de um desconhecido respondeu aos meus comentários, a alguns mais do que uma vez. Tendo-lhe ignorado quase todas as respostas, apenas rebatendo uma ou outra porque demasiado absurda, perante a insistência acabei por responder que, como poderia perceber pelos meus mais recentes comentários, eu não teria grande interesse nem em manter as conversas nem em voltar a tal blogue - e instada a explicar porquê, achei que o autor merecia a verdade: descria da veracidade das suas trágicas histórias pessoais, lamentava a sua falta de consistência e abominava o crescendo de intolerância manifestado num blogue cujos postais iniciais apelavam a uma sociedade tolerante.

O autor resolveu apagar os meus comentários, tornar privados vários dos postais onde o havia questionado pelas verrina, intolerância e incongruência, e publicar um postal. Onde se lamentava como pobre alma que usava o blogue para desabafar, sem qualquer intenção de ser lido e muito menos comentado [apesar de se dirigir directamente ao leitor] e que, insuspeitada  inusitada e injustamente se vira vilipendiado por um ser abjecto que nada melhor arranjou para fazer do que "espreitar-lhe pela janela" (textual!) e provocá-lo com "muitos comentários". Percebe-se a manobra de elisão - se analisados os tais "muitos comentários", ver-se-ia que foram menos de um comentário por cada um dos primeiros postais lidos, e que as provocações estariam nas suas respostas. Não me quis chatear - tenho uma certa facilidade em ignorar quase-baratas. Desde que não contaminem muito.

Assim, publiquei um postal que, referindo-se a generalidades, pretendia também alertar para a turbulência causada por alguns autores. Se pelo meu postal, se por outro motivo, a verdade é que o autor não causou grande mal; ou, se causou, a nenhum li sobre tal.

 

Num dos vários postais lidos na tal madrugada, lamentava-se o autor por não ter podido ajudar uma namorada que só mais tarde soube ter sido violada em criança, cujo pedopsicólogo também a violara nas sessões onde usava "um tratamento secreto que não podes contar a ninguém". Carpia-se pela namorada que, mais tarde, se entregava aos homens em busca de amor-próprio, culpava-se inquieto por sentir que a violara de cada vez que com ela fizera amor, flagelava-se pois não soubera socorrer a pobre Raquel como esta merecia e, por tal, iria sentir-se mal o resto da vida - desejando no percurso fazer atrocidades monstruosas e sanguinárias a quem a havia violado, ao pedopsicólogo que a havia acompanhado e a todos os homens que dela haviam abusado. 

Lido assim, isolado, seria uma história terrível que convocaria toda a empatia, toda a solidariedade, todo o apoio - mas eram tantos os postais relatando na primeira pessoa as dores pelos amigos violados, pelos amigos suicidas, pelos amigos criminosos, pelos amigos presos em vícios vários, que qualquer verosimilhança morria afogada no exagero. Nem comentei. Convém não esquecer que li todas estas histórias na mesma madrugada, o exagero e, acima de tudo, as inconsistências brilhando com uma energia que talvez não tivessem numa leitura espaçada pelos dias. Ou talvez sim, pois que a memória não me costuma ser fraca.

Na segunda-feira tropecei nesta mesma história ao visitar os Últimos posts. Pequenas alterações, um outro título - mas eis que surge publicada num blogue novo de dias. Coincidência? Para comparação, procurei o desabafos de um desconhecido e descobri-o desaparecido. O autor tinha o perfil privado. O autor do confissões também.

Li alguns dos postais destas confissões. Lá estavam os mesmos tópicos que nos desabafos

Estranhei as intenções e o transvestismo, pois que a escrita, fruto talvez da liberdade criativa, tentava das histórias fazer casos recentes. E disso lhe dei parte: " Curiosamente, li esta mesmíssima história num outro blogue. Felicidades ao Autor, que aqui se transveste com outro perfil." Respondeu-me dizendo não saber a que me referia mas supondo-me feliz com o comentário. De tantas figuras de estilo possíveis, a ironia não seria aqui a mais aconselhada, por isso peguei-lhe no sentido literal das palavras e elucidei-o. Nada originalmente, apagou-me os comentários.

apagadas (1).jpg

Mas antes de o fazer tirou fotografias, que usou para - tal como se numa repetição da cena - construir um postal queixando-se da minha agressão, da minha instabilidade e da minha necessidade de atenção .

Ah, a ironia e a incoerência! Tendo afirmado que me daria os meus 5 minutos de fama... 

cinco minutos.jpg

... publicou as fotos cortando  o meu nome e a minha imagem.

co (1).png

co.png

Mas, bem-haja, não me votou ao total anonimato pois que me chamou troll.

trolllll.jpg

E, após ponderação, editou o postal - para reiterar o epíteto. Dúvidas houvesse, foram elididas - tal como o meu nome e a minha imagem. Sou, definitivamente, troll.

fim.jpg

Eu, troll, aqui me confesso culpada de tropeçar duas vezes na mesma quase-barata. E de ter muito prazer em a voltar a ignorar, agora que transvestida e afixada nas paredes deste burgo.

 

Da segunda criatura... Lao Tse falará com mais paciência do que a que tenho de momento..

 

[há dias de muita inspiração. outros que não. nada como espreitar também os postais anteriores]

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lançado às 08:25

malas-de-viagem.jpg

 

Não me apetece falar da COP25, nem de Greta Thunberg ter defendido (ou vendido?) o verde na sua breve passagem por terras lusas, nem da poupança política do esbanjador Marcelo. Nem sequer quero falar do facto de Portugal ter caído oito posições no ranking do desempenho climático mas continuar a liderar no desempenho das políticas ambientais, o que apenas provará quão pouco fazem os outros países.

 

Quero falar do que nós fazemos. Nós, cidadãos que escrevemos e publicamos umas coisas giras sobre o Ambiente, nós cidadãos que nos manifestamos motivadíssimos pela jovem Greta - e ainda bem, mesmo que não creia, como ela crê, nas alterações climáticas como resultado único e exclusivo da acção do Homem, mesmo que não defenda, como ela defende, que não vale a pena estudar já que não há futuro, mesmo que as minhas grandes preocupações sejam as interferências desproporcionadas nos ecossistemas (invasão, sobre-exploração de recursos, poluição). É bom estarmos assim motivados em prol do Ambiente!

Mas é mau fazermos desta questão uma matéria de fé... em ambos os extremos.

E é péssimo termos arroubos ambientalistas e chorarmos de emoção ao ouvir Greta Thunberg mas corrermos para uma black friday , num ataque feroz ao modo de vida menos consumista que a jovem nos implora. Porque a televisão está boa mas já é velha, porque convém ter uma chaleira de reserva não vá esta avariar, porque se quer um telemóvel com mais capacidade para jogar ou só porque sim, porque a roupinha está em saldo e não se precisa de nada mas nunca se sabe, não é, mais vale aproveitar... Compramos porque é barato, não porque precisemos. E só a definição do verbo "precisar" neste contexto daria para três postais.

É bom abolirmos os sacos de plástico e defendermos a reciclagenzinha doméstica, mas é péssimo nem pensamos na outra, naquela que muitos não fazem quando produzem e trazem à nossa porta todas as coisinhas que adquirimos, incluindo os ecopontos domésticos que orgulhosamente enchemos. Isto enquanto corremos a arranjar miniaturas de produtos. Que colocaremos na bagagem que levaremos nas viagens que comprámos na black friday e cujo destino provavelmente estará menos típico porque sobrelotado com turistas como nós. Assim como o Algarve ou o centro de Lisboa.

Viajar é bom e faz bem, poupar também, reciclar idem - mas haja coerência. Ajamos com coerência.

Sempre achei um desperdício de produto e de embalagem as miniaturas oferecidas nos hotéis. Mesmo apreciando a delicadeza de uns ou a genialidade de outros, considerava e considero tais miniaturas um mau hábito de consumismo, e fiquei fascinada a primeira vez que entrei num hotel com dispensadores - durante muitos anos uma das poucas cadeias a recorrer a tal opção. Conheço quem coleccione  ou junte frasquinhos, cujos conteúdos perdem validade numa feia prateleira onde o bolor lhes traça os rótulos. Mas adoram-nos, e não passam sem os trazerem, "são de borla" e os dispensadores "o roubo de um direito, malvados unhas-de-fome!" As marcas, que durante décadas ignoraram o mercado português (não, as miniaturas comerciais não surgiram agora nem sequer neste milénio), sabem disto e começam a inundar os nossos hipermercados. Não para fazerem face a uma necessidade, como diz este artigo, mas porque o stock tem de ser despachado - e o português compra. Sem questionar, pois que isto de ser amigo do ambiente funciona com bandeiras da época balnear.

Tal como da maré são as viagens que se fazem, pois que importa salvar o Mundo mas, pelo sim pelo não, melhor será visitá-lo antes que rebente. Para nos ajudar em tal desidério, temos este tipo de artigos, em que de uma assentada se apontam os santuários da vida selvagem e se convidam os leitores a visitá-los. Parece-me um brutal paradoxo. O frágil equilíbrio de que tais santuários ainda usufruem é ameaçado por cada grupo de turistas, gente que tem todo o direito de visitar e observar mas não tem o direito de invadir, não tem o direito de poluir - e são tantas as formas de poluição que levamos a tais espaços! Se os governantes de cada um destes, e de outros, santuários não percebem a delicadeza da questão, então que a percebamos nós, potenciais turistas. Mesmo que calcemos botas de cauchu, vistamos linho e algodão, façamos a viagem a pé e apenas comamos vegetais locais da época, há santuários que merecem que os deixemos para os que os habitam, eventualmente para alguns estudiosos da vida natural. Por muito que os gostássemos de visitar.

Já agora, aproveito a viagem e relembro que andar, ou adquirir bens transportados, de e por barco também pode ter elevadíssimos custos ambientais

 

Não abdiquemos de viajar, de visitar, de conhecer - mas sejamos ponderados na forma como o fazemos e sejamos coerentes com a nossa defesa do Ambiente. Pensarmos como e para onde viajamos será mais uma forma de ajudarmos a salvar o planeta. Afinal, é sobre isso que andamos a escrever por aí, certo?

[há dias de muita inspiração. outros que não. nada como espreitar também os postais anteriores]

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lançado às 14:35

Uma coreografia de Jerome Robbins

ou: Como se treinam os enganos

por Sarin, em 08.12.19

Elas, bailarinas de bailado , membros da Pacific Northwest Ballet 

A música, clássica, Valsa n.º14 em Mi Menor de Frédéric Chopin, interpretada pela Pacific Northwest Ballet Orchestra, com Allen Dameron no piano

A coreografia, clássica, de Jerome Robbins

O quadro, Mistake Waltz

A ocasião, exibição de The Concert (or The perils of everybody) integrado no Jerome Robbins Festival, 2018 (Seattle, EUA). Vídeo de Lindsay Thomas

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lançado às 01:17

desafio de escrita dos pássaros #13

por Sarin, em 06.12.19

[Tema #13 Reescreve o final dum filme]

lágrima.jpg

Reescrever o final de um filme...

Out of Africa. África Minha. O leão deitando-se no planalto, a câmara afastando-se de grande plano para panorâmica.

O rei da savana guardando a memória dos que, amando-se, amaram a terra mesmo depois do desencontro. Uma tão grande comunhão e tantas perdas assim simbolizadas naquela derradeira harmonia do adeus... a homenagem perfeita. O final perfeito. Não mudaria uma vírgula, não alteraria um fotograma.

É o meu final perante este filme que quero reescrever. A sensação de esmagamento é atroz, a história e a História oprimem o meu peito, sou Isak/Karen/Meryl durante todos os minutos... e a imagem final rompe todas as dores que sustive. Choro Karen e choro Dennis e choro Bror, choro o Quénia e choro África. Choro os seus desencontros, choro os meus desencontros. Sempre.

Queria ver este filme e terminar dizendo, apenas, "foi um bonito filme". 

Out of Africa - End Title (You are Karen)

John Barry (1985)

Música da Banda Sonora Original do filme homónimo de Sydney Pollack

 

 

 

 

 

 

Nota que nada tem a ver com o acordo ortográfico, antes com um acordo que tentarei manter com os Pássaros, com os meus colegas de desafio e com quem me visita:

Estou doente. Estou sem inspiração. Estou sem vontade de escrever. Produzi este postal apenas para não falhar. Prometo tentar escrever algo decente quando me sentir melhor. De qualquer forma, não garanto: todos os filmes cujo final recordo são filmes aos quais nada mudaria, dos outros não reza a história e mudar-lhes, apenas, o final seria insuficiente. Ademais, alterar a criação de um artista é um pouco de petulância, não? Mas, enfim, sendo um exercício de escrita, tentarei. Em breve. Desculpem o mau jeito. E o atraso.

[Desafio de Escrita by Pássaros]

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lançado às 15:20

A produtividade e o salário mínimo

por Sarin, em 03.12.19

Burro-Oo.jpg

Segundo a notícia do Eco, o Fórum para a Competitividade "estima que o aumento do salário mínimo possa provocar a perda de 50 a 100 mil empregos se não for acompanhado de uma melhoria da produtividade."

Antes de mais, não é o Fórum que estima - é Ricardo Braz Teixeira, Director do Gabinete de Estudos do Fórum para a Competitividade e autor do texto "Riscos da subida do salário mínimo", constante na nota de conjuntura n.º43 (*). Um texto de um autor, mesmo que director de uma entidade plural, não é exactamente o mesmo que uma posição conjunta dessa entidade. Cansa chover no que deveria ser molhado, de tão líquido... Adiante. 

Fico sempre muito entusiasmada quando vejo alguém explicar que o salário mínimo não pode aumentar muito acima do mínimo, que já é e continuará a ser misérrimo, por questões de "produtividade".

O pessoal é distraído e costuma associar estas coisas da baixa produtividade a "muitos dias de férias", a "muitos feriados", a "muita dificuldade em sancionar e despedir empregados"... Deve ser por isso que os primeiros a sofrerem os efeitos da "baixa produtividade" sejam sempre os trabalhadores, nunca os gestores intermédios e de topo. Que nunca são responsáveis pelos investimentos duvidosos, pela má organização do trabalho, pelo deficiente desenvolvimento do produto, pela péssima distribuição.

 

E de que contrapartidas fala o patronato, perdão, o autor nesta nota de conjuntura (**)?

Reforma do sistema formativo

Esquece-se o autor de que os estágios profissionais são usados como fonte de mão-de-obra barata pelas entidades que os acolhem? Terá olvidado que as empresas podem e devem ministrar formação aos seus funcionários de acordo com planos formativos que pouquíssimas empresas desenvolvem, nem sequer recorrendo aos serviços formativos do Estado? Não é apenas o sistema formativo que tem de ser reformulado, é também a lógica do patronato.

Atração do Investimento Direto Estrangeiro (reduzindo a taxa de IRC, acelerando licenciamentos, estabilidade regulatória, entre outras)

E porque não acelerar licenciamentos e garantir a estabilidade regulatória, entre outras, para promover o Investimento Directo Nacional?! A captação de capital estrangeiro é importante, mas a aposta excessiva nesta captação traduzir-se-à também na perda dos poucos sectores que ainda dominamos no nosso país, além dos riscos de segurança que tais captações têm representado... E reduzir o IRC? Porque não fomentar antes o reinvestimento na empresa e impedir a saída de capitais para empresas-fantasma, entre outras?!

Aumento da intensidade do investimento de qualidade (quer público quer privado)

É interessante perceber como, agora, já queremos outra vez Obras Públicas. Com as quais, aliás, concordo, embora discorde da moda de investir para dar à exploração - as PPE e as concessões têm sido assim como que uma rocha na sapateira, não apenas uma pedra no sapato.

Promoção do aumento da dimensão das empresas (redução do IRC sobre os lucros retidos, benefícios fiscais na aquisição e fusão de empresas)

Vá, aqui assino por baixo; vale o que vale, mas uma pessoa também tem direito a apor a assinatura ao lado dos ilustres - principalmente no seu próprio blogue! Mas, caramba... falta uma notinha sobre as aquisições hostis. E sobre a penalização das empresas que impõem preços e condições vampíricas sobre a produção primária, sobre os subcontratados, enfim, sobre as micro e pequenas empresas.

 

Como disse antes, fico sempre muito entusiasmada quando vejo alguém explicar que o salário mínimo não pode aumentar muito por questões de "produtividade". Questão de políticas operacionais das empresas, questão de políticas nacionais vagas e mal formuladas... questão de opção, senhores! É principalmente por opção política que o aumento do salário mínimo pode levar ao desemprego!

 

(*) Não adianta dizer que estas notas de conjuntura são patrocinadas por grandes empresas, pois não?

(**) Escrita de acordo com o AO90, ao contrário dos meus textos. Mas não corrijo citações - embora vontade não me falte!

[há dias de muita inspiração. outros que não. nada como espreitar também os postais anteriores]

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lançado às 19:55

desafio de escrita dos pássaros #12

por Sarin, em 29.11.19

[Tema #12: Aqueles pássaros não se calam]

 

Os rouxinóis da noite

 

O frio caiu aos rebolões pela alma da gente.

Começou por um gelo fino

 na superfície de águas turvas.

Lama, lodo em cada cais,

e a neve a tapar-nos os olhos

e um calor de fogo-fátuo a queimar-nos,

um fogo preso de artifícios que,

distraindo-nos,

nos gelava.

Congelava.

Cristalizava.

 

Os dias ganharam sombras.

As gentes ganharam sombras,

espessas,

em cada esquina,

por cima de cada ombro.

 

E o desassombro do frio invadiu o país,

gelando-nos a raiz,

ceifando-nos o pão

que quiseram de outros, nosso não.

 

E foi na noite,

mais amena,

que outras sombras nasceram

claras

quentes

prenhes de poesia.

E escreveram

E cantaram.

Trinados de esperança

A resistência pipiada em cada senha

Em cada curva da letra que fugia ao azul

E nascia na noite

Sempre a noite…

Mais clara que o dia frio.

 

Dias chegaram em que o frio se foi

E as sombras claras da noite ganharam forma

E os rouxinóis saíram de palavra em punho

De guitarra em punho

E encheram as gentes com a alma

Que haviam esquecido ter:

Esperança!

 

Cantam ainda na memória.

Aqueles pássaros não se calam.

Não se calarão na minha história.

 

Nota de roda dentada: também os oponentes do AO90 não se calam

Cantilena (1969)

letra de Sebastião da Gama

música de Francisco Fanhais

 

 

[Desafio de Escrita by Pássaros]

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lançado às 15:01

Ergue-te: SyncLadies e Andra Day

por Sarin, em 27.11.19

Elas, bailarinas de sapateado, membros das Syncopated Ladies: Chloe Arnold, Maudie Pooh, Anissa Lee, Assata Grooves, Orialis Ashley

A música, rythm&blues, Rise Up de Andra Day

A coreografia, sapateado, de Chloe Arnold

A ocasião, Vídeo solidário sem fins comerciais de Becca Nelson, 2016 (Los Angeles, EUA)

 

 

Na mesma senda Time's Up, aproveitem e vejam, ou revejam, um filme já aqui partilhado

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lançado às 00:00

Lembretes ao olhar a televisão

por Sarin, em 26.11.19

conversas em família.jpeg

Para alguns, parece que a Democracia começou com o 25 de Novembro.

Mas sem o 25 de Abril não haveria 25 de Novembro. Não haveria coragem para pedir mais ou pedir menos, não haveria liberdade para o anunciar, não haveria liberdade para agir ou reagir. Honra lhes seja feita, Vasco Lourenço e Ramalho Eanes sabem que o 25 de Novembro não foi o que alguns querem que tenha sido.

Sabem que os que venceram o 25 de Novembro não teriam feito o 25 de Abril se não fossem instigados - e que tudo ficaria como estava.

Sabem que os que se alcandoraram no 25 de Novembro são os mesmos que aos membros das FP25 chamaram terroristas mas que aos do ELP deram a amnistia. E a vantagem do secretismo. E a garantia do imaculado currículo. E que, assim, deixaram mais de uma dezena de mortos sem justiça. Mas isso de Justiça só interessa para alguns.

 

Pela televisão verifico que em 24 de Abril não era muito diferente. Nem sequer aquela mania das amnistias e do fingir que nada se passou.

Fica-lhes bem, a feia cara sem máscara. 

imagem: Marcelo Caetano em Conversas em Família, Arquivo RTP

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lançado às 22:50

desafio de escrita dos pássaros #11

por Sarin, em 22.11.19

[Tema #11: Um dia na tua família… do ponto de vista do teu animal de estimação]

Jacó dormindo.jpg

Eles, os do meu lar

O Sol acorda-me sem sons. O orvalho desfaz-se já quando o humano mais velho abre a porta e visita as aves do quintal, aprumado mas agarrado a uma árvore sem raiz nem folhas, toc toc toc desde que os raios lhe espreitaram a janela. Há muito que o vejo acordar com o Sol, mas a árvore só este ano lhe nasceu na mão.

O gato negro, Jacó o chamam, espera que a porta se abra para entrar e descansar depois do namoro às sombras da Lua. O humano sorri-lhe, afagam-se e seguem cada um o seu caminho, assim cruzados ao amanhecer.

Ouço já os outros humanos. Ela hoje levantou-se mais cedo, abrindo sorrisos e portadas. Sinto-a na cozinha, perto do jardim das rosas – o meu preferido, dela também. Vem tomar o pequeno-almoço entre tachos, feliz e alvoroçada vai-me piando bom-dia. Ele sorri ainda mais, e percebo porquê quando avisto as gaiolas pretas que se aproximam. Trazem os seus pardalitos, uma sozinha de Norte outra em bando de Sul. A mais velha sai de uma gaiola só dela pipiando pela mais pequena da outra gaiola, os mirtilos luzindo-lhe quando a vêem. A pequenita atira-se ao seu colo como a amoras, a rama dos cabelos ondulando enquanto todos chilreiam como se manhã de Primavera.

Esvoaçam, saltitam, sacodem-se e debicam-se com amor. Gorjeando, adentram o ninho com os dois humanos dos jardins de baixo, entretanto também chegados. Os gatos desses jardins espreitam, o cão latindo por lá – só brincarão mais tarde, agora é hora destes humanos de quatro gerações celebrarem o estarem juntos.

Vejo-lhes o cocuruto enquanto à volta da tábua grande, sei que alegres horas ficarão debicando e pipiando. Quando o sol invadir o ninho pelas janelas mais largas, todos virão até mim e por aqui ficaremos preguiçando, animais de duas e quatro patas felizes pela tarde.

Agora comemos. Bagas e sementes não faltam, mas são as árvores frondosas que guardam os suculentos segredos que caço em pleno voo. Como ela, também eu preparo banquetes para os meus pardalitos.

 

Volto todas as Primaveras. E todas as Primaveras eles me saúdam como se eu da família. Este é o meu lar. Espero morrer ali no jardim das rosas, num qualquer fim de Verão sem força para rumar ao Sul. Penso que terão saudades, mas morrerei tranquila – na Primavera os meus filhos voltarão, deixo-lhes no bico o sabor e o caminho de casa.

 

Nota de rodapata: o AO90 não é animal mas é irracional. Não é aqui estimado.

Imagem: Jacó descansando no arquibanco

(com coleira. dada pela Sobrinha, será perdida em poucos dias. a Sobrinha desiste de o tentar enfeitar)

vídeo: A andorinha da Primavera (Madredeus, 1997)

 

 

 

 

[Desafio de Escrita by Pássaros]

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lançado às 15:00

O que querem as crianças pelo Mundo

por Sarin, em 20.11.19

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A UNICEF tem no seu sítio oficial um conjunto de vídeos com as reivindicações de crianças de todo o mundo.

É interessante. Mas é mais: é importante.

Porque é importante ouvirmos o que têm a dizer as crianças quando se cumprem 30 anos sobre a Convenção que lhes consagrou os Direitos.

 

Se tiverem interesse, podem acompanhar aqui.

[há dias de muita inspiração. outros que não. nada como espreitar também os postais anteriores]

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lançado às 18:15

Obrigada por estar aqui.




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